terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O Outro -- crônica by LdeM

 



                                     fonte da imagem: Internet

 

Crônica


    O outro


    "O homem de ontem não é o homem de hoje"


    O que aconteceu até agora me apavora como um pesadelo, daqueles que se repetem, até você acordar como um transe. Aconteceu hoje mesmo, por isso escrevo isso como um desabafo, uma confissão, um mea culpa.


    Hoje cedo fui passear na Lagoa do Nado, aliás no parque, porque a Lagoa nem existe. Mas lembro da lagoa tal qual ela existia. Um espelho d'água visitado por patos e outros pássaros em mergulhos em busca dos peixes, entre os cascos de tartarugas. 


    Vou narrar com calma o que aconteceu desde que lá cheguei. Ouvia uma música clássica, Bach ou Handel, tinha um coral, lembrava uma ópera, uma pérola sonora. E folheava um volume de Confissões, de Santo Agostinho. 


    Pois bem. Andava tão concentrado ou distraído, não sei, que não vi um certo jovem que passava rumo à antiga lagoa. Só reparei nisso quando me sentei a sombra do casarão. 


    A figura do jovem me parecia familiar. Alto e magro e de roupas escuras. Pálido e de óculos escuros. Cabelos longos e carregavam alguns livros. Ouvia algo pois notei os fones de ouvido. 


    Muito familiar aquele vulto. Até que ele voltou e ficou admirando o casarão.  Assim que o vi ao meu lado me arrepiei assustado: estaria num sonho?


    Pois aquele jovem era igual a mim! Não de agora, mas daquela mesma época em que conheci pela primeira vez a Lagoa do Nado !


    Foi nos idos de 2004. Portanto se passaram duas décadas e muitas mudanças. Naquela época eu começava a participar de saraus etc desde as noitadas líricas e góticas na penumbra da Matriz lá no Terminal Turístico. 


    Muitos saraus na Lagoa do Nado me atraíram naquela época antes de que eu finalmente me mudasse para a região, quando no início da carreira de servidor público. 


    Eu via assim um arco de duas décadas se fechando quando o jovem se aproximou e eu perguntei se ele pretendia participar do sarau etc


    O jovem que era eu mesmo olhou direto para mim e, sem me reconhecer, disse algum monossílabo que me soou como Tomara! E fez um movimento de passar adiante como se desviando e visivelmente me evitando. Sim, era eu mesmo: do jeito mesmo que eu evitava as pessoas. Quando jovem não tinha paciência com as pessoas. Hoje mesmo não sei se tenho mais paciência. Sou apenas mais resignado. 


    O jovem diante de mim nada tinha de resignação. Era um revoltado Ivan Karamazov contra o Eterno, o Soberano Cruel do Universo. Um Ivan Karamazov que andava todo de preto em luto por toda a humanidade. 


    Claro que tentei conversar comigo mesmo mas sabia bem como eu era -- de pouca conversa. Ainda mais com estranhos. Por que um jovem ouviria este velho de mais de quarenta?


    Queria porque queria avisar ao meu eu de antes o quanto ele sofreria na vida. Aprenda a fazer amigos! Era o que queria avisar ao pobre enlutado.


    Faça amigos nos saraus. Faça amigos na faculdade. Faça amigos na família. Faça amigos na vizinhança. Faça um milhão de amigos!


    Claro que o jovem gótico, o poeta revoltado  contra Deus e o mundo, não me daria ouvidos. Eu não ouvia nem meu pai! Eu nem conversava com meu pai! Por que ouviria um estranho? 


    Lembrei de meu pai. E tive um olhar paternal para aquele eu de antes. Claro que gostaria de dizer ao jovem algumas verdades. Mas ele não me ouviria assim como eu não ouvia ao meu pai.


    Culpar o meu pai? Por que ele me obrigava a ir pra igreja? Quando eu queria ir pro cinema ou balada... Culpar o meu pai? Por que ele queria me proteger dos vícios?


    Os filhos não ouvem os pais -- por isso repetem os mesmos erros. Queria dizer isso ao jovem poeta, meu eu de ontem. Ele não daria ouvidos. Assim como identifiquei a Divindade com a autoridade paterna, e aboli ambas, eu desprezava todo conselho, toda advertência. 


    Moço, faça mais amigos. Moço, seja mais tolerante. Moço, pare de julgar as pessoas! Eu diria tudo isso a ele como uma boa figura paterna. E me arriscaria a levar um desaforo pra casa.


    O jovem de luto então me olhava mas sem me reconhecer. Claro, como poderia ele se ver neste homem de primeiros cabelos brancos, quieto e cordial, um servidor público tolerante, um pai de família católico que agora falava em disciplina e tradição!


    Aquele jovem anarquista  pós-punk, dado às leituras existencialistas e niilistas, não me daria ouvidos. Ele gostaria antes de cuspir-me na cara: seu velho reaça ! Seu funcionário público em sua cela acolchoada! Seu mantenedor da nossa injusta ordem social! 


    Ele esperaria antes que eu votasse na direita ou fosse dali fazer campanha para algum pastor evangélico ou entrar na fila para beijar a mão do bispo. Ele não me conseguiu se reconhecer neste homem de hoje: seu oposto!


    Tanto que o jovem se afastou com visível repugnância daquele homem funcionário público cumpridor dos deveres e da moral e dos costumes. Ele que seguia ouvindo metal pesado e bandas góticas e lendo brochuras de Nietzsche e de Albert Camus. Um jovem que considera o cristianismo uma doença da Vontade! E a figura paterna de Deus como um Ditador!


    Queria gritar ao jovem: Cuidado, você vai sofrer muito na vida! Você vai negar e se negar a cada controvérsia e tribulação! Você vai curvar a dura cerviz! Você vai ser resignado! Em suma: você será EU!


    E o jovem se afastou e eu me afastei.  Sentei junto ao casarão e tentei ler as páginas do Santo Agostinho mas em vão. Tentei ouvir um oratório mas em vão. Tentei me encontrar mas em vão. 


    Aquele jovem jamais me entenderia. Só daqui a uma ou duas décadas. E eu agora não poderia acolher aquele jovem revoltado e arrogante, eu que sou este humilde servidor. 



Jan 26


LdeM 


Ps. Paródia do conto "O outro"

De Jorge Luís Borges

In O Livro de Areia

1975


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Sobre A Reinvenção da Metáfora: As bodas de Rogério Salgado. 2025.

 



                                                   fonte da imagem: poeta Rogério Salgado



Sobre A Reinvenção da Metáfora:

As bodas de Rogério Salgado 

Seleção, organização e prefácio de 

Luiz Otávio Oliani

Ventura Editora, 2025



    Um grande lançamento! Com duas assinaturas de peso: poemas de Rogério Salgado segundo a seleção de Luiz Otávio Oliani. O melhor da poesia e da crítica literária das últimas duas décadas. 


    As primeiras obras de Rogério Salgado que eu li foram Um Quarto de Ofício e Quermesses, de 2000 e 2005, respectivamente. Um poeta com duas décadas de carreira e renome... Agora são cinco décadas conhecidas e reconhecidas.


    Rogério Salgado é um poeta de vasta obra que apresenta fases igual a um Drummond de Andrade, desde a poesia engajada, de denúncia social, até uma poética mais intimista, sobre suas dores e paixões, a difícil missão de ser no mundo. O que sempre me cativou desde o início foi a sinceridade. (Um poeta que não é fingidor. Para contrariar um Fernando Pessoa. ) E sempre fui sincero com a obra de Rogério Salgado (mesmo que em algum momento de sua carreira o Poeta não tenha se agradado de minhas críticas).


    Esta diversidade na obra de Rogério Salgado foi percebida e sinalizada pelo olhar crítico do professor Luiz Otávio Oliani que segmentou a obra segundo as temáticas -- metalinguagem, crítica social, erotismo, memórias e homenagens, e uma miscelânea. Ajuda o leitor ou a leitora que (oh Céus!) ainda desconhece a poética de Rogério Salgado. 


    Importante: Mais do que um poeta, o caro Rogério Salgado é um ativista da cultura e um militante da poética. E com um destaque invejável. 


    Em BH temos vários polos de difusão cultural nas regionais. Saraus na Savassi ou no Barreiro, na Lagoa do Nado ou em Venda Nova. Cada um no seu quadrado, no seu grupinho.


     Mas o Poeta Rogério Salgado é  uma das raras exceções: ele tem voz e contato nos vários grupos. Ora eleva sua voz na Praça Sete, ora se materializa na Savassi, ora se manifesta em Venda Nova. Só não digo que o poeta é onipresente, pois este é atributo divino...


    Esta presença nos eventos com seus poemas multifacetados é que garante a permanência e frutificação de sua poética e carreira de poeta e agitador cultural. Pois a poética de Rogério Salgado não é marcada por originalidade ou pirotecnia. É um construto de sinceridade. Justamente o que disse no início desta resenha. Nada de simulações e simulacros: temos o poeta do jeito que ele é: ele mesmo! 


    Seu conhecimento e sua sabedoria não é artigo de ostentação mas o destilado de uma vida de experiências, seja errando seja acertando. 


    Acho que já escrevi isso quando fiz a crítica de Trilhas Antologia Poética (2007): o poeta não programa e não planeja: vê o que a vida entrega e carrega e então faz seus versos sem seguir cartilhas ou vanguardas.


    É difícil situar em qual estilo de época se baseia a obra de Rogério Salgado, pois é tanto modernista quanto pós-moderna. Tem grandes temas ao mesmo tempo em que despreza grandes temas e a tradição. Ao mesmo tempo é um saudosista com imagens do mundo de outrora.


    Eu também fui um iconoclasta contra o sistema e a tradição, tanto que fui um entusiasta na leitura de Quermesses, uma crítica feroz contra os católicos e beatos, devotas e carolas. Não sabíamos nós que o problema nem estava com os católicos mas com as denominações religiosas. E ainda mais, os mercenários da fé alheia nos meios evangélicos, pentecostais etc. Ainda mais nestas duas décadas em que os católicos sofreram sensível redução, segundo o último Censo. 


    Este é um detalhe da obra de Rogério Salgado: a voz combativa. O poeta que desce das nuvens e fala da vida cotidiana, do aqui e agora. A poética é uma marreta contra as hipocrisias e as opressões e os radicalismos e a caretice ululante. 





                                                    fonte da imagem: poeta Rogério Salgado



    Outro destaque nesta obra A Reinvenção da Metáfora, além da poética de Rogério Salgado, é o olhar atento de leitor especialista do professor Luiz Otávio Oliani, que mostra a importância da Crítica Literária num país de não leitores; ser um farol no meio da neblina. O crítico dá uma peneirada para separar o joio do meio do trigo. 


    O olhar crítico do professor Luiz Otávio Oliani percorre os labirintos da obra e sabe captar as mensagens nas metáforas e metonímias, nas figuras de linguagem e nos trocadilhos, na poesia visual e nos insights concretistas. Dá então um mapa desdobrado aos leitores e às leitoras: seu olhar crítico é o nosso útil GPS nas trilhas da leitura.


    Só temos que agradecer ao poeta e crítico Luiz Otávio Oliani por esta empreitada de leitura e críticas, para situar os nomes da poesia brasileira contemporânea no que tem de relevante. Sem a figura do crítico literário a literatura segue sem rumos e sem critérios. Cada um escreve o que quer e chama de conto. Cada uma escreve uns versos e chama de soneto! Complicado. 


    Para finalizar esta resenha direta e sincera com uns versos marcantes do poeta Rogério Salgado que merece toda a nossa atenção e consideração.


"Cada partícula de mim é poesia/ 

por isso sou humano/

 e mano a mano/

por cada ser humano/

/ que merece respeito./(...)"

...


(“Humano”, p. 33)





Dez 25



Leonardo de Magalhaens 

Escritor, crítico literário 

Bacharel em Letras FALE UFMG 

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                                           fonte da imagem : poeta Rogério Salgado


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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Conto Dois Irmãos . by LdeM .

 




                          fonte da imagem: Dois Irmãos / HQ [2015] 

                           by Fábio Moon e Gabriel Bá 


 

Conto


    Dois Irmãos 


    Quer um tema que se repete sempre na literatura? O conflito de dois irmãos. Se não conflito, digamos, uma rivalidade no mínimo. Assim Caim e Abel, ou Esaú e Jacó, ou Remo e Rômulo, etc, até os gêmeos rancorosos do clássico do Hatoum. 


    Pois eu conheci dois irmãos desse jeitinho. Primeiro eu trombei com o Clésio lá nas aulas da faculdade. Um cara na dele, camisa preta, barba e cabelão. Maior atitude. Só falava quando alguém puxava assunto. Nunca criou caso com a galera. Ficava lá ouvindo um Iron Maiden ou Soundgarden, lá na dele.


    Um dia conversamos qualquer coisa sobre política, se não me engano. Sobre banda que era de esquerda e banda que era de direita, algo assim. Clésio entrou no debate e defendeu ponto por ponto. Convenceu a galera. Não lembro mais os argumentos. 


    Claro que na hora de escolher banda, ninguém vai ficar olhando ficha partidária dos músicos. Mas tem bandas racistas ou homofóbicas que a gente não ouve de jeito nenhum. Nem vou dar nome aos bois.


    Aliás o assunto dessa prosa nem é este. Só estou esclarecendo como conheci o Clésio. Pois passou um tempo e eu conheci o irmão do Clésio, o Cássio. E também a Cátia, a irmã do meio. Pois o Clésio é o caçula, vejam vocês. 


    Como foi? Deixa eu contar antes que vocês mudem de site. Foi no aniversário da irmã dos caras, a Cátia. E teve um pagode lá na varanda da dona Cíntia, a matriarca.  Pois o pai tinha sumido no mundo. De repente o homem tinha outra família. Não se sabe.


    Pois bem. Cheguei para conhecer a família do Clésio lá nas bordas da periferia, depois da Pampulha, e o som você já ouvia lá da esquina. Acho que era rock nacional ainda. Depois só rolou pagode...


    Certo. Lá estava o Clésio  e a mulher dele, gente boa. E a irmã Cátia, uma ruiva muito simpática, mãe de um menino muito simpático e falador. E um amigo do Clésio e um amigo do Cássio. O amigo do Cássio estava acompanhado de uma loira modelo. Ops. Quem era o Cássio? O irmão mais velho que estava num canto da varanda, como um Salomão ou sultão cercado de súditos. Ao lado, uma morena que parecia atriz.


    Eu achava o Clésio um cara todo atitude, todo imponência, lá sem dar ideia, ouvindo um som pesado e tal, o pessoal falando que o brother era arrogante, e tal, mas é porque ainda não tinha conhecido o irmão do Clésio, o Cássio. 


    Pois na sombra da varanda, naquela tarde quente de domingo, o Cássio guiava o compasso e ditava a conversa. De óculos escuros, cabelo pouco e barba zero, de camisa branca e bermuda estampada, o Cássio conquistava a atenção do amigo e da namorada do amigo, e do amigo do irmão. E a mulher do irmão. E divertia o filho da irmã. 


    Eu achava o Clésio o cara mais de presença na faculdade, mas perto do irmão Cássio o meu amigo era uma sombra. Mal abria a boca, via-se ignorado por um gracejo do primogênito. Nenhuma rivalidade explícita, mas você via que era complicado para o Clésio brilhar quando estava em cena o Cássio. 


    Qual o assunto mais legal? Qual o filme mais top? Aqueles escolhidos e elogiados pelo Cássio que dominava geral e falava por três. As mulheres riam até chorar. Até da chuva que caiu mais tarde, devastando geral, ele fez piada. (Chuva que ele duvidava, pois quem falou que ia chover foi o Clésio...)


    Peraí.  Estou me perdendo. Ah, sim. Os dois irmãos. Difícil um contraste mais gritante. O Cássio era formado em Direito, mas não exercia advocacia, virou pequeno empresário. Bem sucedido.  Casado, bem casado, ainda sem filho. Em suma, Cássio não podia reclamar de nada.


    E ele não reclamava. Para tudo dizia sim, nunca falava um Não. Era o maior bon vivant que eu tinha o prazer de conhecer. Carro do ano, casa de campo, férias no Nordeste. 


    A irmã Cátia, a aniversariante, cuidava de encher nos copos com refri ou cerveja, e ao mesmo tempo olhava o filho aprontando todas, pulando nas poças de lama (isso foi depois da chuva...), e correndo para ver as panelas. 


    Enquanto isso, dona Cíntia largava a cozinha e aparecia para cumprimentar todo mundo e ver se o neto não tinha entrado debaixo do carro. Ou soltado os cachorros. Desse jeito. Ou então ela pedia um pagode.


    No início só rolava rock nacional tipo Paralamas e Engenheiros, um Charlie Brown ou Legião.  É um meio termo. Não ia rolar Iron Maiden nem Nirvana. Depois, antes da chuva, que eu me lembre só estava rolando pagode. Difícil. (Sou suspeito pra falar. Detesto pagode. Prefiro chorinho. Aliás, jazz. )


    Cássio guiava os assuntos que passavam de política para carro esportivo para campeonato de fórmula 1 para campeonatos de futebol para rendas milionárias de jogadores etc Nem lembro mais. Mas era sempre o Cássio que falava ou então o amigo do Cássio. O amigo do Clésio olhava para o Clésio e o Clésio lá calado. E as mulheres rindo. E eu bebendo e olhando o espetáculo. 


    Não sabia daquele amigo do Clésio, pois eu acreditava que eu era O amigo do Clésio. Mas o sujeito era do bairro ali e amigo desde tempo de ginásio. Não era da publicidade como eu antes tinha cogitado. Se não me engano o cara vendia seguro de carros...  Só  falava quando o assunto era automóvel. Era um cidadão tão na dele quanto o Clésio. 


    O Clésio só calado ou só  trocava umas sílabas com a irmã ou com o sobrinho ou com a mãe, dona Cíntia. E até eu ficava meio sem graça, ali convidado e... ignorado. Parecia que o aniversariante era o Cássio que discutia uma marca de eletrodomésticos quando a irmã pergunta quem poderia buscar mais bebidas e tal. 


    O Cássio logo se prontificou muito sorridente e tal. Cerveja e vinho ele pagava e sem problemas. Era só ligar o carro etc Mas continuava o papo. Foi quando o Clésio falou que ia chover. O Cássio falou que não. 


    Peraí. Lembro que foi aí. Um disse que teria chuva. Outro falou que não. Eu achei que não era impossível chover. Muito calor e tal na tarde de domingo etc Era só se preparar e tal. (Não podia prever o dilúvio que foi...)


    Melhor alguém buscar as bebidas antes da chuva. Acho que a sabedoria veio da mãe, a dona Cíntia. A mulher do Clésio disse Uai fulano não disse que ia? E todos discutindo Chove ou não? O Cássio reafirma que vai. E continua achando que com argumentos ele vai impedir o dilúvio universal. 


    Clésio em nenhum momento se ofereceu, antes fez uma cara de contrariedade quando falaram em sair pra comprar bebidas. A mãe e a irmã entregaram os cartões de crédito e ficaram esperando. Cássio não ia? 


    Clésio olhava pras nuvens de algodão cada vez mais baixas e cinzas, gordas e pesadas, e suportava as risadas do irmão, do amigo do irmão e das mulheres. A morena, a esposa do Cássio, mostrava fotos no zap para a loira, a namorada do amigo do Cássio. Fotos das últimas férias, diziam. Eu adoraria ver estas fotos: duas beldades. 


    Quando o assunto se repetia, acho que era sobre o Brasileirão, o Clésio olhou mais uma vez pras nuvens gorduchas de algodão escuro e pediu o cartão de crédito da Cátia. 


    Clésio se levantou e disse que ele ia buscar as bebidas. O Cássio olhou e parecia que ia dizer A ou B mas só ficou na vontade. Clésio buscou a chave da moto e saiu.


    Cátia ficou olhando enquanto o irmão saiu e voltou-se para os convidados com outra travessa de churrasco, picanha e coraçãozinho. A mãe pediu um pagode e daí a soundtrack só pra contrariar seguiu firme e inabalável. Cássio não gostou mas nada disse. Não tocaram mais rock nacional. E Iron Maiden nem pensar.


    Quando o Clésio saiu, eu e o amigo do Clésio tentamos prosear sobre eventos climáticos, ou privatizações, mas em vão. A única coisa que tínhamos em comum era a condição de amigos do Clésio. O que era complicado justamente com a ausência do anfitrião. 


    Não sei quanto tempo depois. Mas Clésio chegou com as bebidas e trazendo a chuva. Cássio estava na mesma posição e vibe e assuntos quando Clésio chegou e deixou as bebidas no meio da mesa. E aquela cara de Quero ver agora você doutor guardar no freezer. Cássio percebeu  mas continuou como se não fosse com ele. O amigo de Cássio calou no meio de uma frase. As mulheres deixaram os celulares. A mãe e a irmã pararam de dançar o pagode. Cássio e Clésio se olharam.


    Foi aí que a chuva caiu mesmo. De cima e dos lados, logo a varanda estava inundada e a churrasqueira alagada igual a Vilarinho. 


    Não lembro quem guardou as bebidas. Lembro que a chuvarada  afogou o pagode (o som  também ficou molhado e calado) e encerrou uma lavação de roupa suja que nem começou. 


    Foi a única vez em que visitei os irmãos. Depois de formado, Clésio não seguiu na publicidade, mas hoje mexe com eventos no interior de Minas.  Cássio continua empresário e rico, com mais sócios e clientes, segundo fiquei sabendo. Parece que agora o lance dele é entrar pra política. Afinal é um daqueles caras que nunca dizem Não. 



Dez 25


LdeM 


Escritor, crítico literário 

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Crônica --- A Ilusão do Livre-arbítrio . Filmes e Filosofia. by LdeM

 



                                                               fonte da imagem: Internet 



    Crônica 


    A ilusão do livre-arbítrio 


    Livre-arbítrio em Show de Truman, Clube da Luta e Matrix


    Recentemente tive a curiosidade de rever três filmes famosos dos anos 1990, que trazem os temas centrais da realidade vs ilusão e da capacidade de decisão: temos a capacidade de escolha? Em suma: temos liberdade?


    Verdadeiros quebra-cabeças com personagens densas em filmes que colocam em xeque condutas humanas que parecem tão certas e evidentes, mas que ocultam os fios de controles nunca dantes imaginados.


    Em resumo (e aqui contém spoilers) temos um cidadão comum de uma cidade comum que na verdade tem sua vida inteira televisionada como um espetáculo para as massas. Sua vida passa no tipo de big brother que todos acompanham menos o protagonista. 


    Em outro temos igualmente um cidadão comum de uma cidade comum que vive e sobrevive para consumir as novidades do mercado até que, num acidente?, seu apartamento explode e sua vida é nivelada por baixo: nem terapia ajuda mais. É uma experiência traumática e mesmo esquizofrênica.


    Na distopia cibernética de um mundo, onde as máquinas e inteligências artificiais dominam, um jovem hacker descobre que não tem controle sobre sua vida pois tudo é uma mera simulação. 


    As rotinas e as disciplinas mantêm os protagonistas ocupados e anestesiados o suficiente para que não percebam os padrões repetitivos e as encenações até dos melhores amigos. É o discurso dos outros que mantém o castelo de cartas. 


    E se o jovem protagonista consumidor e consumista parar para pensar: por que trabalho e consumo? Por que vivo para acumular coisas? Por que me estresso a ponto de ter insônia?


    E se o protagonista do show se recusasse a seguir os roteiros que desconhece? E se ele resolvesse ser um espontâneo e improvisador dado aos atos gratuitos?


    E se o jovem hacker Neo resolvesse mesmo conhecer a Fonte da simulação e aceitasse de tornar o the One, o Escolhido? É decisão dele ou é por causa da profecia da Oráculo?


    Cada ação dos protagonistas tem consequências que eles desconhecem mas têm responsabilidades que eles precisam assumir! Está profetizado mas a escolha é individual?!


    O jovem no show não escolheu os amigos e familiares pois já foram escolhidos para ele por uma equipe nos bastidores. Todo seu mundo é um imenso estúdio! Tudo ordenado e organizado -- até que ele se rebela!


    O mesmo com o jovem hacker que desafia o Arquiteto e a Oráculo da simulação distópica -- ele não aceita não ter escolha!


    Mais realista e compreensível é o jovem consumista que não tem mais tradição nem noção de masculino, e busca virilidade na compra e ostentação-- até que surge sua sombra e contraponto: o rebelde, o anarquista, o terrorista. 


    Sofremos juntos com as personagens e possivelmente é um dos motivos da perenidade destas criações cinematográficas . É o que chamamos de identificação: sabemos que eles não são livres, mas, cá entre nós , quem garante que somos livres?


    Neo diz que não gostaria de saber que não tem controle sobre sua própria vida, e também somos assim: somos indivíduos pensantes e modernos que queremos ter o direito de livre-escolha.







                                                              fonte da imagem: Internet



    Mas será que não somos condicionados a querermos escolher? Será que o desejo de liberdade não vem de uma programação? Como podemos decidir sem conhecer todas as variáveis e possibilidades?


    O jovem pode escolher ser médico para agradar a família ou então artista para desagradar a família. Pode ser professor por vocação ou ser funcionário público por falta de opção. Sempre precisa escolher se vai casar ou ser o solteirão ou solteirona da família. 


    Estas escolhas trazem angústias pois não sabemos o que acontecerá no fim da linha. Melhor ter sido médico mesmo, ou melhor ser um artista do que um advogado medíocre, etc. Só depois de duas décadas você percebe: como voltar atrás?


    Estes filmes marcaram uma época e uma geração e duas décadas depois ainda estamos aqui angustiados com o pobre Truman e o perturbado consumista (cujo nome não lembro, ou será Tayler?) e com o messiânico Neo: como conseguem sair do script e do labirinto e da simulação?


    Também sentimos que não temos liberdade de escolha e até nossa liberdade de expressão é  condicionada e limitada: para alertar sobre as redes sociais eu preciso das... redes sociais!


    Verdadeiros sistemas filosóficos e religiosos estabelecem uma limitada ou mesmo inexistente liberdade. Somos condicionados por condições e situações, família e classe social, crenças e dogmas. Difícil é contrariar o estabelecido, o senso comum.


    Mas se o protagonista rompe com o senso comum então vem coerção e punições.  E se consegue se livrar parte para uma anomia -- ou cria novas regras, para outro sistema que vai determinar as próximas gerações!


    É para evitar angústias e anomias é que as gerações e os patriarcas criaram a tradição: um caminho pavimentado de normas e gestos. Romper com a tradição é se sacrificar e cair na anomia -- até que outra lei e tradição seja ordenada. 


    Tanto o jovem hacker quanto o jovem consumista quanto o celebridade Truman precisam decidir se permanecem num conjunto de regras A ou se cria um conjunto B. Alguma regra e controle precisam; caso contrário vem a loucura, a esquizofrenia. 


    O consumista que gira em círculos: trabalhando para pagar as contas; se perdendo em dívidas que levam a mais estresse. E nem é obrigado a trabalhar: pois sua obsessão é trabalhar. O escravo realizado em ser escravo. 


    De modo que entre uma rotina e uma tradição, os protagonistas são levados a escolher não a liberdade -- mas entre uma rotina e uma tradição! Não há liberdade solta -- isso é niilismo.  Mas sempre uma escolha que precisa ser feita -- estamos condenados a decidir. Mesmo sem saber, mesmo que seja ilusão. 


Dez 25


LdeM







                                                            fonte da imagem: Internet 



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