fonte da imagem: Internet [Arquidiocese de Campo Grande]
Crônica
Alair e Alaor
Conheci primeiro o Alair, aluno esperto e curioso, que não deixa de ler os capítulos antes das aulas. Depois conheci o irmão, o Alaor, que está se preparando para Enem, vestibular etc
Aliás conheci o pai dos dois irmãos antes. Estava lá na biblioteca, em papo e prosa com a bibliotecária, quando aparece o Tiago, o pai do Alair, e apresenta um livro sobre orixás, que eu havia indicado na aula sobre religiões da África. Xangô. Iansã. Também os malês. Africanos de fé islâmica, etc
O senhor é o professor do Alair? Queria de perguntar sobre este livro...
E perguntava por quais motivos o filho se dedicava àquela leitura de coisas afro etc. Primeiro não entendi onde o Sr. Tiago queria chegar. Olhava para o cidadão e via o Denzel Washington.
Por que o menino não poderia ler sobre cultura afro? Não entendi. Expliquei que história da África era parte do currículo. E que a obra era literatura infanto-juvenil bem didática e isenta de doutrinas etc
Contudo o homem não me ouviu e devolveu o livro sobre orixás, mitos africanos etc. Praticamente exigiu que o filho escolhesse outro título. Não teria ali livros sobre a Bíblia? Sobre os Dez Mandamentos? Sobre a vitória de Davi contra Golias? O Templo de Salomão?
Depois o Alair apareceu e escolheu outro livro. Não lembro qual. Espero que não seja de mitologia grega...
Depois é que conheci o Alaor quando o irmão mais velho apareceu para buscar o menor. Muito simpático o Alaor. Parece ainda mais com o pai! Mais do que o filho do Will Smith se parece com o Will Smith...
O moço queria saber que famigerado livro era aquele que havia irritado o pai. Falei sobre as aulas sobre história da África e as religiões e os orixás. Realmente ele fez uma cara feia. Que a família era evangélica e não tolerava estas coisas do diabo etc
Não adiantou explicar que nada tinha a ver com diabolismos. As crenças africanas eram xamanismo ou animismo. Os orixás eram personificações de forças da natureza etc
Não adiantou. Na reunião de pais apareceu a família. O Sr. Tiago e esposa, chamada Rute. Ela a simpatia em pessoa. Mais tolerante que o marido.
fonte da imagem: Internet
Com o tempo percebi que a mãe do Alair e do Alaor era de berço evangélico. Ela nasceu batista e assim permaneceu. E ela com toda a simpatia levou o marido para o seio protestante. Marido de nome Tiago que nasceu em lar católico. As peças se encaixavam.
Sendo convertido pelas orações da esposa, o Sr. Tiago comprou inteiramente a fé iconoclasta a ponto de se afastar dos parentes 'idólatras', que é como ele chamava os católicos.
As crianças não poderiam nem saber de qualquer cultura afro que lá vinha o "é coisa do diabo!" Nada de cultura que não aquela da igreja de liturgia estadunidense. Tinha rock na igreja? Era rock gospel. Ritmos brasileiros? Nem pensar!
Quando teve o arraial junino na escola a família não foi. Bem que o menino Alair estava curioso. Mas a família ignorou. Na semana seguinte, debaixo de uma chuva fina, encontrei os irmãos no ponto de ônibus. Alaor disse empolgado que se preparava para o Enem e vestibulares etc Elogiei os esforços do jovem. Perguntei sobre o exército etc Tudo ao mesmo tempo. Alaor preferia estudar.
O ônibus deles passou e fiquei pensando. Será que o pai deles era daqueles que proibiam os filhos de estudar? Tem fanático que acha que na faculdade só tem professor comunista... Desse jeito.
Continuei acompanhando as lições do Alair e procurava integrar o menino nos grupos de estudos. Mas se havia evento ou palestra sobre cultura afro a ausência dele era sensível. A família queria apagar a cultura negra ? Tinham vergonha da origem africana?
Quando fui à missa num bairro próximo, no São Benedito, conheci uma família afro que mantinha as raízes africanas nas músicas das cerimônias. Ritmos e percussão de base africana acompanham a liturgia. E em conversas percebi que eles tinham as mesmas percepções e questionamentos. Por que tantos negros rejeitavam a cultura afro?
Na igreja este problema não existia. Lá os negros participam de uma pastoral afro e compartilham espaços de reza e divulgam a congada etc. Todos tão participativos que chegavam ao sincretismo... Aí alguns católicos mais tradicionais não gostavam. Fazer o quê?
Conversa vem e conversa vai fui lembrando de familiares que acompanhavam as de matrizes afro, por exemplo, eram umbandistas. E a maioria mais brancos do que eu... Os evangélicos, as pesquisas revelam, são de maioria parda e negros.
Na próxima reunião de pais eu abordei as atividades extracurriculares e a participação em eventos. A congada era um deles. Os pais concordaram, queriam participar -- com exceção da família do Alair e do Alaor.
Mar 26
LdeM
Leonardo de Magalhaens
Escritor, crítico literário
Bacharel em Letras FALE / UFMG
https://www.youtube.com/@leonardodemagalhaensliteratura

Nenhum comentário:
Postar um comentário