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Crônica
O outro
"O homem de ontem não é o homem de hoje"
O que aconteceu até agora me apavora como um pesadelo, daqueles que se repetem, até você acordar como um transe. Aconteceu hoje mesmo, por isso escrevo isso como um desabafo, uma confissão, um mea culpa.
Hoje cedo fui passear na Lagoa do Nado, aliás no parque, porque a Lagoa nem existe. Mas lembro da lagoa tal qual ela existia. Um espelho d'água visitado por patos e outros pássaros em mergulhos em busca dos peixes, entre os cascos de tartarugas.
Vou narrar com calma o que aconteceu desde que lá cheguei. Ouvia uma música clássica, Bach ou Handel, tinha um coral, lembrava uma ópera, uma pérola sonora. E folheava um volume de Confissões, de Santo Agostinho.
Pois bem. Andava tão concentrado ou distraído, não sei, que não vi um certo jovem que passava rumo à antiga lagoa. Só reparei nisso quando me sentei a sombra do casarão.
A figura do jovem me parecia familiar. Alto e magro e de roupas escuras. Pálido e de óculos escuros. Cabelos longos e carregavam alguns livros. Ouvia algo pois notei os fones de ouvido.
Muito familiar aquele vulto. Até que ele voltou e ficou admirando o casarão. Assim que o vi ao meu lado me arrepiei assustado: estaria num sonho?
Pois aquele jovem era igual a mim! Não de agora, mas daquela mesma época em que conheci pela primeira vez a Lagoa do Nado !
Foi nos idos de 2004. Portanto se passaram duas décadas e muitas mudanças. Naquela época eu começava a participar de saraus etc desde as noitadas líricas e góticas na penumbra da Matriz lá no Terminal Turístico.
Muitos saraus na Lagoa do Nado me atraíram naquela época antes de que eu finalmente me mudasse para a região, quando no início da carreira de servidor público.
Eu via assim um arco de duas décadas se fechando quando o jovem se aproximou e eu perguntei se ele pretendia participar do sarau etc
O jovem que era eu mesmo olhou direto para mim e, sem me reconhecer, disse algum monossílabo que me soou como Tomara! E fez um movimento de passar adiante como se desviando e visivelmente me evitando. Sim, era eu mesmo: do jeito mesmo que eu evitava as pessoas. Quando jovem não tinha paciência com as pessoas. Hoje mesmo não sei se tenho mais paciência. Sou apenas mais resignado.
O jovem diante de mim nada tinha de resignação. Era um revoltado Ivan Karamazov contra o Eterno, o Soberano Cruel do Universo. Um Ivan Karamazov que andava todo de preto em luto por toda a humanidade.
Claro que tentei conversar comigo mesmo mas sabia bem como eu era -- de pouca conversa. Ainda mais com estranhos. Por que um jovem ouviria este velho de mais de quarenta?
Queria porque queria avisar ao meu eu de antes o quanto ele sofreria na vida. Aprenda a fazer amigos! Era o que queria avisar ao pobre enlutado.
Faça amigos nos saraus. Faça amigos na faculdade. Faça amigos na família. Faça amigos na vizinhança. Faça um milhão de amigos!
Claro que o jovem gótico, o poeta revoltado contra Deus e o mundo, não me daria ouvidos. Eu não ouvia nem meu pai! Eu nem conversava com meu pai! Por que ouviria um estranho?
Lembrei de meu pai. E tive um olhar paternal para aquele eu de antes. Claro que gostaria de dizer ao jovem algumas verdades. Mas ele não me ouviria assim como eu não ouvia ao meu pai.
Culpar o meu pai? Por que ele me obrigava a ir pra igreja? Quando eu queria ir pro cinema ou balada... Culpar o meu pai? Por que ele queria me proteger dos vícios?
Os filhos não ouvem os pais -- por isso repetem os mesmos erros. Queria dizer isso ao jovem poeta, meu eu de ontem. Ele não daria ouvidos. Assim como identifiquei a Divindade com a autoridade paterna, e aboli ambas, eu desprezava todo conselho, toda advertência.
Moço, faça mais amigos. Moço, seja mais tolerante. Moço, pare de julgar as pessoas! Eu diria tudo isso a ele como uma boa figura paterna. E me arriscaria a levar um desaforo pra casa.
O jovem de luto então me olhava mas sem me reconhecer. Claro, como poderia ele se ver neste homem de primeiros cabelos brancos, quieto e cordial, um servidor público tolerante, um pai de família católico que agora falava em disciplina e tradição!
Aquele jovem anarquista pós-punk, dado às leituras existencialistas e niilistas, não me daria ouvidos. Ele gostaria antes de cuspir-me na cara: seu velho reaça ! Seu funcionário público em sua cela acolchoada! Seu mantenedor da nossa injusta ordem social!
Ele esperaria antes que eu votasse na direita ou fosse dali fazer campanha para algum pastor evangélico ou entrar na fila para beijar a mão do bispo. Ele não me conseguiu se reconhecer neste homem de hoje: seu oposto!
Tanto que o jovem se afastou com visível repugnância daquele homem funcionário público cumpridor dos deveres e da moral e dos costumes. Ele que seguia ouvindo metal pesado e bandas góticas e lendo brochuras de Nietzsche e de Albert Camus. Um jovem que considera o cristianismo uma doença da Vontade! E a figura paterna de Deus como um Ditador!
Queria gritar ao jovem: Cuidado, você vai sofrer muito na vida! Você vai negar e se negar a cada controvérsia e tribulação! Você vai curvar a dura cerviz! Você vai ser resignado! Em suma: você será EU!
E o jovem se afastou e eu me afastei. Sentei junto ao casarão e tentei ler as páginas do Santo Agostinho mas em vão. Tentei ouvir um oratório mas em vão. Tentei me encontrar mas em vão.
Aquele jovem jamais me entenderia. Só daqui a uma ou duas décadas. E eu agora não poderia acolher aquele jovem revoltado e arrogante, eu que sou este humilde servidor.
Jan 26
LdeM
Ps. Paródia do conto "O outro"
De Jorge Luís Borges
In O Livro de Areia
1975
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