segunda-feira, 25 de junho de 2012

Anjos do Metrô - conto LdeM




ANJOS DO METRÔ


Numa tarde nublada de segunda-feira, na semana do Natal, o senhor Carlos D. Ventura foi recolhido à clínica psiquiátrica de nosso município.

Detido enquanto passeava pelas estações do nosso metrô de superfície, passatempo frequente desde seu afastamento da Companhia, ainda que contrariando o conselho de seu médico, o Senhor Carlos D. Ventura mostrava-se agitado e não reconheceu sequer antigos colegas.

O Senhor Carlos D. Ventura passeava, meio sonâmbulo, pelas plataformas de embarque e desembarque, e dizia, na verdade, balbuciava com olhos vidrados, estar cercado de anjos. Não ele, mas toda a estação. E foi assim que a expressãoAnjos do Metrôtornou-se célebre entre nós. Mas desde quando andava louco o Sr. Carlos D. Ventura? O que o enlouquecera? Ou melhor, por que antes de nós mesmos?

A esposa do Sr. Carlos D. Ventura, uma senhorinha cabisbaixa, a qual chamavam Angélica, mas seu nome todos sabiam ser Mariângela, ainda que outros a chamassem Angelita, mas, enfim, todos a acolhiam consternados, digo, todos aqui na Companhia. A sra. Ângela, assim eu a cumprimentava, estava acostumada a comparecer às nossas festinhas de gabinete, onde o próprio engenheiro-diretor não deixava de ser solícito, abrindo as garrafas de champanha. A turma dos computadores aparecia em peso. Às vezes, surgia um violão. Mas creio estar a afastar-me do ponto. O caso é que quando a sra. Angelita, assim a abordava o coordenador de operações, surgiu, sem o marido, em plena festa, todos se entreolharam. Alguns entenderam, outros desistiram de perguntar, e ainda houveram aqueles que suspiravam, demorou, até que enfim, imaginem vocês.

Não que o Sr. Carlos D. Ventura fosse hostilizado, bem ao contrário. Era um colega honrado, a esposa que o diga, mas um incidente calamitoso o transtornara até as profundezas da razão, digo, nossa superficial razão. E o Sr. Carlos passeava pelas plataformas, entrava nos trens, os quais conduzira por quase vinte anos, cumprimentava os colegas, nada demais. Não fosse os olhares que ele dirigia às pessoas.

Enquanto o Sr. Carlos D. Ventura transitava pelas plataformas seu olhar adentrava o mar de faces e escavava as pupilas alheias. Procuraria alguém? Como poderia, meio aquela multidão? Fosse às seis ou oito da matina, as estações lotadas de gestos apressados e bocas bocejando, ou talvez às dezessete ou dezoito, a luz declinando, o corpo pesando, o rebanho se arrastando, com esgares de mau-humor, e não apenas quando alguém vem pisar o estimado calo.

Desde a expansão das linhas, rumo a zona norte da capital, a pouco mais de meia década, o fluxo de faces aumentara consideravelmente. Poderia o Sr. Carlos D. Ventura catalogar a todas? Jogado numa maré de faces embrutecidas, apáticas, sorridentes, enrugadas, irônicas, maquiladas, poderia sobreviver? Estaria à procura de alguém?

O Sr. Carlos D. Ventura passeava, mãos nos bolsos, olhares de contra-espionagem, andar de Sam Spade, mas seu capítulo é trágico, vida esticada de um drama a outro. Enquanto o Sr. Carlos se entrega a tal inquieto flanar, embevecido com a pluralidade, como se nunca outrora a notasse, as pessoas ao seu redor nem se lembravam de se afastar. No último instante, sentindo sobre si mesmas o olhar inquisidor, é que evitavam um encontrão com aquele perturbado senhor. Às vezes, ele se encontrava com a esposa Angélica, assim diria o nosso assessor de comunicações, e eis o lento escorrer de meio minuto antes de reconhecê-la. Não era estranho? E ele sorria? Sorria, não vexado, mas porque via diante de si uma mulher, uma pessoa, ser muito além do enunciadosua esposa. Ousara dizer que a conhecia realmente?

Ainda o encontramos percorrendo as estações dos subúrbios. Está cercado de tipos os mais diversos. Uma mulher alisa o vestido em leve laranja, com pequenas flores de amarelo desbotado, e uma garotinha, dedo no nariz, pede, ou exige, uma sapatilha igual aquela a moça do cartaz, e um senhor, um executivo em início de carreira?, vendedor de seguros?, bem trajado, abraça a maleta sobre os joelhos ao sentar-se. Um par de olhos marinhos faz repousar o espírito do andarilho. O Sr. Carlos D. Ventura acompanha uma estudante por uns dois metros. Ela se prepara para entrar no trem que se aproxima. Talvezou certamenteele jamais a verá novamente.

Por que, ao ser abordado, o Sr. Carlos D. Ventura se referira aos anjos, digo, aos Anjos do Metrô? É sabido o quanto expressão se popularizou, e não dentro da Companhia. E o enigma continua. Ou alguém ousara entrevistar um louco? Um louco no diário vespertino? O Sr. Carlos talvez esboçasse um sorriso diante de tanta insensatez, ele um homem tão pleno de bom senso, ainda que privado de razão. (uma vez, ele perguntou-me, sem desviar o olhar,Que razão, meu filho?E juro que ele parecia ter meio milênio de idade!)

O conhecido é que o Sr. Carlos D. Ventura passava a sua aposentadoria compulsória longe da família, longe dos amigos, perambulando pelas estações de metrô. De onde, justamente, queriam afastá-lo. Tentava se aproximar dos milhões de habitantes da capital, mas era inútil. Daí conceder que alguém, ou alguns, as acompanhava? Não serão lembranças de Win Wenders? Asas do Desejo? City of Angels? Filmes muito em voga. Leituras de apócrifos, aquelas apressadas nos intervalos do lanche? Mas o Sr. Carlos, isso supomos, longe de nós afirmamos fenômenos longe de nossa observação, via uns vultos junto às pessoas. Anjos? Aqueles da guarda? Que nossas mães invocam para apaziguar o nosso terror noturno e assegurar nosso repouso tranquilo? Mais real que a Fada do Dente? Mais real que aCuca-vai-pegar?

O Sr. Carlos D. Ventura via os anjos e acreditava, de todo o coração, que aquele, ou aquela, que o anjo acompanhava, morreria, em breve. Um infarto, dentro dos vagões? Atropelado, assim que os pés alcançassem o ponto de táxi da praça? Assaltado e baleado nas avenidas centrais, ou nas vielas do morro? Morreria, sim. Nada macabro, o Sr. Carlos, mas seu olhar se nublava tal uma tarde de dia dos mortos. E estes, ou estas, acompanhados por seres espectrais, bons ou maus, quem saberia?, atraíam os olhares do ex-condutor. Quando tal alucinação surgira? Isso se for alucinação! Sabe-se lá!

Estas pessoas que vêm e que vão, a trilharem diferentes caminhos, impulsionadas por diversas crenças, respondendo a estranhos desafios, vivem atrás de quimeras, desde que nascem até a inevitável morte. Pessoas que não mais voltarão, nem mais poderão se repetir. Ainda muito peculiares para um formigueiro, ainda muito divergentes para um rebanho.

Uma mão se estende, a capturar os dedos de outra, um casal se beijando sem transtornos, sem lembrar dos outros, um menino, cabelo arrepiado, mãozinhas ágeis, desembrulhando um bombom gigantesco, aquele ancião esticando os suspensórios, lembrando um chapéu usado na Copa de 50, outra estudante, que o colega identifica como Carla, desvia o olhar, evita pisar num guarda-chuva, que alguém deixa cair na escadaria. Um especialista em idiomas ajuda um turista, it looks like rain, i take you to a táxi stop, um especialista em lubrificação de trilhos troca tapinhas nas costas com um engenheiro recém-formado, uma especialista em emoções humanas (existirão as não-humanas?) sorri para um especialista em cirurgias cardíacas, serão namorados? Noivos?

Ah, se o Sr. Carlos D. Ventura pudesse esquecer um certo sorriso. Um sorriso que flutua nas amplidões da megalomania das estações, no brilho artificial fluorescente das assépticas plataformas, no mar de faces, na ansiada harmonia de diversidade, na busca de sintonia, um olhar que flutua a espera de um sorriso que flutua, inesquecível, e inefável.

O Sr. Carlos D. Ventura lembra-se bem. Ela terá caído, alguém a jogara nos trilhos? Não, improvável. Por que? Ora, o sorriso! Uma mulher jovem, quantos anos?, Vinte e poucos, vinte e cinco?, tivera uma filha, agora com a sogra. O que a jovem faz? Se joga nos trilhos! O terror é não poder ter evitado? Ou não ter previsto?

O sorriso que flutua indica possíveis, ocasionais, suicidas. E os anjos são acompanhantes atentos. Pretendem evitar o desenlace? A Sra. Angelita relata que o Sr. Carlos se aproximava, mas os desistentes da vida se mostravam hostis, até mal-educados, qual é, velho maluco?, tu é religioso?, fica na tua!, tudo aqui é uma droga, não tem medo, não?

O Sr. Carlos D. Ventura lembra-se bem. Ela não caiu, ninguém a jogara. (Por que insistir em mentiras? Auto-engano? Por que não aceitar?) Ela se jogara e ele não pudera evitar. Não parou a tempo. Por que logo diante dele? Por que envolver o Outro em nossa morte? Um espetáculo aos Anjos que observam a morte alheia? Morremos sorrindo para o Outro? Um trágico espetáculo para uma notícia de meia coluna na página de ocorrência policiais e outras tragédias urbanas ? Para um obituário em tons líricos? Então, diga-me, por que o sorriso?


Nov/04


Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com


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