sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Sobre ENLEVO 2020 obra poética de Adriano Borçari


 

 

 

sobre Enlevo [2020]

obra poética

do poeta Adriano Borçari

[1974-]



Poesia extraída do drama cotidiano



     Temos na obra Enlevo de Adriano Borçari uma poesia nascida de divagações, digressões, meditações sobre o cotidiano, sobre o viver em família, sobre os poucos momentos felizes da vida, sem rebuscamentos de erudição ou citações de mitologias ou devaneios místicos, como podem imaginar os beletristas da poesia enquanto construto complexo. Às vezes a Poesia está mesmo é no mais simples.


     O Poeta está em busca de paz, de posicionamento no mundo, na consciência de ser parte de algo, estar no lugar certo, cumprir suas potencialidades, não desperdiçar tempo e energia com inutilidades. Ter a consciência de ser um elo numa enorme cadeia, de ancestrais e de futura prole,


Volto a ver, o que o avô outrora viu

Antes dele, tantas gerações

Pavimentaram caminhos inconclusos que hoje percorro

Até a beira de meu existir


[In finito, p. 14]



     É a busca de pertencimento que leva o Poeta às indagações, as antigas e novas, de ser no mundo, de ser num grupo, de pessoa, um indivíduo e um cidadão num coletivo, numa sociedade, de desiguais, de privilegiados e de miseráveis,



Mas se não pertenço à manada a qual se referiu Zé Ramalho

A quem pertenço?

Qual grupo componho?

Pois não estou entre os favorecidos

Nem tampouco à margem!


[Dança das engrenagens, p. 16]



     Sua consciência de lugar no mundo conduz o Poeta a uma percepção de ciclo cósmico a partir de pequenas constatações, de que tudo é movimento, tudo se move, tudo fluindo como um rio, rumo a uma Infinidade, ou Eternidade, aqui e no futuro, como sucessão de agoras,


Mas sempre em movimento

Neste movimento, de contornos aos obstáculos

Visita velhos caminhos e encontra outros novos

Entretanto, sempre fluindo de volta


[Rio cheio, p. 20]




Daqui, de dentro do efêmero

Me esgueiro para alcançar um novo olhar

Na esperança de mirar algo

Que não se meça:

Nem pelos segundos 

Nem pelos cifrões

..


A luz se faz trevas

O novo envelhece

..

Só então,


Me abandono no Eterno


[No eterno, p. 24]



     O abandono ao Eterno lembra Carlos Drummond de Andrade no poema ‘Eterno’ em sua Antologia Poética, Eterno / E como ficou chato ser moderno. / Agora serei eterno. // Eterno! Eterno! / O Padre Eterno, / a vida eterna, / o fogo eterno. O poema de Drummond de Andrade vem mostrar a relação do indivíduo consciente com a Divindade, o Eterno que habita dentro e lá fora, no microcosmo e no macrocosmo, como revela seus versos de fé,



Mas a inteireza do Mistério,

Do que não se pode ver, nem ouvir, nem tocar

Mas que ao fechar os olhos 

Olhar para dentro e só ver Aquele: Eu Sou! 


[, p. 34]



     O Poeta tem a consciência de ter a palavra como uma revelação, desvelar de si mesmo, um aprofundar-se para melhor conhecer-se, e sua posição no Cosmo e sua existência num ciclo de vicissitudes,


Assumo-me, desnudo-me

Frente e verso.

Encontro no aparente, cansaço.


Uma lombeira existencial dos altos e baixos.


[Paz, p. 38]



     Até ele vem sua consciência de uma vida de classe média entre muros e grades, pois aqueles que detêm bens se defendem daqueles que não têm posses, deixando uma paisagem de segregação, com condomínios parecendo mais aquelas fortalezas medievais, como uma nova Idade Média dividida entre nobres e plebeus,


Somente muros 

Cercas elétricas e concertinas

Até onde o consumo nos levaria?

Mais grades mais muros 

Daqui d'onde escrevo

Carandiru da classe média baixa


[Mar de concreto, p. 46]




     Para dar novo fôlego existencial aos seus poemas temos os registros de cenas da vida familiar, com observações simples e profundas, como pequenos flashes de um microcosmo, nos fins de semana no abrigo do Lar,



Respiro fundo

Encho a alma de vida

Da vida que partilhamos

Essa é a nossa casa

Fazemos de cada momento, nosso, inteiro



[Mais um sábado, p. 59]



Nossa sala, nosso lar

Amo estar aqui

Seguro sou que isso é paz!

Vivo a vida, vivo o dia

Hoje é domingo


[Domingo, p. 79]





     Em contraponto temos relatos de verdadeiros absurdos da existência em figuras inusitadas que conformam a banalidade do absurdo, que pode aparecer a plena luz do sol, e deixa aquele desconforto a produzir epifanias, que se explicitam nos versos, mais sobre si mesmo do que julgamento de absurdos alheios,



Diante dos absurdos que hoje encontro

Sabedor de que assim me fiz

Só me resta ser grato

Por me desfazer e refazer

Da absurda condição de produzir absurdos



[Duelo do absurdíssimo, p. 63]




      Em tais oscilações de dentro e fora, micro e macro, consciência e efemeridade, vida comum e absurdo, o Poeta Adriano Borçari tece sua obra poética Enlevo de versos simples e confessionais, deixando pérolas nas entrelinhas que um/a leitor/a atento conseguirá pescar com um esforço de concentração. O caso é se teremos tempo para tal numa vida pós-moderna de constantes turbulências e mil distrações.



ago / 22



Leonardo de Magalhaens 

poeta, contista, crítico literário

Bacharel em Letras / FALE / UFMG


 

 

 by LdeM

domingo, 31 de julho de 2022

Lançamento de Spleen de BH Ásperas Flores 2022

Lançamento de Spleen de BH Ásperas Flores 2022

by LdeM e Selo Starling 


Saudações aos amigos e poetas,

Saudações a Lecy Sousa, Rogério Salgado, Marco Llobus, 

Bilah Bernardes, Marcos Fabrício Lopes de Silva, 

Almir Zarfeg, Vinicius Fernandes Cardoso, Marlon Nunes ...


Gratidão por apoiarem e divulgarem o Spleen de BH ...













Uma farta distribuição de Spleen de BH para os amigos e poetas de 

BH, Contagem, Betim, interior de Minas, São Paulo, Bahia, Brasília...



by LdeM

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Spleen de BH Ásperas Flores by LdeM e Selo Starling

 

 


 

 

 

                                                 SPLEEN DE BH


                                            ÁSPERAS FLORES



                                            Coleção Flores do Caos


                                                     Selo Starling


                                                             2022



Videos Canal YouTube LdeM




As Ruas – trechos de Spleen de BH


https://www.youtube.com/watch?v=-OCRDhz5iEY





Os Sonhos – trechos de Spleen de BH


https://www.youtube.com/watch?v=1-QOZA9nJZY&t=42s





Os Poetas – trechos de Spleen de BH


https://www.youtube.com/watch?v=R6TzCuq_C8c&t=51s




Epílogo para o Spleen de BH


https://www.youtube.com/watch?v=X0b0YDOhnAs





by LdeM






sexta-feira, 24 de junho de 2022

No Reino do Sonho - conto by LdeM



 

fonte : Sandman by Neil Gaiman


    No Reino do Sonho


    Antes, mais jovem, eu dormia tarde e acordava tarde. Depois que comecei a trabalhar, passei a acordar cedo, então precisava dormir cedo. E assim é. Acostumei-me a acordar cedo. Mas se os horários ficaram mais fixos, a qualidade do sono não necessariamente melhorou.


    É raro que eu consiga dormir direto umas seis horas. Acordo sem ar ou num Pesadelo em plena madrugada. E tenho sessões de Insônia. Vou ler um livro ou ver vídeos, tipo câmeras ao redor do mundo, ou caminhadas turísticas em capitais, metrópoles, cidades históricas. Até voltar ao sono.


    Então, o sono. Quando mergulho no Sono eu adentro o Reino do Sonho, aquele aconchego nos Braços de Morpheus, the Sleepless One, o Insone. É como um ensaio para a Morte, sua irmã mais sábia, que nos concede o Descanso. Tudo isso já faz parte da Existência, a Morte vem com a Vida, e Vida brota da Morte, num ciclo eterno regido pelo Destino.


    Nos Reinos do Sonho. Você pode dar vazão aos seus mais íntimos Desejos em assombrosos e arrepiantes Delírios que a Realidade te nega continuamente. Aqui junto ao Sonho você vê suas ideias germinarem, sua Inspiração desabrochar em Escritos na parede, com línguas de Fogo e gotas de Sangue.


    Seus Desejos inalcançados geram Alucinações e Desesperos como um faminto e sedento entre uma árvore frutífera e uma fonte d’água, como um atleta obstinado que carrega sua pedra até o alto da colina apenas para vê-la rolar de volta ao sopé do monte, onde ele recomeça a carregar, sem descanso, infinitamente.


    Crimes e punições se entrelaçam, beijos e punhais se alternam, promessas e juras são mais voláteis que as Riquezas. Seus Sonhos são inconsequentes, brincam com seus Desejos, todos os homens, todas as mulheres, seres cobiçados e inalcançados, todos os tesouros além do seu toque, todas as montanhas escaladas.


    Lembranças se mesclam às Projeções, Fantasmas de planos abortados, competições nunca vencidas, derrotas sofridas e adiadas. Afetos acariciados e rejeitados. Crenças arraigadas e descartadas. Tudo no caldeirão da bruxa, do mago e dos duendes.


    Sonho te oferece tudo e muito mais. Penumbras de Vidas não vividas, crianças que não cresceram. As realidades alternadas, os caminhos não-trilhados, as possibilidades não realizadas, os muitos outros-eus espalhados pela Linha do Tempo, em Universos Paralelos, Superdimensões oníricas.


    Planetas em guerra, irmãos gêmeos, amantes e amores, sociedades distópicas, tecnologias nefastas, carreiras fracassadas de rockstars, esportistas sem fairplay. Poetas que se materializam e que se desmancham no ar.


    Filmes nunca lançados, acervo dos livros não-escritos, romances que ficaram pela metade, vídeos não editados. Uma porta se abre e você está numa viagem psicodélica qualquer, um evento apocalíptico qualquer.


    Sonho te oferece tudo, é verdade. Mas com a condição de que você rejeite a Realidade, assim como Destruição rejeitou sua Missão, e deixou tarefas para o Destino e a Morte. Em troca da Realidade de realizações e frustrações, de sucessos e fracassos, Sonho te concederá a areia mágica da surreal vida imaginária.



Jun/21



Leonardo de Magalhaens

poeta e escritor,

tradutor e crítico literário

Bacharel em Letras / FALE / UFMG







segunda-feira, 6 de junho de 2022

E aí, falou ?

 





E aí, falou?



Foi numa festa

que ela me segredou.

Tomou uns drinks

então não enrolou;

pegou-me pela mão,

discreta, não rodeou,

foi direta ao ponto,

cuidadosa assuntou,

lindosa como sempre,

não mais encabulou,

gargalhosa enfim,

(o que me deliciou)

a prosa era boa,

o causo me enlaçou,

aventurosa, disse

tudo o que lembrou,

detalhes ela sabia,

tanto que arrepiou,

e tintim por tintim,

e nem pestanejou,

digamos com certeza,

pintou e emoldurou.


E fiel aos fatos,

e não embelezou,

e sabia de tudo,

não destrambelhou,

disse o que sabia,

enfim a destravou

com a mão no peito

por pouco não sufocou,

e tudo de uma vez,

generosa, derramou,

palavras galopeiam,

já a mim espantou;

o porte de atriz,

mas não nervosou,

sem dramas ou choro,

não se impacientou,

mostrou o que pensava,

não volteou, não bufou,

tinha clareza total –

aqui não alucinou

tinha beleza fatal –

mas não danceteou.


Deliciosa, riu-se,

enfim desvelou

o fio da meada,

o que me encucou,

diante dela, atento,

nunca me chateou,

em tanta narrativa

que assim desandou,

em peripécias mil

logo me anuviou

em sorriso gentil

logo me encantou.

Em tudo pouco atentei,

no causo risadeou,

depois na encenação,

belamente, danceteou,

deitou em falação,

sutilmente, piruetou,

sem fôlego fiquei,

enquanto demorou,

e lenta, ou tristonha,

assim sem-graçou,

então pediu desculpas,

quase se ajoelhou!


Eu é que impedi,

belicosa, me tapeou!

Em tanta mudança

assim me desnorteou;

o causo não avança,

e ela se encucou,

e passou ao delírio,

ali ela embarcou,

deu risos, martírio,

muito se coceirou,

e não mais sabia,

pois embasbacou!

Até que dei o toque,

e ela se norteou,

logo tomou as rédeas,

e se banqueteou,

dadivosa, sem pressa,

todo o conto desatou

então gomo a gomo

o crime desenrolou:

no final, o gordomo

culposo, confessou!



Leonardo de Magalhaens


2022




segunda-feira, 25 de abril de 2022

Poesia da atual geração - Panorama - by LdeM

 

 


 

 

 

POESIA DA ATUAL GERAÇÃO



PANORAMA



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Poesia da atual geração


https://www.youtube.com/watch?v=s3lc51QU0Os&t=144s




Parte 2 Poesia da atual geração


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Parte 3 Poesia da atual geração


https://www.youtube.com/watch?v=eCznaWpWiCM




Parte 4 Poesia da atual geração


https://www.youtube.com/watch?v=KCexuXLvPfQ






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Outros ensaios


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obras de:::


Wilmar Silva / = Joaquim Palmeira / =Djami Sezostre


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Luiz Edmundo Alves


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João Diniz


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Salomão Sousa


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Rodrigo Starling


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Vinicius Lima


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Vera Casa Nova


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Adriana Versiani


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by LdeM