terça-feira, 17 de março de 2026

Alair e Alaor -- crônica by LdeM



 

                                           fonte da imagem: Internet [Arquidiocese de Campo Grande]


    Crônica 


    Alair e Alaor


    Conheci primeiro o Alair, aluno esperto e curioso, que não deixa de ler os capítulos antes das aulas. Depois conheci o irmão, o Alaor, que está se preparando para Enem, vestibular etc


    Aliás conheci o pai dos dois irmãos antes. Estava lá na biblioteca, em papo e prosa com a bibliotecária, quando aparece o Tiago, o pai do Alair, e apresenta um livro sobre orixás, que eu havia indicado na aula sobre religiões da África. Xangô. Iansã. Também os malês. Africanos de fé islâmica, etc


    O senhor é o professor do Alair? Queria de perguntar sobre este livro... 


    E perguntava por quais motivos o filho se dedicava àquela leitura de coisas afro etc. Primeiro não entendi onde o Sr. Tiago queria chegar. Olhava para o cidadão e via o Denzel Washington. 


    Por que o menino não poderia ler sobre cultura afro? Não entendi. Expliquei que história da África era parte do currículo. E que a obra era literatura infanto-juvenil bem didática e isenta de doutrinas etc


    Contudo o homem não me ouviu e devolveu o livro sobre orixás, mitos africanos etc. Praticamente exigiu que o filho escolhesse outro título. Não teria ali livros sobre a Bíblia? Sobre os Dez Mandamentos? Sobre a vitória de Davi contra Golias? O Templo de Salomão?


    Depois o Alair apareceu e escolheu outro livro. Não lembro qual. Espero que não seja de mitologia grega...


    Depois é que conheci o Alaor quando o irmão mais velho apareceu para buscar o menor. Muito simpático o Alaor. Parece ainda mais com o pai! Mais do que o filho do Will Smith se parece com o Will Smith...


    O moço queria saber que famigerado livro era aquele que havia irritado o pai. Falei sobre as aulas sobre história da África e as religiões e os orixás. Realmente ele fez uma cara feia. Que a família era evangélica e não tolerava estas coisas do diabo etc


    Não adiantou explicar que nada tinha a ver com diabolismos. As crenças africanas eram xamanismo ou animismo. Os orixás eram personificações de forças da natureza etc


    Não adiantou. Na reunião de pais apareceu a família. O Sr. Tiago e esposa, chamada Rute. Ela a simpatia em pessoa. Mais tolerante que o marido. 




                                                                   fonte da imagem: Internet


    Com o tempo percebi que a mãe do Alair e do Alaor era de berço evangélico. Ela nasceu batista e assim permaneceu. E ela com toda a simpatia levou o marido para o seio protestante. Marido de nome Tiago que nasceu em lar católico. As peças se encaixavam. 


    Sendo convertido pelas orações da esposa, o Sr. Tiago comprou inteiramente a fé iconoclasta a ponto de se afastar dos parentes 'idólatras', que é como ele chamava os católicos. 


    As crianças não poderiam nem saber de qualquer cultura afro que lá vinha o "é coisa do diabo!" Nada de cultura que não aquela da igreja de liturgia estadunidense. Tinha rock na igreja? Era rock gospel. Ritmos brasileiros? Nem pensar!


    Quando teve o arraial junino na escola a família não foi. Bem que o menino Alair estava curioso. Mas a família ignorou. Na semana seguinte, debaixo de uma chuva fina, encontrei os irmãos no ponto de ônibus. Alaor disse empolgado que se preparava para o Enem e vestibulares etc Elogiei os esforços do jovem. Perguntei sobre o exército etc Tudo ao mesmo tempo. Alaor preferia estudar. 


    O ônibus deles passou e fiquei pensando. Será que o pai deles era daqueles que proibiam os filhos de estudar? Tem fanático que acha que na faculdade só tem professor comunista... Desse jeito. 


    Continuei acompanhando as lições do Alair e procurava integrar o menino nos grupos de estudos. Mas se havia evento ou palestra sobre cultura afro a ausência dele era sensível. A família queria apagar a cultura negra ? Tinham vergonha da origem africana?


    Quando fui à missa num bairro próximo, no São Benedito, conheci uma família afro que mantinha as raízes africanas nas músicas das cerimônias. Ritmos e percussão de base africana acompanham a liturgia. E em conversas percebi que eles tinham as mesmas percepções e questionamentos. Por que tantos negros rejeitavam a cultura afro? 


    Na igreja este problema não existia. Lá os negros participam de uma pastoral afro e compartilham espaços de reza e divulgam a congada etc. Todos tão participativos que chegavam ao sincretismo... Aí alguns católicos mais tradicionais não gostavam. Fazer o quê?


    Conversa vem e conversa vai fui lembrando de familiares que acompanhavam as de matrizes afro, por exemplo, eram umbandistas.  E a maioria mais brancos do que eu... Os evangélicos, as pesquisas revelam, são de maioria parda e negros. 


    Na próxima reunião de pais eu abordei as atividades extracurriculares e a participação em eventos. A congada era um deles. Os pais concordaram, queriam participar -- com exceção da família do Alair e do Alaor. 


Mar 26



LdeM


Leonardo de Magalhaens

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG


https://www.youtube.com/@leonardodemagalhaensliteratura



segunda-feira, 2 de março de 2026

Vou fundar a minha igreja -- crônica by LdeM 2026

 




                                              fonte da imagem: blog Escola de Adoração



Crônica 


    Vou fundar a minha igreja


    Vou fundar a minha igreja. Foi uma decisão que eu tomei. Uma bela igreja com telão e cantores. Aliás, nem foi ideia minha, mas do Junqueira. Que num almoço no escritório começou a dizer do nada que eu era um cidadão bom de prosa, que sabia umas retóricas e fácil fácil seria advogado ou político ou pastor de igreja.


    Claro que ele, o Junqueira, falou de zoação. Nem sei o porquê. Mas a ideia ficou a girar dentro dos neurônios e de repente eu decidi colocar em teste.


    Ser advogado? Nem era a minha praia. Cuidava mais de assuntos de contabilidade etc Não tinha ânimo para estudar leis e decorar estatutos e decretos. 


    Pensei em ser político. Mas precisava saber primeiro se eu era esquerda ou direita ou centrão. Acho que sou mais centrão. 


    -- Ô Junqueira, 'cê acha que eu sou esquerda ou direita?


-- Uai, sô ! Sei não.... tem coisa que o amigo é de esquerda e tem coisa que o amigo é de direita...


    Decidi então ser de centro. Um pouco para esquerda ou um pouco para direita de acordo com o interlocutor né Mas era difícil achar meia dúzia de eleitores...


    Então sobrou ser um pastor. Mas não podia entrar numa igreja e já sentar na cadeira do senhor pastor reverendo... O pessoal certamente me lançaria nas trevas onde há choro e ranger de dentes...


    Era preciso fundar a minha igreja. Do nada tirar tudo. Nome. Registro. Linha teológica etc Foi aí que eu lembrei do Gouveia que é um advogado. E bom católico romano. O Gouveia me ouviu, mesmo sem levar a sério. E passou os conformes. 


    Era preciso um espaço. Depois permissão da prefeitura. Depois um estatuto com presidente e vice-presidente e secretário e vice-secretário e tesoureiro e vice-tesoureiro etc


    Onde eu encontraria esta galera toda? Presidente eu mesmo. Tesoureiro ? O Junqueira. Bom contador. E o secretário? Etc Passei um mês cogitando estas faltas do que fazer. 


    Precisava de um espaço e um telão e uns cantores. Eu fazia questão. O Juninho é de uma banda de pop rock.  Conversamos e decidimos preços e cachês para os músicos. Dois eram evangélicos. Ótimo. 


    O Junqueira aceitou ser tesoureiro e chamou o Lemos para secretário. O Lemos é o compadre do Junqueira e sócios num negócio de família etc Ok o Lemos era de confiança. Chamei o Gouveia para vice-secretário. Ele não levou a sério. 


    Mais um mês e os fundadores estavam prontos para assinar a papelada. Faltava o espaço e a permissão da prefeitura. E o nome da igreja e a linha teológica. O Gouveia me perguntava se eu era calvinista. Sei lá. Do Italo Calvino eu sou fã. Aquele das Cidades Invisíveis... Não era esse Calvino. 


    Aí o Gouveia perguntava se eu conhecia a Bíblia Sagrada. Expliquei que todo mundo sabe. Estamos num país cristão, ora! De budismo é que eu sabia bolotas...


    Claro que o Gouveia não estava me levando a sério. Fiquei mais teimoso e comecei a decorar uns trechos da Bíblia. Tinha Salmos e tinha Provérbios e tinha os Evangelhos. Ah e os Profetas. Daniel fazia muito sucesso.... 


    Aí três meses depois daquele falastrão do Junqueira ter a sábia ideia, e falar de zoeira, eu fundei a igreja. Num galpão que alugamos perto da área hospitalar, junto do viaduto, perto de ponto de ônibus etc Ideal.


    Qual o nome? Igreja da Labareda Divina. Lembrei da labareda por causa do Clube Labareda (se não disse, sou atleticano fanático!) Todo muito gostou do nome. Os músicos da banda adoraram. Igreja da Labareda Divina. 


    Se era calvinista? Não era. Era do povo. Sem discutir tipo de batismo e predestinação. Essas coisas deixava pro Ailton que escrevia meus sermões. O Ailton é o primo do Junqueira e gosta de ler história e muita Bíblia. Então o moço caprichava. Enchia de nomes de reis e profetas e passagens do Antigo Testamento. 


    -- É que o povo gosta mais é do Antigo Testamento né.... Sansão ... Davi enfrenta Golias... Templo de Salomão... rainha Ester  etc


    -- É que o povo não leu a Odisseia né -- eu dizia. 


    Muitas histórias bíblicas e muitas promessas. E muito jogo de luzes e um som pop rock com letras evangélicas. Os meninos chamavam de gospel


    Primeiro apareceram os trabalhadores ali da área hospitalar. Depois as famílias chegaram e atraíram mais famílias. Até mudamos os signatários fundadores. O estatuto era seguido à risca. Presidência continuava no meu nome. O Junqueira ficou um ano... depois saiu. Ele alegou falta de tempo...


    No segundo ano foi preciso um lugar maior. Aí seguimos para o outro lado da área hospitalar.... Outras famílias da região. Fiz muitas amizades. Não chamava o pessoal de discípulos ok? Eram amigos e irmãos. 


    Então eu comecei a ficar impressionado com o fenômeno todo. Pois não tinha como parar! Quem era agora diretora ou diretor queria expandir. Mais jogos de luzes e paredes pretas. Uma banda empolgada. E para expandir precisamos de dinheiro... e é campanha toda semana. 


    E nisso eu precisava de tempo e de assessoria. Contratei um bom advogado. Como é que eu ia manter os meus horários? E a contabilidade? Será que eu deixaria tudo pela.... fé?


    Era uma decisão do ano passado. O terceiro ano do fenômeno. Precisava decidir se só cuidaria da matriz e filial da igreja. Contratei um pastor. Assim eu só pregaria nos domingos e nas quartas-feiras. Com os sermões que ele escrevia. O Aílton achou que a coisa estava indo longe demais e desistiu. 


    O pessoal da banda era outro. Mas o estilo gospel continuou empolgante. Sucesso total. Quem gostava de pop rock nem precisava ir pra show. A gente já entregava o show na igreja! E a galera curtia e chamava mais jovens...


    Precisava aumentar o estacionamento. Aumentar as salinhas de venda de livros e lanches. Aumentar os jogos de luzes e o cachê dos meninos da banda. Não tinha como parar!


    Então eu que resolvi parar. Quero dizer: decidi pular do comboio em movimento. Eu seria um empresário sim, mas da minha ciência contábil. Não tinha sentido ser empresário da fé daquele povo todo!


    Pedi para sair da presidência. O pessoal achou que eu estava indo pra apostasia. Que eu precisava era montar  o terceiro templo... ou church como eles diziam... Mas não dava mais. Desci do bonde e vi o bonde subir a ladeira. 


    Hoje a Igreja da Labareda Divina tem cinco churches e nome na praça. Do meu nome nem se lembram. O Junqueira tinha razão, mas o que eu ganhei com isso? Preciso entender. Foi assim que eu fundei a minha igreja. Não tem importância se eu sou ateu.



Fev 26


LdeM 


Leonardo de Magalhaens

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Primeiro amor que não desabrochou - crônica by LdeM

 


                                                      fonte da imagem: Internet



Crônica 


    O primeiro amor que não desabrochou 



    Hoje vou contar para vocês, minhas leitoras, a história do João Carlos que ontem reencontrou, no aeroporto, a primeira namorada, o primeiro amor, que não desabrochou pois ela casou com outro.


    Conheço o meu amigo João Carlos desde o mestrado, na mesma época em que conheci a Rose, minha amiga, que casou com meu amigo! Tipo assim, fui eu mesma que formei o casal.


    -- Sabe quem eu vi ontem no aeroporto, hein, Elisa? A Carmem! Tão diferente... cabelo curto, gordinha... até com os netos!


    A Carmem é a tal primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro. Ouvi este drama umas setenta vezes nos últimos trinta anos. E que fez do João Carlos o homem rico e influente que elogiamos hoje.


    Conheci o João Carlos na faculdade de arquitetura, meio aos projetos e pesquisas de mestrado, e o jovem de vinte e poucos estava ainda sofrendo de amores perdidos. Principalmente pela primeira namorada, o primeiro amor, a Carmem.


    Pois a moça assim que se formou não demorou em casar com um homem dez anos mais velho e cheio das fortunas. Aí o João Carlos quase morreu de amor. 


    Ou ódio, pois depois disso ele jurou vingança: ficaria mais rico que o noivo e marido de sua eleita! E foi dito e feito!


    Toda a vida do João Carlos pode ser resumida em Quero ficar rico. Para mim, de família já segura e próspera financeiramente falando, foi um caso interessante, e no que eu podia acabei por ajudar.


    Jovem arquiteto, o João Carlos escolhia projetos e amizades. Sabia influenciar e ser influenciado. Criava mansões ao gosto dos ricaços da Pampulha etc


    João Carlos era um bom pai de família classe média que conseguiu os melhores contratos da construção e decoração nas últimas duas décadas como as leitoras sabem. 


    Se tem alguém que sabe negociar e investir e fazer bons amigos é o João Carlos. Sempre sabia o momento certo e a oportunidade de ouro em eventos e festas. Conheceu o João Paulo Mendes assim. Outro magnata da arquitetura. Então começou a empresa em conjunto com os bons sócios. Muito marketing e networking né. 


    Nisso o João Carlos foi abandonando as festas da vizinhança e até da família. Fez novos amigos onde tinha mais marketing e investimentos. Entrou pro mercado imobiliário e financeiro. 


    Por isso deixou a arquitetura que também em algum momento fora uma paixão. Só conservou duas paixões: a Carmem e o tango argentino. 


    João Carlos era fã de dança de salão. Ele e a Rose e eu. Era o nosso passatempo e entretenimento. Dançar um bom tango era essencial. Mas nos últimos tempos a Rose desanimou por causa da saúde e o João Carlos por causa da idade. Ele envelhece muito rápido né. 


    Por que? É o que eu disse: o homem só pensava em ficar rico. Para mim era obsessão. Eu que sempre fui bem de vida nunca entendi os arrivistas. Mas o João Carlos era um caso interessantíssimo. 


    E o meu marido também era fã do João Carlos. Meu marido, um bom marido que não está entre nós. Também  da área de investimento imobiliário. Toda a família dele aliás. Na Pampulha eles vendem e compram e alugam residências e casarões e apartamentos etc 


    Então com a nova empresa o João Carlos subiu muito e muito e foi deixando as velhas amizades. Só andava com os doutores e investidores e esnobava os bacharéis e mestres. Virou honoris causa. Virou financiador de campanhas de vereadores e prefeitos e deputados etc


    Mas a saúde do João Carlos não ajudava. Muito estresse e insônia. Salvava um pouco o tango argentino. Mas ele nunca se conformou com a perda do primeiro amor.


    João Carlos era fanático por dinheiro? Mais fanático pela primeira namorada! Sabia que ela estava bem casada, com um homem rico e influente, dois filhos e uma filha, com casa de campo e casa na praia.


    Então foi lá o João Carlos comprar casa de campo e casa na praia. Foi gastar dinheiro com reformas etc Foi perder tempo e dinheiro. Raramente saía de BH. Uma vez por ano Bahia ou Guarapari. Enquanto nas férias, ele levava notebook e continuava comprando e vendendo e alugando.


    Os amigos dele não o entendiam. Porque eles já tinham dinheiro. Minha família tem dinheiro. A família do meu marido tem dinheiro. Então nem falava em dinheiro: só investia e gastava.


    Mas o João Carlos só falava de dinheiro com juros e Bolsa e contratos e relatórios e superávits. Virou o maior amigo de um economista, o J. Souza Bastos. 


    Nossos amigos das antigas se ressentiam. O João Carlos ignorava todo mundo. Passou uma década e ele já estava em outro círculo de amigos! Amigos? Muito marketing e networking né 


    Foi quando eu conversei com a Rose a minha amiga e a mulher  do João Carlos, como sabem. Claro que ela sabia sobre a tal Carmem, mas não tudo, ou o que veio depois. Tipo o marido ficar de olho na vida da ex primeira namorada etc


    Infelizmente causei uma briga de casal e não resolvi o problema que era a obsessão.  Certamente foi ali que nossa amizade ficou abalada. 


    Ter reencontrado a primeira namorada num aeroporto Internacional foi uma ferida que se abriu no nosso João Carlos. A Carmem feliz com sua família sem neuras de dinheiro e viajando pra Disney etc


    Por isso eu foi de braços abertos quando ele ligou. Ele que estava uma temporada em Porto Seguro. Lembrou que eu, sua amiga Elisa existe, e chegou com desabafos.


    -- Ela não me reconheceu. Passou nas filas com marido e filhos e netos. Viu a fila onde eu estava com a Rose e tal. Nenhum sinal de que tenha me visto e reconhecido!


    Agora entendo o desabafo do meu amigo. Será que ele viveu para si e família? Será que viveu para agradar (em imaginação!) uma outra pessoa? Por que ele se cobrava tanto? Com quem ele competia?


    Tudo o que ele fizera a vida toda fora para impressionar aquela primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro!


Jan 26


LdeM 


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meus bons amigos -- crônica by LdeM 2026

 



                                                   fonte da imagem: Internet 


Crônica 


Meus bons amigos



"Meus bons amigos, onde estão 

Notícias de todos quero saber"

Barão Vermelho 


    Ouvindo uma velha canção rock'n'roll me lembrei dos meus bons amigos. Pessoas que conviveram comigo três décadas atrás e aqueles que conheci nas duas últimas. 


    Onde estão? Em BH ou no estrangeiro? Casados ou desquitados? Pais de família? Devotos católicos? Convertidos evangélicos? Livres ou prisioneiros?


    Lembrei do Lindomar, o companheiro dos goles nos fins de semana. Um cara do metal pesado que era de uma família do interior e que era office boy. Gastava todo o dinheiro com bebidas e mulheres. 


    Depois, da última vez que o encontrei, estava casado. Fez amizade na igreja evangélica onde tocava bateria, se converteu e casou com a filha do pastor. Conseguiu carta de indicação para trabalhar numa empresa de equipamentos para construção pesada.


    Lembrei do Luka, também músico, que virou professor e foi para Sampa e depois para o interior paulista e depois para o interior baiano. Casou e descasou. Continua professor?


    Tem também o Jovin, nome dado pela galera, no cartório era Matheus B**, não era músico, mas fanático pelo rock e que não perdia shows, seja de bandas covers até atrações internacionais. Da última vez que vi o Jovin estava casado e com um filho recém nascido. 


    Era o maior anticristo. Hoje deve estar em alguma igreja evangélica. 


    Certo dia vi a foto do Tony, o Antonio, que eu conheci na faculdade. Na rede social ele está bem-vestido. Ou virou empresário ou pastor de igreja. Ostentação ou falsa imagem? Marketing pessoal?


    Quando conheci o Tony ele era socialista militante, com camiseta do Che e pregando revolução agrária. Mas as coisas mudam, né? Incendiário aos vinte mas empresário aos quarenta. Se ele está feliz, tudo bem. 


    Era uma turma animada. O pessoal da faculdade era tudo calouro se defendendo dos veteranos. Hoje cada um para um lado; bacharel continuou amigo do bacharel. Os mestres só amigos dos que também tem mestrado. Os doutores só andam com os raros com anel de doutorado. Assim caminha a humanidade. 


    Meus bons amigos às vezes eu revejo nas redes sociais. Ou às vezes quando dou umas voltas em BH. Tempos atrás quase cumprimentei o Thales mas ele não me reconheceu. 


    Meu amigo gótico continua gótico e católico. Ele estava saindo da primeira missa da manhã. Acho que é o único que não mudou. Só não era tão católico. 


    Hoje ele também não acreditaria que sou católico. A moda agora é curtir um show na igreja evangélica de paredes pretas com projetor de luzes coloridas e enormes telas de alta resolução. 


    Meus bons amigos estão por aí cada um em sua cela acolchoada. Cada um com seus dramas e traumas e felizes de não terem os dramas dos outros, mas achando o gramado do vizinho mais verde e deslumbrante. Ou o carro do vizinho ou a mulher do vizinho ou a religião do vizinho ou os amigos do vizinho. 


    Meus bons amigos onde estão? Será que quero mesmo saber? Tenho medo de encarar seus fracassos ou invejar seus sucessos. Por isso fico longe deles e eles longe de mim.



Jan 26


LdeM 


Escritor, crítico literário 

canal Literatura Agora! no YouTube




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