segunda-feira, 13 de abril de 2026

Jornada Espiritual, Santo Graal e outros poemas by LdeM

 



                                                   fonte da imagem: ecclesia.org.br


Jornada Espiritual 


"No mundo tereis aflições ",

Disse o Divino Mestre Jesus,

Na vida muitas privações,

Falsa miragem nos seduz.


Teremos força nas provações,

Guiados pela Voz amada,

A resistir às tentações 

Na dura & áspera jornada. 


Se elevar com pesar & dor,

Fiéis à Devoção eleita,

Longe da sina de pecador,


E sofrer com vida perfeita,

Seguindo os passos do Salvador,

E entrar pela Porta estreita.



Dez 25


LdeM







                                                fonte da imagem: Internet 


Santo Graal


Na Última Ceia a taça erguida

Nas santas mãos do Ungido Divino

Em Sua litúrgica Despedida 

Soou elevado e profundo hino. 


Dos Doze Apóstolos a consagrada 

A dádiva aos Nobres Cavaleiros 

Peregrinos em longa jornada

Onde somente dignos os verdadeiros.


Sangue-Real, relíquia de Jesus,

O Elixir da cura que buscamos,

Destinada aos puros Filhos da Luz,


Promessa aquela que sempre ansiamos,

O tesouro templário nos conduz:

A própria busca é o que achamos.


Mar 26


LdeM 





Domingo de Ramos


Em Louvor cantemos Hosana

Ao Cristo em Entrada triunfal --

Na Semana Santa nos irmana 

Para a sublime Missa Pascal.


À santidade nos conclama

Juntos numa Conversão real -- 

De Caridade e Fé nos inflama:

Degraus da Jornada espiritual. 


O Cristo nos passos da Paixão 

Com Reverência nos lembramos

Diante do Rei em Devoção 


'Hosana nas Alturas' cantamos

Numa só voz nossa Oração 

Em Louvor no Domingo de Ramos. 


Mar 26


LdeM 






                                         fonte da imagem: Internet



Domingo de Páscoa 


Das trevas resplandeceu a Luz 

No brilhar do Círio Pascal

E Fulgor jamais se viu igual 

Ao ressurgir do Senhor Jesus!


Sua santa Face em Beleza reluz

Quando venceu o laço mortal

E Glória jamais se viu igual 

A do Salvador que nos conduz!


Fé se funda na Ressurreição,

Vitória de Jesus nos governa

Longe da trilha de maldição,


Hoje escolhamos a Voz fraterna,

Daquele que renova Benção 

Na Esperança de Vida Eterna!


Abr 26


LdeM 





A Morte perdeu o Domínio 


Oh Morte, não seja tão orgulhosa, 

Não venha nesta Figura medonha, 

Em vão ares de Dama majestosa, 

Com a sua pálida Face tristonha.


De caveiras e ossos, Veste charmosa, 

Numa Catedral de crânios macabra, 

Adentra na Penumbra sulfurosa,

Tenha modos e o novo Túmulo abra:


Ecoam numa Cripta assustadora, 

Os Passos de nova Soberania, 

Renascida a Vítima Redentora!


Qualquer Domínio perdeste no Dia, 

Quando livre da Mortalha opressora,

Do Sepulcro o Salvador ressurgia!



(Inspirado levemente 

 em John Donne e Dylan Thomas)


Abr 26 


LdeM






LdeM 

Leonardo de Magalhaens

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG 

Servidor público PBH


segunda-feira, 23 de março de 2026

No Ateliê [em memória de Neuza Ladeira] Crônica by LdeM

 




    Crônica 


    No ateliê 


    Nesta semana fomos surpreendidos pela triste notícia: o falecimento da artista plástica e poeta Neuza Ladeira, que marcou presença na cena cultural desde os anos 1980.


    Recebemos os informes e pêsames, nas redes sociais , de artistas e poetas, dentre eles e elas, Rogério Salgado, Marco Llobus, Ricardo Evangelista, Gisele Starling etc que ressalta ainda mais a perda.


    Lembro das vezes em que fui recebido na residência e ateliê da poeta e artista, no conforto da Pampulha, belíssima região de BH, como sabem. Lá no ateliê a gente se sente entrando numa personalidade ou numa mente. Um mundo de arte.


    O estilo da pintora é de beleza e também estranheza. Tem flores,  mas são deformadas. Tem imagens ou pessoas, mas fora de foco.  Parecem imagens de sonhos. Ou pesadelos. 


    Quadros muito perturbadores lembram um Van Gogh ou um Francis Bacon, com as devidas proporções e comparações. São estranhos ao olhar e revelam desconforto: a artista sofreu muito na vida. 


    Andando pelo ateliê, podemos ouvir seus relatos e testemunhos da época do regime de chumbo, o pesadelo de 21 anos que sangrou o Brasil entre os anos 60 a 80.


    A poeta e artista plástica Neuza Ladeira sofreu violência, tanto moral quanto física. Ela participava da resistência contra os desmandos da ditadura. Ela sofreu as consequências: prisão e tortura. 


    Eu já havia ouvido estes relatos em momentos e eventos anteriores. A feira do livro na Serraria ou no sarau do Automóvel Clube, nos idos de 2003 a 2005, quando entrei para a cena cultural em BH, vindo de Betim, onde vive minha família. 


    Eu era um caipira em BH, cidade onde nasci e onde não cresci. E pessoas tais como a Neuza Ladeira e o Wilmar Silva, hoje Djami Sezostre, me ajudaram muito, em convites para eventos e saraus. Lembro que tive o prazer de ver pessoalmente dois ícones hoje da literatura portuguesa, valter hugo mãe e José Luís Peixoto. 


    E lá estava a poeta e artista Neuza Ladeira entre prosas e apresentações, junto com o Wilmar hoje Djami e o poeta e fotógrafo Luiz Edmundo Alves. Fina flor da poética mineira, ao lado do já citado Rogério Salgado. 


    Claro que alguns poetas não se enturmaram e aí surgiram as sementes das futuras tretas nos saraus das Terças Poéticas nos jardins internos do Palácio das Artes, o altar-mor da cena artística mineira. 


    No ateliê, conversamos sobre a poesia e as artes plásticas. Sobre as máscaras sociais e as hipocrisias. Sobre as desigualdades e repressões. Sobre a fé e espiritualidade. 



Mas sou eu uma bomba

lapidada 

em um aparelho

de cabeça para baixo

mãos e pés amarrados 

à mercê

Mas sou eu uma bomba 

aniquilada pelo inimigo

que insiste

em matar o que não morre

Mas sou eu uma bomba

solta na vida

tendo que sobreviver

num mundo hostil

Mas sou eu uma bomba

explodindo na palavra

feita de pólvora fugaz


[Neuza Ladeira]



                                                 fonte da imagem: cortesia do poeta Rogério Salgado


    Lembro de tudo isso agora em flashes ao pesar a perda , para a arte e memória de nossa época, as últimas seis décadas , que representa o silêncio repentino de uma artista do porte da Neuza Ladeira. 


    “Toda uma vida que vivi está nas telas. A minha pintura retrata mitos, magias, realidades, nostalgias, natureza e a beleza das cores. Sempre em ebulição, vivo a diversidade dos temas e nunca repito um quadro. Cada um é um universo fechado em si mesmo.” [depoimento da autora]


    Em seu ateliê, a artista sofria e forjava seus belos e atormentados quadros que depois apreciamos na exposição em galeria pública ali na subida da Rua da Bahia, bem defronte da Academia Mineira de Letras. Se não me engano ficou em exposição por um mês. Passei lá uma amanhã, meio nublada e meio chuviscante, a adentrar aquele universo que só percebera em formação lá no ateliê, este mesmo do título da crônica.


    Poderia dizer e registrar muito sobre a vida e obra da artista plástica e poeta Neuza Ladeira mas não é meu propósito aqui uma biografia. Trata-se mais de uma memorabilia e uma despedida. 







    Neuza Ladeira, artista e mulher muito espiritualizada, que esperamos tenha encontrado a paz que o mundo penumbroso da matéria não a ofertou. Que a poeta possa descansar em paz e que  nosso Senhor conforte e abençoe a família. 



Mar 26


LdeM 


Leonardo de Magalhaens

Escritor, poeta, crítico literário


LdeM Literatura Agora!

 no YouTube


terça-feira, 17 de março de 2026

Alair e Alaor -- crônica by LdeM



 

                                           fonte da imagem: Internet [Arquidiocese de Campo Grande]


    Crônica 


    Alair e Alaor


    Conheci primeiro o Alair, aluno esperto e curioso, que não deixa de ler os capítulos antes das aulas. Depois conheci o irmão, o Alaor, que está se preparando para Enem, vestibular etc


    Aliás conheci o pai dos dois irmãos antes. Estava lá na biblioteca, em papo e prosa com a bibliotecária, quando aparece o Tiago, o pai do Alair, e apresenta um livro sobre orixás, que eu havia indicado na aula sobre religiões da África. Xangô. Iansã. Também os malês. Africanos de fé islâmica, etc


    O senhor é o professor do Alair? Queria de perguntar sobre este livro... 


    E perguntava por quais motivos o filho se dedicava àquela leitura de coisas afro etc. Primeiro não entendi onde o Sr. Tiago queria chegar. Olhava para o cidadão e via o Denzel Washington. 


    Por que o menino não poderia ler sobre cultura afro? Não entendi. Expliquei que história da África era parte do currículo. E que a obra era literatura infanto-juvenil bem didática e isenta de doutrinas etc


    Contudo o homem não me ouviu e devolveu o livro sobre orixás, mitos africanos etc. Praticamente exigiu que o filho escolhesse outro título. Não teria ali livros sobre a Bíblia? Sobre os Dez Mandamentos? Sobre a vitória de Davi contra Golias? O Templo de Salomão?


    Depois o Alair apareceu e escolheu outro livro. Não lembro qual. Espero que não seja de mitologia grega...


    Depois é que conheci o Alaor quando o irmão mais velho apareceu para buscar o menor. Muito simpático o Alaor. Parece ainda mais com o pai! Mais do que o filho do Will Smith se parece com o Will Smith...


    O moço queria saber que famigerado livro era aquele que havia irritado o pai. Falei sobre as aulas sobre história da África e as religiões e os orixás. Realmente ele fez uma cara feia. Que a família era evangélica e não tolerava estas coisas do diabo etc


    Não adiantou explicar que nada tinha a ver com diabolismos. As crenças africanas eram xamanismo ou animismo. Os orixás eram personificações de forças da natureza etc


    Não adiantou. Na reunião de pais apareceu a família. O Sr. Tiago e esposa, chamada Rute. Ela a simpatia em pessoa. Mais tolerante que o marido. 




                                                                   fonte da imagem: Internet


    Com o tempo percebi que a mãe do Alair e do Alaor era de berço evangélico. Ela nasceu batista e assim permaneceu. E ela com toda a simpatia levou o marido para o seio protestante. Marido de nome Tiago que nasceu em lar católico. As peças se encaixavam. 


    Sendo convertido pelas orações da esposa, o Sr. Tiago comprou inteiramente a fé iconoclasta a ponto de se afastar dos parentes 'idólatras', que é como ele chamava os católicos. 


    As crianças não poderiam nem saber de qualquer cultura afro que lá vinha o "é coisa do diabo!" Nada de cultura que não aquela da igreja de liturgia estadunidense. Tinha rock na igreja? Era rock gospel. Ritmos brasileiros? Nem pensar!


    Quando teve o arraial junino na escola a família não foi. Bem que o menino Alair estava curioso. Mas a família ignorou. Na semana seguinte, debaixo de uma chuva fina, encontrei os irmãos no ponto de ônibus. Alaor disse empolgado que se preparava para o Enem e vestibulares etc Elogiei os esforços do jovem. Perguntei sobre o exército etc Tudo ao mesmo tempo. Alaor preferia estudar. 


    O ônibus deles passou e fiquei pensando. Será que o pai deles era daqueles que proibiam os filhos de estudar? Tem fanático que acha que na faculdade só tem professor comunista... Desse jeito. 


    Continuei acompanhando as lições do Alair e procurava integrar o menino nos grupos de estudos. Mas se havia evento ou palestra sobre cultura afro a ausência dele era sensível. A família queria apagar a cultura negra ? Tinham vergonha da origem africana?


    Quando fui à missa num bairro próximo, no São Benedito, conheci uma família afro que mantinha as raízes africanas nas músicas das cerimônias. Ritmos e percussão de base africana acompanham a liturgia. E em conversas percebi que eles tinham as mesmas percepções e questionamentos. Por que tantos negros rejeitavam a cultura afro? 


    Na igreja este problema não existia. Lá os negros participam de uma pastoral afro e compartilham espaços de reza e divulgam a congada etc. Todos tão participativos que chegavam ao sincretismo... Aí alguns católicos mais tradicionais não gostavam. Fazer o quê?


    Conversa vem e conversa vai fui lembrando de familiares que acompanhavam as de matrizes afro, por exemplo, eram umbandistas.  E a maioria mais brancos do que eu... Os evangélicos, as pesquisas revelam, são de maioria parda e negros. 


    Na próxima reunião de pais eu abordei as atividades extracurriculares e a participação em eventos. A congada era um deles. Os pais concordaram, queriam participar -- com exceção da família do Alair e do Alaor. 


Mar 26



LdeM


Leonardo de Magalhaens

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG


https://www.youtube.com/@leonardodemagalhaensliteratura