segunda-feira, 2 de março de 2026

Vou fundar a minha igreja -- crônica by LdeM 2026

 




                                              fonte da imagem: blog Escola de Adoração



Crônica 


    Vou fundar a minha igreja


    Vou fundar a minha igreja. Foi uma decisão que eu tomei. Uma bela igreja com telão e cantores. Aliás, nem foi ideia minha, mas do Junqueira. Que num almoço no escritório começou a dizer do nada que eu era um cidadão bom de prosa, que sabia umas retóricas e fácil fácil seria advogado ou político ou pastor de igreja.


    Claro que ele, o Junqueira, falou de zoação. Nem sei o porquê. Mas a ideia ficou a girar dentro dos neurônios e de repente eu decidi colocar em teste.


    Ser advogado? Nem era a minha praia. Cuidava mais de assuntos de contabilidade etc Não tinha ânimo para estudar leis e decorar estatutos e decretos. 


    Pensei em ser político. Mas precisava saber primeiro se eu era esquerda ou direita ou centrão. Acho que sou mais centrão. 


    -- Ô Junqueira, 'cê acha que eu sou esquerda ou direita?


-- Uai, sô ! Sei não.... tem coisa que o amigo é de esquerda e tem coisa que o amigo é de direita...


    Decidi então ser de centro. Um pouco para esquerda ou um pouco para direita de acordo com o interlocutor né Mas era difícil achar meia dúzia de eleitores...


    Então sobrou ser um pastor. Mas não podia entrar numa igreja e já sentar na cadeira do senhor pastor reverendo... O pessoal certamente me lançaria nas trevas onde há choro e ranger de dentes...


    Era preciso fundar a minha igreja. Do nada tirar tudo. Nome. Registro. Linha teológica etc Foi aí que eu lembrei do Gouveia que é um advogado. E bom católico romano. O Gouveia me ouviu, mesmo sem levar a sério. E passou os conformes. 


    Era preciso um espaço. Depois permissão da prefeitura. Depois um estatuto com presidente e vice-presidente e secretário e vice-secretário e tesoureiro e vice-tesoureiro etc


    Onde eu encontraria esta galera toda? Presidente eu mesmo. Tesoureiro ? O Junqueira. Bom contador. E o secretário? Etc Passei um mês cogitando estas faltas do que fazer. 


    Precisava de um espaço e um telão e uns cantores. Eu fazia questão. O Juninho é de uma banda de pop rock.  Conversamos e decidimos preços e cachês para os músicos. Dois eram evangélicos. Ótimo. 


    O Junqueira aceitou ser tesoureiro e chamou o Lemos para secretário. O Lemos é o compadre do Junqueira e sócios num negócio de família etc Ok o Lemos era de confiança. Chamei o Gouveia para vice-secretário. Ele não levou a sério. 


    Mais um mês e os fundadores estavam prontos para assinar a papelada. Faltava o espaço e a permissão da prefeitura. E o nome da igreja e a linha teológica. O Gouveia me perguntava se eu era calvinista. Sei lá. Do Italo Calvino eu sou fã. Aquele das Cidades Invisíveis... Não era esse Calvino. 


    Aí o Gouveia perguntava se eu conhecia a Bíblia Sagrada. Expliquei que todo mundo sabe. Estamos num país cristão, ora! De budismo é que eu sabia bolotas...


    Claro que o Gouveia não estava me levando a sério. Fiquei mais teimoso e comecei a decorar uns trechos da Bíblia. Tinha Salmos e tinha Provérbios e tinha os Evangelhos. Ah e os Profetas. Daniel fazia muito sucesso.... 


    Aí três meses depois daquele falastrão do Junqueira ter a sábia ideia, e falar de zoeira, eu fundei a igreja. Num galpão que alugamos perto da área hospitalar, junto do viaduto, perto de ponto de ônibus etc Ideal.


    Qual o nome? Igreja da Labareda Divina. Lembrei da labareda por causa do Clube Labareda (se não disse, sou atleticano fanático!) Todo muito gostou do nome. Os músicos da banda adoraram. Igreja da Labareda Divina. 


    Se era calvinista? Não era. Era do povo. Sem discutir tipo de batismo e predestinação. Essas coisas deixava pro Ailton que escrevia meus sermões. O Ailton é o primo do Junqueira e gosta de ler história e muita Bíblia. Então o moço caprichava. Enchia de nomes de reis e profetas e passagens do Antigo Testamento. 


    -- É que o povo gosta mais é do Antigo Testamento né.... Sansão ... Davi enfrenta Golias... Templo de Salomão... rainha Ester  etc


    -- É que o povo não leu a Odisseia né -- eu dizia. 


    Muitas histórias bíblicas e muitas promessas. E muito jogo de luzes e um som pop rock com letras evangélicas. Os meninos chamavam de gospel


    Primeiro apareceram os trabalhadores ali da área hospitalar. Depois as famílias chegaram e atraíram mais famílias. Até mudamos os signatários fundadores. O estatuto era seguido à risca. Presidência continuava no meu nome. O Junqueira ficou um ano... depois saiu. Ele alegou falta de tempo...


    No segundo ano foi preciso um lugar maior. Aí seguimos para o outro lado da área hospitalar.... Outras famílias da região. Fiz muitas amizades. Não chamava o pessoal de discípulos ok? Eram amigos e irmãos. 


    Então eu comecei a ficar impressionado com o fenômeno todo. Pois não tinha como parar! Quem era agora diretora ou diretor queria expandir. Mais jogos de luzes e paredes pretas. Uma banda empolgada. E para expandir precisamos de dinheiro... e é campanha toda semana. 


    E nisso eu precisava de tempo e de assessoria. Contratei um bom advogado. Como é que eu ia manter os meus horários? E a contabilidade? Será que eu deixaria tudo pela.... fé?


    Era uma decisão do ano passado. O terceiro ano do fenômeno. Precisava decidir se só cuidaria da matriz e filial da igreja. Contratei um pastor. Assim eu só pregaria nos domingos e nas quartas-feiras. Com os sermões que ele escrevia. O Aílton achou que a coisa estava indo longe demais e desistiu. 


    O pessoal da banda era outro. Mas o estilo gospel continuou empolgante. Sucesso total. Quem gostava de pop rock nem precisava ir pra show. A gente já entregava o show na igreja! E a galera curtia e chamava mais jovens...


    Precisava aumentar o estacionamento. Aumentar as salinhas de venda de livros e lanches. Aumentar os jogos de luzes e o cachê dos meninos da banda. Não tinha como parar!


    Então eu que resolvi parar. Quero dizer: decidi pular do comboio em movimento. Eu seria um empresário sim, mas da minha ciência contábil. Não tinha sentido ser empresário da fé daquele povo todo!


    Pedi para sair da presidência. O pessoal achou que eu estava indo pra apostasia. Que eu precisava era montar  o terceiro templo... ou church como eles diziam... Mas não dava mais. Desci do bonde e vi o bonde subir a ladeira. 


    Hoje a Igreja da Labareda Divina tem cinco churches e nome na praça. Do meu nome nem se lembram. O Junqueira tinha razão, mas o que eu ganhei com isso? Preciso entender. Foi assim que eu fundei a minha igreja. Não tem importância se eu sou ateu.



Fev 26


LdeM 


Leonardo de Magalhaens

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Primeiro amor que não desabrochou - crônica by LdeM

 


                                                      fonte da imagem: Internet



Crônica 


    O primeiro amor que não desabrochou 



    Hoje vou contar para vocês, minhas leitoras, a história do João Carlos que ontem reencontrou, no aeroporto, a primeira namorada, o primeiro amor, que não desabrochou pois ela casou com outro.


    Conheço o meu amigo João Carlos desde o mestrado, na mesma época em que conheci a Rose, minha amiga, que casou com meu amigo! Tipo assim, fui eu mesma que formei o casal.


    -- Sabe quem eu vi ontem no aeroporto, hein, Elisa? A Carmem! Tão diferente... cabelo curto, gordinha... até com os netos!


    A Carmem é a tal primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro. Ouvi este drama umas setenta vezes nos últimos trinta anos. E que fez do João Carlos o homem rico e influente que elogiamos hoje.


    Conheci o João Carlos na faculdade de arquitetura, meio aos projetos e pesquisas de mestrado, e o jovem de vinte e poucos estava ainda sofrendo de amores perdidos. Principalmente pela primeira namorada, o primeiro amor, a Carmem.


    Pois a moça assim que se formou não demorou em casar com um homem dez anos mais velho e cheio das fortunas. Aí o João Carlos quase morreu de amor. 


    Ou ódio, pois depois disso ele jurou vingança: ficaria mais rico que o noivo e marido de sua eleita! E foi dito e feito!


    Toda a vida do João Carlos pode ser resumida em Quero ficar rico. Para mim, de família já segura e próspera financeiramente falando, foi um caso interessante, e no que eu podia acabei por ajudar.


    Jovem arquiteto, o João Carlos escolhia projetos e amizades. Sabia influenciar e ser influenciado. Criava mansões ao gosto dos ricaços da Pampulha etc


    João Carlos era um bom pai de família classe média que conseguiu os melhores contratos da construção e decoração nas últimas duas décadas como as leitoras sabem. 


    Se tem alguém que sabe negociar e investir e fazer bons amigos é o João Carlos. Sempre sabia o momento certo e a oportunidade de ouro em eventos e festas. Conheceu o João Paulo Mendes assim. Outro magnata da arquitetura. Então começou a empresa em conjunto com os bons sócios. Muito marketing e networking né. 


    Nisso o João Carlos foi abandonando as festas da vizinhança e até da família. Fez novos amigos onde tinha mais marketing e investimentos. Entrou pro mercado imobiliário e financeiro. 


    Por isso deixou a arquitetura que também em algum momento fora uma paixão. Só conservou duas paixões: a Carmem e o tango argentino. 


    João Carlos era fã de dança de salão. Ele e a Rose e eu. Era o nosso passatempo e entretenimento. Dançar um bom tango era essencial. Mas nos últimos tempos a Rose desanimou por causa da saúde e o João Carlos por causa da idade. Ele envelhece muito rápido né. 


    Por que? É o que eu disse: o homem só pensava em ficar rico. Para mim era obsessão. Eu que sempre fui bem de vida nunca entendi os arrivistas. Mas o João Carlos era um caso interessantíssimo. 


    E o meu marido também era fã do João Carlos. Meu marido, um bom marido que não está entre nós. Também  da área de investimento imobiliário. Toda a família dele aliás. Na Pampulha eles vendem e compram e alugam residências e casarões e apartamentos etc 


    Então com a nova empresa o João Carlos subiu muito e muito e foi deixando as velhas amizades. Só andava com os doutores e investidores e esnobava os bacharéis e mestres. Virou honoris causa. Virou financiador de campanhas de vereadores e prefeitos e deputados etc


    Mas a saúde do João Carlos não ajudava. Muito estresse e insônia. Salvava um pouco o tango argentino. Mas ele nunca se conformou com a perda do primeiro amor.


    João Carlos era fanático por dinheiro? Mais fanático pela primeira namorada! Sabia que ela estava bem casada, com um homem rico e influente, dois filhos e uma filha, com casa de campo e casa na praia.


    Então foi lá o João Carlos comprar casa de campo e casa na praia. Foi gastar dinheiro com reformas etc Foi perder tempo e dinheiro. Raramente saía de BH. Uma vez por ano Bahia ou Guarapari. Enquanto nas férias, ele levava notebook e continuava comprando e vendendo e alugando.


    Os amigos dele não o entendiam. Porque eles já tinham dinheiro. Minha família tem dinheiro. A família do meu marido tem dinheiro. Então nem falava em dinheiro: só investia e gastava.


    Mas o João Carlos só falava de dinheiro com juros e Bolsa e contratos e relatórios e superávits. Virou o maior amigo de um economista, o J. Souza Bastos. 


    Nossos amigos das antigas se ressentiam. O João Carlos ignorava todo mundo. Passou uma década e ele já estava em outro círculo de amigos! Amigos? Muito marketing e networking né 


    Foi quando eu conversei com a Rose a minha amiga e a mulher  do João Carlos, como sabem. Claro que ela sabia sobre a tal Carmem, mas não tudo, ou o que veio depois. Tipo o marido ficar de olho na vida da ex primeira namorada etc


    Infelizmente causei uma briga de casal e não resolvi o problema que era a obsessão.  Certamente foi ali que nossa amizade ficou abalada. 


    Ter reencontrado a primeira namorada num aeroporto Internacional foi uma ferida que se abriu no nosso João Carlos. A Carmem feliz com sua família sem neuras de dinheiro e viajando pra Disney etc


    Por isso eu foi de braços abertos quando ele ligou. Ele que estava uma temporada em Porto Seguro. Lembrou que eu, sua amiga Elisa existe, e chegou com desabafos.


    -- Ela não me reconheceu. Passou nas filas com marido e filhos e netos. Viu a fila onde eu estava com a Rose e tal. Nenhum sinal de que tenha me visto e reconhecido!


    Agora entendo o desabafo do meu amigo. Será que ele viveu para si e família? Será que viveu para agradar (em imaginação!) uma outra pessoa? Por que ele se cobrava tanto? Com quem ele competia?


    Tudo o que ele fizera a vida toda fora para impressionar aquela primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro!


Jan 26


LdeM 


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meus bons amigos -- crônica by LdeM 2026

 



                                                   fonte da imagem: Internet 


Crônica 


Meus bons amigos



"Meus bons amigos, onde estão 

Notícias de todos quero saber"

Barão Vermelho 


    Ouvindo uma velha canção rock'n'roll me lembrei dos meus bons amigos. Pessoas que conviveram comigo três décadas atrás e aqueles que conheci nas duas últimas. 


    Onde estão? Em BH ou no estrangeiro? Casados ou desquitados? Pais de família? Devotos católicos? Convertidos evangélicos? Livres ou prisioneiros?


    Lembrei do Lindomar, o companheiro dos goles nos fins de semana. Um cara do metal pesado que era de uma família do interior e que era office boy. Gastava todo o dinheiro com bebidas e mulheres. 


    Depois, da última vez que o encontrei, estava casado. Fez amizade na igreja evangélica onde tocava bateria, se converteu e casou com a filha do pastor. Conseguiu carta de indicação para trabalhar numa empresa de equipamentos para construção pesada.


    Lembrei do Luka, também músico, que virou professor e foi para Sampa e depois para o interior paulista e depois para o interior baiano. Casou e descasou. Continua professor?


    Tem também o Jovin, nome dado pela galera, no cartório era Matheus B**, não era músico, mas fanático pelo rock e que não perdia shows, seja de bandas covers até atrações internacionais. Da última vez que vi o Jovin estava casado e com um filho recém nascido. 


    Era o maior anticristo. Hoje deve estar em alguma igreja evangélica. 


    Certo dia vi a foto do Tony, o Antonio, que eu conheci na faculdade. Na rede social ele está bem-vestido. Ou virou empresário ou pastor de igreja. Ostentação ou falsa imagem? Marketing pessoal?


    Quando conheci o Tony ele era socialista militante, com camiseta do Che e pregando revolução agrária. Mas as coisas mudam, né? Incendiário aos vinte mas empresário aos quarenta. Se ele está feliz, tudo bem. 


    Era uma turma animada. O pessoal da faculdade era tudo calouro se defendendo dos veteranos. Hoje cada um para um lado; bacharel continuou amigo do bacharel. Os mestres só amigos dos que também tem mestrado. Os doutores só andam com os raros com anel de doutorado. Assim caminha a humanidade. 


    Meus bons amigos às vezes eu revejo nas redes sociais. Ou às vezes quando dou umas voltas em BH. Tempos atrás quase cumprimentei o Thales mas ele não me reconheceu. 


    Meu amigo gótico continua gótico e católico. Ele estava saindo da primeira missa da manhã. Acho que é o único que não mudou. Só não era tão católico. 


    Hoje ele também não acreditaria que sou católico. A moda agora é curtir um show na igreja evangélica de paredes pretas com projetor de luzes coloridas e enormes telas de alta resolução. 


    Meus bons amigos estão por aí cada um em sua cela acolchoada. Cada um com seus dramas e traumas e felizes de não terem os dramas dos outros, mas achando o gramado do vizinho mais verde e deslumbrante. Ou o carro do vizinho ou a mulher do vizinho ou a religião do vizinho ou os amigos do vizinho. 


    Meus bons amigos onde estão? Será que quero mesmo saber? Tenho medo de encarar seus fracassos ou invejar seus sucessos. Por isso fico longe deles e eles longe de mim.



Jan 26


LdeM 


Escritor, crítico literário 

canal Literatura Agora! no YouTube




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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O Outro -- crônica by LdeM

 



                                     fonte da imagem: Internet

 

Crônica


    O outro


    "O homem de ontem não é o homem de hoje"


    O que aconteceu até agora me apavora como um pesadelo, daqueles que se repetem, até você acordar como um transe. Aconteceu hoje mesmo, por isso escrevo isso como um desabafo, uma confissão, um mea culpa.


    Hoje cedo fui passear na Lagoa do Nado, aliás no parque, porque a Lagoa nem existe. Mas lembro da lagoa tal qual ela existia. Um espelho d'água visitado por patos e outros pássaros em mergulhos em busca dos peixes, entre os cascos de tartarugas. 


    Vou narrar com calma o que aconteceu desde que lá cheguei. Ouvia uma música clássica, Bach ou Handel, tinha um coral, lembrava uma ópera, uma pérola sonora. E folheava um volume de Confissões, de Santo Agostinho. 


    Pois bem. Andava tão concentrado ou distraído, não sei, que não vi um certo jovem que passava rumo à antiga lagoa. Só reparei nisso quando me sentei a sombra do casarão. 


    A figura do jovem me parecia familiar. Alto e magro e de roupas escuras. Pálido e de óculos escuros. Cabelos longos e carregavam alguns livros. Ouvia algo pois notei os fones de ouvido. 


    Muito familiar aquele vulto. Até que ele voltou e ficou admirando o casarão.  Assim que o vi ao meu lado me arrepiei assustado: estaria num sonho?


    Pois aquele jovem era igual a mim! Não de agora, mas daquela mesma época em que conheci pela primeira vez a Lagoa do Nado !


    Foi nos idos de 2004. Portanto se passaram duas décadas e muitas mudanças. Naquela época eu começava a participar de saraus etc desde as noitadas líricas e góticas na penumbra da Matriz lá no Terminal Turístico. 


    Muitos saraus na Lagoa do Nado me atraíram naquela época antes de que eu finalmente me mudasse para a região, quando no início da carreira de servidor público. 


    Eu via assim um arco de duas décadas se fechando quando o jovem se aproximou e eu perguntei se ele pretendia participar do sarau etc


    O jovem que era eu mesmo olhou direto para mim e, sem me reconhecer, disse algum monossílabo que me soou como Tomara! E fez um movimento de passar adiante como se desviando e visivelmente me evitando. Sim, era eu mesmo: do jeito mesmo que eu evitava as pessoas. Quando jovem não tinha paciência com as pessoas. Hoje mesmo não sei se tenho mais paciência. Sou apenas mais resignado. 


    O jovem diante de mim nada tinha de resignação. Era um revoltado Ivan Karamazov contra o Eterno, o Soberano Cruel do Universo. Um Ivan Karamazov que andava todo de preto em luto por toda a humanidade. 


    Claro que tentei conversar comigo mesmo mas sabia bem como eu era -- de pouca conversa. Ainda mais com estranhos. Por que um jovem ouviria este velho de mais de quarenta?


    Queria porque queria avisar ao meu eu de antes o quanto ele sofreria na vida. Aprenda a fazer amigos! Era o que queria avisar ao pobre enlutado.


    Faça amigos nos saraus. Faça amigos na faculdade. Faça amigos na família. Faça amigos na vizinhança. Faça um milhão de amigos!


    Claro que o jovem gótico, o poeta revoltado  contra Deus e o mundo, não me daria ouvidos. Eu não ouvia nem meu pai! Eu nem conversava com meu pai! Por que ouviria um estranho? 


    Lembrei de meu pai. E tive um olhar paternal para aquele eu de antes. Claro que gostaria de dizer ao jovem algumas verdades. Mas ele não me ouviria assim como eu não ouvia ao meu pai.


    Culpar o meu pai? Por que ele me obrigava a ir pra igreja? Quando eu queria ir pro cinema ou balada... Culpar o meu pai? Por que ele queria me proteger dos vícios?


    Os filhos não ouvem os pais -- por isso repetem os mesmos erros. Queria dizer isso ao jovem poeta, meu eu de ontem. Ele não daria ouvidos. Assim como identifiquei a Divindade com a autoridade paterna, e aboli ambas, eu desprezava todo conselho, toda advertência. 


    Moço, faça mais amigos. Moço, seja mais tolerante. Moço, pare de julgar as pessoas! Eu diria tudo isso a ele como uma boa figura paterna. E me arriscaria a levar um desaforo pra casa.


    O jovem de luto então me olhava mas sem me reconhecer. Claro, como poderia ele se ver neste homem de primeiros cabelos brancos, quieto e cordial, um servidor público tolerante, um pai de família católico que agora falava em disciplina e tradição!


    Aquele jovem anarquista  pós-punk, dado às leituras existencialistas e niilistas, não me daria ouvidos. Ele gostaria antes de cuspir-me na cara: seu velho reaça ! Seu funcionário público em sua cela acolchoada! Seu mantenedor da nossa injusta ordem social! 


    Ele esperaria antes que eu votasse na direita ou fosse dali fazer campanha para algum pastor evangélico ou entrar na fila para beijar a mão do bispo. Ele não me conseguiu se reconhecer neste homem de hoje: seu oposto!


    Tanto que o jovem se afastou com visível repugnância daquele homem funcionário público cumpridor dos deveres e da moral e dos costumes. Ele que seguia ouvindo metal pesado e bandas góticas e lendo brochuras de Nietzsche e de Albert Camus. Um jovem que considera o cristianismo uma doença da Vontade! E a figura paterna de Deus como um Ditador!


    Queria gritar ao jovem: Cuidado, você vai sofrer muito na vida! Você vai negar e se negar a cada controvérsia e tribulação! Você vai curvar a dura cerviz! Você vai ser resignado! Em suma: você será EU!


    E o jovem se afastou e eu me afastei.  Sentei junto ao casarão e tentei ler as páginas do Santo Agostinho mas em vão. Tentei ouvir um oratório mas em vão. Tentei me encontrar mas em vão. 


    Aquele jovem jamais me entenderia. Só daqui a uma ou duas décadas. E eu agora não poderia acolher aquele jovem revoltado e arrogante, eu que sou este humilde servidor. 



Jan 26


LdeM 


Ps. Paródia do conto "O outro"

De Jorge Luís Borges

In O Livro de Areia

1975