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Crônica
Dark romance e
o ghostface bad boy
na bienal SP
Visitei, ainda que virtualmente, os labirintos da atual bienal do livro em São Paulo e me perdi na multidão. Muita fantasia e sci fi e quadrinhos e autoajuda e best sellers etc Muita gente saindo para comprar livros e abraçar mascarados.
Ok. Comprar livros, tudo certo. Mas que lance é este de abraçar (e até levar tapas e beijos?) de mascarados? É carnaval fora de época? É carnaval de Veneza?
Não. Trata-se de um stand Fruto Proibido que divulga 'dark romance' para as moçoilas da geração ZZ (sei lá) que adoram um mocinho mais bad boy do que angelical.
Dizem que é um tipo de romance para góticas modernas de trinta anos, as balzaquianas, como sabemos, que cresceram lendo e vendo a Bella e o Edward de "Crepúsculo" e assemelhados , que alimentam fantasias de dominação e submissão com ares de bondage e risco de morte. Para fãs da Família Addams e romance noir dos anos 30 e 40 com detetives piores que gângsters.
Poisé. Góticas na minha época não eram estas mocinhas de hoje com conteúdo adulto nas redes sociais em roupas sexy e bustos semidesnudos etc Nada disso. Pelo contrário, minhas amigas góticas eram as freak as rejeitadas as melancólicas etc Pois acontecia que as meninas sensuais que atraiam os meninos, os de hormônios a mil, eram as moçoilas do samba, do axé e do funk as tchuchucas poderosas etc
E nem existia este hype de dark romance ou romance para darks. O que seria exatamente? Dark romance com vampiros juvenis e lobisomens fitness de academia sem camisa é que virou a chave ao longo dos anos 2000. O "Morro dos ventos uivantes" virou conto de fábulas perto dos musculosos bad boys em tons de cinza ensinando fetiches novos para as novas gerações de moçoilas hormônios bombando.
O que não pode bombar é o relacionamento, ainda mais em época de violência contra a mulher, dentro e fora de casa, ao ponto de números alarmantes de feminicídio. Não é brincadeira com fetiches sexuais de patricinhas de shopping center, é caso de polícia.
Que um mascarado de filme Pânico aqueça a borbulhar os hormônios das mocinhas patrícias de shopping center é de causar espanto ou crise de riso? É sinal de decadência moral ou de um novo filão nos subgêneros da ficção de terror e fetiches?
E se descobrirem quem é o tal mascarado fantasma? Um abusador de mulheres ou veiculador de fotos íntimas ou influencer de canal red pill (? É daqueles caras que só ficam falando de mulheres, com tom totalmente desprezo e misoginia)? E se for? Um cara que batia na mulher e fugiu de ser preso?
Então vai dar mais realidade? Vai ter mais tensão e tesão? Vai aumentar a fila das 'góticas' modernas em busca de um bad boy? Vai receber cartas apaixonadas na prisão? Vai ganhar um seriado de serial killer? Ou uma vaga no próximo previsível e inevitável BBB?
Enquanto isso as mulheres seguem sendo agredidas dentro e fora de casa. Seguem violentadas e assassinadas pela condição de serem mulheres. E sem qualquer fantasia ou fetiches ou prazer. Sem qualquer romance ou tapa na cara fake. Não é literatura, é noticiário policial. É violência e por isso é inadmissível. Chega de dark romance.
Set 26
LdeM
Leonardo de Magalhaens
Escritor, crítico literário
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