fonte da imagem: Ipê das Letras
Charles Baudelaire As Flores do Mal
Tradução de Éric Ponty
(São João Del Rei)
Ipê das Letras
Ao amigo poeta Rogério Salgado
Charles Baudelaire é um poeta que marcou época e ainda a nossa modernidade. Somos ainda personagens de seus poemas, em verso ou em prosa. As cenas urbanas são as mesmas, as figuras dantescas ainda se refugiam, se ocultam nos becos escuros.
Pós-românticos e simbolistas e decadentistas e pré-modernistas e modernistas e expressionistas seguem os faróis da poética tecida de sinestesias de Baudelaire. Suas passagens entre ruas e boulevards previram os labirintos de consumo do mundo moderno e também pós-moderno, com seus excessos de mercadorias e modelos e manequins e bibelôs e adornos.
A poética de Baudelaire soa excessiva, às vezes dramática e grotesca, numa imensa ópera de imagens ensombreadas de vultos de boêmios e marginais, de velhas e de damas da noite. Todos em seus sonhos e pesadelos particulares, em celas e infernos íntimos.
As figuras em As Flores do Mal são fortes, quando os sentidos se misturam, em odores, aromas, incensos, perfumes, coabitando com punhais, venenos, noite, vampiros, morte.
A cidade, a terrível Paris do século 19, evocada em pesadelos, particularmente dantescos, com imagens de tradição grega, cultura cristã católica, o imaginário do Mal, como uma destilação de mil leituras do clássico Inferno de Dante Alighieri. As elogiadas traduções do abade Lamennais e a de Pier Angelo Fiorentino, com gravuras magníficas de Gustave Doré (elogiada por um Victor-Hugo!).
Luxúrias, prazeres, pecado levam, irremediavelmente, às culpas e penitências, num sentimento de que somos marionetes do Diabo. Somos marionetes do Diabo? Pecamos, fazemos penitência, pecamos de novo...
Genuinamente o Diabo puxa todas as nossas cordas!
Nós objetos mais repugnantes, encontramos encantos;
A cada dia damos mais um passo em direção ao inferno,
Contentes em atravessar o poço fedorento.
(Ao Leitor. Trad. Eric Ponty)
Diabo é um ser lá fora? Ou um instinto carnal aqui dentro? Uma arena de batalha dentro do pobre humano: carne vs alma (ou sentidos vs espírito), quando o espírito quer o Alto e o corpo quer o baixo (as baixezas!), numa dinâmica de dualismo? Platonismo? Maniqueísmos?
Pois a obra de Baudelaire se move justamente nesta tensão de desejos e prazeres, então os crimes, então as culpas e as revoltas! Como ser puro e santo numa cidade de orgias? Num antro de capitalistas e corrupção? O poeta nunca alcança satisfação -- o que gera mais tédio!
Pecados cada vez maiores -- maior frustração -- a rebeldia (o 'satanismo baudelairiano' que Benjamin dizia que era para chocar os burgueses...) e a criação poética. Pra quê? No fim, após mais uma orgia, sobra o tédio. E Baudelaire não rompe o 'círculo vicioso ', ele não sabe abrir mão de sua revolta satânica. Precisa dela para colher mais 'flores do mal'.
fonte da imagem: Internet
As traduções
Apresentado à tradução de Éric Ponty, mineiro de São João Del Rei, mas com dicção portuguesa, lisboeta, 'old school', publicada pela Ipê das Letras, fui compará-la àquela de cabeceira, a de Ivan Junqueira, de 2012. E vamos apresentar alguns argumentos para julgar uma em relação a outra, quanto aos requisitos tradução e retradução e transcriação.
Primeiramente esclarecemos que as traduções podem ser mais próximas ao original, a língua de origem, ou podem ser mais adaptadas a uma língua de chegada, aquela do destinatário, que finalmente vai ler.
Podemos traduzir por uma ideia ou mensagem, ou recriar a métrica e as rimas essenciais na poesia em versos. Podemos inventar um outro poema baseado ou inspirado no original...
Os interesses e as intenções podem mover de lado a outro, ou tentar conciliar um pouco para agradar o público. Um exemplo são as traduções da Bíblia Sagrada que sofrem modernização para a linguagem de hoje, que faltam pouco para incluir os coloquialismos e até gírias.
Enquanto a tradução de Ivan Junqueira tenta (e mesmo ousa) uma recriação poética, de métrica e rimas, com sacrifício de mensagens do texto, a tradução de Éric Ponty tem interesse em manter a mensagem (ou intenção) do poeta francês, mesmo quando muda a ordem dos versos, na mesma, ou para outra, estrofe, ou quando abre mão das rimas, conservando as mais naturais. (Facilidade da proximidade das neolatinas francesa e portuguesa.)
Ou seja, para manter a mensagem, a tradução de Éric Ponty infelizmente perde sonoridade que Ivan Junqueira tenta recriar... E para a estética da poesia simbolista é essencial a música. Disse Paul Verlaine, “De la musique avant toute chose”. Música antes de tudo, acima de tudo!
Vejamos o poema Albatroz, com a figura do pássaro, príncipe das nuvens, 'prince des nueés', um símbolo do poeta nas alturas da sua torre de marfim, contudo quando chega ao rés do chão é aquela figura miserável, ridícula.
O poeta é feito o príncipe das nuvens
Que assombra a tempestade e ri do arqueiro;
Exilado no chão entre zombarias,
As suas asas gigantes impedem-no de andar.
(Éric Ponty)
O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
(Ivan Junqueira)
Aqui a tradução de Éric Ponty mantém a mensagem, a intenção do autor, enquanto Ivan Junqueira tenta recriar o jogo das rimas, ainda que sacrificando a figura do arqueiro e incluindo uma "turba obscura" onde só temos zombarias, vaias.
Outro exemplo, o famoso poema Correspondências, que trabalha com o sinestésico e o sugestivo.
Ivan Junqueira é feliz e bem sucedido em recuperar as rimas pilares / familiares, matizam / harmonizam, infantes / triunfante, enquanto se vê obrigado a inventar um harmonizam no lugar de correspondem, que é mantido na versão de Éric Ponty, que até desistiu das rimas.
Odores há, frescos como a pele de um bebê,
Suaves como oboés, verdes que nem a erva dos prados.
Outros corrompidos, ricos, triunfantes, plenos,
Tendo dimensões infinitamente vastas,
Incenso, almíscar, âmbar gris, benjamim,
Cantando o arroubo dos sentidos e da alma.
(Éric Ponty)
Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,
Como a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.
(Ivan Junqueira)
Percebemos que Junqueira prefere "aromas" do que perfumes, "dissolutos" do que corrompidos, e exagera no "glória" quando é só "enlevo". Inventa "resinas do Oriente" só para rimar com mente (poderia rimar "incenso" com "senso"...). Para Éric Ponty é mais fácil, e prático, "incenso, almíscar, âmbar gris, benjamim", que soa mais melódico, uma vez que desistiu das rimas anteriores e posteriores.
Em suma, cada tradução tem suas vantagens e desvantagens (igual a tudo na vida...) com suas proximidades e afastamentos do texto original. Se queremos uma versão em português, como se fosse composto em nossa língua, ficamos com a do Ivan Junqueira, mas se quisermos uma mais à sombra da mensagem do poeta francês então abraçamos a tradução de Éric Ponty, mais acessível aos que se iniciam na jornada estética e rebelde da Poesia.
Out 26
LdeM
Leonardo de Magalhaens
Escritor, crítico literário
Bacharel em Letras Fale / UFMG
