sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Parada Final . Crônica by LdeM. Ago 26


 

                                                     fonte da imagem: Internet



    Crônica 


    Parada final 


    O Sr. Arquimedes morreu quinze minutos depois de subir no ônibus rumo ao centro de BH, passando pelo Mineirão. Foi infarto fulminante. Só perceberam quando o ônibus chegava na parada final.


    Ao lado do Sr. Arquimedes se sentaram onze pessoas ao longo do trajeto, segundo apurado (ou imaginado). Duas puxaram conversa e as demais ignoraram solenemente.


    O Sr. Gentil, 45 anos, pai de família, embarcou na estação Lagoa do Nado, muito apressado e se assentou ao lado de um cidadão que parecia cochilar, mas de olhos semiabertos. Fez um discurso sobre o tempo, comentou a inflação, o jogo do campeonato, o escândalo do Lulinha. Toda época eleitoral é assim né 


    O Sr. Arquimedes não respondeu (pois que era ele) e numa das danças das cadeiras, o Sr. Gentil foi se sentar do outro lado. 


    Na estação Pampulha entrou uma senhora, a dona Yasmin, 40 anos, diarista, que trabalha numa das mansões perto do Mineirão. Todos os dias o mesmo horário e lotação. Viajava sonolenta e não deu nem ouviu palestra. Julgou apenas que devia ser um bêbado que passou a noite numa farra.


    Depois do Mineirão, perto da universidade, subiu um casal, morena e ruivo, baixa e alto, cada um se sentou de um lado. O homem se acomodou ao lado do Sr Arquimedes, sem sequer se dignar a olhar. A mulher também não se lembra. Estavam preocupados com um assunto de família. Parece que a doença de um parente ou a denúncia de um vizinho.


    O casal desceu depois do shopping Del Rey. Subiu uma senhora, dona Cecília, 50 anos, evangélica, rentista, dona de casas de aluguel, bem de vida. Gostava de pegar ônibus para ir ao culto numa Tenda dos milagres perto da Pedro II. Muito devota. Não sabe descrever o homem ao lado. Parece que dormia ou sonhava acordado.


    Quando o ônibus chegou ao centro de BH em plena Bias Fortes, o Sr. Arquimedes já tinha outra companhia, uma jovem que seguia para a academia lá na Espírito Santo com Álvares Cabral. Ela sequer olhou pros lados.


    Depois que o ônibus passou pelo Edifício Arcângelo Maletta, entrou um bêbado que falava sozinho. Passou a noite bebendo e torcendo pro time do coração. O time infelizmente não passou pra próxima fase da Libertadores. Desde a Lagoinha, subindo rua São Paulo, fazendo serenata na Afonso Pena até chegar ao Maletta a alvorada o alcançou.


    Conversou animadamente com o Sr. Arquimedes sobre a derrota do time do coração, os amores perdidos e desilusões de juventude, lamentou os tantos moradores de rua ali na capital, abordou a crise diplomática do Brasil e Argentina, confessou que torceu pelo Messi, disse que ia mesmo votar no Lula. 


    Ainda falando desceu ali perto do shopping Diamond, onde era outrora sede do time odiado, não o amado. Em nenhum momento esperou qualquer resposta do Sr Arquimedes, que aliás manteve respeitoso silêncio.


    Eu disse onze pessoas, não lembro das outras. Os depoimentos também se divergem e se contradizem. Ninguém viu nada nem sabia de coisa alguma.


    O lotação passou pelo centro e voltou pra Pedro II no trajeto de todos os dias, faça sol, faça chuva. O Sr. Arquimedes não tocou uma palavra ou gentileza. Não se importou em ser ignorado. Ou julgado bêbado e amigo comparsa de bêbados e boêmios. Pobre Sr. Arquimedes que morreu sem sequer Pai Nosso ou Ave Maria nos lábios.


    Só quando voltavam para a parada final uma passageira, a Sra. Antônia P. Mendes alertou ao motorista do estranho passageiro ali agora já quase tombado sobre si mesmo. Pânico geral. 


    Sr. Arquimedes Lopes Garcia, 68 anos, pai de três e avô de cinco, mestre de obra, morador do bairro Minas Caixa, Venda Nova, numa chácara que ele havia comprado nos anos 80. Seu propósito era descer ao centro para averiguar documentos para a aposentadoria. Deus conforte a família.



    Ps. Qualquer coincidência é mera semelhança (ou não?)



    Ago 26 



    LdeM 


Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um não-enredo / Listas - by LdeM

 





                                                  Fonte da imagem: Internet


    Um não-enredo 


Não conquistei o hexa. Não conquistei a medalha

de ouro. Não fui famoso no YouTube. Não conversei

na catedral. Não desci no barco bêbado. Não dormi

com Dorian Gray. Não beijei o Dalai Lama. Não traí

Marilyn Monroe. Não falei a língua dos anjos. Não

fui arrebentado ao Terceiro Céu. Não recebi a

Sagrada Torah. Não escrevi a Lei Áurea. Não descobri

Macchu Picchu. Não peregrinei até Aparecida. Não

conheci Fernão Dias. Não pulei de paraquedas. Não

lutei na Guerra do Paraguai. Não insultei o Milei.

Não fui mercenário na Ucrânia. Não escrevi o roteiro

da Odisseia. Não filmei Star Wars. Não fiz a dieta

da lua. Não participei da conspiração aquariana.

Não fui convidado da maçonaria. Não fui membro

dos Illuminati. Não derrotei o Thanos. Não atirei

no Papa. Não fui sequestrado pela máfia. Não fui

torturado no DOPS. Não fui abduzido por aliens.

Não disputei a Presidência. Não fiz pós-doutorado

em London. Não matei John Lennon. Não desbravei

o Recôncavo Baiano. Não ganhei na Mega-Sena.

Não fui da Academia de Letras. Não ganhei o Nobel

da Paz. Não fui amigo do Mozart. Não fui ao show

do Roger Waters. Não descobri a cura do câncer.

Não escalei o Aconcágua. Não morri em Diamantina.

Não conquistei o hexa.


Jul 26 


LdeM 













    Listas 



Quando não estou completando palavras cruzadas,

Imperador romano? Com sete letras? Augusto? Adriano?

Joviano? Juliano?, me agradam as listas. Assim como

a rascunhar listas de compras, de souvenires, de discos,

de livros e autores. Às vezes encontro alguma dentro

dos diários, dos dicionários, das gramáticas. O Vermelho

e o Negro, Crime e Castigo, Os Miseráveis, Germinal,

Moby Dick, Dom Casmurro, Retrato de Dorian Gray,

Encontro Marcado, O Tempo e o vento, Quarup,

Grande Sertão: veredas, Viva o povo brasileiro; London,

Paris, Brasília, Roma, Rio de Janeiro, Ciudad de México,

Dublin, Veneza, Koln ou Cologne, Berlin, Istambul;

Caetano, Gil,  Chico, Gal Costa, Rita Lee, Cazuza, Belchior,

MPB4; Dante, Bocaccio, Petrarca, Camões, Quevedo,

Lope de Vega, Gongora, Padre Vieira, Gregório de Matos;

Bach, Handel, Vivaldi, Corelli, Albinoni, Scarlatti, Tellmann,

Sardelli, Torelli, Rossini; alface , arroz, açúcar, almôndegas,

almofada, alferes, almoxarife; Canadá, States, México,

Panamá, Colômbia, Chile, Argentina, Brasil; Genesis,

Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes;

Genesis, Yes, Camel, Nektar, ELP, BMS, PFM, Focus,

Triumvirat, Eloy, Novalis, Solaris; Cecília Meireles,

Henriqueta Lisboa, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector,

Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Adélia Prado, Nélida

Pinon, Ana Miranda; Beatles, Who, Queen, Bowie, Smiths,

Cure, Depeche, U2, Oasis, Verve, Radiohead, Travis;

Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Márcio Borges,

Flávio Venturini; Mutantes, Ira!, Barão, Titãs, Legião, Capital,

Paralamas, Engenheiros, Plebe, Skank; Let it be, Panis et

Circensis, Linda Juventude, Coração de estudante, Planeta

Sonho, Rua Ramalhete, Réquiem para Matraga, I believe,

Yesterday, Time, Todo azul do mar, Nuvem passageira,

Noites com sol, Toda lua, Certas coisas, Terra Planeta Água,

Cálix Bento, Canção da América, Cio da Terra, Sol de

primavera, A paisagem da janela, Norwegian Wood,

Bohemian Rhapsody;



Jul 26 


LdeM 



Leonardo de Magalhaens 

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG 


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Memento Mori & outros poemas by LdeM . 2026

 



                                                      fonte da imagem: Internet



Memento mori 


Lembra-te, ó homem, que morrerás, 
Ó vítima do tempo inclemente, 
Vives na terra um pobre ser gemente, 
Sem fé, então em dor, perecerás!

Em miséria crer penosamente, 
Quando da afronta do tempo terrível, 
No perdão nesta vida tão sofrível 
A sofrer sob domínio demente.

Ó criatura de tão pouca fé!
Pois voltarás ao pó entre as agruras:
Cavada está tua triste sepultura, 

Se ao Cristo não devotas plena fé, 
Na misericórdia da Redenção, 
Negas a Glória da Ressurreição!


Mai 26 


LdeM 


...


Corpo mestiço 


No meu corpo tenho setenta povos, 
De doze tribos, paleta de cores, 
Os antigos, ancestrais e os novos,
Nesta carne de dramas e de dores.

Povos das Américas, os nativos, 
E os d'além África, os escravos, 
Advindos, dentre os mortos, os vivos 
Sofrendo, dos europeus, os agravos.

Meu corpo branco, pardo, colorido,
Negro, caboclo, mulato, latino, 
Peregrina ansioso, mesmo dolorido, 

Marcado de açoite, em desatino, 
Mestiço, ou nômade ou perdido, 
Em busca de Fé, Paz e um destino.


Abr 26 


LdeM 


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                                                   fonte da imagem: Internet



Lira dos cinquent'anos 
(Soir de la decadence)

Eis o vento gargalha numa dor 
Gelidamente num poente sujo 
De fuligens em pungente odor: 
Sobe à goela um profundo nojo!

É o spleen tardio, riso astuto 
Na face kitsch de pálido ator, 
Só restará versos depois de tudo:
As imagens de patético horror!

Cinquent'anos e enfim tudo posto:
Desilusão, amargor, ou desgosto, 
Num semblante de íntimo pesar!

Ventania, desejos, dor noturna:
Tempo passado: voz inoportuna 
Que até a morte há-de te acompanhar!


Crepúsculo,
 Mai 26 

LdeM 



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Bebei da Água Viva 


Hoje não te prendas à finitude, 
Aos pálidos prazeres deste mundo, 
A viver neste vazio profundo, 
Sem vislumbrar a Luz da Plenitude!

No Eclesiastes, Tudo é vaidade, 
Voltarás ao pó, lá não há louvor, 
Aqui demonstras tremor e temor, 
Enquanto gozas a vitalidade.

Mas antes busqueis a Vida na Fonte 
D'Água Viva para a Eternidade, 
Olhando para além deste horizonte 

A contemplar a Luz da Santidade 
Com os fiéis em comunhão fraterna, 
Em Cristo tende a Fé na Vida Eterna!


Jun 26 


LdeM 

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Leonardo de Magalhaens

poeta, escritor, crítico literário
Bacharel em Letras FALE / UFMG



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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Os Irmãos Unidos e Ungidos -- conto by LdeM

 



                                                  fonte da imagem: Internet

    

    Conto 


    Os Irmãos Unidos e Ungidos 


    I


    Você foi finalmente convidado para a solene Reunião. Primeiro você conheceu o bom amigo Souza da gráfica Vitoriana Ltda. Ele fez ótimas promessas além das muitas promoções para fidelizar o cliente.


     Em sua empresa de publicidade e propaganda, você cuida de fazer bons contatos e conseguir um nome no mercado de BH. Assim toda oportunidade é um atalho até o sucesso.


    Na Reunião, você tem um sólido contato com o Irmão Nunes, que é um vereador conhecido e pode até ser secretário ou prefeito um dia desses. Ele se aproxima e dá as boas vindas ao Irmão Ventura, que é você, após uma breve Iniciação.


    -- Estamos então recebendo nosso Irmão para a nossa Comunhão e desejando frutuosa Jornada de Sucesso.


    Você agradece de acordo com o protocolo, e, assim, todos se aproximam e fazem o gesto de Acolhida e Benção. Um gesto que precisa ser reconhecido entre Irmãos. O próximo é o Irmão Almeida que é um senhor grisalho e sério, um desembargador. Ao seu lado está o Irmão Mendes que todos sabem ser um Pastor batista, mesmo que ele nunca fale de religião.


    Também lá está o Irmão Junqueira, um importante e bem-sucedido banqueiro. Convidado e acolhido pelo Irmão Mendes. 


    É o Irmão Junqueira que se apresenta com um voluptuoso sorriso e imperioso aperto de mão. -- Saiba que muito estimamos a chegada do novo Irmão em nossa gloriosa Reunião dos Unidos e Ungidos.


    De início, você não levou a coisa toda a sério mas com o tempo e mais uma seis Reuniões mensais, você está plenamente engajado. A ponto de conseguir contatos e contratos. 



    II 


    O Irmão Souza presta serviços ao Irmão Nunes e ambos querendo sua participação na equipe de arte e promoção de marca, no caso a possível candidatura do vereador para deputado estadual, em breve. 


    Nas Reuniões é visível a amizade entre os irmãos Almeida e Mendes e Junqueira, e você sempre tenta uma aproximação. Mas estes dão melhor acolhida ao recém-empossado e iniciado, o Irmão Nogueira, um assessor parlamentar lá na Assembleia de MG. 


    O assunto mais preeminente é a carreira política e também os possíveis contatos e contratos. Nisso está a presença do Irmão Almeida e a ligeireza do Irmão Junqueira. E quem sempre tem novidades é o irmão Mendes, o pastor que nunca está com a Bíblia. 


    Você é convidado a um discurso de Recebimento do irmão Nogueira e não perde a oportunidade de ser um Anfitrião com uma mensagem de Sucesso. Afinal todos ali cultuam o Sucesso. Nosso Guru e Senhor.


    O Irmão Junqueira quer expandir seus negócios e convida o irmão Nogueira assim como reforça o convite outrora feito a você, que acompanha as negociações, ou melhor, as conversas. 


    Meses depois de conversas e contatos, novos contratos são devidamente avalizados e assinados, com as devidas bençãos do irmão Almeida, exímio jurista. Aliás sua empresa de atuações jurídicas é muito recomendada e reconhecida. 



    III


    Em breve, um ano depois, você assiste a chegada do novo irmão Gomes, um empresário do ramo de imóveis. Recepcionado devidamente pelo Irmão Nogueira, com um discurso sobre a Saúde e o Sucesso.


    Os Irmãos Unidos e Ungidos se dão as mãos e esperam mais convidados e contatos. Um novo cântico se eleva em louvor ao Senhor Sucesso e preces à Senhora Saúde.


    O Irmão Junqueira é um dos mais frequentes e próximos, sempre com ideias viabilizadas pelo intermédio do irmão Almeida, que transita pelos setores governamentais junto aos irmãos Nunes e Nogueira. Enquanto isso o Irmão Mendes, o pastor sem fé, sempre pronto a recrutar, digo, convidar novos Iniciados aos Unidos e Ungidos.


    O Irmão Gomes entra também na carreira de sucesso de Junqueira e Nogueira, com contratos para locação de imóveis e compra de terrenos para galpões de estoque e reciclagem. Todos se saúdam contentes e bem-sucedidos. 


    Um mês antes do escândalo, os irmãos Unidos e Ungidos já sabiam. Por isso uma Reunião foi antecipada para um parecer propício do irmão Almeida, o desembargador. Parece que os negócios do irmão Junqueira se expandiram demais e o irmão não conseguiu se livrar de uma certa carteira de crédito. Uma bolha especulativa pronta a explodir no colo de alguém. 


    Os contatos do irmão Almeida auxiliam os planos de defesa e fuga do irmão Junqueira que cuidou em "molhar a mão" de pessoas certas no momento certo. Uma semana depois o irmão Junqueira se despedia e arrumava as malas para a Europa, anunciando futuras festanças no sul da Itália. 


    Você, o Irmão Ventura, deseja Saúde e Sucesso enquanto fecha negócios com o Irmão Nogueira que passa a apoiar a campanha do irmão Nunes lançado a deputado estadual como planejado. 


    Quando a mídia procura o banqueiro e o desembargador, os irmãos Unidos e Ungidos se protegem e ninguém sabe de certo escândalo que preenche as manchetes da grande mídia, imodesta e hegemônica. 


    Ainda não receberam os convites para as festanças do irmão Junqueira, lá no sul da Itália. É um silêncio oportuno para quem teme possível extradição segundo entendimento entre autoridades brasileiras e italianas, como todos sabem.


    Você, o irmão Ventura, sequer é citado, mesmo que presente em Reunião com os irmãos Nunes e Nogueira, agora em parceria com o empresário de bens imóveis, o irmão Gomes, que convida todos para um prodigioso churrasco no final de semana. Ninguém comenta a ausência do irmão Junqueira, na verdade Vattimo.



Mai 26 


LdeM 


Leonardo de Magalhaens

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG 



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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Crônica Meus dois amigos - by LdeM

 



                                                            fonte da imagem: Internet


Crônica 


    Meus dois amigos 


    Hoje me lembrei de dois amigos, o J. e o K. Foi fácil: fazem niver em 1º de maio. E a mesmíssima idade. Não, não são gêmeos. Gente boníssima, mas cada um com sua vida. 


    Conheci tanto o J. quanto o K. nos tempos de faculdade, no curso de Letras, mas nem um nem outro viraram professores. Muito menos eu, que fui pro jornalismo.


    Geralmente eu revejo o J. de L., o de vida mais ordeira, de funcionário público de carreira. Um cidadão gente boa demais. Nunca teve problema na vida. Estudou, passou em concurso público, casou. Tem dois filhos que estão na faculdade. Um pra ser médico, o outro quer ser advogado.


    J. de L. não se acha o centro do mundo. Vive bem com a mulher e a família da mulher. Ela que é professora universitária e escritora. 


    Quanto ao meu outro amigo, bem, aí é o contrário. K. de N. é gente boa demais, mas é daqueles que criticam tudo. Fala mal do governo e da política e da religião e até da música pop. Estudou muito mas desistiu dos diplomas. Foi viver de música.


    K. é um artista e tanto. Já levei a galera em vários shows do homem do saxofone. Jazz, fusion, bossa nova, MPB, música folk etc. Grande artista. Mas nunca reconhecido. Gravou dois álbuns. Só vendeu pros amigos.


    É que K. sempre se sentiu deslocado no mundo. Não se dava bem com a família. Não queria agradar as namoradas. Não levava a sério os professores. Aí brigou com os pais e saiu de casa.


    Depois casou, tentou ser empresário, faliu, tentou de novo, montou um barzinho, foi traído, quase brigou com o sogro, aliás ex-sogro, a mulher ficou com os filhos. Dois adolescentes que não querem estudar nem trabalhar etc 


    J. de L. também gosta de jazz, até já foi também a um ou dois shows do nosso amigo K., mas J. não entende de música, ouve um pop sem preconceito. Até acha o K. um exagerado, “muito extremado, qual problema com o pop?” 


    É que o J. é um cara de boa, sem problemas. Ele aceita o mundo numa boa. Tudo que vem é lucro. Vai criticar? Por que? A vida vai levando e o J. aproveita. Não critica nem governo nem oposição.


    Afinal, meu amigo J. tem casa, carro, apartamento, casa de praia na Bahia, sucesso, é um funcionário reconhecido, ganhou medalhas, faz amigos todos os dias, deve esperar mais uma promoção.


    Quanto ao meu amigo K. é um Mozart, um Schumann, um Paganini, um Nietzsche, um inconformado. Certamente acha e convicto está de que o mundo conspira contra ele. K. é um artista, um poeta do sax, um gênio da música, um multi-instrumentista, mas seu carro está na oficina, até hoje não pagou o apartamento, evita novo casamento, briga com governo e marginais, é daqueles que não ficam mais de um ano num emprego.


    Amanhã meus amigos completam cinquenta anos. Um nasceu de manhã e o outro ao anoitecer. Será que os signos explicam? É culpa dos ascendentes? É coisa de karma mesmo? Quem reencarnou mais vezes?  Espero que sejam felizes cada um a seu modo. Um achando o mundo isso mesmo, vamos em frente, e o outro cuspindo na vida e rebelde até a medula. Que sejam felizes.



Abr 26 


LdeM 



Leonardo de Magalhaens 

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG 

Servidor público PBH


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