terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meus bons amigos -- crônica by LdeM 2026

 



                                                   fonte da imagem: Internet 


Crônica 


Meus bons amigos



"Meus bons amigos, onde estão 

Notícias de todos quero saber"

Barão Vermelho 


    Ouvindo uma velha canção rock'n'roll me lembrei dos meus bons amigos. Pessoas que conviveram comigo três décadas atrás e aqueles que conheci nas duas últimas. 


    Onde estão? Em BH ou no estrangeiro? Casados ou desquitados? Pais de família? Devotos católicos? Convertidos evangélicos? Livres ou prisioneiros?


    Lembrei do Lindomar, o companheiro dos goles nos fins de semana. Um cara do metal pesado que era de uma família do interior e que era office boy. Gastava todo o dinheiro com bebidas e mulheres. 


    Depois, da última vez que o encontrei, estava casado. Fez amizade na igreja evangélica onde tocava bateria, se converteu e casou com a filha do pastor. Conseguiu carta de indicação para trabalhar numa empresa de equipamentos para construção pesada.


    Lembrei do Luka, também músico, que virou professor e foi para Sampa e depois para o interior paulista e depois para o interior baiano. Casou e descasou. Continua professor?


    Tem também o Jovin, nome dado pela galera, no cartório era Matheus B**, não era músico, mas fanático pelo rock e que não perdia shows, seja de bandas covers até atrações internacionais. Da última vez que vi o Jovin estava casado e com um filho recém nascido. 


    Era o maior anticristo. Hoje deve estar em alguma igreja evangélica. 


    Certo dia vi a foto do Tony, o Antonio, que eu conheci na faculdade. Na rede social ele está bem-vestido. Ou virou empresário ou pastor de igreja. Ostentação ou falsa imagem? Marketing pessoal?


    Quando conheci o Tony ele era socialista militante, com camiseta do Che e pregando revolução agrária. Mas as coisas mudam, né? Incendiário aos vinte mas empresário aos quarenta. Se ele está feliz, tudo bem. 


    Era uma turma animada. O pessoal da faculdade era tudo calouro se defendendo dos veteranos. Hoje cada um para um lado; bacharel continuou amigo do bacharel. Os mestres só amigos dos que também tem mestrado. Os doutores só andam com os raros com anel de doutorado. Assim caminha a humanidade. 


    Meus bons amigos às vezes eu revejo nas redes sociais. Ou às vezes quando dou umas voltas em BH. Tempos atrás quase cumprimentei o Thales mas ele não me reconheceu. 


    Meu amigo gótico continua gótico e católico. Ele estava saindo da primeira missa da manhã. Acho que é o único que não mudou. Só não era tão católico. 


    Hoje ele também não acreditaria que sou católico. A moda agora é curtir um show na igreja evangélica de paredes pretas com projetor de luzes coloridas e enormes telas de alta resolução. 


    Meus bons amigos estão por aí cada um em sua cela acolchoada. Cada um com seus dramas e traumas e felizes de não terem os dramas dos outros, mas achando o gramado do vizinho mais verde e deslumbrante. Ou o carro do vizinho ou a mulher do vizinho ou a religião do vizinho ou os amigos do vizinho. 


    Meus bons amigos onde estão? Será que quero mesmo saber? Tenho medo de encarar seus fracassos ou invejar seus sucessos. Por isso fico longe deles e eles longe de mim.



Jan 26


LdeM 


Escritor, crítico literário 

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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O Outro -- crônica by LdeM

 



                                     fonte da imagem: Internet

 

Crônica


    O outro


    "O homem de ontem não é o homem de hoje"


    O que aconteceu até agora me apavora como um pesadelo, daqueles que se repetem, até você acordar como um transe. Aconteceu hoje mesmo, por isso escrevo isso como um desabafo, uma confissão, um mea culpa.


    Hoje cedo fui passear na Lagoa do Nado, aliás no parque, porque a Lagoa nem existe. Mas lembro da lagoa tal qual ela existia. Um espelho d'água visitado por patos e outros pássaros em mergulhos em busca dos peixes, entre os cascos de tartarugas. 


    Vou narrar com calma o que aconteceu desde que lá cheguei. Ouvia uma música clássica, Bach ou Handel, tinha um coral, lembrava uma ópera, uma pérola sonora. E folheava um volume de Confissões, de Santo Agostinho. 


    Pois bem. Andava tão concentrado ou distraído, não sei, que não vi um certo jovem que passava rumo à antiga lagoa. Só reparei nisso quando me sentei a sombra do casarão. 


    A figura do jovem me parecia familiar. Alto e magro e de roupas escuras. Pálido e de óculos escuros. Cabelos longos e carregavam alguns livros. Ouvia algo pois notei os fones de ouvido. 


    Muito familiar aquele vulto. Até que ele voltou e ficou admirando o casarão.  Assim que o vi ao meu lado me arrepiei assustado: estaria num sonho?


    Pois aquele jovem era igual a mim! Não de agora, mas daquela mesma época em que conheci pela primeira vez a Lagoa do Nado !


    Foi nos idos de 2004. Portanto se passaram duas décadas e muitas mudanças. Naquela época eu começava a participar de saraus etc desde as noitadas líricas e góticas na penumbra da Matriz lá no Terminal Turístico. 


    Muitos saraus na Lagoa do Nado me atraíram naquela época antes de que eu finalmente me mudasse para a região, quando no início da carreira de servidor público. 


    Eu via assim um arco de duas décadas se fechando quando o jovem se aproximou e eu perguntei se ele pretendia participar do sarau etc


    O jovem que era eu mesmo olhou direto para mim e, sem me reconhecer, disse algum monossílabo que me soou como Tomara! E fez um movimento de passar adiante como se desviando e visivelmente me evitando. Sim, era eu mesmo: do jeito mesmo que eu evitava as pessoas. Quando jovem não tinha paciência com as pessoas. Hoje mesmo não sei se tenho mais paciência. Sou apenas mais resignado. 


    O jovem diante de mim nada tinha de resignação. Era um revoltado Ivan Karamazov contra o Eterno, o Soberano Cruel do Universo. Um Ivan Karamazov que andava todo de preto em luto por toda a humanidade. 


    Claro que tentei conversar comigo mesmo mas sabia bem como eu era -- de pouca conversa. Ainda mais com estranhos. Por que um jovem ouviria este velho de mais de quarenta?


    Queria porque queria avisar ao meu eu de antes o quanto ele sofreria na vida. Aprenda a fazer amigos! Era o que queria avisar ao pobre enlutado.


    Faça amigos nos saraus. Faça amigos na faculdade. Faça amigos na família. Faça amigos na vizinhança. Faça um milhão de amigos!


    Claro que o jovem gótico, o poeta revoltado  contra Deus e o mundo, não me daria ouvidos. Eu não ouvia nem meu pai! Eu nem conversava com meu pai! Por que ouviria um estranho? 


    Lembrei de meu pai. E tive um olhar paternal para aquele eu de antes. Claro que gostaria de dizer ao jovem algumas verdades. Mas ele não me ouviria assim como eu não ouvia ao meu pai.


    Culpar o meu pai? Por que ele me obrigava a ir pra igreja? Quando eu queria ir pro cinema ou balada... Culpar o meu pai? Por que ele queria me proteger dos vícios?


    Os filhos não ouvem os pais -- por isso repetem os mesmos erros. Queria dizer isso ao jovem poeta, meu eu de ontem. Ele não daria ouvidos. Assim como identifiquei a Divindade com a autoridade paterna, e aboli ambas, eu desprezava todo conselho, toda advertência. 


    Moço, faça mais amigos. Moço, seja mais tolerante. Moço, pare de julgar as pessoas! Eu diria tudo isso a ele como uma boa figura paterna. E me arriscaria a levar um desaforo pra casa.


    O jovem de luto então me olhava mas sem me reconhecer. Claro, como poderia ele se ver neste homem de primeiros cabelos brancos, quieto e cordial, um servidor público tolerante, um pai de família católico que agora falava em disciplina e tradição!


    Aquele jovem anarquista  pós-punk, dado às leituras existencialistas e niilistas, não me daria ouvidos. Ele gostaria antes de cuspir-me na cara: seu velho reaça ! Seu funcionário público em sua cela acolchoada! Seu mantenedor da nossa injusta ordem social! 


    Ele esperaria antes que eu votasse na direita ou fosse dali fazer campanha para algum pastor evangélico ou entrar na fila para beijar a mão do bispo. Ele não me conseguiu se reconhecer neste homem de hoje: seu oposto!


    Tanto que o jovem se afastou com visível repugnância daquele homem funcionário público cumpridor dos deveres e da moral e dos costumes. Ele que seguia ouvindo metal pesado e bandas góticas e lendo brochuras de Nietzsche e de Albert Camus. Um jovem que considera o cristianismo uma doença da Vontade! E a figura paterna de Deus como um Ditador!


    Queria gritar ao jovem: Cuidado, você vai sofrer muito na vida! Você vai negar e se negar a cada controvérsia e tribulação! Você vai curvar a dura cerviz! Você vai ser resignado! Em suma: você será EU!


    E o jovem se afastou e eu me afastei.  Sentei junto ao casarão e tentei ler as páginas do Santo Agostinho mas em vão. Tentei ouvir um oratório mas em vão. Tentei me encontrar mas em vão. 


    Aquele jovem jamais me entenderia. Só daqui a uma ou duas décadas. E eu agora não poderia acolher aquele jovem revoltado e arrogante, eu que sou este humilde servidor. 



Jan 26


LdeM 


Ps. Paródia do conto "O outro"

De Jorge Luís Borges

In O Livro de Areia

1975


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Sobre A Reinvenção da Metáfora: As bodas de Rogério Salgado. 2025.

 



                                                   fonte da imagem: poeta Rogério Salgado



Sobre A Reinvenção da Metáfora:

As bodas de Rogério Salgado 

Seleção, organização e prefácio de 

Luiz Otávio Oliani

Ventura Editora, 2025



    Um grande lançamento! Com duas assinaturas de peso: poemas de Rogério Salgado segundo a seleção de Luiz Otávio Oliani. O melhor da poesia e da crítica literária das últimas duas décadas. 


    As primeiras obras de Rogério Salgado que eu li foram Um Quarto de Ofício e Quermesses, de 2000 e 2005, respectivamente. Um poeta com duas décadas de carreira e renome... Agora são cinco décadas conhecidas e reconhecidas.


    Rogério Salgado é um poeta de vasta obra que apresenta fases igual a um Drummond de Andrade, desde a poesia engajada, de denúncia social, até uma poética mais intimista, sobre suas dores e paixões, a difícil missão de ser no mundo. O que sempre me cativou desde o início foi a sinceridade. (Um poeta que não é fingidor. Para contrariar um Fernando Pessoa. ) E sempre fui sincero com a obra de Rogério Salgado (mesmo que em algum momento de sua carreira o Poeta não tenha se agradado de minhas críticas).


    Esta diversidade na obra de Rogério Salgado foi percebida e sinalizada pelo olhar crítico do professor Luiz Otávio Oliani que segmentou a obra segundo as temáticas -- metalinguagem, crítica social, erotismo, memórias e homenagens, e uma miscelânea. Ajuda o leitor ou a leitora que (oh Céus!) ainda desconhece a poética de Rogério Salgado. 


    Importante: Mais do que um poeta, o caro Rogério Salgado é um ativista da cultura e um militante da poética. E com um destaque invejável. 


    Em BH temos vários polos de difusão cultural nas regionais. Saraus na Savassi ou no Barreiro, na Lagoa do Nado ou em Venda Nova. Cada um no seu quadrado, no seu grupinho.


     Mas o Poeta Rogério Salgado é  uma das raras exceções: ele tem voz e contato nos vários grupos. Ora eleva sua voz na Praça Sete, ora se materializa na Savassi, ora se manifesta em Venda Nova. Só não digo que o poeta é onipresente, pois este é atributo divino...


    Esta presença nos eventos com seus poemas multifacetados é que garante a permanência e frutificação de sua poética e carreira de poeta e agitador cultural. Pois a poética de Rogério Salgado não é marcada por originalidade ou pirotecnia. É um construto de sinceridade. Justamente o que disse no início desta resenha. Nada de simulações e simulacros: temos o poeta do jeito que ele é: ele mesmo! 


    Seu conhecimento e sua sabedoria não é artigo de ostentação mas o destilado de uma vida de experiências, seja errando seja acertando. 


    Acho que já escrevi isso quando fiz a crítica de Trilhas Antologia Poética (2007): o poeta não programa e não planeja: vê o que a vida entrega e carrega e então faz seus versos sem seguir cartilhas ou vanguardas.


    É difícil situar em qual estilo de época se baseia a obra de Rogério Salgado, pois é tanto modernista quanto pós-moderna. Tem grandes temas ao mesmo tempo em que despreza grandes temas e a tradição. Ao mesmo tempo é um saudosista com imagens do mundo de outrora.


    Eu também fui um iconoclasta contra o sistema e a tradição, tanto que fui um entusiasta na leitura de Quermesses, uma crítica feroz contra os católicos e beatos, devotas e carolas. Não sabíamos nós que o problema nem estava com os católicos mas com as denominações religiosas. E ainda mais, os mercenários da fé alheia nos meios evangélicos, pentecostais etc. Ainda mais nestas duas décadas em que os católicos sofreram sensível redução, segundo o último Censo. 


    Este é um detalhe da obra de Rogério Salgado: a voz combativa. O poeta que desce das nuvens e fala da vida cotidiana, do aqui e agora. A poética é uma marreta contra as hipocrisias e as opressões e os radicalismos e a caretice ululante. 





                                                    fonte da imagem: poeta Rogério Salgado



    Outro destaque nesta obra A Reinvenção da Metáfora, além da poética de Rogério Salgado, é o olhar atento de leitor especialista do professor Luiz Otávio Oliani, que mostra a importância da Crítica Literária num país de não leitores; ser um farol no meio da neblina. O crítico dá uma peneirada para separar o joio do meio do trigo. 


    O olhar crítico do professor Luiz Otávio Oliani percorre os labirintos da obra e sabe captar as mensagens nas metáforas e metonímias, nas figuras de linguagem e nos trocadilhos, na poesia visual e nos insights concretistas. Dá então um mapa desdobrado aos leitores e às leitoras: seu olhar crítico é o nosso útil GPS nas trilhas da leitura.


    Só temos que agradecer ao poeta e crítico Luiz Otávio Oliani por esta empreitada de leitura e críticas, para situar os nomes da poesia brasileira contemporânea no que tem de relevante. Sem a figura do crítico literário a literatura segue sem rumos e sem critérios. Cada um escreve o que quer e chama de conto. Cada uma escreve uns versos e chama de soneto! Complicado. 


    Para finalizar esta resenha direta e sincera com uns versos marcantes do poeta Rogério Salgado que merece toda a nossa atenção e consideração.


"Cada partícula de mim é poesia/ 

por isso sou humano/

 e mano a mano/

por cada ser humano/

/ que merece respeito./(...)"

...


(“Humano”, p. 33)





Dez 25



Leonardo de Magalhaens 

Escritor, crítico literário 

Bacharel em Letras FALE UFMG 

Canal LdeM Literatura Agora!

 no YouTube 






                                           fonte da imagem : poeta Rogério Salgado


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