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Crônica
O primeiro amor que não desabrochou
Hoje vou contar para vocês, minhas leitoras, a história do João Carlos que ontem reencontrou, no aeroporto, a primeira namorada, o primeiro amor, que não desabrochou pois ela casou com outro.
Conheço o meu amigo João Carlos desde o mestrado, na mesma época em que conheci a Rose, minha amiga, que casou com meu amigo! Tipo assim, fui eu mesma que formei o casal.
-- Sabe quem eu vi ontem no aeroporto, hein, Elisa? A Carmem! Tão diferente... cabelo curto, gordinha... até com os netos!
A Carmem é a tal primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro. Ouvi este drama umas setenta vezes nos últimos trinta anos. E que fez do João Carlos o homem rico e influente que elogiamos hoje.
Conheci o João Carlos na faculdade de arquitetura, meio aos projetos e pesquisas de mestrado, e o jovem de vinte e poucos estava ainda sofrendo de amores perdidos. Principalmente pela primeira namorada, o primeiro amor, a Carmem.
Pois a moça assim que se formou não demorou em casar com um homem dez anos mais velho e cheio das fortunas. Aí o João Carlos quase morreu de amor.
Ou ódio, pois depois disso ele jurou vingança: ficaria mais rico que o noivo e marido de sua eleita! E foi dito e feito!
Toda a vida do João Carlos pode ser resumida em Quero ficar rico. Para mim, de família já segura e próspera financeiramente falando, foi um caso interessante, e no que eu podia acabei por ajudar.
Jovem arquiteto, o João Carlos escolhia projetos e amizades. Sabia influenciar e ser influenciado. Criava mansões ao gosto dos ricaços da Pampulha etc
João Carlos era um bom pai de família classe média que conseguiu os melhores contratos da construção e decoração nas últimas duas décadas como as leitoras sabem.
Se tem alguém que sabe negociar e investir e fazer bons amigos é o João Carlos. Sempre sabia o momento certo e a oportunidade de ouro em eventos e festas. Conheceu o João Paulo Mendes assim. Outro magnata da arquitetura. Então começou a empresa em conjunto com os bons sócios. Muito marketing e networking né.
Nisso o João Carlos foi abandonando as festas da vizinhança e até da família. Fez novos amigos onde tinha mais marketing e investimentos. Entrou pro mercado imobiliário e financeiro.
Por isso deixou a arquitetura que também em algum momento fora uma paixão. Só conservou duas paixões: a Carmem e o tango argentino.
João Carlos era fã de dança de salão. Ele e a Rose e eu. Era o nosso passatempo e entretenimento. Dançar um bom tango era essencial. Mas nos últimos tempos a Rose desanimou por causa da saúde e o João Carlos por causa da idade. Ele envelhece muito rápido né.
Por que? É o que eu disse: o homem só pensava em ficar rico. Para mim era obsessão. Eu que sempre fui bem de vida nunca entendi os arrivistas. Mas o João Carlos era um caso interessantíssimo.
E o meu marido também era fã do João Carlos. Meu marido, um bom marido que não está entre nós. Também da área de investimento imobiliário. Toda a família dele aliás. Na Pampulha eles vendem e compram e alugam residências e casarões e apartamentos etc
Então com a nova empresa o João Carlos subiu muito e muito e foi deixando as velhas amizades. Só andava com os doutores e investidores e esnobava os bacharéis e mestres. Virou honoris causa. Virou financiador de campanhas de vereadores e prefeitos e deputados etc
Mas a saúde do João Carlos não ajudava. Muito estresse e insônia. Salvava um pouco o tango argentino. Mas ele nunca se conformou com a perda do primeiro amor.
João Carlos era fanático por dinheiro? Mais fanático pela primeira namorada! Sabia que ela estava bem casada, com um homem rico e influente, dois filhos e uma filha, com casa de campo e casa na praia.
Então foi lá o João Carlos comprar casa de campo e casa na praia. Foi gastar dinheiro com reformas etc Foi perder tempo e dinheiro. Raramente saía de BH. Uma vez por ano Bahia ou Guarapari. Enquanto nas férias, ele levava notebook e continuava comprando e vendendo e alugando.
Os amigos dele não o entendiam. Porque eles já tinham dinheiro. Minha família tem dinheiro. A família do meu marido tem dinheiro. Então nem falava em dinheiro: só investia e gastava.
Mas o João Carlos só falava de dinheiro com juros e Bolsa e contratos e relatórios e superávits. Virou o maior amigo de um economista, o J. Souza Bastos.
Nossos amigos das antigas se ressentiam. O João Carlos ignorava todo mundo. Passou uma década e ele já estava em outro círculo de amigos! Amigos? Muito marketing e networking né
Foi quando eu conversei com a Rose a minha amiga e a mulher do João Carlos, como sabem. Claro que ela sabia sobre a tal Carmem, mas não tudo, ou o que veio depois. Tipo o marido ficar de olho na vida da ex primeira namorada etc
Infelizmente causei uma briga de casal e não resolvi o problema que era a obsessão. Certamente foi ali que nossa amizade ficou abalada.
Ter reencontrado a primeira namorada num aeroporto Internacional foi uma ferida que se abriu no nosso João Carlos. A Carmem feliz com sua família sem neuras de dinheiro e viajando pra Disney etc
Por isso eu foi de braços abertos quando ele ligou. Ele que estava uma temporada em Porto Seguro. Lembrou que eu, sua amiga Elisa existe, e chegou com desabafos.
-- Ela não me reconheceu. Passou nas filas com marido e filhos e netos. Viu a fila onde eu estava com a Rose e tal. Nenhum sinal de que tenha me visto e reconhecido!
Agora entendo o desabafo do meu amigo. Será que ele viveu para si e família? Será que viveu para agradar (em imaginação!) uma outra pessoa? Por que ele se cobrava tanto? Com quem ele competia?
Tudo o que ele fizera a vida toda fora para impressionar aquela primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro!
Jan 26
LdeM
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