quinta-feira, 30 de abril de 2026

Crônica Meus dois amigos - by LdeM

 



                                                            fonte da imagem: Internet


Crônica 


    Meus dois amigos 


    Hoje me lembrei de dois amigos, o J. e o K. Foi fácil: fazem niver em 1º de maio. E a mesmíssima idade. Não, não são gêmeos. Gente boníssima, mas cada um com sua vida. 


    Conheci tanto o J. quanto o K. nos tempos de faculdade, no curso de Letras, mas nem um nem outro viraram professores. Muito menos eu, que fui pro jornalismo.


    Geralmente eu revejo o J. de L., o de vida mais ordeira, de funcionário público de carreira. Um cidadão gente boa demais. Nunca teve problema na vida. Estudou, passou em concurso público, casou. Tem dois filhos que estão na faculdade. Um pra ser médico, o outro quer ser advogado.


    J. de L. não se acha o centro do mundo. Vive bem com a mulher e a família da mulher. Ela que é professora universitária e escritora. 


    Quanto ao meu outro amigo, bem, aí é o contrário. K. de N. é gente boa demais, mas é daqueles que criticam tudo. Fala mal do governo e da política e da religião e até da música pop. Estudou muito mas desistiu dos diplomas. Foi viver de música.


    K. é um artista e tanto. Já levei a galera em vários shows do homem do saxofone. Jazz, fusion, bossa nova, MPB, música folk etc. Grande artista. Mas nunca reconhecido. Gravou dois álbuns. Só vendeu pros amigos.


    É que K. sempre se sentiu deslocado no mundo. Não se dava bem com a família. Não queria agradar as namoradas. Não levava a sério os professores. Aí brigou com os pais e saiu de casa.


    Depois casou, tentou ser empresário, faliu, tentou de novo, montou um barzinho, foi traído, quase brigou com o sogro, aliás ex-sogro, a mulher ficou com os filhos. Dois adolescentes que não querem estudar nem trabalhar etc 


    J. de L. também gosta de jazz, até já foi também a um ou dois shows do nosso amigo K., mas J. não entende de música, ouve um pop sem preconceito. Até acha o K. um exagerado, “muito extremado, qual problema com o pop?” 


    É que o J. é um cara de boa, sem problemas. Ele aceita o mundo numa boa. Tudo que vem é lucro. Vai criticar? Por que? A vida vai levando e o J. aproveita. Não critica nem governo nem oposição.


    Afinal, meu amigo J. tem casa, carro, apartamento, casa de praia na Bahia, sucesso, é um funcionário reconhecido, ganhou medalhas, faz amigos todos os dias, deve esperar mais uma promoção.


    Quanto ao meu amigo K. é um Mozart, um Schumann, um Paganini, um Nietzsche, um inconformado. Certamente acha e convicto está de que o mundo conspira contra ele. K. é um artista, um poeta do sax, um gênio da música, um multi-instrumentista, mas seu carro está na oficina, até hoje não pagou o apartamento, evita novo casamento, briga com governo e marginais, é daqueles que não ficam mais de um ano num emprego.


    Amanhã meus amigos completam cinquenta anos. Um nasceu de manhã e o outro ao anoitecer. Será que os signos explicam? É culpa dos ascendentes? É coisa de karma mesmo? Quem reencarnou mais vezes?  Espero que sejam felizes cada um a seu modo. Um achando o mundo isso mesmo, vamos em frente, e o outro cuspindo na vida e rebelde até a medula. Que sejam felizes.



Abr 26 


LdeM 



Leonardo de Magalhaens 

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG 

Servidor público PBH


.:

Nenhum comentário:

Postar um comentário