Crônica
No ateliê
Nesta semana fomos surpreendidos pela triste notícia: o falecimento da artista plástica e poeta Neuza Ladeira, que marcou presença na cena cultural desde os anos 1980.
Recebemos os informes e pêsames, nas redes sociais , de artistas e poetas, dentre eles e elas, Rogério Salgado, Marco Llobus, Ricardo Evangelista, Gisele Starling etc que ressalta ainda mais a perda.
Lembro das vezes em que fui recebido na residência e ateliê da poeta e artista, no conforto da Pampulha, belíssima região de BH, como sabem. Lá no ateliê a gente se sente entrando numa personalidade ou numa mente. Um mundo de arte.
O estilo da pintora é de beleza e também estranheza. Tem flores, mas são deformadas. Tem imagens ou pessoas, mas fora de foco. Parecem imagens de sonhos. Ou pesadelos.
Quadros muito perturbadores lembram um Van Gogh ou um Francis Bacon, com as devidas proporções e comparações. São estranhos ao olhar e revelam desconforto: a artista sofreu muito na vida.
Andando pelo ateliê, podemos ouvir seus relatos e testemunhos da época do regime de chumbo, o pesadelo de 21 anos que sangrou o Brasil entre os anos 60 a 80.
A poeta e artista plástica Neuza Ladeira sofreu violência, tanto moral quanto física. Ela participava da resistência contra os desmandos da ditadura. Ela sofreu as consequências: prisão e tortura.
Eu já havia ouvido estes relatos em momentos e eventos anteriores. A feira do livro na Serraria ou no sarau do Automóvel Clube, nos idos de 2003 a 2005, quando entrei para a cena cultural em BH, vindo de Betim, onde vive minha família.
Eu era um caipira em BH, cidade onde nasci e onde não cresci. E pessoas tais como a Neuza Ladeira e o Wilmar Silva, hoje Djami Sezostre, me ajudaram muito, em convites para eventos e saraus. Lembro que tive o prazer de ver pessoalmente dois ícones hoje da literatura portuguesa, valter hugo mãe e José Luís Peixoto.
E lá estava a poeta e artista Neuza Ladeira entre prosas e apresentações, junto com o Wilmar hoje Djami e o poeta e fotógrafo Luiz Edmundo Alves. Fina flor da poética mineira, ao lado do já citado Rogério Salgado.
Claro que alguns poetas não se enturmaram e aí surgiram as sementes das futuras tretas nos saraus das Terças Poéticas nos jardins internos do Palácio das Artes, o altar-mor da cena artística mineira.
No ateliê, conversamos sobre a poesia e as artes plásticas. Sobre as máscaras sociais e as hipocrisias. Sobre as desigualdades e repressões. Sobre a fé e espiritualidade.
Mas sou eu uma bomba
lapidada
em um aparelho
de cabeça para baixo
mãos e pés amarrados
à mercê
Mas sou eu uma bomba
aniquilada pelo inimigo
que insiste
em matar o que não morre
Mas sou eu uma bomba
solta na vida
tendo que sobreviver
num mundo hostil
Mas sou eu uma bomba
explodindo na palavra
feita de pólvora fugaz
[Neuza Ladeira]
fonte da imagem: cortesia do poeta Rogério Salgado
Lembro de tudo isso agora em flashes ao pesar a perda , para a arte e memória de nossa época, as últimas seis décadas , que representa o silêncio repentino de uma artista do porte da Neuza Ladeira.
“Toda uma vida que vivi está nas telas. A minha pintura retrata mitos, magias, realidades, nostalgias, natureza e a beleza das cores. Sempre em ebulição, vivo a diversidade dos temas e nunca repito um quadro. Cada um é um universo fechado em si mesmo.” [depoimento da autora]
Em seu ateliê, a artista sofria e forjava seus belos e atormentados quadros que depois apreciamos na exposição em galeria pública ali na subida da Rua da Bahia, bem defronte da Academia Mineira de Letras. Se não me engano ficou em exposição por um mês. Passei lá uma amanhã, meio nublada e meio chuviscante, a adentrar aquele universo que só percebera em formação lá no ateliê, este mesmo do título da crônica.
Poderia dizer e registrar muito sobre a vida e obra da artista plástica e poeta Neuza Ladeira mas não é meu propósito aqui uma biografia. Trata-se mais de uma memorabilia e uma despedida.
Neuza Ladeira, artista e mulher muito espiritualizada, que esperamos tenha encontrado a paz que o mundo penumbroso da matéria não a ofertou. Que a poeta possa descansar em paz e que nosso Senhor conforte e abençoe a família.
Mar 26
LdeM
Leonardo de Magalhaens
Escritor, poeta, crítico literário
LdeM Literatura Agora!
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