quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Poesia se faz com expressão e experiência - Obra de Hyeda de Miranda MG

 


 

 

Sobre 30 Anos de Poesia e Arte

da autora Hyeda de Miranda Campos

[Rio Vermelho, MG, 1974-]



    Poesia se faz com expressão e experiência



    Introdução


    Não force o poema a desprender-se do limbo”, ou seja, sair do nada, escreveu o poeta mineiro e brasileiro e universal Carlos Drummond de Andrade em seu belo poema “Procura da Poesia”. Para escrever poemas não basta ter belas palavras “tiradas de um estado de dicionário”. Não basta dominar um léxico ou articular bem as palavras. É preciso extrair da experiência a substância da Escrita, como fez um Marcel Proust ou um Pedro Nava.


    Poesia se faz com experiência, observação, labuta, competição, esforço e superação. Poesia não prova nada e nem quer ser prova de algo. A poeta, o poeta, visionários, fazem da vida a matéria da Escrita e deixam a Obra como testemunho. É preciso viver o dia-a-dia, labutar seriamente, desbravar o “grande sertão” (que é perigoso!… segundo Guimarães Rosa) O que faz a Poeta? O ofício e a labuta da criação poética…


    O poema é a pintura que a Poeta, o Poeta, arautos, deixam para os olhos e ouvidos e mentes, como uma aquarela que se baseia em tonalidades de sentimentos, tecidos de emoções que precisam ser expressadas. A Escrita então surge como um quadro pintado num equilíbrio de sentir e pensar, usando sons e palavras e não misturas de tintas e cores.







    A Obra


    Em sua obra de maturidade, 30 Anos de Poesia e Arte, a autora Hyeda de Miranda Campos, natural de Rio Vermelho, MG, vem apresentar sua Escrita tecida com experiência, ao abordar os diferentes aspectos da vida, a vivida e a idealizada. A autora não se preocupa com julgamentos alheios, com críticas e críticos, mas entende que a Poesia vem como arte e missão. É preciso sentir e escrever, dominar a arte, sem julgar, sem rotular, sem classificar em gavetas da razão e da teoria.


    O que é poesia? Quem pode dizer? "Quem há de julgar a poesia? / Classificá-la, rotulá-la... / Dizer se é quente ou fria?" [“Poesia aos Quatro Cantos”, p. 44] Em tons de sentimento e razão, a Poeta Hyeda de Miranda vem pintar sua poética, assim apresentada tal qual uma aquarela diante dos olhos (e ouvidos) dos leitores e leitoras, com a missão da Poeta de "colorir o mundo",


Lá vai o poeta / Gênio maltrapilho

E sua poesia de fome / Suicídio e exílio.


[...]


Espalhando poesia / E colorindo o mundo

O ofício do poeta / É ser mesmo um vagabundo.


Poeta de rua / Como o cordel mais popular 

Que rima luz e trevas / Sem nunca se cansar.


Vai gritar poesia na feira / Pintar uma tela com todas as cores 

Dançar a dança da vida / Malabarista de grande dores.


[“Aquarela”, p. 22]



    A Poesia então vem agir no mundo, não apenas situar numa página de livro ou cartaz / mural numa parede, mas como função de expressar uma visão individual de mundo, de um ser de emoção e razão, daí seu valor. É uma resposta ao "poesia pra quê?" e ao "poesia tem valor?" como um declarar de princípios: poesia não tem "valor de mercado", mas de expressão.


"Poetas não têm relógios / Por isso são tolos 

Tolos e livres / Dos limites e consequências do tempo.


Poetas não têm patrimônio

Senão sentimentos 

Sentimentos sem sentido 

Sem nenhum valor no mercado."


[“Poe$ia”, p. 43]



"O poeta quer mudar o mundo / É lunático

Patético / Exótico!"


"O poeta quer pegar a estrada / Armar o circo

Pintar a cara / Abrir as cortinas"


[“Outra Vez”, p. 36]









   Expressão de sentimentos e de experiências, é assim a Poesia como um olhar sobre a pluralidade do mundo, e a Poeta é uma figura observadora, registradora de sensações, de várias vozes que disputam a atenção, povoando as ruas e telas e redes sociais, pediam nossas reações de amor ou ódio. Todas e todos querem atenção e a Poeta está aí para ver e ouvir e relatar.



"Meu mundo é feito de vozes" [“Vozes”, p. 46]


"Nossos olhares renasceram mais profundos

Capazes de ver além das aparências separatistas.

Agora a natureza sopra vida!"

[“Releitura”, p. 45]




    Como surge a Poesia depois da emoção e da observação? A Poesia se manifesta como uma "explosão", um súbito existir como um jogo de pensar e sentir e articular palavras. Numa revelação metalinguística de um complexo tecido de algo-lá-fora e algo-aqui-dentro, onde a consciência tenta estruturar e equilibrar exterior e interior, e, no meio disso, criar um objeto de expressão -- seja pintura, seja teatro, seja música, seja poema.


Cada obra é uma explosão / Como no princípio 

Mergulha-se no caos / Para a criação 


[...]


E a poesia é luz / Fogo de um milhão de sóis 

Alienígena, alienada ... / Alucinógena! 

Cometa sem rota / Que na poeira do cosmos 

Entre idas e voltas / Quer ser Terra, quer ser Lua, 

Ser de Saturno o anel / Espalhar-se por toda Via Láctea...

Universo de papel !



[“Big Bang”, p. 25]



      Assim nesta viagem poética com Hyeda de Miranda Campos, em sua obra 30 Anos de Poesia e Arte, podemos alcançar outros planos de leitura, nutrindo mais e mais o desejo de experimentar a Poesia, de conhecer vida e obra, de subir no palco e participar do mundo plural da Escrita, que fala da vida e da própria Escrita, ao expressar a condição feminina e a humana, aprendendo e testemunhando, vivendo dia a dia, verso a verso.





Out / Nov 2023






Leonardo de Magalhaens

poeta, contista, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG 

 

 

 


 

 



segunda-feira, 9 de outubro de 2023

5 sonetos by LdeM

 



                               imagem: ilustração de Escher [fonte: Internet]




5 sonetos


by LdeM




Soneto do poeta freudiano


Além de Freud, o poeta freudiano

analisa seus ásperos amores

e disseca os complexos e dores,

de sentir-se demasiado humano.


Com sua identidade à deriva,

despeja em versos íntimos temores,

numa biografia de estertores,

a manter cada mágoa sempre viva.


E conversa com os amores mortos,

no divã expondo os destinos tortos,

nas entrelinhas de cada poesia.


Olhares e momentos de prazer,

tais afetos poderá esquecer?

Ou vai direto para a terapia?



LdeM




...



Soneto do poeta sofredor


Sou o poeta em busca de auditório,

Publicando a solidão nos jornais,

Solicitando a atenção dos iguais,

Ainda que seja contraditório.


Em confissões geme impunemente,

Revelando nuances de sua vida

(Sem pudor ou censura devida)

Compartilha sua dor publicamente.


Por isso me exponho nas livrarias”,

Escreveu Drummond em sua confissão,

Sendo autor e obra sem separação,

E os poemas, toda a biografia.


Falar de si não é osso do ofício,

Apenas simplesmente um outro vício.



BH


LdeM





Soneto para os sonetistas


Confecciona em castelos de palavras

loucas arquiteturas de emoções,

nestas elaboradas construções

equilibrando sílabas e travas.


Transmite cenários e sensações,

tecendo nos quartetos e tercetos

em longos monólogos e duetos,

ao deixar a magia das seduções:


em métricas, cadências pitagóricas,

em sinfonias de quatorze versos,

ousar resumir todo um universo,


elevando em catedrais alegóricas,

em simetria para causar efeito,

todos os decassílabos perfeitos.


BH


LdeM




Quero hoje escrever um soneto rude


Quero hoje escrever um soneto rude

Também áspero e sem qualquer sabor

E que não diga nada de valor

Uma vez que ninguém mais se ilude.


Outro soneto, um daqueles duros

E que não ouse proclamar verdades

(Pois já estamos fartos de verdade!)

E que pode até parecer imaturo!


Um soneto realmente … ilegível.

Ríspido igual àquele do Drummond,

Assim totalmente fora do tom!


Uma pérola cínica, sofrível –

E sem nexo, nem retrocesso – nada!

Que só expressa uma raiva danada!



Betim



LdeM










Soneto da ilusão do eu


Eu vivo em todas as encenações

Mirando das infindas perspectivas

As tramas neste palco sempre ativas

Mudando no cenário as posições.


Eu vivo estas mil interpretações

Atuando sob falas agressivas

(Esta lábia das máscaras passivas)

Simulando confraternizações.


Eu tenho vivido mil profissões,

Sem nada entender das ocupações,

Crendo servir ao meu próprio umbigo.


Eu sou estes e aqueles nesta cena

(A cena que nada tem de pequena)

E talvez um dia eu me encontre comigo.


BH


LdeM



2023

 

 

 



...

terça-feira, 3 de outubro de 2023

O sucessor de Torto Arado vem aquecer nossa literatura

 


 



Resenha


Salvar o Fogo

Romance

Itamar Vieira Junior



    O sucessor de Torto Arado vem aquecer nossa literatura


    Imagine uma obra literária densa e com diferentes pontos de vista. Uma prosa poética e telúrica que lembra o clássico Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. O drama de mulheres fortes que testemunham a condição feminina, como encontramos em Torto Arado, obra impactante do mesmo autor.


    Pense também num enredo que explora uma narrativa não-linear e não absoluta. Diferentes perspectivas para um mesmo evento e modos de interpretação de personagem para personagem, e uma voz em 3ª pessoa que preenche as lacunas. É o estilo de O Som e a Fúria, romance do autor estadunidense William Faulkner. E de obras atuais do moçambicano Mia Couto.


    É o que temos em mãos: um romance que é poético, é telúrico, é agreste, é profundo e pungente. Temos várias perspectivas para acompanhar as personagens, sejam protagonistas ou coadjuvantes. É um quebra-cabeça a ser montado pelos leitores e pelas leitoras.


    Neste Salvar o fogo, o novo romance de Itamar Vieira Junior, o microcosmo do interior da Bahia representa o mundo, assim como uma cidadezinha do interior do sul estadunidense ou uma Macondo do realismo mágico de García Márquez. Aqui a Tapera do Paraguaçu é uma aldeia junto ao rio, ‘rio grande’ em tupi-guarani, nas terras da Igreja católica, que ali administra um mosteiro.


    O drama de uma família de descendentes de indígenas e de escravos africanos é narrado segundo a perspectiva de um menino que vira seminarista, de sua suposta irmã mais velha, que lava a roupa do pessoal do mosteiro, a voz de uma das irmãs, que deixou a família décadas antes e, por fim, uma voz que acompanha o menino agora adulto e sua suposta irmã mais velha que oculta um segredo.


    O enredo é disposto em fragmentos, pois as personagens não sabem tudo sobre o mundo ao redor e nem sobre si mesmas. O menino que se chama Moisés descreve sua vida de cuidados e pouco afeto junto ao pai viúvo e sua irmã Luzia, que não se casou para cuidar do caçula da família.


    A irmã Luzia consegue uma vaga para Moisés no seminário dos padres e espera que o menino não siga uma vida de labutas na lavoura ou nas jangadas ou saveiros. O menino realmente se empolga com os estudos, mas descobre facetas ocultas do abade e, traumatizado, ele deixa o mosteiro e a aldeia e vai para a capital.


    A aldeia de Tapera se situa em terras da Igreja e gravita em torno do mosteiro assim como a aldeia em torno do Castelo na obra de Franz Kafka. Os aldeões precisam pagar aos padres e trabalhar para a subsistência. O que aconteceu no mosteiro não é denunciado.







    Na segunda parte, temos a perspectiva de Luzia e o drama do acidente (?) com o pai na lavoura. Acamado, o pai que rever os filhos. Então o jovem Moisés retorna e também a irmã Mariinha ou Maria Cabloca. É na terceira parte que conhecemos a mulher que saiu de casa com um homem afrodescendente, que se mostrou agressivo, e ela consegue voltar à terra, junto com os filhos.


    Na parte final, a voz que tudo sabe vem preenchendo as lacunas. Quem é o Moisés? É mesmo o irmão mais novo? Ou é o filho de Luzia? Entendemos então que ela sofrera uma violência sexual em sua adolescência.


    É uma história difícil de resumir. Tem muita coisa a ser dita e muito para se ler nas entrelinhas. O leitor ou a leitora que se aventure em Salvar o Fogo e se aquecer junto às chamas da literatura.


Set 23


LdeM

Literatura Agora!

Canal YouTube

 

Resenha

https://www.youtube.com/watch?v=Bd3xitIfG7o


contos de Doramar e a odisseia


https://www.youtube.com/watch?v=IY7a2ay2_DM


resenha


https://www.youtube.com/watch?v=fOY4z3XPq_8



2023

 

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segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Sexo: drama nosso de cada dia : Sex'n'Drama 2023

 


 




Sobre a obra Sex'n'drama

Selo Starling, BH 2023

Lecy Sousa, Marlon Nunes Silva et alli.


    Sexo: drama nosso de cada dia


    Preâmbulo


    É difícil dimensionar a importância do sexo, da vida sexual, em nosso dia a dia. Temos autores que defendem que tudo vem do sexo e se faz por sexo. Sejam os psicanalistas freudianos, ou os antropólogos, a ideia é a mesma: estamos aqui para reproduzir e perpetuar a espécie. É o lance de passar os genes para a frente.


    O ser humano sempre está agindo para atrair o sexo desejado, seja o oposto ou o mesmo, de modo que consciente, ou mais inconscientemente, se faz vaidoso e sedutor, e até agressivo, para conquistar o ser do desejo, mas sempre com uma satisfação que poucas vezes é alcançada. Após o ato sexual, a insatisfação e a melancolia. E a busca de outro parceiro ou parceira.


    O assunto sexo é sempre interpretado pelo viés de utilidade, de reprodução, de formar família. É um tabu falar de sexo como um mero prazer, uma diversão. Não é de bom tom falar de sexo como uma sacanagem. Palavras calientes somente são permitidas na intimidade das quatro paredes espelhadas. Na sociedade se justifica a vida sexual como outra necessidade fisiológica, pois dizem "o corpo é que pede", ou "vida sexual é sinal de saúde". 


    As dimensões não fisiológicas do sexo vão parar nas obras literárias. Não o sexo em si mesmo, mas o modo de desvelar o corpo e a persona do outro. Sexo enquanto gratificação da intimidade mutuamente compartilhada. Mais prazeroso que o ato sexual é a parceria, a revelação da nudez física e espiritual. Estar com alguém não significa apenas o corpo de alguém, mas a alma nua sem véus.


    Os discursos e as atividades sobre sexualidade oscilam num movimento pendular ao longo das eras. Momentos de liberação sexual são seguidos por forte repressão. Basta uma olhada nos últimos 5 séculos. Depois da repressão medieval ao prazer sexual, tivemos uma renascença de estética e luxúria. Depois uma época barroca de penitência. Em seguida um século iluminista de divulgação de material erótico e autores como um Marquês de Sade.


    Depois uma era vitoriana de repressão sexual. Pois 'decência' era a palavra. No século 20 um início de Belle Époque, e era do jazz, até anos 50 com macartismo e outras caretices. Então os anos 60 e 70 com a revolução sexual. Jovens casais em festivais de rock e uso de pílulas pelas mulheres que queriam sexo livre. Agora, os cristãos pop pregam a abstinência ou "esperar até o casamento".

 






    A Obra


    É sobre estas idas e vindas do fenômeno sexual que se debruçam os autores (só homens?) de Sex'n'drama, obra idealizada por Lecy Sousa e realizada / editada por Rodrigo Starling. A ideia do poeta e contista e performancer Lecy Sousa se mostrou fecunda ao convidar outros amigos para apresentarem suas opiniões e depoimentos e ensaios sobre o tema tão tabu. Ideia que fertilizou a criatividade dos autores para a frutificação de um livro excepcional. Tem literatura e tem livre ensaio, tem psicologia e psicanálise, tem depoimentos e testemunhos.


    A obra tem seu início e seu fim na forma de obra literária. Uma voz feminina abre Sex'n'drama com um depoimento longo e sincero, demasiado sincero, de uma senhora que passou por altos e baixos na vida sexual. Violência, exploração, preconceito, tudo isto mostra que a condição feminina não é nada fácil.  Como surgiu este depoimento? O autor LdeM se imaginou: E se eu tivesse nascido uma mulher? Como seria minha vida com outro aparelho reprodutor e outros desejos? E daí a imaginação fez seu trabalho.


    Uma voz masculina fecha a obra com suas considerações sobre a sexualidade na era virtual e pós-moderna em que tudo é supérfluo e o outro ou a outra é mais um (ou uma) na fila de fetiches. É o depoimento de Adriano Borçari que fecha brilhantemente um livro tão diversificado sobre um assunto tão polêmico.


    Entre os conteúdos literários temos os três ensaios de Marcos Fabrício Lopes, Helder Clério e Marlon Nunes Silva, além do ensaio livre de Lecy Sousa. Vamos então desnudar os textos por partes. Os autores possuem diferentes olhares e estilos quando abordam o comportamento e a sexualidade. Marcos Fabrício Lopes, um professor, tem um estilo ensaístico marcado, afinal é da área de Letras e domina o gênero ensaio. Seu olhar se concentra na cultura e suas manifestações: como a vida sexual é abordada em letras de músicas, sejam do rock ou do pop, a cada geração e seus testemunhos de 'sexo é coisa de família' e de 'sexo é sacanagem mesmo'. Quem define o 'obsceno'? Quem deu autoridade ao 'moralista'?


    O poeta e psicólogo Helder Clério explicita seu olhar lírico e clínico. "Quem tem medo de falar sobre sexo?" É uma constatação e uma provocação. Tanto conteúdo de teor sexual erótico pornô a disposição, mas quando abordamos o tema por que divagamos, enrolamos ou nos silenciamos? Depois de tudo, de toda liberação sexual, por que tanto tabu? É a cultura? É a política? É o credo religioso? O autor recorre a uma 'psicologia de massas' pois toda psicologia é social, não há um indivíduo sem um coletivo.


    O poeta e músico e polemista Marlon Nunes Silva apresenta seu olhar mais psicanalítico e filosófico. Freud explica? Lacan teoriza? Jung desmitifica? Melanie Klein elucida? O que Foucault tem a dizer? O que podemos aprender com Bauman e com Zizek? Sexo é outro simulacro? Sexo: instinto + imaginação ? Psicanálise lado a lado com a filosofia: clínica e pensamento e meditação. Somos consumistas por que somos narcisistas? Vivemos de fetiches por que somos insaciáveis? 






    Por fim, mas não menos importante, o ensaio livre (ou é autoficção?) de Lecy Sousa que, de imagem em imagem (literalmente!), teceu seu depoimento (muito incisivo e cortante) sobre os tabus da nossa época. O estilo de Lecy Sousa exposto todo aqui: crítica ao mundo pós-moderno, ironia com os objetos de fetiches, desnudamento dos ícones pop, deboche na cara dos moralistas de plantão, sarcasmo com os limites do profano e do sagrado, as caricaturas e as figuras da mídia são desconstruídas, desde atores e atrizes até revistas em quadrinhos. Imagens eróticas desde a antiguidade ilustram o ensaio livre que atira para todo lado: é chumbo grosso.


    Por que o assunto sexo é tabu? Por que desperta risos e rubor? Sexo é pecado? A Divindade preocupada com nossa vida sexual ? Quem define o que é profano e o que é sagrado? O problema é de 'moral e bons costumes'? O que Lecy Sousa quer é o fim da hipocrisia. Neste mundo de sexo enquanto mercadoria, onde corpos são maquilados e vendidos em vitrines. Corpos que são reformados e remodelados, como coisas expostas. O que Lecy Sousa quer é a vida autêntica!


    Em suma, este Sex’n’drama é uma obra polêmica e profunda. E tem para todo mundo: quem gosta de literatura, quem gosta de auto-ajuda, quem gosta de auto-conhecimento. Para quem é hetero, ou homo, ou metrossexual, para quem é cis e bissexual e trans e drag queen e crossdesser. Aqui tem a voz da diversidade, aqui tem um apelo contra os preconceitos, aqui tem um elogio à sexualidade livre e plena sem tabus e neuras. Pois assim falava Walt Whitman, o poeta do corpo e da alma, "O sexo contém tudo: corpos, almas, sentidos, provas, purezas, delicadezas, resultados, avisos, cantos, ordens, saúde." Boa leitura e boas transas!



set23



Leonardo de Magalhaens

poeta, contista, tradutor

crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG


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2023