quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Arte de Governar - poem by LdeM






Arte de Governar



O Governo aparece na TV.

O Governo dita ordens diárias.
O Governo e seus decretos-leis.
O Governo e seus carimbos.
O Governo distribui cargos.
O Governo distribui medalhas.
O Governo manda & desmanda.
O Governo ergue pontes, viadutos, monumentos.
O Governo nos dá livros, mochilas, merenda.
O Governo e suas discussões.
O Governo e suas distrações.
O Governo é todo sorrisos.
O Governo usa maquilagem.
O Governo adora estatísticas, gráficos, tabelas.
O Governo e suas previsões.
O Governo e seus palácios, carros, jatinhos.
O Governo condena & absolve.
O Governo prega ordem & progresso.
O Governo e os bens públicos.
O Governo e a exibição de gravatas.
O Governo paparica os políticos.
O Governo sabe se defender.
O Governo arma & desarma.
O Governo sabe.
Nós não sabemos.






24fev16




Leonardo de Magalhaens




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Desabafo em forma de poema - LdeM & LVR





Desabafo

em forma de poema



Estamos afogados em símbolos,

sepultos sob uma maré de códigos,

hoje regurgitando os velhos discursos.

Todas as possibilidades de criar

mofadas como livros velhos.

Toda originalidade negociada

na Bolsa de Valores,

enquanto artistas reproduzem

a técnica da repetição.

Lembrando a velha vanguarda

petrificada em monumentos pinchados

que ilustram os panfletos dos novos eventos.

Políticas públicas de incentivo

destinadas ao mercado de fanzines

com a caricatura do senhor Prefeito.

Nas festas o banquete de sangue juvenil

servido nos copos descartáveis

com o rótulo da coca-cola.

Sentados no Mcdonalds,

vestindo a jaqueta da moda,

discutindo táticas anarquistas.

Saindo da livraria do shopping

com mais um dicionário

para termos herméticos

e metafísicas senis.

Comprando mais pílulas

contra a galopante insônia

de preencher protocolos.

Lendo no jornal a agenda cultural

enquanto preparamos

o café sem cafeína.

Seguimos decorando um poema

de estrofes disformes

e assonâncias vazias.

Vomitando asperezas contra a lua.



20mar2005



by Leonardo de Magalhaes & Leonardo Vieira Rodrigues



com fotos de Wesley Duke Lee in Paranoia / 1963 / by Piva




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

mandatários - by LdeM


 




mandatários


todos mandam em mim
minha mãe manda em mim
meu pai manda em mim
minha mulher manda em mim
meu filho manda em mim
minha filha manda em mim
meu marido manda em mim
minha sogra manda em mim
meu cunhado manda em mim
meu namorado manda em mim
o irmão do meu namorado manda em mim
minha noiva manda em mim
o primo da minha noiva manda em mim
meu patrão manda em mim
minha gerente manda em mim
meus supervisores mandam em mim
meu advogado manda em mim
o advogado da ex manda em mim

os governistas mandam em mim
os oposicionistas mandam em mim
os corruptos mandam em mim
os latifundiários mandam em mim
o policial de trânsito manda em mim
o sargentão manda em mim
o tenente manda em mim
o coronel manda em mim
o general manda em mim
o ideólogo manda em mim
o departamento de propaganda & marketing manda em mim

os locutores mandam em mim
o gerente de produção manda em mim
o professor de cursinho manda em mim
hippies apocalípticos mandam em mim
os ocultistas mandam em mim
os belicistas mandam em mim
o anarquista febril manda em mim
os peronistas mandam em mim
os chavistas mandam em mim
os psicopatas mandam em mim
os sociopatas mandam em mim
as freiras beatas mandam em mim
a celebridade atual manda em mim
o novo cantor midiático manda em mim
o artista no comercial manda em mim
a nova miss manda em mim

os lobbistas mandam em mim
os médicos-sem-fronteiras mandam em mim
os atletas olímpicos mandam em mim
os poetas laureados mandam em mim
o Big Brother manda em mim
Dalai Lama manda em mim
Angela Merkel manda em mim
Obama & Hillary mandam em mim
o Tio Sam manda em mim
os terroristas jihadistas mandam em mim

Saruman e Gandalf mandam em mim
o cavaleiro jedi manda em mim
o sinistro Darth Vader manda em mim
o capitão Gancho manda em mim
mesmo Peter Pan manda em mim
o Mickey Mouse manda em mim
a madrasta malvada manda em mim
a bruxa má do Leste manda em mim
mesmo o Mágico de Oz manda em mim
mesmo a meiga Dorothy manda em mim
até a Cinderela manda em mim

o Gato sorridente manda em mim
a Lagarta metafísica manda em mim
mesmo o Chapeleiro louco manda em mim
o tétrico Valdemort manda em mim
mesmo o bruxinho Harry Potter manda em mim
meu afilhado manda em mim
minha enteada manda em mim
meu filho manda em mim
todos mandam em mim !


dez/15 & jan/16


by LdeM

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

cosmologia de mercado - poema by LdeM





cosmologia de mercado


leis do mercado
tão incontornáveis
quanto as leis da física

déficit-e-superávit
tão inexoráveis
quanto a gravitação

oferta-e-demanda
tão onipresentes
quanto a eletromagnética

custo-e-benefício
tão primordiais
quanto a natureza
ondulatória da luz

débito-e-crédito
tão essenciais
quanto o oxigênio

renda-e-gasto
tão urgentes
quanto a filtragem do sangue





altas-e-quedas na Bolsa
tão imprevisíveis
quanto as flutuações subatômicas

negócios hiperdigitais
tão imapeáveis
quanto as redes neuronais

emprego-e-desemprego
tão dinâmicos
quanto a ingestão-e-excreção


postos de trabalho
tão instáveis
quanto amostras radioativas

o capital circulante
tão inflável
quanto a expansão-e-contração

finanças autogeradas
tão fundamentais
quanto as forças nucleares

conversões de câmbio
tão infindas
quanto as combinações atômicas

campanhas publicitárias
tão complexas
quanto as interações moleculares

pesquisas de mercado
tão fluídas
quanto a dinâmica dos gases

produção-e-consumo
tão invioláveis
quanto a atração-e-repulsão

salário-mínimo pago
tão inescapável
quanto a ação-e-reação




valores agregados
tão imensuráveis
quanto a matéria escura

dinheiro-faz-dinheiro
tão impactante
quanto a implosão das estrelas

consumismo-e-poluição
tão insuperáveis
quanto a inércia!


29dez15


Leonardo de Magalhaens


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

É o fim - poema by LdeM





É o fim

luzes espuma fumaça
corpos sobre corpos
as bocas se beijam
as mãos atraem gozo
na entrega de paixões
na música enlatada
os flashes de sustenidos
as batidas digitais
de ritmos desritmados
ébrios até a insanidade
em excesso de excessos
sob luzes tremores
em redemoinhos visuais
os vórtices de sensações
os turbilhões de desejos
(todos insaciáveis!)
um embriagar sem-fundo
para fugir do medo!

§

as máfias promoendo
o tráfico de mercadorias
o tráfico de pessoas
adulteração falsificação
acúmulo de contâiners
excesso de produção
os servidores servos escravos
nas linhas de montagem
os menores acorrentados
às máquinas impiedosas
esgotam-se até o cerne
na orgia de fuligem
do mundo industrial
produzir para consumir
envenenar poluir
falsificar contrabandear
traficar para consumir!

§

da produção insana
- o que será do lixo? -
com reciclagem zero
o acúmulo de restos
colinas de lixo tóxico
aterros de tumores
de fumaça empestiada
refugos contaminados
sepultura de venenos
depósito de detritos
escoamento de resíduos
poluindo águas fundas
hecatombe bioquímica
fertiliza mutações
ulcerando gerações!






§

o tráfico de armas
para o movimento de tropas
de ditadores contra rebeldes
nas cidades bombardeadas
onde crianças uivam nas ruínas
mãos pés pernas jazem
nas urbes em escombros
as máscaras contragases
no ar envenenado
onde corpos em trapos
sofrem política assassina
farrapos de dignidade
expulsos sob bombas
fugitivos para os enxames
de migrantes à deriva !

§

falas em celulares
nas torres das cidades
eletroondas se cruzam
se confundem se anulam
(words words words)
desabafos neuróticos
conchavos & confissões
discursos vazios de sentido
duelos de Suas Excelências
(os nossos 'representantes'?)
CPI-show: circo político!


§

na mídia festiva
as ideologias banalizadas
carnavalização dos poderes
muita lei por nada
muito rito por nada
MUITA RIMA POR NADA
excesso de adjectivações
para alavancar as vendas
gerundismos de telemarketing
propagandas para indecisos
comerciais alimentam gastanças
em melodias de elevador
ignorância vende best-sellers
deseducação elege canalhas!

§

enquanto celas entulhadas
de vida sem futuro
crimes & castigos engaiolados
fechaduras sem chaves
solitárias sem luz
penitências sem redenção!
enquanto tudo muda
(em vertigens em gráficos
em portfólios em projeções)
para sempre continuar
o mesmo




20/21/26dez15


Leonardo de Magalhaens







segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Rio Doce ficou amargo - poem by LdeM





O Rio Doce ficou amargo

[Became bitter the Sweet River]


água doente de lama
hecatombe de escamas
olhos vítreos flutuam mortos
mãos se quedam em fome
afogados em restos tóxicos
de rejeitos de garimpo
tumores brotam de pescados
vidas afundam na lama
toxinas beijam as margens
do rio Doce agonizando
falecido desde dentro
profundamente ulcerado
amargo de ferrugem & morte
da corrupção & da miséria
da ignorância & da indiferença
arruinando caules & asas
contaminando pulmões & guelras
hecatombe de escamas !
cardumes nadam em sufoco
ondas asfixiantes encobrem
vilas & cidades & praias
ninhos & criadouros
rio de amargura tóxica
de ferro mercúrio alumínio
metais pesados corrosivos
de morte dissolvida
em água & lama
rubra de sangue poluído
manganês chumbo cromo
enxofre níquel arsênio
enquanto sinos dobram
pelos mortos & desaparecidos
sepultados em ruínas
sob cascatas de lama
sob escombros & restos
sob retratos rachados
& automóveis suspensos
sob telhas tetos toras
os órfãos da dignidade
os fantoches do lucro doentio
ruínas sob lama sólida
uma pompeia mineira
a ser escavada futuramente
como testemunho de
nossa ganância & incompetência
nossa arrogância amargando
o rio outrora doce
em desafio ao clima
que vem decretar
o nosso amargo fim.



05dez15



by Leonardo de Magalhaens







Became bitter the Sweet River


the muddy sick water
hecatomb of scales
vitreous eyes float dead
hands fallen in hunger
drowned in toxic remains
of tailings from mining
tumors bloom from fish
lives sinking in the mud
toxins kiss the banks
of the Doce river dying
dead from within
deeply ulcerated
bitter by rust & death
by corruption & misery
by ignorance & indifference
ruining stems & wings
contaminating lungs & gills
hecatomb of scales!
shoals swim in suffocation
asphyxiating waves cover up
villages & cities & beaches
nests & procreation places
river of toxic bitterness
iron mercury aluminum
heavy metals corrosive
of dissolved death
in water & mud
reddish by polluted blood
manganese chrome sulphur
lead nickel arsenic
while the bell tolls
for the dead & missing ones
buried under the ruins
under cascades of mud
under rubble & debris
under broken portraits
& suspended cars
under ceilings tiles trunks
the orphans of dignity
the puppets of the sick profit
ruins under the solid mud
a Pompeii from Minas
to be excavated in the future
as poor witness to 
our greed & incompetence
our arrogance embittering
the once sweet river
in challenge to the climate
coming to decree
our bitter end.



06dez15


by LdeM