fonte da imagem: Internet
China Cultura Milenar
Um panorama da literatura chinesa
by LdeM
Para Regina Mello [MUNAP]
Em 1974, um evento arqueológico de grandes proporções despertou a China Popular: uns oito ou dez mil guerreiros em terracota (argila cozida) foram desenterrados num mausoléu (monumento fúnebre) de 2,2 mil anos!
Vinte e dois séculos de história do primeiro (proclamado) Imperador da China, que uniu três Reinos no centro e norte, ao longo do Rio Amarelo (Huang Ho). Posteriormente os han, a etnia predominante, descem para o centro e sul, para o Rio Azul (Yangtze).
Uma civilização que se preze tem poesia e religião, e no caso chinês a poesia e a mística estão unidas na obra fundamental de Lao Tzu ou Tsé, o Tao Te Ching, o Caminho Perfeito. Também a estratégia militar tem importância com a obra Arte da Guerra do sábio Sun Tzu. Momentos de reinos em combate e ainda sem o aparato burocrático a ser inspirado na obra meritória de Confúcio.
Lao Tzu e Confúcio e Sun Tzu inauguram a civilização que hoje chamamos chinesa, ao longo de 2,7 mil anos! Incluindo as fábulas e quase koans da poética taoísta de Zhuangzi que sonhava ser borboleta ( ou borboleta que sonhava ser humano?) e Shen Buhai e os dragões, as majestosas serpentes aladas, símbolos da China Imperial.
Além de Confúcio e Lao Tzu, a civilização chinesa recebeu a visita e influência da cultura budista, vinda da Índia, desde antes da Era Cristã, e que se integrou ao taoísmo [ou daoismo] com a doutrina Chan (será o zen budismo no Japão).
A China que temos em nosso imaginário no Ocidente é aquela da época de Marco Pólo, o viajante italiano, no século 14, que conheceu o Império dos mongóis, os Genghis Khan, os Kublai Khan, etc, que dominaram a civilização chinesa e se expandiram até a Europa, passando por Bagdá, onde caiu a Era de Ouro do Islam, no século 13.
Vitimados por invasões estrangeiras, do norte e do oeste, a China Imperial uniu as defesas principais na imensa Muralha da China, já na dinastia Ming, considerada o ápice da cultura chinesa, com as artes e a cerâmica. E a poesia! Destaque para a poética de Chen Renxi, arauto da técnica e da persistência (o que muito nos lembra o nosso Bilac...) na lírica e na prosa.
Os jesuítas chegaram em suas missões durante o século 16 até o Império chinês durante a dinastia Ming e aprenderam mais sobre o idioma e os ideogramas da difícil escrita, numa árdua labuta de tradução. Entre palavras e ideias e civilizações.
Mesmo com exércitos e muralhas, os han não impediram o avanço manchu, vindos do norte e nordeste, que dominaram os chineses até o início do século 20! Os manchus oprimiram os chineses até no corte de cabelo! Mas adotaram muita cultura chinesa de base em Confúcio e os imperadores aceitaram tanto taoísmo quanto budismo. A conhecida imperatriz Cixi era famosa por sua devoção budista.
O Império chinês oscilava entre abertura comercial e total rejeição dos ocidentais. Só após guerras internas e invasões, na época das Guerras do ópio, o Império chinês aceitou abrir os portos aos europeus, que até serviriam como exércitos mercenários contra a Rebelião Taiping (meados do século 19), uma revolta camponesa com influências ‘messiânicas’.
O último imperador chinês foi um menino, Pu Yi, da dinastia dos manchus, que viveu à sombra do domínio japonês, que avançou assim que percebeu o declínio chinês e a divisão interna. A República foi proclamada, em 1912, mas as diferenças e os conflitos entre nacionalistas e comunistas levaram a uma série de guerra civil, que só teve pausa na causa comum contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial.
fonte da imagem: Internet
Do início do século 20 ao longo de todo o século, a civilização chinesa passou por dissensões, conflitos, êxodo rural, mudanças de regime, urbanização e megacidades. E a instabilidade só teve fim com um regime fechado a partir de 1949, com os maoístas.
A época de transição e modernização, entre feudalismo e a república, foi melhor retratada por Lao She e por Lin Yutang. Homens da China moderna, que se apoiaram. Lao She escreveu para revistas de Lin Yutang, que acabou migrando para os Estados Unidos da América, para a famosa Chinatown.
Lao She fala dos camponeses que abandonaram os trabalhos árduos nas lavouras para conquistarem espaço nas cidades, na construção e/ ou puxando riquixás. Quanto a Lin Yutang os temas são aqueles dos imigrantes, da diferença cultural, do contrabando, do mercado paralelo, etc
A condição das mulheres nas obras de Jung Chang (destaque para Cisnes selvagens, 1991) mostra as gerações desde a dinastia manchu até a Revolução Cultural, no momento da implantação da república, depois a guerra entre nacionalistas e maoístas, e contra os japoneses, até a vitória da China Popular do regime comunista. A autora também volta no tempo para uma extensa biografia da imperatriz concubina Cixi que permitiu a abertura ao comércio dos ocidentais e norteou a modernização chinesa ainda nos moldes dinásticos.
Foi o Nobel de literatura em 2000 que destacou o autor Gao Xingjian, que depois foi para a França, o mesmo destino de outro escritor, o Dai Sijie. As obras de Gao Xingjian abordam o interior da China, os camponeses nas várias províncias, a diferença do campo para a cidade, num estranhamento que os maoistas tentaram resolver.
Como? Enviando os estudantes para ajudarem os camponeses e assim aprenderem a labuta diária. Assim nos apresenta os dramas da arte literária de Dai Sijie. Que não esqueceu o passado: outro que lembra da dinastia manchu e seu último soberano, o menino imperador.
Os manchus vieram do norte e nordeste, lá onde se desenrolam os dramas de O totem do lobo, romance de Jiang Reng, sobre caçadas nas estepes e nas montanhas.
Aliás montanhas e vales e rios é o que não falta na geografia da China, como bem demonstra a obra de Gao Xingjian e também de Da Chen, autor de Irmãos, ou A montanha e o rio, sobre as diferenças históricas de origem geográficas.
A tensão entre camponeses e os funcionários, entre os funcionários e os militares estão nas obras de Da Chen, outro que foi para terras estrangeiras, no caso, os Estados Unidos.
Também para os Estados Unidos foi a autora Yiyun Li, do romance Os Excluídos, sobre as censuras e perseguições do regime maoísta, que implantou um socialismo real ou um capitalismo de Estado.
A China Popular que permanece em nossas retinas é aquela da imagem de um homem solitário, um jovem em protesto, que interrompe em plena praça (a chamada da Paz Celestial) uma fileira de tanques blindados em avanço.
As mudanças da política não mudaram os dramas da condição feminina, é o que aprendemos nas obras de Xinran, uma jornalista chinesa, hoje no Reino Unido, que denuncia, em As boas mulheres da China, a permanência das violências sofridas pelas mulheres numa cultura masculina opressora. A tradição não acompanhou a modernização técnica e econômica.
Quanto a China do futuro, aquela dos arranha-céus e dos robôs, esta podemos encontrar nas obras de suspense e de ficção científica de Cixin Liu, famoso pela epopeia O problema dos 3 corpos, que vem misturar trama policial com censura política e conspiração alienígena!
Recentemente, em 2012, o Nobel de literatura foi para outro chinês, Mo Yan, cujas obras abordam as mudanças na China, a urbanização brusca, as políticas de planejamento familiar, etc Diferente dos demais escritores, o autor pode publicar suas obras sob o regime que censura tantos. Tem quem o acuse de conivente ou alinhado com os dirigentes. Mas esta é uma resenha sobre literatura e cultura, e não um ensaio sobre política e muito menos geopolítica.
Ago 26
LdeM
Leonardo de Magalhaens
Escritor, crítico literário
Bacharel em Letras FALE / UFMG
.:
Nenhum comentário:
Postar um comentário