terça-feira, 5 de agosto de 2025

Sonetos Cristãos by LdeM

 



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Soneto da Graça Eterna 


Soprou em nós o fôlego de Vida 

A Divindade dos Céus e da Terra 

Ao corpo e alma dentro regenera:

Graça da Vida Eterna prometida.


Mãe piedosa geradora da Vida,

Pai justo estende a todos Salvação:

Pois não tem prazer na condenação,

Logo aceitem a Graça oferecida.


Por Amor Deus Excelso se revela 

Em sintonia o Conhecimento:

Ministra Justiça a cada momento!


Plena Misericórdia desvela:

Não vem Dele o mito cruel do inferno!

É Vida: Um Só é o Deus Eterno.



Ago 24 



LdeM 




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Soneto da Paixão 


Salmos 22 (21) e 38 (37)



Senhor, tenha piedade de mim!

Se eu clamar, em dor, quem me ouvirá?

Quem, além do Senhor, vem me salvar?

Não tenho forças, não, em dor sem fim!


Meu gemido não se oculta de Ti!

Desejos são vãos! Vãos! Pesam em mim, 

Tantos que sufocam, rosnam sem fim, 

Acusam dia e noite, assim, sobrevivi.


Senhor, somente em Ti, tenho esperança, 

Meu íntimo se derrete de ardor, 

Humilhado, prostrado, em temor!


Não tarda a chegada da bonança, 

Eis o advento pleno do Teu favor, 

Salvo na Graça digna de louvor!



Abr 25 


LdeM 



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                                 local: Mariana / MG   fonte: internet 




Soneto de Corpus Christi 



Nas ruas as mil cores celebram, 

Imagens sacras, a última Ceia, 

Em serragens, café, cascas, areia, 

Cenas bíblicas, todas relembram.


Pombas em plumas, mais cores vibram, 

Ofertam aos olhares as belezas 

Dos santos Mistérios a riqueza 

Que aos fiéis nas ruas deslumbram. 


Nas praças ondulam as procissões, 

De vozes, rezas, votos, devoções

Prolongam nas ruas as liturgias.


Mil flores... Palmas... Em santa alegria, 

Louvores... Mais salmos... Novas canções 

Celebram a Fé na Eucaristia!



19/20 jun 25 



LdeM 







Soneto aos Evangelhos 



Mateus fala de Jesus aos judeus,

O filho de Davi, O Messias,

Filho de Abraão, O Filho de Deus,

Que no monte proclama as Boas Novas.


Em Marcos o chamado aos Apóstolos,

Os pecadores e os  pescadores;

Junto ao povo, ensinos e perdão;

Do Templo, expulsou os vendedores. 


Lucas os tantos milagres e curas 

Descreve com devoção e louvor, 

Desde a Anunciação à Ascensão. 


João, arauto do Verbo Divino, 

Revela o Criador e Salvador:

O Amor declarado na Redenção. 



Jul 25



LdeM 














A Bíblia contém a Palavra Divina 


Prosa e Poesia, Obra inspirada 

Do Alto aos homens de boa Vontade,

Escrita de Fé e Verdade:

É a Revelação guardada. 


Provérbios, as Profecias,

Os Salmos, os quatro Evangelhos,

Em Testamentos: Novo e Velho,

Divididos pelo Messias. 


A Bíblia contém a Palavra 

Divina, plena, radical,

Soprada direta de Deus:


Testemunho, Credo e Palavra 

Iluminam o essencial:

Cristo é a Palavra de Deus. 



Ago 25



LdeM 





Leonardo de Magalhaens

poeta, contista, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG




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sexta-feira, 4 de julho de 2025

Praga de Brasiliense [2024] novo livro do poeta Marcos Fabrício Lopes da Silva

 




Praga de Brasiliense 


Conto-poemas de 

Marcos Fabrício Lopes da Silva 

Brasília DF 

2024


    Finalmente em mãos a nova obra do poeta e professor Marcos Fabrício, posso então declarar que é sensacional, um verdadeiro fenômeno a demolir limites entre poesia e prosa, numa carga pesada contra os cidadãos de bens e os parasitas da pátria.  


    Desde o conto de abertura, e ao longo dos poemas narrativos, as personagens se alternam entre burocratas, desonestos, corruptos, cidadãos feitos de otários, fanfarra dos gananciosos, trupes de funcionários, entre cínicos e deslumbrados, com mil referências às artes brasileiras, de letra e de samba. 


    Nos textos estão tramas de tessituras vastas, vozes e ecos de Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Jorge Luís Borges, mitologia grega, dentre outros, com uma ironia cortante  a denunciar o plano piloto de Oscar Niemeyer e cia. que se tornou hoje um bunker para as elites encasteladas. 


    Num cinismo digno de um Brás Cubas, o burocrata sem escrúpulos de Niemeyerlândia expõe visceralmente as impressões e preconceitos das elites dos poderes políticos, a serviço dos plutocratas e ruralistas e neopentecostais das igrejas shopping center:


Sou especialista em dar tombo nos outros. 


Baseado na minha carreira, garanto: minha vida é um porre nada homérico.  


Como bom camaleônico, prefira Sukita. Cicuta é para os socráticos.  Molhe a palavra com o uísque presenteado pelo chefe. 


Futuro burocrata. Um dia, você terá um caixão cinco estrelas igual ao meu. 



    É assim que as classes que nos governam se revelam e se desnudam diante dos nossos olhares de cidadãos e cidadãs que não sabemos votar e damos as chaves da República para os demagogos e canalhas de plantão.  






    Rindo meio às tragédias talvez a gente consiga aprender alguma coisa, neste plano piloto que errou o plano de voo e caiu no mundo zumbi do funcionalismo kafkiano, que ignora o preço do arroz e do feijão.  


O preço do arroz 

não tem amor por ninguém 

Salgado não chega à mesa 

doce para o senhor vintém 

a cesta básica de vento

 nos alimenta de luz 

(Caro branco)



    Não se admira então os exaltados contra os três Poderes que, manipulados via zapzap pelas forças reacionárias, não hesitam em depredação e vandalismo contra os bens arquitetônicos de Niemeyer. 


    Não seja um comédia:

    Toque o terror.



Jul 25



LdeM 


Leonardo de Magalhaens

Escritor, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG





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sexta-feira, 27 de junho de 2025

Trovadorescas. poema by LdeM.

 




          Trovadorescas 



                      I


Em distantes terras e dramas, 

Com novos versos e rimas cria 

Os nobres, cavaleiros, monges, 

O Poeta com sagaz maestria.


Damas, senhores, dinastias, 

Em versos e rimas todo um mundo 

Com paisagens, reinos, intrigas, 

Tramas de um enredo profundo.


Donzelas, dragões, guerras santas, 

Nas cruzadas, nobre perde o feudo,

E conquista honras d'além-mar, 

Com vitórias domina o medo. 


Batalhas, combates, duelos, 

Cada lira aumentava um ponto, 

De verso a verso, rima a rima, 

Tecendo as figuras de um conto.


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                      II


Peregrinos cumprem seus votos 

Em penitências e dores 

Sofreram a áspera trilha 

Entre fome, pestes e horrores.


Louvor, salmos, cânticos, hinos 

A cada devoto o seu canto, 

Os corais nas catedrais 

Entoavam um santo espanto.


Os bardos, arautos, poetas, 

Trovadores, homens de versos, 

Cantores, atores, artistas, 

Em cantigas de seu universo.


Vozes fabricam peça a peça, 

No severo rigor do esquema 

Tecendo uma farsa, um conto:

O corpo canoro d'um poema.



Jun 25 


LdeM 



Leonardo de Magalhaens

Escritor, poeta, contista,

crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG

BH MG







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segunda-feira, 26 de maio de 2025

EU! Existe algum assunto mais interessante do que eu? by LdeM

 



                                                       [imagem: by Magritte. fonte: internet]



Eu!

Existe algum assunto 

mais interessante do que eu?

[Versão 2025]


Eu que não conheço Machu Picchu Eu que prefiro música 

clássica Eu que tenho horror a filme de terror Eu que prefiro

pizza sem catchup Eu que gosto de sabonete de limão Eu 

que coleciono poemas não publicados Eu que guardo 

agendas antigas Eu que gosto de tropeirão Eu que não 

conheço o mar Eu que nunca pulei de paraquedas Eu sou 

contra a pena de morte Eu que não servi ao exército Eu 

que li a Bíblia três vezes (já faz décadas!) Eu que tenho 

horror à música brega Eu que leio existencialistas franceses 

Eu que prefiro estudo de religiões Eu que tenho horror de 

televisão aberta Eu que espero o Juízo Final Eu que 

achei um Alcorão de edição alfarrábica (não deu pra 

comprar...) Eu que desisti de conhecer a Europa oriental 

Eu que descobri que nada sei de física quântica Eu 

descobri que o universo está em expansão Eu que 

prefiro filmes sci fi Eu que descobri a literatura turca 

Eu que tenho coleção de fotos da Segunda Guerra 

Eu que não patrocino nenhum canal de YouTube Eu 

que tenho três grupos no Facebook Eu que fui 

seduzido pelo Instagram Eu que guardo livros 

didáticos antigos Eu que coleciono discos do Pink Floyd 

Eu que lia Nietzsche Eu que já fui anarquista! Eu que 

ouvi a Voz Divina Eu que não fiz peregrinação à 

Meca Eu que não sei ler em hebraico (muito menos 

grego e latim...) Eu que gosto de ficção mais do que 

da realidade Eu que às vezes vou ao teatro (a 

esperar Godot...) Eu que acho surrealismo superatual 

Eu que prefiro mais Kafka do que realismo soviético 

Eu que achei que entendia budismo (zen é coisa e

 tibetano é outra) Eu que ouço uns mantras e entro 

em sintonia Eu que descobri que eu não existe 



Jan 25 


LdeM 


poeta, contista, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG

BH MG





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quarta-feira, 9 de abril de 2025

Retrato de um artista (obsessivo). Conto by LdeM.

 



                                                    Gustav Klimt [fonte: Internet]



Conto 


    Retrato de um artista (obsessivo)


    Quando Ignácio Mendes de Muniz me viu, se apaixonou. Eu imaginei uma amizade de artistas, mas o que vivi foi um assédio.


    Cheguei à exposição de cabelo preso e sandálias transparentes, tendo antes encontrado minha amiga Alice Souza em seu ateliê. Foi um chá agradável, só falamos de lembranças comuns, tipo aquela viagem pelo sul de Minas, antes da pandemia. 


    Depois é que segui para a exposição lá na Savassi. Casa cheia, bons amigos. Lá um dos artistas, com quadros e instalações em duas salas, era justamente Ignácio M. de M. que estava ocupadíssimo entre as salas, acompanhado pela Izabela Muniz, sua tranquila e apagada esposa.


    Cheguei de cabelo preso, vestido bordado e sandálias transparentes, como já disse, e fui surpreendida pelos olhares atentos, e calientes, do Ignácio M. de M., que, segundo me revelou depois, já se encontrava fervendo de paixão.


    Segui o casal pelas duas salas, não prestei muita atenção às peças, sempre preferi arte clássica, e o Ignácio M. de M. é muito pós-modernidade para o meu gosto. Não prestava atenção às peças pois era sempre desconcentrada pelos olhares do famoso artista.


    Sou uma mulher de trinta anos, como sabem, uma balzaquiana, e virei uma obsessão para o cinquentão Ignácio M. de M., artista de Diamantina que veio fazer fama em BH.


    Deixei um pouco a exposição, fui até a varanda, li mensagem no celular e até tentei ler o panfleto ou guia da galeria, mas logo percebi que alguém me observava. Lá no segundo andar, na janela do corredor, um vulto de homem me seguia com olhares. Só podia ser o Ignácio mesmo.


    Andei pelo pátio, encontrei minha amiga Sara, também pintora, mas que não estava no catálogo. A última exposição dela foi na Pampulha, antes da pandemia.


    E até encontrei o Pedro, meu ex-marido, que até estava sozinho, sem a presença desagradável de sua nova conquista, uma pós adolescente, que frequentava seus cursos esotéricos. 


    Pedro é um bom homem, nunca me traiu, mas é meio aéreo, desprovido de ambição, mesmo que às vezes um egocêntrico. Nunca me traiu, mas vivia em sua torre de marfim


    Não dei atenção ao Pedro, fiz um aceno qualquer de até logo e voltei para o salão principal apenas para ser surpreendida por um trio de jornalistas, muito excitados, e pela atenção desmedida de Ignácio M. de M., ao lado da Izabela Muniz, quase cegada pelos flashes.


    Foi o que lembro do primeiro dia. Da primeira noite, foi após um show de jazz na praça da Liberdade, quando fui absolutamente seduzida pelo carisma de Ignácio M. de M., sempre exageradamente sorridente e atencioso. É um canalha que sabe agradar uma mulher.


    É um mistério realmente. Por que nós mulheres gostamos de canalhas? Eu vivia bem com o Pedro, um homem de bem. Meio aéreo, nas nuvens, tudo bem, tudo ok, mas nunca me traiu. Por que fui me envolver com um homem casado? Um homem ciumento... Um homem perigoso! 


    Depois daquela primeira noite, num motel que nem lembro o nome, ali na Bias Fortes, tudo ficou mais, digamos, delirante e até claustrofóbico


    O termo é pesado, entendo. Mas é que o nosso Ignácio M. de M. é este homem exagerado que conhecem. Homem de ligar cem vezes, homem de me seguir pelas ruas, pelos corredores do shopping, perguntava da minha vida para os amigos e as amigas, faltava alugar um drone para me filmar pelas praças públicas. 


    Eu gostava dele sim. Uma figura de artista, um homem de renome. Nunca imaginei que ele fosse me sufocar tanto. Até que ele disse que ia se livrar da mulher. Imaginei que ele ia pedir divórcio. Não pensei jamais que ele fosse partir para um ato extremo. Ele tentou envenenar a mulher! Coisa de drama de cinema? Pois era verdade.


    E hoje todo mundo sabe. Ignácio M. de M. fez tentativa de envenenar a própria esposa. E depois falava que era tudo por amor. Que Izabela Muniz jamais daria o divórcio e que isso era um suplício. Ele jurava que não podia viver sem mim.


    Então, mesmo admirada e tão elogiada, não podia mais fingir que tudo estava bem. O homem era capaz de tudo. Achei melhor dar um tempo. Aí é que o terremoto começou. O homem me ligava todos os dias. Mandava recados pelas amigas. E até presentes bregas pelo correio. 


    No último encontro, que até concordei pela insistência, foi para lá de dramático, e Ignácio M. de M., o artista, rei da arte pós-moderna, virou um plebeu comum, macho assediador e tentou me agarrar como um don Juan qualquer. Tentativa de me beijar, e me violentar, sem pensar duas vezes. 


    Foi por isso, e só por isso, que procurei as autoridades. E os senhores já sabiam do caso lá com a doença da esposa. Pobre Izabela Muniz. 


    Quero saber agora dos senhores, como posso me livrar deste homem? Sei que nem se eu me mudar para Paris ou Oslo.... Quem poderá fazer sumir a obsessão de um artista, um semideus?



Abr 25 



LdeM 



poeta, contista, crítico literário

Bacharel em Letras FALE / UFMG








segunda-feira, 17 de março de 2025

É preciso humanizar. Crônica by LdeM. 2025

 





                                                       fonte da imagem: Internet



    É preciso humanizar 



    É preciso humanizar os companheiros de viagem. De volta do serviço, no ônibus lotado, observo as pessoas... De onde? Para onde? Os nomes? Conheço nenhum. 


    Todas e todos moram aqui no bairro, onde vivo já uma década. Diante de mim, uma senhora olha pela janela, lá fora o trânsito de sexta-feira ao anoitecer. Morena, gorda, simpática, é católica devota. Parece que volta de uma clínica ou hospital. É a avó da moça que trabalha no caixa da padaria. A moça que trabalha sem olhar muito para os fregueses. Parece tímida, mas já vi a moça discutindo com um senhor sobre o valor cobrado por um lanche. Aí ela falou em alto e bom tom. 


    A moça mora no mesmo prédio que aquele rapaz, junto a porta do ônibus, com um uniforme de concessionária de veículos. Ele trabalha na equipe de manutenção e reparos. Se não me engano, ele está noivo de uma mocinha evangélica que mora na rua de cima.


    Na rua de cima onde justamente está a escola municipal, onde estudam os filhos daquela jovem senhora,  balconista de loja de tintas e pigmentos, quinze anos de casada, com um pastor pentecostal, que durante a semana é um mestre-de-obra.


    Ao lado da jovem senhora esposa do pastor está sua vizinha, uma católica não- praticante, que trabalha numa agência bancária lá na Avenida Portugal. Tão jovem quanto a esposa do pastor, a católica não-praticante viaja com olhos semiabertos, com ares de cansaço e pouca disposição para diálogo. 


    Atrás delas, duas adolescentes estudantes chegando do estágio e reclamando dos valores pagos. Elas, duas moreninhas sorridentes, estudam de manhã e se transformam em estagiárias, e, antes de profissionais, já estão ironizando os patrões.


    Dois homens conversam sobre o campeonato mineiro ali junto da sanfona do ônibus, enquanto sobem e descem, como se fossem surfistas nas ondas. Um é moreno e alto, com uniforme de empresa, óculos sem aros, uma mochila preta, fala alta e exaltada. O outro é branco e mais baixo, com óculos escuros, roupa comum, tênis de marca, e pouco se ouve o que ele diz, se afirma ou contradiz. 


    Às minhas costas, a mulher mais bonita deste lotação. Alta, morena, vestido de secretária, é justamente a secretária de uma empresa de advocacia. Ela olha para as luzes da avenida e responde uma mensagem no ZAP. Não vejo a bela conversando com amigas ou vizinhas. Fico a imaginar a voz da bela. Ela nunca me viu e a vejo sempre. Sei que ela mora depois do ponto da rua da escola, pois é lá que eu sempre desço. Ela vai além, deve morar lá pros lado do ponto final. 


    Por falar em ponto de ônibus, o meu se aproxima. Já estamos no bairro. Lá fora as crianças correm atrás de uma bola colorida. E um cachorro preto corre atrás das crianças. Aqui dentro o ar condicionado não é suficiente. As pessoas agitadas e ansiosas. 


    Ouço um pedaço de conversa entre os dois homens lá junto da sanfona do ônibus. Um diz que hoje vai chegar cedo. O outro brinca que pobre não pode chegar cedo em casa. Algo está errado. 


    -- Se chegar tarde, ela vai dizer que é traição, que  tenho outra... Se chegar cedo é perigoso dar de cara com o outro... Dá ruim.


    Minha hora de descer. Não ouvi o resto do fragmento de prosa ... As faces cansadas de afastam junto às janelas daquele microcosmo de ar-condicionado que se afasta. Fiquei distraído por um milésimo de segundo. Quase fui atropelado por um jovem motorboy entregador de fast foods!



Mar 25 


LdeM


Escritor, crítico literário 

Bacharel em Letras FALE / UFMG 


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