João
Diniz
in
O Livro das Linhas / BH / 2020
linha
do horizonte
janela
gemidos
da natureza frágil
volúpias
de acrobatas tontos
fumaças
do produzir aflito
abismos
do desejar volátil
perigos
do afirmar silente
procuras
do duvidar constante
misérias
do dominar humano
carências
do possuir mandante
passam
por esta janela
cenários
do encontrar distante
destinos
de separar amantes
desejos
de atravessar limites
saudades
de aproximar estranhos
passam
por esta janela
vestígios
do existir passado
promessas
que hão de vir mudadas
enganos
a dirigir pessoas
avanços
a calcular o passo
mentiras
a entreter otários
problemas
a resolver no tempo
distâncias
do entender vencidas
bloqueios
do caminhar ousado
passam
por esta janela
…
linha
melódica
música
na
caverna pré-histórica
entre
fogueira e caçadas
no
silêncio do mosteiro
circulando
na fé do pátio
no
mercado medieval
no
odor e temor da inquisição
…
ali
havia música
na
gótica catedral
entre
velas preces e penumbra
no
palácio imperial
em
ricos bailes comissionados
sob
as pontes noturnas
junto
com frio fábulas e fome
…
ali
havia música
no
campo de batalha
embalando
ódios e saudades
entre
a garra da revolução
conspirando
o futuro ideal
na
mundana festa ébria
junto
ao gozo dos desejos breves
…
ali
havia música
nas
bodas apaixonadas
em
ricas ou pobres danças
no
sonho das juventudes
em
seus quartos ou passeatas
nas
idosas memórias
onde
o passado é maior que tudo
…
ali
havia música
no
silêncio da floresta
numa
imaginada sinfonia natural
na
nervosa metrópole densa
nos
vendidos motores publicitários
na
última horizontal vivida
com
possíveis choros sinos e anjos
…
ali
havia música
na
lembrada infância boa
nos
folguedos e cantigas travessas
no
espaço ocupado
marcando
o ritmo orgânico do tempo
na
mente silente
entre
ideias saudades e memórias
…
ali
havia música
música
que toca canta embala e cala …
in
O Livro das Linhas / Caravana, BH / 2020
João
Diniz (BH) é arquiteto e professor, poeta e performancer.
Autor
de Ábaco [2011] e Aforismos experimentais [2014].
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