sexta-feira, 11 de março de 2022

Vagem de vidro: Poesia adensada de muitas falas






sobre Vagem de Vidro [Brasília, 2013]

de Salomão Sousa (1952-)




Poesia adensada de muitas falas



    Andar entre livros é salutar e prazeroso. São descobertas a cada passo, novas linguagem, e novos estilos a cada volume aberto, a cada parágrafo digerido, a cada verso degustado.


    Descobertas que desvelam novos olhares de novos autores que deixam sua marca estilística na obra poética do novo século. Encontramos autores que tiveram vida longa e obra condensada em três ou quatro volumes, ou um livro magistral que resume tudo; temos autores que morreram cedo e deixaram obras como amostra do gênio que poderiam ter sido, e temos autores com extensa produção, cuja leitura ocuparia sem devida boa parte da nossa existência.


    Assim um von Schiller, um von Goethe, um Victor-Hugo, um de Balzac, um Thomas Mann, um Hermann Hesse, um Drummond de Andrade, um João Cabral de Melo Neto, um Ferreira Gullar, um Antonio Miranda [1], grandes autores por serem grandes leitores, atentos e vorazes, e assim um Salomão Sousa, com vários títulos com sua autoria, desde final dos anos 1970. Vivendo entre livros, nos corredores de estantes e volumes convidativos, pronto para acessar letras e linguagens, outras épocas e universos.


    Assim a obra Vagem de Vidro [2013] enquanto exemplo de leituras acumuladas, intertextualidade, metaliguagem em muita erudição. De faro, podemos adentrar os mundos da mitologia greco-romana, ou das narrativas bíblicas, com soberanos egípcios, ou reis babilônicos, e também poetas renascentistas, primeiras utopias, e até agências de espionagem. Eis aqui uma Obra a completar uma década e merecedora de uma leitura atenta.




    Os temas sobre os quais se dedica os poemas densos de VAGEM DE VIDRO são os mais variados. As preocupações do Autor são muitas, desde a condição humana a metafísica, desde a vida rústica a correria nas cidades, desde as figuras mitológicas aos labirintos do dia-a-dia. Sem mencionarmos os metapoemas... Aqui faremos alguns recortes, destacando alguns em lugar de outros. Longe qualquer possibilidade de tratar aqui de todas as cores e as nuances do arco-íris.


    É a partir de imagens selecionadas do cotidiano, em flashes e polaróides, cuidadosamente recortados e colados que o Poeta apresenta a nossa condição, ou melhor, a Condição humana, sempre diante de algo lá fora, cercado de mercadorias e promessas, entre os direitos e os deveres,


O homem deixa cair collants, pisa nas golas

e em ruído a bateria e a tampa do celular

o camelô auxilia-o a remontá-lo

Volta atrás para completar a lista

estojos sapatilhas estopa toucas

Acresci escovas rendinhas grampos

aos sacos que deixo na casa da ex-nora

O homem passa em frente ao tribunal

sem entrar para a sessão das debêntures


[pp. 26-27]



numa condição sempre sujeita às tempestades – mesmo aquelas em copo d’água! – em reviravoltas de algum roteirista ousado, seja Providência ou Destino, visto que não sabemos o dia de hoje, muito menos o de amanhã, daí que já estamos no palco sabendo que ‘viver é perigoso’, e que é ‘preciso resistir’, que nosso esforço é o de ‘vencer batalhas’,


Homens de fama com guerras para ganhar

Foram homens com colheitas

espreitas para não perder

Venciam de manhã em Turquim

e à noite já organizavam novas batalhas

com adversários de valentias novas

valentias quase em mim

[…]

Eram homens rápidos

em deslocar fronteiras


[p. 44]




    Numa condição tão incerta de uma vida tão efêmera, o ser humano começa a pensar em coisas duradoura, ou outras realidades ou outros mundos, pronto aí está a criada a Metafísica, a brotar da condição do eu no mundo, na ‘futilidade dos dias’, como se na consciência da inutilidade de todas as coisas,


Esqueci se gritei nas pequenas câmaras

em frente aos frutos de cores inúteis

de sabor inútil na futilidade dos dias

Não me lembro das horas e se não eram horas fúteis


[p. 42]



quando este sentimento de ‘futilidade dos dias’ revela a profunda consciência da falta ou a ausência que pesa sempre,


aí sim era o silêncio da esperança

se o sonho era a tapeçaria tingida de ausência

e quando o húmus não atendia às sementes

também não havia arranjo para as cores

e a poeira a fluir / fluir da linha da fundura

águas contaminadas / se foram / foram antes


[p. 32]



    E maior ainda a consciência do efêmero, do fugidio, no pleno cotidiano na cidade, nas incertezas das ruas, nas arenas de agressões e violências, com as figuras da miséria e da exploração, do cansaço e da servidão, onde direitos humanos são apenas palavras num livro técnico numa prateleira da biblioteca da faculdade de Direito,


Algum bêbado apocalíptico

invade o ônibus, a cidade

algo desfruta dentro de nós

somos os sinais em outros


[p. 53]



Fizeste por tua cidade

as valas, o cercamento

Andaste pelas grotas

pelas ruínas de suas minas

que uma cidade é antes

o que homem esgota e funda

e falseia: arrobas de ouro, sinetes


[p. 66]



de modo que a vida natural, a rural, a rústica surge como um contraponto a cidade, ou antes, o contraponto ao urbanizado, a destacar então o aspecto agreste, o que chamamos de sertão, onde “viver é perigoso”, de Guimarães Rosa, onde o “sertanejo é, antes de tudo, um forte”, de Euclides,


Aprendi na beira do rio Claro

com o alfabeto dos buritis

as letras de cheiro, os jambos

com aulas de espinhos de ouriço

[pp. 60]


Tive meu convívio na leira da carpina

gafanhotos agarrados às folhas vivas

os homens criam nas intervenções divinas

estive ajoelhado na estrada de Moquém

aquém de mim operavam os milagres

[p. 67]



Engano se estive na cidade

Se a cidade existisse

teria homem indo para o trabalho

teria mulher indo para o amor

Não teria veneno e siris mortos

ou mulheres a parir cães e gatos

Não seria a saudação de comensais

com urros de burros e coices

[p. 80]



    Mas seria antes uma vida rústica inalcançável, como se fosse outra utopia, aquela do homem natural, esboçada pelo filósofo Rousseau [2], sobre o homem puro que se corrompeu ao adentrar o mundo da civilização urbanizada e artificial, em busca de comodidades e prazeres fúteis,


Quase acreditei nas montanhas

se anunciavam intocáveis

férteis para as intempéries

para algum gesto abrupto

estúpido. Ou quedas

Quase atingi a lascívia das sombras

a naturalidade das ervas nas ranhuras


[p. 81]




    E o homem, em sua pequenez e miséria, é obrigado a recorrer às máquinas, que ele mesmo inventou, para facilidades ou avanços na matéria, de modo a tornar-se depende e mesmo serviçal do poder das maquinarias, como nos revela o poema “a máquina fala por mim” [p. 74],


A máquina me traz

todas as paisagens pra casa

Se peço algodão

a máquina me dá a paisagem

mais felpuda e branca

me tece a paisagem retilínea

se é pela luz que a linha estremece

[…]

A máquina me dá o lustre

de textura em densa limpeza

Só pressiono a tecla

para pedir a ausência da fuligem



e uma alternativa ao mundo das máquinas, aquele das artificialidades, é a jornada ou a viagem, “Fala das muitas viagens / das muitas vezes desfeitas / malas e próteses /…/ dos homens que poderiam / voltar da guerra” [p. 52], quando a viagem, a jornada, a estrada aparece mais como um chamamento à liberdade, como sonhavam os jovens da Geração Beat, atravessando os States em caronas e vagões de trens [3],


Manda-me a estrada

em que deixas teus rastros

em que arranhas teus seios

a leveza de tuas aventuras

[…]

A estrada ladeada de vagens

e casas térreas de formiga

Manda-me a tua liberdade

a janela para os lados do sol

[p. 71]



Viajar sem conhecer as distâncias

se haverá as palmas os presépios

casais perto das folhas

a roçar a roçarvalho

Viajar sem encontrar

Viajar e desejorvalhar

sem abismo sem calhas

[p. 72]



Viajei. Vi homens no luxo

Vi crianças no lixo

e no lixo tropecei

[…]

Viajei. Vi e apalpei

E se vi e acreditei foi pela flor agreste

[p. 84]



    Jornada até a odisseia de Odisseu, ou Ulisses [4], o herói da Guerra de Troia que retorna para sua terra, a Ilha de Ítaca, após muitas aventuras e desventuras, sendo estrangeiro em terra estrangeira,


Ulisses, depois de ti, instaurado o fim das aventuras;

na antessala, extintos o bulício e a castidade dos amantes.

Ao encerrar tua jornada, legaste o enfado, o fastio,

fio emaranhado em fuso sem memória.

[…]


Ulisses, não navegaste no computador,

e aí também não acharias a porta do retorno à pátria, verso

e viagem a sucumbirem nas janelas das redes sociais,

a se desencontrarem no led do papel.

[p. 20]


    Ulisses, ou Odisseu, é um símbolo do Viajante que apreendemos da mitologia dos excelsos gregos clássicos. Em outros poemas encontramos outras várias referências às figuras da mitologia grega tanto quanto a erudição permite, os mitos de Orfeu e Eurídice, à Guerra de Troia, as jornadas dos heróis, Aquiles, Heitor, Ulisses.


    E também a imagem do Poeta, do grande músico, Orfeu, outro da mitologia grega [5], que em sua busca da mulher amada é capaz até de descer aos Infernos, daí a aflição do Poeta-cantor, ou dúvidas de Orfeu, ou Orfeu em agon com a Morte,


Orfeu desvalido das palavras

se solitárias / quase sem som

tarraxas / rosário nos punhos

Sem água / botões de marfim / sem

elmos de flâmulas douradas

[…]


Terás de mover o teu ataúde

fazê-lo aríete de arrombar

os portões do esquecimento

No sepulcro não haverá outras inscrições


[pp. 89-90]



Numa pátria de abandono

Orfeu entalado em montagens

O ócio só a expandir o pântano


[p.44]



Alaridos chapas de vidro moídas

fuselagem mãos em carvão nos entrepostos

explicações às dúvidas de Orfeu

não surgem com os torsos animados

[p. 31]



as palavras não fossem

enfeites para a gaveta

o leite fosse para o corpo

com justiça para as tetas

ser o broto a enxuta lama

a esquecida brutalidade das águas

cheio de terra de pó de asas mortas

tudo merecia ser menos vômito

tudo mais pólen entre as talas

entre os pés quebrados de Orfeu


[p. 33]



    O Poeta falando do Poeta mitológico abre espaço para o aparecimento aqui do fenômeno do metapoema : quando o foco é a palavra, a linguagem em si mesma, pois “A língua mofada sem a munição das palavras // Se há lugares para não calar / fora de mim tudo se ilustra em fala” [p. 31]


Palavras serão inventadas

e em bocas mais recentes

exalarão novos enredos.

Serão organizadas estrelas

plausíveis, significados

para gestos inaugurais, para

os produtos da oficina, palmas

enrugadas sobre a sina do rosto.


[p. 94]



Aqui jaz o poema

que não se quis

Insistiu avaros nadas

[...]

Aqui jaz o poema

que não se quis


[p. 16]



a minha palavra não acena só a asma

o meu cinismo / a minha ventriloquia

flui para outras laringes / floras intestinais

floresce noutro músculo a fava da palavra

quieta enquanto aguarda a carga

do húmus salivado de outro corpo

com o torpe estilo de amargar

aromatiza a língua ao redor do fétido


[p. 28]



A palavra definitiva

na fala se ausenta

contida de sombra,

evolução do palco e do véu.

Em partes as palavras

não se reconhecem.


[p. 29]



    O Poeta se debruça sobre sua arte e engenho, sua ferramenta, seu criar imagens e emoções com palavras cuidadosamente engendradas, num mundo criado que denominamos ‘texto’, tessitura de outros ‘textos’, pois “Convenhamos. Depois de escrito / tudo acontece noutro texto, / noutro topo, na rotina de outro homem.” [p. 58]







    É uma Poesia erudita e densa que não se perde em amargura e cinismo, em denúncias apenas, mas ousa a utopia, o vencer a guerra e o entronar da paz, como uma construção diária, uma esperança que transcende o cotidiano de ansiedade e futilidade,


das ruas muitas vozes solitárias

dos homens que poderiam

voltar da guerra

ser os amantes igualitários

após desarmar os abusos

das hordas das discórdias


[p. 52]



Com os homens da fina civilidade,

que aplainam onde há a discórdia,

onde há a suspeita,

e a madeira é fértil. Trabalharemos

com a facilidade da ternura.

[…]

Estaremos com os homens

limpos diante das câmeras,

dos lápis da História.

[…]

Não iremos nos esconder

fora das fronteiras.


[p. 64]



    É preciso ir além dos palácios de cristal, das casas de vidros, dos castelos de cartas, ir ao profundo, ao denso, abrir mão das artificialidades, das tantas futilidades, “Homens que vão ao pré-sal, / ao fundo do coração.” diferente dos hollow men, homens ocos, de Eliot, que povoam os últimos dias. [6]


    Em Vagem de Vidro, coletânea densa de poemas densos, o Poeta Salomão Sousa é capaz de aliar literatura e filosofia, vida árdua e erudição, consciência de si e consciência do mundo. É uma obra de maturidade, já em 2013, mas ainda mais atual e profunda em nossos dias de crises econômicas e políticas, conflitos raciais, guerras imperialistas, avanços do direitismo, fake news midiáticas. É preciso não se perder na erudição mas saber antes compartilhar com semelhantes e diversos.



mar/22



Leonardo de Magalhaens


poeta, escritor, crítico literário


Bacharel em Letras / FALE / UFMG






Notas



[1] Antonio Miranda, também de Brasília, nascido no Maranhão, é outro poeta leitor voraz, outro nos labirintos da Biblioteca infinda de Borges, que deixa entrever erudição em cada estrofe. Ensaio sobre Memórias Infames em http://www.antoniomiranda.com.br/ensaios/sobre_memorias_infames.html



[2] Jean-Jacques Rousseau [1712-1778] escritor e filósofo franco-suíço, um dos autores da época do Iluminismo, que tratou sobre o ‘homem em estado de natureza’ em contraponto ao homem na civilização, considerado um corrompido.


[3] A Beat Generation foi um movimento artístico-poético espontâneo entre amigos, poetas, místicos e andarilhos, após a Segunda Guerra Mundial, em vários pontos dos Estados Unidos, entre 1947 e fins dos anos 1960, trazendo

a contracultura e a consciência cósmica, com leituras de orientalismos e

obras psicanalíticas. Obras ícones desta geração Beat foram On the road, romance de Jack Kerouac, e o Uivo / Howl, poemas de Allen Ginsberg. Mais

info disponível em https://beatniksons.com.br/blogs/news/geracao-beat .


[4] Odisseu, ou Ulisses, é personagem famoso na Ilíada e na Odisseia, obras que a tradição grega atribuiu a um rapsodo [poeta épico] chamado Homero, que nem sabemos se existiu mesmo, lá no século VIII a.C. Mais informação disponível em https://www.historiadomundo.com.br/grega/homero.htm


[5] Orfeu, figura da mitologia grega. Informação disponível em https://mitologiagrega.net.br/orfeu-o-poeta-que-desceu-ao-inferno/

e http://eventosmitologiagrega.blogspot.com/2010/11/orfeu-e-euridice.html


[6] T. S. Eliot, Hollow Men, Homens Ocos. Famoso (e atual) poema.

Disponível em http://www.culturapara.art.br/opoema/tseliot/tseliot.htm




Links


blog do poeta Salomão Sousa

http://salomaosousa.blogspot.com/



Poemas de Salomão Sousa disponíveis em


http://www.jornaldepoesia.jor.br/ssousa.html


http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/distrito_federal/salomao_sousa.html


https://leoliteraturaescrita.blogspot.com/2015/09/2-poemas-de-salomao-sousa.html?m=1


Entrevista em https://jornal140.com/2021/06/27/salomao-souza-e-sua-poesia/





Referências


ARANHA, Maria Lúcia A. e MARTINS, Maria Helena. Filosofando; introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1993.


CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


ELIOT, T. S. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


HOMERO. Odisseia. Porto Alegre: L&PM, 2016.


ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.


SOUSA, Salomão. Vagem de Vidro. Brasília: Thesaurus, 2013.




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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Mergulhando nas águas afetivas da infância

 


 

 

 

Sobre ÁGUA PRETA (1991; 2016; 2021)

obra poética de Almir Zarfeg (1966-)



Mergulhando nas águas afetivas da infância



Muitos versos sem mim não poderão existir.


[…]

É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas

Sou poeta irrevogavelmente.


            [Murilo Mendes, in Os Quatro Elementos, 1935]





    Poesia é expressão. Poesia é testemunho. Permitam-me repetir. Qualquer outra adjetivação é isso, adjetivação. Poesia não é um tipo, um método, ou uma mensagem. Poesia não é o sentimento, ou um desabafo, do/a poeta. A elaboração artística do sentimento, ou do desabafo, pode sim ser Poesia. Muita coisa que chamam de Poesia não é Poesia. Aliás, nem sei o que seja Poesia. Sei o que NÃO é Poesia.


    O Poeta é levado, ou possuído, pelo fazer poético, a poiesis, e se deixa levar. Ele ou ela deve saber COMO elaborar, como veicular a expressão, como dar vazão ao sentimento, ou ao desabafo, sem ser isso apenas: sentimento ou desabafo. Suas lembranças, seus testemunhos, seus devaneios fazem parte de uma enorme colcha-de-retalhos, um puzzle, um mosaico de percepções que são peculiares à uma consciência individual. Ter estilo é isso: a marca, o selo, o carimbo do/a Poeta.


    Em ÁGUA PRETA, o ‘baianeiro’ Almir Zarfeg, nascido Gilmar, assim o faz. Sua dicção busca originalidade ao narrar suas lembranças de infância, na interiorana Itanhém, antiga Água Preta, no sul da Bahia, às margens do rio Água Preta. Publicado em 1991, assim sendo primeira obra do autor, e reeditada em efemérides marcantes, ÁGUA PRETA é uma amostra de work in progress (assim como o Selva Selvaggia, do poeta mineiro Ronaldo Werneck, como já abordei em 2011) [1] quando um autor reescreve e amplia a obra ao longo da carreira.



    Assim como Ronaldo Werneck canta e encanta sua terra Cataguases, no sudeste de Minas Gerais, o ‘baianeiro’ Almir Zarfeg canta e encanta sua terra Água Preta, ou Itanhém, lugar de plena ‘geografia sentimental’, como dizia Pedro Nava, [2] onde sua voz individual se revela também coletiva, como relato de época, como testemunho de infância. Assim, vários leitores e leitoras podem se encontrar, se identificando com a voz lírica.


    Seu material de trabalho, sua matéria-prima, é farto, é maleável, é basilar, pois basta ao Poeta adentrar-se, mergulhar nas camadas do passado, escavando cenas da criança nas ruas cheias de lama, jogando bolinha de gude,


Enquanto os pivetes adestravam suas bolinhas de

gude a rua apontava suas retas para lugar nenhum;

[…]

Por que a rua virava mar de lama fazenda montanha

lagoa sapos e pererecas?


                   A Rua [p. 46]



    O mundo da infância é ressignificado e elevado a uma maravilha. Sua terra é maravilhosa, com o verniz da lembrança e do ‘tempo perdido’. “A ponte do rio da Ferrugem / É uma das nossas sete maravilhas /…/ A ponte do rio que não cai / Só não resiste ao óxido do Tempo” [A Ponte do rio que não cai, p. 74] numa paródia com um famoso filme sobre a guerra [A ponte do Rio Kwai]. [3] A terra da infância é povoada com maravilhas, verdadeiras ‘sete maravilhas’, o rio, a cachoeira, a ponte, a ladeira, a paróquia, o estádio.


    Geografia sentimental igual àquela de Carlos Drummond de Andrade em Cidadezinha Qualquer, com os caricatos traços da vida cotidiana na província, Um homem vai devagar. Um burro vai devagar. Eta vida besta, meu Deus, é o que encontramos nos poemas Cidadezinha Triste [p. 28] e Cidadezinha Especial [p. 48], que retratam afetuosamente o espaço da infância, Era uma cidadezinha / Bucólica quase feliz…. Era uma cidadezinha / Impressionante e dançante [pp. 48-49]


    É um diálogo intertextual com Carlos Drummond, e também com João Cabral de melo Neto, com destaques para Catando pedras no caminho [p. 21], Itinerário de Água Preta [p. 66], Aguapretices [p. 99]




Existe arte mais digna do

Que catar, lapidar pedra?

Contudo alguns preferem

Defenestrar pecuaristas

Captar silvos de cobras

Domesticar marimbondos

Profetizar em via pública

[…]




Você se fez pedra, lenda viva

Ausência-lembrança-presença

O coração ainda pulsa, sabia?

A ponto de explodir vermelho

Inundando a várzea baianeira

O coração, que não é de pedra,

Se espraia no poema, encantado.

O que persiste no caminho -

A medrar entre ervas daninhas

E pedros - é vida, é rebeldia.


                [Catando pedras no caminho, pp. 22-23]




    Contudo, seu diálogo é mais que textual, pois é temporal, esforço de ‘viagem no tempo’, entre um eu-de-hoje e um eu-de-ontem, com o menino que existe dentro do homem, como ouvimos em Bola de meia, Bola de gude, de Milton Nascimento, “Há um menino, há um moleque / Morando sempre no meu coração” [4], ao reviver carinhosamente o mundo de outrora, com a perspectiva da infância,


Nessa rua passava boi boiada a despeito d’estarmos às

porteiras da modernidade;


Calçamento cimento progresso pregões e promessas

vãs que se perderam no tempo;


[…]


Todo menino é um rei eu também já fui rei pero nunca

vi rei nu na lua muito menos na rua;


[…]


Já estive no olho da rua e sei, meu senhor, do que se

trata, também sei que, como células de que são

constituídas as cidades, as ruas foram inventadas para

cumprir uma função social relevante, qual seja,

promover a vida do homem em sociedade, suscitando

nele o espírito gregário / solidário, o bem comum, de

maneira que um ajudasse o outro e todos se

ajudassem mutuamente, o que nem sempre é

verdade, […]



                   [A Rua, p. 46]




    Mais geografia sentimental e intertextualidade em seu Itinerário de Água Preta [pp. 66-68], longo, denso, original, entre poético e prosaico, com alternâncias entre as perspectivas individuais e coletivas, de acordo com as percepções do ser ‘pessoa’ e do ser ‘cidadão’, do ser ‘provinciano’, do ser ‘cosmopolita’, do ser ‘cotidiano’ e do ser ‘leitor’, com suas citações, referências e estrangeirismos, no que sobra até para um irônico Stanislaw Ponte Preta [5],


Água-pretense apreciava leite de vaca preta, amásia do boi

da cara preta, fã de Stanislaw Ponte preta, que

espalhou a lenda de que – incrível – se extrai leite de

pedra oca! [ p. 66]



sem poupar ironia com os que buscam oportunidade nos Estados Unidos, no mercado de trabalho da potência, muitas vezes entrando até ilegalmente, no que se submete à exploração, sem aculturamento, e capaz até de ser repatriado,


Água-pretense dá um duro nos States mas, nas horas

vagas, rima ‘so far away’ com ‘Meu rei’ nos bares da

vida. [p. 66]


Água-pretense voltou dos States mais monoglota

do que quando partira e, abestalhado, não se cansa de

repetir: vida longa aos bem-te-vis, morte súbita aos

bois! [p. 68]





    Buscar o menino dentro do homem, o moleque dentro do cidadão, ou buscar o coletivo, o produto da socialização, dentro do indivíduo, a pessoa, o que faz um água-pretense ser um água-pretense, ou itanheense, ou o que um nativo de Água Preta tem de singular, folclórico, seja em fala ou sotaque ou gíria, com seus ditos e provérbios, com suas cantigas, e ladainhas, e mais referências, no que sobra até para o pensador Pascal [6],



O que seria de pascal

sem o silêncio?

O que seria do silêncio

sem o ouro

os óculos

os pingos nos ii?


                 [Aguapretices, p.100]




Entre ipê e girassol, cultive o amarelo

Entre início e fim, invista no equilíbrio

Entre dia e noite, marque um encontro

Entre ser e estar: deixe star com leveza

Entre fusca e kombi – vá de carona

Entre amar e amarelar, não pense duas x

Entre ouro e prata: varal de poesias


                   [Aguapretices, p.103]



    Sua busca pelo individual, pelo peculiar, pela identidade de ser poeta e ser cidadão, ser ele-mesmo e água-pretense, revela-se um questionar existencial de auto-descoberta, ou de superação do auto-engano, a demonstrar a profundidade que pode – e poderá – alcançar o autor em outras obras,



Por que sair

De mim se a cada

Vão momento

Eu me descubro

Mais e mais?

Para que me

Ocultar nas tuas

Águas pretas se

Consigo me ver

Além de minha

Silhueta triste?


               [Existência, p. 20]



    A preocupação com a existência e a identidade abrange toda a obra ÁGUA PRETA, primeira de uma longa carreira, ao longo de três décadas, dedicada a encontrar um estilo e uma marca, sempre work in progress, nutrindo-se de si mesmo, das várias personas, ou máscaras, de si mesmo, seja criança, seja cidadão, seja itanheense, seja ‘baianeiro’, seja poeta, seja Almir Zarfeg, ser dividido entre idades e geografias,



Quantas vidas – me digam – alguém poderá viver

nesta vida?

Quantas vidas o artista – tão singular e plural – é capaz

de viver ao mesmo tempo?

Quantas personas – representadas – nos palcos da

existência?




                     [Políbios, p. 57]







fev/22



Leonardo de Magalhaens

poeta, escritor, crítico literário

Bacharel em Letras / FALE / UFMG










Notas



[1] Link para ensaio sobre Selva Selvaggia [1976; 2005] de Ronaldo Werneck

http://leoleituraescrita.blogspot.com/2011/08/sobre-selva-selvaggia-de-ronaldo.html



[2] Pedro Nava [MG, 1903 - RJ, 1984] é autor de obras de cunho memorialista, com destaque para Baú de Ossos [1972], Chão de Ferro [1976] e Beira-Mar [1978], com um retrato de geração, um testemunho da fase modernista em Belo Horizonte. Sua ‘geografia sentimental’ carregava o espaço com afeto,

ressignificando, ou revivendo, seu passado como uma elaboração estética.

Assim como descobrimos a Paris, ou o caminho de Guermantes, de Marcel Proust [França, 1871-1922], em sua magistral obra Em Busca do Tempo Perdido [1913-1927].


[3] O filme de 1957, A Ponte do Rio Kwai, do diretor britânico David Lean, tematiza a guerra nas selvas do sudeste asiático com tons cômicos.

https://www.imdb.com/title/tt0050212/



[4] Bola de meia, Bola de gude, canção de Milton Nascimento, em seu álbum Miltons, de 1988/89.


[5] Stanislaw Ponte Preta é o pseudônimo do jornalista e humorista Sérgio Porto [RJ, 1923-1968]


[6] Blaise Pascal [1623-1662] foi filósofo, teólogo e matemático francês, famoso por seu aforisma, “O silêncio eterno desses espaços infinitos me assusta”.







Referências



ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Record, 2009.


MENDES, Murilo. Poesia Completa e Prosa. Volume I. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1997.


ZARFEG, Almir. Água Preta. 5ª ed. São Paulo: Lura Editorial, 2021.



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

coleção FLORES DO CAOS 2022 Selo Starling BH

           Coleção   FLORES DO CAOS 

                        ......                      2022 Selo Starling BH




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