quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Sobre O Cético Selo [2021] obra do poeta e filósofo Rodrigo Starling

 


 

 

Sobre O Cético Selo (poemas, BH, 2021)
do poeta e pensador Rodrigo Starling


Poemaremos entre os extremos numa núpcias de opostos


    O desafio que é escrever um poema. A audácia que é adentrar o reino da Poesia. Somente reservada aos Eleitos e os Loucos. Ao Louco no alto da colina. Fool on the hill. Qual o propósito de se escrever? A que fim se destina? O que ganharemos com isso?

    Poesia pra quê? Poesia sobre poesia? Literatura sobre o fazer literário? Um eterno andar em círculos? Onde a poesia para a Vida? A poesia enquanto libertação? Poesia enquanto busca da Beleza, enquanto expressão, desde aquelas mãos pintadas nas paredes das cavernas neolíticas, ou enquanto resistência, o Eu clamando diante da opressão e das injustiças do mundo.

    Poesia sendo a externa expressão de desassossegos íntimos, inquietações do sentimento e do pensamento. Uma maneira que os humanos encontraram de comunicar afetos e percepções, de modo ritmado, ritualístico, performático, assim como criaram a música e o teatro, as orações e as religiões. Poesia como forma de re-ligação com uma pátria espiritual ou anseios de vida eterna.


    Poesia de visionários, de poetas videntes e profetas, poetas que são artífices da linguagem, grandes mensageiros da Essência – divina, atemporal ou humana, demasiado humana. W. Blake [1757-1827], Friedrich Hölderlin [1770-1843], Novalis [1772-1801], Friedrich Nietzsche [1844-1900], Arthur Rimbaud [1854-1891], Stephane Mallarmé [1842-1898], Alphonsus de Guimaraens [1870-1921], Ezra Pound [1885-1972], Rainer M. Rilke [1875-1926], Georg Trakl [1887-1914]. E claro, Charles Baudelaire [1821-1867], o poeta francês que fez a transição do romantismo ao simbolismo, sendo a ligação entre Blake e E. A. Poe e Rimbaud e Mallarmé. [Indicamos as leituras de Walter Benjamin e a modernidade de Baudelaire]



    A Poesia que é fala única através de um arranjo de palavras. Um poema é intraduzível – como traduzir Hölderlin, William Blake, Rimbaud, Ezra Pound – uma tarefa hercúlea e ingrata. Tentemos traduzir um trecho de Blake, Tyger, Tyger, burning bright / In the forests of the night // In what distant deep or skies / Burnt the fire of thine eyes? Como reproduzir em outro idioma a beleza sonora e imagética dos versos na língua do Bardo? [Aliás, constatamos as dificuldades e asperezas da tradução nas tentativas do português Fernando Pessoa de verter os sonetos de Shakespeare]




    De modo que aqui vamos falar de Filosofia e Poesia. Sim, de ambas ao mesmo tempo. Dos entrelaçamentos ‘quânticos’ entre elas, digamos. Martin Heidegger, professor e grande filósofo alemão, e infelizmente fascinado pelo canto da sereia nazista, para ter manchada sua biografia, será nosso guia neste ‘entrelaçar’ de pensar e poetizar. Heidegger via a poesia como uma volta a essência do pensamento, como uma forma de linguagem concentrada, ou como ele dizia, a “linguagem é a casa do ser”, ou ainda,  “A Poesia é a fundação do ser pela palavra”.

    Assim entre o pensamento e a poesia há uma relação de parentesco, pelo fato de ambos utilizarem a Linguagem e progredirem com ela. Porém entre o pensar e a poesia continua um abismo, ao morarem em cumes distintos.


    Poesia enquanto manifestação do Ser, na forma de produção/ poiésis. É a comunicação das possibilidades existenciais, uma abertura da existência, o objetivo do discurso poetizante. Poesia é vida e criação, não um jogo de palavras. Nada tem de atividade lúdica. Para o filósofo alemão a Poesia está além do gênero literário, não é uma questão de estética, de enfeite, de adorno, mas uma criação, é a própria Linguagem.

    Linguagem que é tecida e superada a cada geração. Onde está a História da Humanidade? Nas narrativas – na Epopeia de Gilgamesh, na Ilíada e na Odisseia, na Bíblia judaica, nos Salmos e nos Provérbios, no Novo Testamento, na Eneida, nas sagas nórdicas, no Edda, no Beowulf, no El Cid, no Bhagavad Gità, no Corão, no Shannameh persa, na Divina Comédia, nos Lusíadas, no Fausto de Goethe, no Kalevala … Na fala poética o verdadeiro testemunho das aventuras e desventuras da espécie que se expressa humana.

    Para o poeta alemão Hölderlin, estudado por Heidegger, o que importa é a vivência poética, para além do cotidiano, que nos afasta do poético, enquanto contato com os Deuses [aqui realmente o lado ‘pagão’ do poeta, que admirava o classicismo helênico, tal como depois influenciaria Nietzsche, para quem estamos ‘em decadência’ depois do ‘apogeu grego’.]

    Dois trechos seletos de Hölderlin demonstram bem está crença do Poeta de estar em contato com as Divindades, mais além das Musas, que empalidecem diante do fulgor do Olimpo,


“Teu silêncio entrarei, Mundo das sombras,
Contente, ainda que as notas do meu canto
Não me acompanhem, que uma vez ao menos
Como os Deuses vivi, nem mais desejo.”

[An die Parzen, Às Parcas, trad. Manuel Bandeira]

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“Assim também nós, poetas do povo, gostamos
De estar em meio à Vida que respira e ondula,
Amados de cada um, em todos confiando
Senão, como cantar os próprios Deuses?”

[Dichtermut, Coragem Poética, trad. Moacyr Félix]



    Em Heidegger e Nietzsche, além de Hölderlin, podemos sentir as tensões entre a filosofia e a poesia, nas palavras do místico Zaratustra, “Os poetas mentem demais”, os poetas criam mundos e entidades que não existem – ou existem só nos domínios da Linguagem. Assim uma poesia enquanto possibilidades da linguagem. E sempre se superando. Sem atividade poética há uma mumificação.


    Hoje a Poesia virou Arte num museu, como se fosse uma coisa antiga, idealizada. Uma múmia no museu. E precisamos a cada dia buscar, correr atrás do tempo perdido, nos clássicos que continuam clássicos, a cada leitura e tradução, para atualizarmos nossa re-ligação com o fenômeno Póetico. O poeta e crítico estadunidense Pound se ocupa do seu conceito de Paideuma, como o essencial que devemos ler para compreendermos o universo literário, quais autores e quais obras.


    Claro que cada leitor pode ter seu paideuma. Mas o crítico literário pode fazer suas listas, como fizeram os críticos e tradutores brasileiros Haroldo e Augusto de Campos, o escritor italiano Italo Calvino, em seu Por que ler os clássicos [1991], e também o crítico estadunidense Harold Bloom, em seu O Cânone Ocidental [1994].



    Também o poeta e filósofo Rodrigo Starling, entusiasta do voluntariado transformador, autor deste surpreendente e belo O Cético Selo [2021], tem seu paideuma, e seus clássicos, como podemos  perceber nos poemas eruditos e filosóficos que estão reunidos como um testemunho de suas indagações existenciais, até existencialistas.

    Em O Cético Selo há todo um arranjo poético que se inspira no simbolismo, nos pós-romantismo, que já denominamos ‘neossimbolismo’ [assim como alguns poetas se inspiram no barroco, e hoje temos um ‘neobarroco’] com um certo hermetismo de William Blake, o poeta místico britânico, que via anjos e demônios ao seu redor, lançando olhares para além das portas da percepção.

    A linguagem é formal, ritmada, tom erudito, plena de intertextualidades e referências, a exigir do/a leitor/a muita atenção e leitura prévia, de assuntos os mais diversos, de mitologia a física quântica, de filosofia clássica a cultura pop.


    Os poemas demonstram uma maturidade que poucos poetas de nossa geração conseguem alcançar. Um desejo de fala de sabedoria, de ministrar conhecimento, somente reservado aos Eleitos.


    E principalmente tratam do ceticismo, de um olhar e uma atitude cética diante da Vida, de modo a evitar dogmatismos e má-fé. É um tom sábio que encontramos em Eclesiastes, obra de pensamento e devoção, do filho de Davi, Salomão, rei de Israel, que diz no Capítulo 2, versículo 26, após discorrer sobre bens e conquistas de um reinado, “Isso também é inútil, é correr atrás do vento.”


    Encontramos, assim, ceticismo e niilismo na Bíblia, no Antigo Testamento? Sim. Lá está escrito, “Tudo é vaidade.” É uma voz de rei sábio, já avançado na vida de reinado e glória, mas que sabe que é preciso um sentido, uma razão para validar a vida. O que é a Vida? Um dom de Deus? Um acaso da natureza? Um produto da seleção natural, da Evolução das Espécies? Afinal, o que é a vida?

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O que é a vida?
O sopro, o perdão, o pêndulo
[…]
A flecha lançada,
A palavra dita
A oportunidade perdida

[Vida, p. 23]

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Vida é luta, como ‘flores no asfalto’
Como mato selvagem, imperecível …
A beira dos trilhos, nas frestas do concreto,
na boca do lixo

[Vida, p. 24]


    Vida que merece ser vivida apesar de tudo. É luta, então ‘aproveite a oportunidade’, ‘faça o seu dia’. A questão do suicídio é uma daquelas essenciais filosóficas par excellence para o existencialista franco-argelino Albert Camus [1913-1960] que se pergunta se a Vida merece ser vivida? Como devemos viver? O que é viver plenamente?

    Para as religiões a Vida é sagrada. A nossa e a dos outros. Tirar a própria vida é um terrível pecado. Principalmente para as três grandes religiões monoteístas, a judaica, a cristã e a islâmica.

    Para o poeta estadunidense Walt Whitman [1819-1892] a Vida é sagrada – e não devemos culpar a Vida e suas vicissitudes e desventuras. Tudo é um grande ciclo de sofrimento e aprendizado. Para o poeta tanto a alma quanto o corpo são sagrados [o que o diferencia do dogma cristão, que defende que o corpo é inferior, por ser a fonte dos pecados]

    No Budismo o sofrimento faz parte da Vida, da Roda de Samsara, e que somente através do Dharma, o caminho do Meio, podemos encontrar a Paz, ao atingir o Nirvana, o estado de não-sofrimento. Uma roda que gira e gira, tal uma engrenagem, de era em era, de éon em éon, assim um relógio cósmico, pois o tempo não para,

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Cruel engrenagem de Descartes
- O relógio existe sem pensar!
Mesmo em corpo defunto
vive! E viverá…

[Poema-Relógio, p. 27]


    É o drama da consciência, do saber-se ser para a morte. O humano valoriza a vida pois sabe que esta é finita, é tudo aqui-e-agora, não podemos procrastinar, não podemos fechar os olhos, e deixar o tempo se escorrer pelos dedos. Ouvimos o sussurro do carpe diem, ‘aproveite o dia’.


    É na pressão que as obras são criadas pelos poetas, quase à beira da depressão, meio ao sofrimento, mas importa que escrever é viver! Sem a escrita o poeta está silente

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Porque a escrita é o primeiro contato
Do oral com as narrativas
Do silêncio com o choro, o grito
Do verso, da estrofe ou da rima
Sentimentos disformes, abstratos
Escrever é tudo! Me fascina

Não escrever é morrer!

[Não escrever é morrer, p. 32]



    Pressão na qual vivemos e sobrevivemos num cotidiano de fuligens e cânceres, de subnutrição, fome e vírus, como é a atual a questão política da Pandemia, a doença intensificada pelo desgoverno negacionista, que não atua para diminuir o sofrimento mas para comercializar, e lucrar com a dor alheia. Mas o que causa tudo isso? Por que o tal governo está no poder? Quem o colocou lá no Planalto?

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O mau voto é este morcego (negacionista)
Sem máscara, a morte ceifando vidas
Que pandemônio, meu Deus! Pesada cruz

[O morcego de Wuhan, p. 50]


    Mas, pensemos, por que votamos em maus políticos? Por que insistimos em votar em elites, e seus representantes, que nada querem do povo além de trabalho e servidão?   É uma vontade de servir, de submissão à servidão, como encontramos na obra Discurso da Servidão Voluntária, do pensador francês Étienne de La Boètie [1530-1563]. De onde vem o poder do tirano? Por que muitos abrem mão da liberdade para servir a um líder? De onde vem a vontade de se submeter ao poder? Interesse? Masoquismo?

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Porque a força do tirano é dada pelos súditos
Oh! Servidão voluntária,
denúncia de La Boétie
O hábito é o cabresto do cordeiro
Outrora lobo, perdeu-se na apatia
Desnaturados pelos costumes

Desidratamos, definhamos,
tornamo-nos esfinges
Vítimas do próprio enigma, eis o homem:

[Cordeiro, pp. 66-67]



    Todo um caldo de pressão e opressão que gera o fenômeno da Ansiedade. Tal mal-estar civilização, como dizia o psicanalista Sigmund Freud,  ou na modernidade,  como defende Sérgio Paulo Rouanet, que parece um buraco-negro dentro da mente, a psiquê perturbada, que começa a devorar tudo, de dentro para fora,
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Volumes e volumes… Dor, paixão, glória
do mito à criação, de jesus ao anticristo
A física e a metafísica…
A Quântica e as Supercordas

[…]

Devorou os livros, sagrados ou profanos…
Lidos ou esquecidos
Num ato covarde (tal qual Alexandria)
Ansiedade devorou a memória…
E o presente (daquele que a lia)

[Ansiedade, p. 53]



    Diante da pressão cotidiana e da ansiedade que vai corroendo dentro, percebemos o poeta tal um místico Rilke diante do silêncio das coortes celestiais, que parecem tão indiferentes aos dramas humanos, tão humanos,

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“Se eu gritasse, quem das legiões dos anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e assim ainda, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.”


[Die erste Elegie, Primeira Elegia, trad. Emmanuel C. Leão]






    Daí surge um clamor, um querer-saber-o-porquê, com um grito daquele célebre quadro do norueguês Edvard Munch [1863-1944], quando diante da amplidão da Criação e da Natureza.  Realmente o protesto veemente contra a destruição do meio ambiente, como já alertam os ecologistas há meio século, e antes destes os vanguardistas da  Beat generation, principalmente Gary Snyder, além de poeta, um pensador, um adepto do zen budismo que vem alertando para o suicídio que é destruir o planeta onde a humanidade vive e sobrevive. O homem esquece que é um animal entre animais, e que todos são iguais na luta pela vida,


Homem que polui o lago
Que polui o rio
Que polui o mar
Que polui…

O homem, porque polui
É como o lobo:
Uiva!

[Hidratação, pp. 62-63]



    Mesmo com todo o pesar e com toda a ansiedade, o Poeta não perde a Esperança no ciclo da Natureza, a alternância das estações, a sucessão das gerações, pois tudo está em permanente mudança, transformação, eterno retorno, como um motor que se retroalimenta,  


Panta rei! Tudo flui… Todo gozo é regurgito
Energia em moto perpétuo, imortal idade
Vida que transborda
Do idoso ao feto

[Estações, p. 73]


    Em tom esperançoso, na Parte II de O Cético Selo, a ciência é aqui aclamada, é homenageada, quase cultuada, no longo poema erudito Quântico das Criaturas, que enaltece as grandes mentes da epopeia das Ciências, e a própria existência da energia, com a qual movemos nossa frágil civilização,



Aclamada seja a intuição
Dos seres de saber e ciência
Teus crânios são como luas
Teus olhos vivos, estrelas

[…]

Aclamada seja, energia,
Pelos fluidos magnéticos
Preciosos àqueles (moralmente) sábios

[…]

Aclamada seja, energia,
Pela luz elétrica
Por toda tecnologia, pelas vacinas
E curas vindouras (a nosso favor)


[pp. 81-83]


    O poema que dá nome ao livro é extenso, denso, erudito, pleno de intertextualidade, com textos bíblicos, hermetismo, orientalismos, tanto que podemos compará-lo com Cordeiro, que se dedica mais às ciências sociais, assim como Quântico das Criaturas tem seu foco nas Físicas e Químicas. E ainda veremos o casamento de opostos, da Grande Síntese, no poema que fecha a Parte II e a obra, Esperança.


Unificação dos contrários!
Alavanca da evolução
trevas e luz, Yin e Yang.
A verdade é um contraste
Água e vinho, na companhia de Pirro
e Sexto Empírico
Um cético banquete, sem glutonaria de certezas

[O Cético Selo, p. 89]



De todos os mitos, do caldo vivo,
De Darwin e Freud, da mente, da evolução
Jesus, solidário ao Cristo Cósmico,
nossa redenção!

Como a China de Confúcio
A Pérsia de Zoroastro
O Oriente de Buda
O Egito, de Tot e Hermes Trimegisto


[Esperança, pp. 98-100]



    E temos citações e referências a retórica, Banquete de Platão, números sagrados de Pitágoras, a obra de Aristóteles, a kabalah judaica com os nomes de Deus, D’us, Javé, Jehova Jiré, e também lembra dos antigos cavaleiros das Cruzadas, da Guerra Santa, Holy war, contra os infiéis, das ordens esotéricas, dos rituais afro-brasileiros, do sincretismo religioso...

    É aquela união de opostos nas núpcias químicas do místico poeta Blake, tensionado entre o silêncio ou música, entre o clamor e a meditação, quando busca em vários livros sagrados e códices a resposta para o Sentido da Vida, o que é bem viver, qual o fundamento existencial do Ser.


    Para o Poeta e Filósofo Rodrigo Starling, o Ceticismo não é ateísmo, não é simplesmente apregoar por aí uma descrença, ou uma Crença no Nada, um niilismo. Trata-se, antes, de um tipo de Ceticismo positivo, ativo – não um negativo, passivo. Um ceticismo que atrai reflexão, uma suspeita das verdades tão propagandeadas ao nosso redor e que não passam de ‘fake news’ como se diz hoje em dia.

    Politicamente, um Ceticismo enquanto uma posição conservadora, como podemos ver em Edmund Burke [1729-1797], que desconfia da Revolução, ou de um controle sobre a Revolução. No caso, se abordava a época da Revolução Francesa, que derrubou a monarquia do Ancien Régime e, através do Terror, tentou implantar a República apenas para cair no império napoleônico.  
 

 







    O poeta tem aqui sua expressão, seu desabafo estético do desassossego. Mas a quem se dedica o livro? Ao hipócrita leitor, como dizia Baudelaire? Dois poemas tratam detidamente deste quesito, quando o Poeta explicita o tipo de leitor/a que tem em mente ao deslizar a caneta no papel,




Leitor, quem te tornar ao me leres?

Mais crente em Deus e nos profetas
Agnóstico, ateu, cético ou asceta
Mais anjo que um demônio terrestre
Cativo, discípulo em busca do mestre


[Leitor, quem te tornas ao me leres?, p. 93]



Eu vos dedico este poema
Filósofos do presente, visionários, artistas
Freiras, cortesãs (dos conventos ou bordéis)
Acadêmicos, letrados, bolsistas


[Eu vos dedico, p. 95]



    Quem é o leitor de Poesia? É aquele que espera ser desafiado pelo poema, espera ser surpreendido – o/a leitor/a quer encontrar o misterioso, o indecifrado – não é assim o/a atento/a leitor/a? Que este livro, um cético selo, seja uma mensagem de alerta e cumplicidade, para abrir os olhos e não se deixar abafar em mediocridades e meias-verdades.  



    Como já disse na Apresentação de O Cético Selo, “A grande originalidade da poética de Rodrigo Starling está na amálgama alquímica de opostos, de passado e de presente, de crença e de descrença, de ceticismo e de esperança. O poeta sabe que é inútil culpar a vida, que o necessário é assumir a existência, sem dogmas, sem desespero, sem suicídio, para dar um fim à ansiedade e alcançar a esperança.”




set/ 21


Leonardo de Magalhaens

poeta, escritor, crítico, tradutor

Bacharel em Letras / Fale / UFMG




Referências


BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BLAKE, William. Canções da Inocência e da Experiência. Belo Horizonte: Crisálida, 2005.

___________ . O casamento do céu e do inferno. Porto Alegre: L&PM, 2007.

BOSI, Alfredo. O Ser e o Tempo da Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

CANDIDO, Antonio. A Educação pela Noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2000.

COMPAGNON, Antoine. O demônio da Teoria. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin, Companhia das Letras, 2011.

HEIDEGGER, Martin. Hölderlin y la Esencia de la Poesia. Madrid: Alianza, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

NUNES, Benedito. A Clave do Poético. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

___________ .  Passagem para o poético. São Paulo: Ática, 1992.

POUND, Ezra. ABC da Literatura. São Paulo: Cultrix, 2006.

ROUANET, Sérgio Paulo. Mal-estar na Modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

STARLING, Rodrigo. O Cético Selo. Belo Horizonte, Selo Starling, 2021.

____________ . Nós e outros poemas. Belo Horizonte, Selo Starling, 2010.

WERLE, Marco Aurélio. Poesia e Pensamento em Hölderlin e Heidegger. São Paulo: UNESP, 2005.

WILLER, Claudio. Os poetas malditos. In Eutomia. Recife. Jan./Jun. 2013.



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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Sobre os contos de Elo Cunha em Entre a Vida e a Morte

 

 


 

 

 Sobre Entre a Vida e a Morte : um flerte
contos do escritor Elo Cunha (1977-)
(BH: Páginas Editora, 2021)


      Narrativas labirínticas flertando com o desassossego


    O que é um conto? Depende dos contistas. São os escritores que criam e recriam o que denominamos, na teoria literária, de Conto. Uma narrativa curta (short story; se mais longa, é novela, novella; se muito longa, romance, novel) que tem um ou dois núcleos (mais do que isso temos novela ou romance) que constituem os fios do plot, ou enredo, ou trama.

    Para a teoria do conto é necessário certos elementos para que tenhamos um conto. Além do Enredo, as Personagens, o Espaço e o Tempo. O que acontece? Com quem acontece? Onde e quando acontece? Até aqui o texto. Nas entrelinhas pode estar a ‘segunda estória’, ou a solução geral. Como os núcleos se relacionam, como dependem um do outro, ou qual estória se destaca mais, e com que intensidade, então aí está a estilística do/a autor/a. E cada autor terá sua concepção do gênero conto.


    Quais autores se destacaram no reino dos Contos? Vejamos alguns, como preâmbulo, o alemão E. T. A. Hoffmann  (dos contos de terror gótico), o estadunidense  Edgar Allan Poe (para quem o conto é intenção e efeito, com grande coesão), o francês Guy de Maupassant (autor de O Horla), outro estadunidense, Jack London (das paisagens gélidas no Alaska), o russo Anton Tchecov (gênio do gênero), o irlandês James Joyce (que além de romancista, escreveu contos, em Dublinenses), o judeu tcheco Frank Kafka (atormentado pelo absurdo da existência), o italiano Italo Calvino (autor de Cidades Invisíveis) e mais um estadunidense Ernest Hemingway (aquele da ‘teoria do iceberg’, onde o texto é só uma pequena parte, o mais está implícito).

    No Brasil, na América latina, temos o gênio e a ironia de Machado de Assis, as audácias de Mário de Andrade (‘conto é aquilo que chamo de conto’), a secura estilística de Graciliano Ramos, os redemoinhos de Guimarães Rosa, as cenas do cotidiano de Fernando Sabino, as inquietações existenciais e epifanias de Clarice Lispector, o mundo fantástico de Lygia Fagundes Telles, o realismo mágico de Murilo Rubião,  o mundo-cão de Dalton Trevisan (ou o vampiro de Curitiba), os temores e os tremores de Luiz Vilela, o humor judaico de Moacyr Scliar e os crimes hediondos de Rubem Fonseca. O mestre argentino Jorge Luís Borges, com suas referências bibliográficas igualmente ficcionais, e o também argentino Julio Cortázar (segundo quem, no conto, todos elementos devem funcionar para o impacto final, um bom nocaute), o colombiano Gabriel Gárcia Márquez (autor de Doze Contos Peregrinos) e outro argentino, Ricardo Piglia (para quem o conto não precisa de final surpreendente).



    Lembramos dos autores, mas e a recepção do leitor? Quem lê os contos? O que espera um/a leitor/a de contos? Um espanto? Uma aventura? Um passatempo? Eu, enquanto leitor de contos, gosto de ser surpreendido, de receber um golpe literário. Como não pensei nisso antes?! Como me comportar diante do enredo? Primeiro com suspeitas, depois expectativas, entrando nos meandros e passagens, com ‘suspensão de descrença’, para aceitar um sinistro gato preto ou a metamorfose de um pobre caixeiro-viajante ou os truques de um ex-mágico, em busca da unidade (será uma coesão?) do texto.

    Falamos de um ‘pacto ficcional’ entre autor e leitor. O/a leitor/a tem a missão de interpretar, portanto completar a narrativa. O texto não expõe tudo, realmente o texto deixa lacunas que o/a leitor/a precisa preencher com suas experiências de vida e suas leituras.  Expectativas e possibilidades se mesclam, se enovelam. É como se estivessem num jogo, aquele caráter lúdico que os criadores da OULIPO francesa tanto sublimavam. O/a autor/a deixa pistas, marcas, indícios, e o/a leitor/a segue e investiga, e é o Sherlock ele/ela mesmo/a.   

 





    É preciso ser Auguste Dupin e Sherlock Holmes, e suspender muito a descrença, para adentrar os labirintos da Escrita do autor mineiro Elo Cunha, literato e médico, criador deste Entre a Vida e a Morte : um flerte (2021) com seu estilo intricado, filosófico, confessional, a gerar desconforto, um desassossego mesmo. Ele quer nos atingir existencialmente, não apenas narrar uma estória.

    Alguns contos aqui são verdadeiros poemas em prosa, com altos tons de alegoria, simbolismo, linguagem poética, mais do que uma narração, um enredo com personagens e desventuras. São contos-poemas em 1ª pessoa, confessionais e perturbadores. São personagens anônimas, um ele, ou ela, que podem ser qualquer um de nós, boquiabertos leitores.

    São contos, ou poemas em prosa, que desafiam a leitura, não por erudição ou vocabulário, mas pelas questões, pelas indagações mesmo. Quem fala? Quem confessa? O que é ter identidade? Um tom existencialista que encontramos em textos do francês argelino Albert Camus e na ucraniana brasileira Clarice Lispector. Seres em busca de identidade, de pertença no mundo. Quem eu sou? A que lugar eu pertenço?


    A identidade não aparece pronta. É um gradativo processo de vivência e observação. O que eu gosto? O que as pessoas esperam que eu goste? O que é disciplina? A quem devo obedecer? São questões dispostas diante das personagens (e de nós leitores) para que respondam sem subterfúgios.  


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Para envelhecer, no intuito de evoluir, como ser, é necessária a reconstrução consciente e contínua de nossa própria identidade. (p. 7, Sobre prisões imaginárias)

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Lembrança vaga e distorcida da concepção que construímos de nós mesmos. Saber disso é o que mais dói. O esforço da reconstrução diária e ininterrupta é um passo no vazio da lembrança, vaga por si e em si. (p. 10, Desconforto)


    Então o que é a Identidade? É uma narrativa elaborada e contínua que contamos a nós mesmos sobre nós mesmos. É uma fábula que tecemos diante dos olhares familiares e diante do espelho. É a fábula do Eu, como dizem os budistas.


    O Ego é um claustro, uma prisão. Por que? Por ser o Ego uma ilusão. Somos maiores que o Ego, graças a nossa mente ampliada. Sem consciência disso vem a claustrofobia. Pois é “uma prisão em um círculo vicioso de falsa felicidade.” (p.14) O Eu é uma mansão com muros e grades, sistema de segurança – e dentro da qual nos descobrimos presos. Individualidade enquanto construção, um Eu em construção, sempre trocando as fachadas, as facetas, as máscaras.


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Nas veredas do percurso, o que nos marca são as ramificações. Aquele instante em que a estrada se bifurca é lá, na escolha, que se constrói a individualidade. Na lembrança do possível acordo, ou na eterna dúvida da escolha abandonada. (p.14, Trajetos e Trajetórias)



    Vida! O que é a Vida? Um fenômeno que ocorre entre o nascer e o morrer. Uma visão sem retoques, sem dramatismos, fria e científica. Não há escape para a condição humana. Somos mortais e não há técnica ou magia que nos deixa eternamente jovens. Somente as religiões prometem tal ‘vida eterna’ em paraísos celestiais.

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Porque o caminho é incerto e múltiplo, mas a chegada é uma só. Fatídica e esperada. Tal qual a certidão de nascimento, ao fim, nos aguarda a declaração de óbito. (p. 15, Trajetos e trajetórias)


    Enquanto a morte não vem as personagens vivem seus dramas. E suas leituras. Em Devaneios em Assis, temos um personagem mergulhado em referências aos contos de Machado de Assis, por exemplo, O Espelho e também Teoria do Medalhão, em Papeis Avulsos, obra de final do século 19 e que marcou um novo fôlego para o gênero na nossa literatura.

    Para ser um Medalhão, para ‘subir na vida’, é saber se portar socialmente, sempre simpático e nunca expor suas ideias, aliás é melhor nem ter ideias. É melhor seguir e se apropriar das ideias que circulam por aí. É saber se adequar ao discurso ao redor, se encaixar nas ‘rodas sociais’ e ser celebridade.

    Diante do espelho há uma imagem, uma identidade, e justamente aquela que é aparência, que está apresentada socialmente, o respeitado alferes com seu uniforme. Não há um eu interior que suporte a introspecção, a solidão, mas uma figura exterior sempre a esperar elogios e honras.


    Algumas questões sobre Eu, identidade, traumas da infância, estão em Machado de Assis bem como encontramos em trechos do médico austríaco Sigmund Freud, pai da psicanálise, da mesma época. Não eram autores que se correspondiam, eram ideias que estavam no Zeitgeist. É fato que Freud sistematizou em sua obra o que já se podia ler em Schopenhauer, Poe, Dostoiévski, e Nietzsche, tais como a divisão da psiquê, o inconsciente a pulsão de morte.



    No conto Quarto de espelhos (p.25), em 1ª pessoa, temos um tom meio de Edgar Allan Poe, de constante questionar, à beira da obsessão, na contínua recriação de nós mesmos, "Relembrar das coisas é o que curiosamente nos constrói, e esse pensamento é absolutamente trágico," (p. 25) As imagens que nos apresentam ou que construímos para nos apresentar – o quanto são espelhamentos? Espelhos que são símbolos em narrativas de Machado de Assis e Jorge Luís Borges.

    No conto Tlon, Uqbar, Orbis Tertius, de Ficções,  Borges fala da maldição dos espelhos que, juntamente com a cópula, são abomináveis ao reproduzirem os homens. A mania que os espelhos têm de duplicar as coisas – confundir o real e o virtual, como quando vamos àqueles parques de diversões com amplas salas de espelhos, das mais diversas dimensões, e os risos que não seguramos quando vemos nossas imagens ora magras, ora obesas, ora esticadas, sempre disformes, sempre outra daquela com a qual estamos acostumados.

    O Eu deve muito de sua construção às memórias. Mas não só do indivíduo, mas de memórias coletivizadas. O que a família pensa sobre mim? O que as redes sociais pensam sobre mim?  “Toda memória é falsamente verdadeira, particular, sujeita à ação inconsciente do crivo individual de quem a vivencia.” (p. 26)


    Nossa identidade é edificada sobre um conjunto de memórias. Lembrei-me aqui do filme/animação Divertida Mente (Inside Out, 2015), onde as emoções, alegria, tristeza, raiva, nojo, medo, precisam lidar com as preciosas esferas de memória que constituem aquela narrativa que a personagem conta para si mesma e que seria sua personalidade. Onde ela viveu? Como é sua família? Quais experiências são marcantes? Carinho ou violência? Conforto ou miséria? Rotina ou mudanças?

    O conto Identidade (p.31) trata do drama das escolhas. Escolhemos realmente? Somos condenados a escolher, como dizia o existencialista Jean-Paul Sartre, e até quando não escolhemos é porque escolhemos não escolher. Em suma, temos mesmo livre arbítrio? Ou o que julgamos escolher já está escolhido? Ou nem sabemos porque escolhemos…

    Se estamos numa caverna, como dizia o grego clássico Platão, como poderemos sair de tal condição? A nossa caverna de Platão é a nossa Matrix, emaranhado de vida social e redes sociais e busca de status.  
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Uma decisão final, de libertação, uma fuga da caverna, pensava agora. Deveria existir algo além do arquétipo que habitava, se fazia necessário romper com a construção da realidade que forçosamente o cercava. (p. 32)



    A libertação – a morte. A morte, o destino: tudo (p.21), conto em 3ª pessoa, sobre o peso do Fado, a miséria entranhada, de vício e culpa. Também em Borderline (p. 29), com seu tom alegórico, personagem anônima,  na vertigem que é um fascínio, uma atração pelo abismo, pela queda final, a morte lá embaixo. A vontade de se libertar do corpo – mesmo que não se liberte do karma. “Encarnado e encarcerado momentaneamente se aproximam muito em seu longo vocabulário.” (p. 29)


    Em frente. No conto Água mole, pedra dura (p.33) a figura do eterno retorno do mesmo (segundo Friedrich Nietzsche), como uma condição cíclica, de espírito orientalista, esta roda de samsara da qual temos que nos libertar ao seguir o dharma, o caminho budista. “Um eterno ciclo? Um retorno ao retorno seria um grande desperdício de energia e imaginação” (p. 33)

    Em Paralelos (p.49), conto indefinido, em 1ª pessoa, onde questiona-se: são as várias mortes? As reencarnações no ciclo do Samsara para pagar os karmas de vidas passadas? Um tom religioso, mas desesperançado, de quem perdeu a fé, mas ciente da condição de eterna repetição,


A grande verdade é que nunca se morre (p.49)
 
E você… quantas vezes já morreu? (p.50)


    A condição humana ainda é tema para outro conto em tons alegóricos, Cárcere (p. 69), em 3ª pessoa, sobre como lidamos com a solidão. É uma prisão. O Eu consigo mesmo pode ser claustrofóbico. E o Absurdo: a cela está aberta.


    E quando o Eu procura o Outro, o objeto de desejo amoroso? No conto O toque declara (p.35) temos os desencontros amorosos, o que Ela quer, o que Ele expressa. Ele demonstra que ama, Ela quer declarações. Ambos  juntos e separados. Os corpos se compreendem, mas as almas não. Podemos  comparar com Sobre certa noite (p. 39), de como o homem vê a mulher, e também comparar com Do genérico ao universal (p. 65) aqui o homem se declara para a mulher.


    A mulher, a figura erótica e amorosa também apresentada em Memória da água (p.41) a presença feminina numa reconstrução pela memória, assim como em Certo emotion (p.47) lembranças do antigo amor, que animam um saudoso anônimo.

    Em Fagia (p.51)  narrativa que parece um conto erótico, mas não é …. é algo terrível. Sem palavras.






    Outros contos passam longe da temática amorosa. Et devorabit omnia (p. 37) com um tom alegórico, no vazio existencial de um canibal. Um Hannibal Lecter? Memorável no filme O Silêncio dos Inocentes (1991) com Anthony Hopkins. Aquele homem fino, elegante, carismático, mas também perverso, psicopata, canibal. Aqui o destino trágico do ‘último antropófago’.

    Será que a ‘antropofagia nos une’, como dizia o poeta modernista Oswald de Andrade? Para os povos nativos o canibalismo é assimilar o Outro no que tem de força e coragem. Vemos isso em poemas de Gonçalves Dias, I-Juca Pirama. Os nativos não devoram os fracos e os covardes.


    Em Secreto glaucoma (p. 43) mais tom alegórico  com a  observação e imaginação, na passagem da infância à vida adulta, a morte da infância (childhood’s end). Mas os traumas da infância continuam.  É o que lemos em Reminiscências (p. 67), em 1ª pessoa, onde a lembrança de infância está materializada numa moeda, dada por uma... aparição.


    Em O Buscador (p.45), em 3ª pessoa,  um Ele anônimo, que pode ser qualquer um de nós, diante do exercício da espiritualidade enquanto uma ‘busca infinita’, uma contínua peregrinação, seja em Santiago de Compostela, ou no Tibete, seja em terreiros de candomblé. A personagem pensou só no espírito, no outro mundo e não viveu este daqui, então no final sobreveio a velhice, a doença, a morte num leito de hospital.


    Impossível se libertar? O texto de Impossibilidade (p. 53) um tanto enigmático. Quem fala? Que seres são estes? É uma reunião? Um ritual? Uma profecia? Lembrei-me de algo de Borges, Calvino, Cortázar…Também o tom enigmático em Entre isto (p. 55) com uma transição da 1ª pessoa para a 3ª pessoa. Quem narra? Um sonhador? Um monge? Trata-se de um ser isolado, excluído, só no final é que sabemos quem é… triste fado.

    Há Poro (p. 59) ver Áporo, poema de Carlos Drummond de Andrade, onde “um inseto cava / cava sem alarme / perfurando a terra / sem achar escape.” numa condição de insistência e perseverança mesmo que inútil. Lembrei-me da marmota (realmente uma marmota?) na novela A Construção, de Kafka, que nos causa perplexidade. Nada podemos fazer para mudar – igual Dédalo preso em seu labirinto. (Vejam que autores modernos adoram referências aos mitos gregos. Por que será?)


    No magistral a Parábola Borgeana (p. 61), em 1ª pessoa, o narrador, o Eu reconstrói a identidade, fragmento por fragmento. O Ego cria um golem, um boneco, um quê de Frankenstein, “Novo ser criado, golem de mim”. Um golem, figura de um conto judaico, um robô (?) orgânico criado por magia. E o golem, por sua vez, cria um homúnculo, aquele que Fausto cria na parte II da peça de Goethe, com artes de magia esotérica.

    Caleidoscópio (p. 63), em 1ª pessoa, temos as várias facetas da mesma paisagem. Há uma praia, lazer, GIRA, há miséria, exploração, GIRA casais, GIRA, boêmia, assim de modo que prazer de uns, miséria de outros, assim um lucra, os outros trabalham. A sociedade em suas várias camadas, na divisão social do trabalho, a exploração do homem pelo homem a qual damos o nome de ordem social.

    As Veias da sorte (p. 71) temos o vício do jogo. Lembro de O Jogador, novela meio autobiográfica do russo Feódor Dostoiévski, que perdeu muito dinheiro e sono nas mesas de jogatinas.  E outro conto sobre vício é Vício (p. 89) 1ª pessoa sobre sedução… vampírica! A ânsia dos convertidos…


    Dois outros contos merecem atenção. Agonia e Êxtase (p.79), em 3ª pessoa, e o longo Diário de um sedutor (p. 91), que me fazem lembrar certas influências de Rubem Fonseca (1925-2020), o grande autor brasileiro, que tratava dos crimes, da sociopatia de personagens na cidade grande, solitárias meio às multidões.


    No primeiro, o passo a passo para um crime bárbaro, sem justificativas, puro fetiche homicida. No segundo, mais denso e confessional, para o narrador sedutor, a sedução é como um hobby, um passatempo, ou uma afirmação do Eu masculino. “A necessidade de autoafirmação é algo que compreendo bem” (p. 92) Ele tem uma voz que reflete e até confessa. Quer a nossa atenção e até cumplicidade. Ele é um indivíduo assim como nos julgamos indivíduos, “Saber que a individualidade é necessária” (p.92)


    Meio as suas confissões de seduções, ele tece alguma referência a Borges, o homem sozinho é um microcosmo no macrocosmo, com alguma erudição (que o autor empresta a personagem) enquanto o sedutor não se envergonha de confessar que “se um homem é composto pela soma de suas experiências e pela projeção de seus anseios, eu era só gandaia.” (p. 97)


    Estas questões levantadas pelo autor Elo Cunha nesta surpreendente coletânea de contos, Entre a Vida e a Morte: um flerte, são aquelas que perpassam várias obras, ao longo dos séculos, pelo menos desde os séculos 16 e 17, de Montaigne, de Descartes e de Espinoza, de identidade, autorreflexão, sentido da existência, emoção X razão, metalinguagem, aqui atualizadas para os leitores do século 21, que sobrevivem em mundos virtuais, em redes sociais, onde as identidades são fluidas e corroídas por expectativas e frustrações, numa imensa Matrix que passa despercebida.



ago/21



Leonardo de Magalhaens

poeta, escritor, crítico

bacharel em Letras / Fale / UFMG






Referências


ASSIS, Machado de. 50 contos. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

_________________ . Papéis Avulsos. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

BORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

CUNHA, Elo. Entre a Vida e a Morte: um flerte. Belo Horizonte: Páginas Editora, 2021.

FONSECA, Rubem. Contos reunidos. São Paulo: Cia das Letras, 1994.

_________________ . Histórias de Amor. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Editora Ática, 1990.

LAFETÁ, João Luis. A Dimensão da noite e outros ensaios. São Paulo: Duas cidades / Ed. 34, 2004.

PIGLIA, Ricardo. Teses sobre o conto. In: O laboratório do escritor. São Paulo: Iluminuras, 1994.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo.  São Paulo: Vozes de Bolso, 2014.

 

 

 

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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Sobre Assédio das águas Obra poética de Luiz Walter Furtado

 

 


 

 

 Sobre Assédio das águas
(BH, Páginas Editora, 2017)
do poeta Luiz Walter Furtado (1957-)


Criação poética na tensão entre palavra e silêncio


    É o momento de nos debruçarmos sobre a expressão poética, o estilo que brota de uma Experiência, a atividade de criação e expressão que denominamos Poesia. Qual a importância do poema? Tal está ligada a sua extensão (do haicai às epopeias) ou sua métrica/ ritmo e rimas (e os versos livres? E os versos brancos?) Como avaliar a qualidade de um artigo poético?

    Defendemos que a riqueza de um poema está em seu uso da Linguagem, a capacidade de estar além do ‘estado de dicionário’ (como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade) Pois poesia é recriar o sentido das palavras e cada palavra tem um significado num contexto. Segundo o professor Alfredo Bosi (1936-2021) o poeta é doador de sentido, de modo que é expressa a sua capacidade de criar e recriar.

    Poesia é música antes de comunicação, é mais expressão que ensinamento. Poesia é a origem das línguas, segundo o italiano Giambattista Vico (1668-1744) em status de poemas as canções, os hinos religiosos, as peças teatrais. E assim até hoje,  “Estamos feitos de palavras”, como dizia Octavio Paz (autor de O Arco e a Lira, 1956), para quem a poesia de nosso tempo não escapa da solidão e da rebelião.


    Poesia não é propaganda, não é dominação, é expressão, desabafo, jogo com as palavras, sons, ideias, de modo que na Poesia se juntam visão e imaginação, e criação e subjetivismo, quando há uma necessidade de expressão, a partir de palavras coletivas, da gramática, do dicionário, um uso pessoal dos sentidos, a recombinar a gramática, num discurso novo.

    Possível como? Sendo o/a Poeta uma pessoa sensível por excelência. Se possível, um/a livre criador/a. Claro que o/a Poeta não é livre, está na sociedade, no trabalho e na venda, mas seu discurso é espaço possível de ‘ousar ser livre’.

    A linguagem não é apenas sinais, letras, códigos, semânticas, mas um quebra-cabeça que pode ser recombinado. Nesta recombinação pode entrar o exercício poético enquanto um jogo, um brincar com as palavras. Aliás vários aurores conseguem ver a Escrita como algo lúdico, onde o escritor arma um jogo para que o/a leitor/a faça um rearranjo, movendo as peças e fragmentos. É assim que atuavam os membros da OULIPO, na França dos anos 1960, que congregou, entre outros, Italo Calvino e George Perec, e influenciou escritores latino-americanos, como Julio Cortázar.


    Mas além do lúdico há uma idealização da figura do/a Poeta. Várias imagens já estão agregadas, anexadas mesmo, a caricatura do poeta.  Para Arthur Rimbaud, o precoce poeta francês, o poeta é um vidente. Para Ezra Pound (1885-1972), poeta estadunidense, o poeta é a antena da raça. Fernando Pessoa o poeta é um fingidor. Ele, ela necessita deste ‘fingimento’ do que ele realmente é. Mas o que é ‘ser realmente’? O quanto o poema expressa o Poeta?

    Poesia é expressão de vivência, de experiência – o que é o ser? O que é o mundo? Por que perguntamos sobre a existência? Qual é o drama da consciência? O poema seria um veículo de transmissão, de transporte, com imagens, sonos, ritmos, com deslocamentos e transferências de sentido, em analogias e associações, em suma, em metáforas e metonímias. Sempre atento ao fato de que do outro lado temos o/a leitor/a. Para quem o/a poeta fala / expressão / escreve. A imagem de um/a leitor/a, mas realmente não sabe a quem vai atingir, pois o/a leitor/a real pode ser diferente do leitor ideal. Pois é o leitor que refaz a Obra.


    Daí a atenção com o uso e o abuso da metáfora, a principal das figuras de linguagem ou de estilo. A Metáfora, entre ‘figura de linguagem’ e ‘técnica de ornato’, segundo podemos ler no artigo do professor Luiz Costa Lima, Metáfora: do ornato ao transtorno, onde podemos nos deparar com um direto “A metáfora ou é um luxo ou uma doença da linguagem” (p. 126) ou ofuscante “A metáfora é uma espécie de miragem” (p. 140).

    Como a metáfora nos atinge enquanto co-criadores, isto é, leitores. A vida é um rio. Faz sentido? A vida é igual a um rio. Por que? Porque a vida vai fluindo, ora mansa, ora acelerada, igual a correnteza de um rio.

    A linguagem se estende assim, se tensiona entre a denotação e a conotação, segundo Costa Lima, “A linguagem é um instrumento dúctil, capaz de se amoldar a um ou a outro serviço.” (p. 138) onde a recriação surge no meio da tensão, incessantemente renovada a cada uso de linguagem,  “Em vez de fantasmal, a metáfora se mostra como o que é : momento do incessante processo em que nos confundimos.” (p. 142) e o professor nos lembra que não temos as coisas – mas as palavras. Temos as ‘metáforas das coisas’ (Nietzsche, in Sobre Verdade e Mentira no sentido extra-moral).


    Sabemos que a poesia é tentativa de se fazer ouvir. Para que? Para se entender? Para sentir junto? Ter com-paixão? É expressão, mais do que ensinamento, mas a boa poesia acaba por ensinar, ser pedagógica, mesmo não sendo este seu propósito. Afinal de contas o poeta não é um professor, é um colega de sala que é mais expressivo. Precisamos evitar a idealização do Poeta assim como o/a Autor/a precisa evitar a idealização do/a Leitora.

    Antes saber ler a Criação poética, a imagem poética. Assim adentremos agora a Obra em foco: Assédio das Águas, publicado em 2017 em Belo Horizonte, pela Páginas Editora. O autor é o poeta, médico por profissão, Luiz Walter Furtado, que tem nos surpreendido pela qualidade poética da sua escrita. Uma maturidade, um equilíbrio, uma elegância, um esprit de finesse, em suma, sabedoria e poesia de primeiro escalão.


    Vamos mergulhar numa obra que se aprofunda em alguns eixos temáticos, desde os elementos físicos, água, terra, ar, fogo; até os elementos do ser, identidade, memórias, tempo, palavra. Vários poemas se entrelaçam entre ramos do reino vegetal, entre árvores e florestas, ou enfrenta águas que correm impossíveis, percebendo o próprio corpo, o domínio do sexo, no império do ar, nas areias do deserto e do Tempo.

    No reino vegetal, temos floresta, raízes e troncos, o oculto e o manifesto, tudo num emaranhado de percepções e sinestesias,

 
no território das raízes,
a sombra incolor
da permanência

[…]
é seiva que nutre, sustenta
ou desampara.
                      (Floresta, p. 15)


Mastigar segredos
enterrados
no silêncio dos tubérculos
                       (Memória das raízes, p. 17)


Algumas raízes
espalhavam-se, invisíveis,
e meu tronco inteiro
secava
sem que ninguém percebesse
                                (Dafne, p.18)


    Em todos os domínios o Poeta precisa ligar e religar nuances de Sentido e para isso ele usa liames de metáforas e metonímias, e muita fluidez semântica.  A água é o elemento principal, somos feitos de água, o elemento mais abundante. Mas águas escorrem pelos dedos sem vasilhame que a abrigue. A obra poética precisa de um Sentido tanto quanto de uma Fluidez. 

 






    No reino animal o domínio do corpo / sexo, que se destaca meio aos tabus, crenças, fobias, carências, todas a atingirem o poeta em sua re-criação de linguagem, da qual ele tem consciência crítica,
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Só na profundidade do corpo
algumas raízes
encontram
os habitantes do medo
e ossos
de crenças ancestrais
                   (Crenças ancestrais, p. 19)


Na tecitura da noite,
entre suores e febres,
cabe a mim
o labor
de recriar cada manhã.
                    (Forjas e teares, p. 27)


    Meio ao assédio das águas, ciente das Crenças ancestrais, o poeta precisa encontrar sua fala, sua luta com as palavras, em busca de uma identidade, não mais vegetal ou animal, mas ser-de-linguagem, e fazer germinar sua identidade, tecida de memórias e perdas. Que identidade : quem sou eu afinal? Em que contexto? Em que lugar? Suas experiências se sucedem, sem ligações, a cada percepção / observação de si mesmo,  Já não sou eu / quem ganha as ruas (Eu, p. 34)


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No corpo,
margeio
meus próprios riscos.
             (Claustrofobia, p. 13)

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a terra finge ceder
e entrega
pequena parte de si,
em grãos de areia,
ao assédio das águas
                       (Bordas, p.51)


os grãos de areia que estão no deserto e também dentro de uma Ampulheta, No abismo da ampulheta / há sempre um quê de eterno / no último grão de areia (p. 82) O Tempo passa e flui como um rio e o que sobra? A Memória a abrigar as águas passadas que não movem mais moinhos, as ruínas que são agora não-lugares, onde só o vento habita entre pedras e frestas,


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lugares
também abandonam
memórias
                  (Ruína, p. 77)

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O vento é um agitador
 de memórias
                   (Vento, p. 80)



    Os contrapontos ao elemento água são justamente o elemento areia, o lugar deserto, o obstáculo muralha, o não-lugar ruína, onde as únicas que aliviam a tensão polarizada são o oásis e a miragem. E acima da água e da terra estão os domínios do ar, onde rodopiam os ventos.  Lá está a figura alada do pássaro, e a figura desafiadora de Ícaro.


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Mas sabes:
tem plumas de cera,
o desejo

Tua dor não se repara
com asas nem palavras.
                             (Ícaro, p. 87)

    Aliás, as figuras da mitologia grega são importantes aqui para simbolizar. Os poetas recorrem às mitologias em busca de símbolos para os nossos dilemas cotidianos. Assim como Sigmund Freud se inspirava em mitologia e teatro grego clássico para patentear os complexos que ele descrevia, Édipo, Electra, etc.

    Aqui na poética de Luiz Walter Furtado, o Centauro aparece enquanto símbolo do eu híbrido;  o Labirinto enquanto a confusão, a perda do Eu; a Medusa, o desejo e o medo; o Ícaro a audácia e o fracasso;  o Narciso desejo por si mesmo e, finalmente, a Morte de Narciso o eu fracassa ao não alcançar o Outro.

    Assim como a muralha, a morte é símbolo de obstáculo, de não-fluidez, que encerra um ciclo, numa forca, num cemitério, nas ruínas que pouco refletem as glórias do passado. O poeta anda entre escombros e só encontra um alívio mínimo na própria fala, a qual também questiona, sem suspeitando.

    No embate entre a palavra e o silêncio, o poeta parece hesitar, ao saber que extrair poesia é tarefa árdua, de áspera rotina, notívaga labuta, ciente de que silenciar é não tomar parte, é não re-criar.  O que ouves: teu silêncio / a consertar frestas / da própria voz (Delírio, p. 80)



Das tardes de tosco garimpo
herdei a palavra bruta,
meus cacos de voz na bateia
                  (Heranças, p. 26)

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Mas
todo poema me brota,
canhoto e frágil,
da mão errada.
                 (O lado frágil, p. 38)


    O embate palavra X silêncio tensiona toda uma fibra da Obra, onde o poeta sente que é melhor se calar, mas lembra que onde há música há poesia, e sempre existiu poesia. Que há poesia até nos ecos do silêncio.

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Havia poesia em toda a extensão do vazio (Música, p.89)

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Apenas
 o eco
de quem se cala
retorna
em silêncio
                  (Ecos, p. 90)


     A poética de Luiz Walter Furtado é uma doce e amarga descoberta nestes tempos de pandemia e isolamento social, quando nos voltamos para nossas casas, famílias, vidas, feridas abertas cada vez mais abertas, desuniões e desabafos nos congregam uns distantes dos outros, cada uma em suas bolhas e celas acolchoadas do cotidiano que nos drena e nos deixa ainda mais sedentos, vulneráveis às enchentes e ventanias, nós, pobres Narcisos e audaciosos Ícaros.




Ago/21


Leonardo de Magalhaens

poeta, escritor, crítico

Bacharel em Letras / Fale / UFMG




Referências

 

FURTADO, Luiz Walter. Assédio das águas. Belo Horizonte: Páginas, 2017.

LIMA, Luiz Costa. A Aguarrás do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

PAIXÃO, Fernando. O que é poesia. São Paulo: Brasiliense, 1984.



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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Na Catredral mística e musical de Alphonsus de Guimaraens


 

 

  Sobre a poética de Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921)
poeta místico e simbolista mineiro
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         Na Catedral mística e musical
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    Na dourada tradição da poesia mística, desde as obras do inglês William Blake (século 18), do alemão Novalis (século 18 e 19) e do francês Gerard de Nerval (século 19), nos quais a poesia é alçada às esferas da Iluminação, do Transcendental, da Arte alquímica, numa criação humana que busca alcançar o Além-do-humano, o Divino, o Paradisíaco, a Presença do Criador.

    Advindos das crenças cristãs, esotéricas, alquímicas, neopagãs, espiritualistas, os poetas expressam uma visão de mundo que revela a tensão entre o carnal e o místico, o real e o ideal, o corpo e o espírito. Tensão esta recuperada em obra ambígua de Charles Baudelaire, As Flores do Mal (1857), onde o poeta francês denuncia e abraça o Pecado e a Luxúria, no seio da vida urbana, meio aos prazeres que inebriam os sentidos, em promessas de diversões e consumo de artificialidades.


    Baudelaire marcou sua época de ‘auge do capitalismo’, segundo Walter Benjamin, pensador alemão, com seus testemunhos da vida efêmera e artificial nas grandes cidades, e com sua visão pessimista e decadentista da natureza humana, que se destaca por ser ‘hipócrita’, ao praticar tudo aquilo que condena publicamente. Neste redemoinho parisiense da modernidade eclodiram os chamados ‘poetas malditos’, Rimbaud, Lautréamont, Corbière, Mallarmé, Verlaine, que levaram a poesia a outro nível, entre sinestesias, musicalidade, simbologias, associações, neologismos, devaneios, insanidades, imagens grotescas, num estilo de época rotulado de ‘simbolismo’.

    O que foi moda artística na França das décadas de 1870 e 80, aqui, no Brasil, chegou em 1890, com as obras de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, que foram atentos leitores de E. A. Poe e Charles Baudelaire, mestres para toda uma geração. Estes poetas, americanos, franceses, brasileiros, todos irmanados num estilo de poesia não único, mas centrado no fazer poético, até o formalismo de um Mallarmé, celebrado por todos, que tem tal ponto em comum com os parnasianos, no alto das torres de marfim. Sonetos perfeitos, elegias, litanias, salmos incensados, réquiens, elogios tumulares.


    Na poesia simbolista, lá e cá, tensionam-se os polos do Ideal e do real, o que o poeta almeja e o que o poeta é obrigado a vivenciar. Há um olhar nas alturas, no Divino, e há um contato indesejado com o baixo, o demoníaco. E nesta distância entre o Alto e o Baixo surge o Desespero. O poeta é obrigado a conviver com o Carnal, o Pecado, a sentir Culpa e desprezo por si mesmo. É o que confessam em seus versos, uma Poética nascida de doloroso Desespero, “desespero torvo / destes versos que escrevo” (A Cabeça de Corvo), poema do mineiro Alphonsus de Guimaraens, profundamente católico e místico.   

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Às vezes, quando o eterno ideal me abrasa
O crânio, no cachimbo os olhos ponho:
Há também dentro dele fogo em brasa,
Sobe o fumo e desfaz-se como um sonho.

                                             (O cachimbo)
                                                            in: Kiriale / 1902

    O cristão torturado, em penitências, é uma alma em busca de Salvação, em momento de desespero e miséria terrena,
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O naufrágio, meu Deus! Sou um navio sem mastros.
Como custa a minha alma transformar-se em astros,
Como este corpo custa a desfazer-se em pó!

                                               (Náufrago)

    Numa permanente tensão entre a lua e as trevas, os anjos e os demônios, a Elevação do Cristianismo e a Decadência do Satanismo, que tem lugar na Alma humana, jogada num mundo de misérias,

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Se a tentação chegar, há de achar-me de joelhos,
(Miséria humana, humanidade miseranda…)

                                             (Santo Graal)
                                                             in: Kiriale / 1902

    Em busca da Comunhão, o poeta se dedica aos sacramentos da religião, busca um alívio no Além, na Benção divina, que pode libertar sua alma da Finitude, da morte ameaçadora,

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Vozes de além, pungentes de mistério,
Cantam: e os sinos dobram nas ermidas
Acompanhando o cantochão funéreo…

                                             ( Pulchra ut luna )
                                                             in:  Dona Mística
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    A dor e o sofrimento está presente na poética simbolista, como percebemos na obra de Cruz e Sousa, ser atormentado por uma Dor que busca justificação, que ele encontra na Fé, na Crença

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Vê como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crê nobremente.
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.

Oh! Crê! Toda a alma humana necessita
De uma Esfera de cânticos bendita,
Para andar crendo e para andar gemendo!

                                              (Crê!)
                             In: Últimos Sonetos, 1905, de Cruz e Sousa


 

    Enquanto construto religioso, o Cristianismo procura justificar a dor e o sofrimento, como uma forma de Iluminação espiritual e Penitência redentora, a mortificar o Corpo, centro dos impulsos efêmeros e lascivos,


Eu sei cantar o sofrimento: basta,
Para cantá-lo bem, já ter sofrido…

Mas canto a sempre-humana dor. A vasta
Dolência angelical, o almo gemido
Que vem pungir-vos a Alma pura e casta,

                                             ( Sexta Dor )
                  in: Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte / 1923

    A dor e a beatificação, desde a rememoração da Dor do Crucificado, está presente no estilo Barroco, com sua mescla de pecado e de devoção, do ser finito que olha para o Eterno, como em Cristo de Bronze, de Cruz e Sousa,


Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata,
Cristos ideais, serenos, luminosos,
Ensanguentados Cristos dolorosos
Cuja cabeça a Dor e a luz retrata.

                                                           In: Broquéis / 1893

    O mesmo poeta Cruz e Sousa que eleva o olhar para as Esferas Celestes, desce ao desejo, numa idealização da Mulher, das Virgens puras, como num mecanismo de sublimação, como percebemos em Carnal e Místico, poema de Broquéis, onde vislumbra um “cortejo de virgens”, na “Essência das eternas virgindades! / Ó intensas quimeras do Desejo...”, numa poética tensionada.

    A tensão entre Devoção e Desejo, entre Alma e Corpo aumenta a ponto do místico desprezar a Carnalidade, que é vista como degradada, e destinada aos vermes, como podemos ler nos versos de A Carniça (Baudelaire), a anunciar que a amada bela e charmosa tornar-se-á um cadáver putrefacto, ou em  Ironia dos Vermes (Cruz e Sousa), que apresenta a nobreza da princesa é indiferente para os vermes, quando devoram nobres e plebeus.

    Também em Ossea Mea, Immaculata (Alphonsus) com ápice na poética grotesca e niilista de Augusto dos Anjos, que se nutriu do simbolismo mas o superou rumo a um cientificismo expressionista, em


Já o verme – este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

                                             (Psicologia de um vencido)


Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme – é o seu nome obscuro de batismo.

                                             (O Deus-verme)

O Espaço – esta abstração spencereana
Que abrange as relações de coexistência
E só ! Não tem nenhuma dependência
Com as vértebras mortais da espécie humana!

                                              (As Cismas do Destino)


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    O dualismo corpo X alma em Baudelaire, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens é reposta por Dos Anjos nos termos de alma X instinto, numa luta interna da psiquê – mesmo conflito que Freud dispõe em termos de Ego e Id – e o Eu sofre com os instintos reprimidos,

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(…) a vaga dos instintos presos
(…)
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

                                             (A dança da psiquê)
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    O ápice da poesia de Alphonsus de Guimaraens está no poema A Catedral, obra de evocação, dualismo, sinestesias, uma peça poética de forte comoção, que vem a nossa mente quando ouvimos o nome do simbolista mineiro – assim como lembramos do Corvo do ‘nevermore’, ao ouvirmos a simples menção ao ultrarromântico Edgar Allan Poe – do “pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

    Na Catedral do poema simbolista os sinos cantam, clamam, choram, gemem, como num eco sinistro que lembra a Finitude humana – o mesmo ecoa no poema The Bells, Os Sinos, de Poe, com um construto mais sonoro, estruturado em repetições, aliterações, rimas internas, a esperar a exaltação, até a irritação dos sentidos,

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A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!

                                               (A Catedral)
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    São marcantes as sinestesias, com apelo aos sentidos, uma paisagem escura, um som tempestuoso, tudo se reúne para atingir o poeta em aflição,
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O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o resto meu.

                                              (A Catedral)
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    A atmosfera mística, religiosa, numa necessidade de elevação espiritual está igualmente presente nos versos de Cruz e Sousa, em evocações de odores e matizes, cânticos e névoas, como nos poemas de Broquéis, onde destacamos Incensos,

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Dentre o chorar dos trêmulos violinos,
Por entre os sons dos órgãos soluçantes
Sobem nas catedrais os neblinantes
Incensos vagos, que recordam hinos…
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ou Ângelus,

É nas horas dos Ângelus, nas horas
Do claro-escuro emocional aéreo,
Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras
Ondulações e brumas do Mistério.
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e  Sinfonias do Ocaso,

Ah! por estes sinfônicos ocasos
A terra exala aromas de áureos vasos,
Incensos de turíbulos divinos.

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    A capacidade de envolver o ouvinte, o leitor, faz a poesia simbolista, e principalmente a de Alphonsus de Guimaraens, ser marcante e memorável, agora que relemos suas antologia (lida há mais de vinte anos!) uma experiência de redescoberta de um mundo de sugestões, símbolos, evocações, cenas oníricas, terrores, espiritualidade, misticismo, associações, correspondências, e musicalidade, aquela mesma melopeia tão cara ao mestre Paul Verlaine, “Antes de qualquer coisa, música”.

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março/ maio/21
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por Leonardo de Magalhaens
escritor, crítico literário,
bacharel em Letras / FALE / UFMG



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Referências

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ANJOS, Augusto dos. Eu / Outra Poesia. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira.
Org. notas de Francisco Ricieri. São Paulo: Companhia Editora Nacional:
Lazuli, 2007.
BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. Trad. Ivan Junqueira.
Rio de Janeiro: Saraiva, 2012.
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo.
Rio de Janeiro: Brasiliense, 1994.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo:
Companhia das Letras, 1986.
SOUSA, Cruz e. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Record, 1998.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Reflexões Urbanas. poema de Teru Tamaki






TERU TAMAKI



REFLEXÕES URBANAS


9h. Sexta-feira. Verão. Encontro Marcado.
Cruzamento desmarcado do tormento grande da cidade grande.
Semáforo. Passarelas.
Poucas vielas, sem ruelas. Zebras e Apitos.
Gritos. Grilos. Corridas. Idas. Buzinas.
Hipertensões. Chega. Fica na fila. Espera.
Toma elevador. Sobe. Sala de Espera. Uma secretária.
Que parada! Enganada? Informações.
Espera. Cafezinho. Veja. Visão. IstoÉ. 10h15.
Bonitinha. Chama. Entra. Mesa de reuniões.
Papeis, pastas, plantas, contas. Controvérsias.
Desconversas. Acordos e riscos. Carimbos e cafezinhos. Os
            cigarros e a fumaça. 12h20. Sai.
Espera. Desce. Anda. Corre. Para. Espera.
E empurrado. Trombeteia. Atravessa. Espera.
Vira. Chega.
12h55. Mesa de restaurante. Espera. Chega.
Molho bem salgado. Chope de colarinho.
Carne mal passada. Preço
            bem passado. - Corta.
14h10. No outro prédio. Sobe. Para. Entra.
Pergunta. Tira o paletó. Acende o cigarro.
Telefonemas. Informações. Deformações.
Providências. Evidências. Decisões. Indecisões.
Senões. Obrigações. Fone. 'Sua' secretária.
Está bonita. Fornecedores. Especuladores.
Cafezinho. Formalidades. Informalidades. 'Que cidade!
                                 Oh boy!'
Horas passadas. Assadas.
A secretária se retocando. Fim de expediente.
Um belo relógio. 19h00.
Nova corrida. grevistas na rua. Grevistando.
Avisando. Reivindicando. Esposa no cabeleireiro.
Um casamento do filho do Severino.
Sujeito fino. Bom companheiro. Três vezes assaltado,
                         infelizmente.
Buzinas tocando.
Povo dançando - corta.
22h30. VT. Seriado. Colorido. O crime não compensa
               - corta.
23h50. Hora de descansar. Filosofar. Amanhã é sábado.
Tempo
        bom. Nublado. Sujeito a chuvas e trovoadas. Índice de
               poluição 947.3
Temperatura de sempre. - corta.
9h37. Sábado!!!
- Santos Guerreiros!
- Aonde vou? Estou?
- Corta.
9h39
- Bem... qualquer dia vou visitar o neto do Severino...
no próximo verão...
- Corta.



in: A Cidade. [2009] Ana Fani. A. Carlos