quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Mergulhando nas águas afetivas da infância

 


 

 

 

Sobre ÁGUA PRETA (1991; 2016; 2021)

obra poética de Almir Zarfeg (1966-)



Mergulhando nas águas afetivas da infância



Muitos versos sem mim não poderão existir.


[…]

É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas

Sou poeta irrevogavelmente.


            [Murilo Mendes, in Os Quatro Elementos, 1935]





    Poesia é expressão. Poesia é testemunho. Permitam-me repetir. Qualquer outra adjetivação é isso, adjetivação. Poesia não é um tipo, um método, ou uma mensagem. Poesia não é o sentimento, ou um desabafo, do/a poeta. A elaboração artística do sentimento, ou do desabafo, pode sim ser Poesia. Muita coisa que chamam de Poesia não é Poesia. Aliás, nem sei o que seja Poesia. Sei o que NÃO é Poesia.


    O Poeta é levado, ou possuído, pelo fazer poético, a poiesis, e se deixa levar. Ele ou ela deve saber COMO elaborar, como veicular a expressão, como dar vazão ao sentimento, ou ao desabafo, sem ser isso apenas: sentimento ou desabafo. Suas lembranças, seus testemunhos, seus devaneios fazem parte de uma enorme colcha-de-retalhos, um puzzle, um mosaico de percepções que são peculiares à uma consciência individual. Ter estilo é isso: a marca, o selo, o carimbo do/a Poeta.


    Em ÁGUA PRETA, o ‘baianeiro’ Almir Zarfeg, nascido Gilmar, assim o faz. Sua dicção busca originalidade ao narrar suas lembranças de infância, na interiorana Itanhém, antiga Água Preta, no sul da Bahia, às margens do rio Água Preta. Publicado em 1991, assim sendo primeira obra do autor, e reeditada em efemérides marcantes, ÁGUA PRETA é uma amostra de work in progress (assim como o Selva Selvaggia, do poeta mineiro Ronaldo Werneck, como já abordei em 2011) [1] quando um autor reescreve e amplia a obra ao longo da carreira.



    Assim como Ronaldo Werneck canta e encanta sua terra Cataguases, no sudeste de Minas Gerais, o ‘baianeiro’ Almir Zarfeg canta e encanta sua terra Água Preta, ou Itanhém, lugar de plena ‘geografia sentimental’, como dizia Pedro Nava, [2] onde sua voz individual se revela também coletiva, como relato de época, como testemunho de infância. Assim, vários leitores e leitoras podem se encontrar, se identificando com a voz lírica.


    Seu material de trabalho, sua matéria-prima, é farto, é maleável, é basilar, pois basta ao Poeta adentrar-se, mergulhar nas camadas do passado, escavando cenas da criança nas ruas cheias de lama, jogando bolinha de gude,


Enquanto os pivetes adestravam suas bolinhas de

gude a rua apontava suas retas para lugar nenhum;

[…]

Por que a rua virava mar de lama fazenda montanha

lagoa sapos e pererecas?


                   A Rua [p. 46]



    O mundo da infância é ressignificado e elevado a uma maravilha. Sua terra é maravilhosa, com o verniz da lembrança e do ‘tempo perdido’. “A ponte do rio da Ferrugem / É uma das nossas sete maravilhas /…/ A ponte do rio que não cai / Só não resiste ao óxido do Tempo” [A Ponte do rio que não cai, p. 74] numa paródia com um famoso filme sobre a guerra [A ponte do Rio Kwai]. [3] A terra da infância é povoada com maravilhas, verdadeiras ‘sete maravilhas’, o rio, a cachoeira, a ponte, a ladeira, a paróquia, o estádio.


    Geografia sentimental igual àquela de Carlos Drummond de Andrade em Cidadezinha Qualquer, com os caricatos traços da vida cotidiana na província, Um homem vai devagar. Um burro vai devagar. Eta vida besta, meu Deus, é o que encontramos nos poemas Cidadezinha Triste [p. 28] e Cidadezinha Especial [p. 48], que retratam afetuosamente o espaço da infância, Era uma cidadezinha / Bucólica quase feliz…. Era uma cidadezinha / Impressionante e dançante [pp. 48-49]


    É um diálogo intertextual com Carlos Drummond, e também com João Cabral de melo Neto, com destaques para Catando pedras no caminho [p. 21], Itinerário de Água Preta [p. 66], Aguapretices [p. 99]




Existe arte mais digna do

Que catar, lapidar pedra?

Contudo alguns preferem

Defenestrar pecuaristas

Captar silvos de cobras

Domesticar marimbondos

Profetizar em via pública

[…]




Você se fez pedra, lenda viva

Ausência-lembrança-presença

O coração ainda pulsa, sabia?

A ponto de explodir vermelho

Inundando a várzea baianeira

O coração, que não é de pedra,

Se espraia no poema, encantado.

O que persiste no caminho -

A medrar entre ervas daninhas

E pedros - é vida, é rebeldia.


                [Catando pedras no caminho, pp. 22-23]




    Contudo, seu diálogo é mais que textual, pois é temporal, esforço de ‘viagem no tempo’, entre um eu-de-hoje e um eu-de-ontem, com o menino que existe dentro do homem, como ouvimos em Bola de meia, Bola de gude, de Milton Nascimento, “Há um menino, há um moleque / Morando sempre no meu coração” [4], ao reviver carinhosamente o mundo de outrora, com a perspectiva da infância,


Nessa rua passava boi boiada a despeito d’estarmos às

porteiras da modernidade;


Calçamento cimento progresso pregões e promessas

vãs que se perderam no tempo;


[…]


Todo menino é um rei eu também já fui rei pero nunca

vi rei nu na lua muito menos na rua;


[…]


Já estive no olho da rua e sei, meu senhor, do que se

trata, também sei que, como células de que são

constituídas as cidades, as ruas foram inventadas para

cumprir uma função social relevante, qual seja,

promover a vida do homem em sociedade, suscitando

nele o espírito gregário / solidário, o bem comum, de

maneira que um ajudasse o outro e todos se

ajudassem mutuamente, o que nem sempre é

verdade, […]



                   [A Rua, p. 46]




    Mais geografia sentimental e intertextualidade em seu Itinerário de Água Preta [pp. 66-68], longo, denso, original, entre poético e prosaico, com alternâncias entre as perspectivas individuais e coletivas, de acordo com as percepções do ser ‘pessoa’ e do ser ‘cidadão’, do ser ‘provinciano’, do ser ‘cosmopolita’, do ser ‘cotidiano’ e do ser ‘leitor’, com suas citações, referências e estrangeirismos, no que sobra até para um irônico Stanislaw Ponte Preta [5],


Água-pretense apreciava leite de vaca preta, amásia do boi

da cara preta, fã de Stanislaw Ponte preta, que

espalhou a lenda de que – incrível – se extrai leite de

pedra oca! [ p. 66]



sem poupar ironia com os que buscam oportunidade nos Estados Unidos, no mercado de trabalho da potência, muitas vezes entrando até ilegalmente, no que se submete à exploração, sem aculturamento, e capaz até de ser repatriado,


Água-pretense dá um duro nos States mas, nas horas

vagas, rima ‘so far away’ com ‘Meu rei’ nos bares da

vida. [p. 66]


Água-pretense voltou dos States mais monoglota

do que quando partira e, abestalhado, não se cansa de

repetir: vida longa aos bem-te-vis, morte súbita aos

bois! [p. 68]





    Buscar o menino dentro do homem, o moleque dentro do cidadão, ou buscar o coletivo, o produto da socialização, dentro do indivíduo, a pessoa, o que faz um água-pretense ser um água-pretense, ou itanheense, ou o que um nativo de Água Preta tem de singular, folclórico, seja em fala ou sotaque ou gíria, com seus ditos e provérbios, com suas cantigas, e ladainhas, e mais referências, no que sobra até para o pensador Pascal [6],



O que seria de pascal

sem o silêncio?

O que seria do silêncio

sem o ouro

os óculos

os pingos nos ii?


                 [Aguapretices, p.100]




Entre ipê e girassol, cultive o amarelo

Entre início e fim, invista no equilíbrio

Entre dia e noite, marque um encontro

Entre ser e estar: deixe star com leveza

Entre fusca e kombi – vá de carona

Entre amar e amarelar, não pense duas x

Entre ouro e prata: varal de poesias


                   [Aguapretices, p.103]



    Sua busca pelo individual, pelo peculiar, pela identidade de ser poeta e ser cidadão, ser ele-mesmo e água-pretense, revela-se um questionar existencial de auto-descoberta, ou de superação do auto-engano, a demonstrar a profundidade que pode – e poderá – alcançar o autor em outras obras,



Por que sair

De mim se a cada

Vão momento

Eu me descubro

Mais e mais?

Para que me

Ocultar nas tuas

Águas pretas se

Consigo me ver

Além de minha

Silhueta triste?


               [Existência, p. 20]



    A preocupação com a existência e a identidade abrange toda a obra ÁGUA PRETA, primeira de uma longa carreira, ao longo de três décadas, dedicada a encontrar um estilo e uma marca, sempre work in progress, nutrindo-se de si mesmo, das várias personas, ou máscaras, de si mesmo, seja criança, seja cidadão, seja itanheense, seja ‘baianeiro’, seja poeta, seja Almir Zarfeg, ser dividido entre idades e geografias,



Quantas vidas – me digam – alguém poderá viver

nesta vida?

Quantas vidas o artista – tão singular e plural – é capaz

de viver ao mesmo tempo?

Quantas personas – representadas – nos palcos da

existência?




                     [Políbios, p. 57]







fev/22



Leonardo de Magalhaens

poeta, escritor, crítico literário

Bacharel em Letras / FALE / UFMG










Notas



[1] Link para ensaio sobre Selva Selvaggia [1976; 2005] de Ronaldo Werneck

http://leoleituraescrita.blogspot.com/2011/08/sobre-selva-selvaggia-de-ronaldo.html



[2] Pedro Nava [MG, 1903 - RJ, 1984] é autor de obras de cunho memorialista, com destaque para Baú de Ossos [1972], Chão de Ferro [1976] e Beira-Mar [1978], com um retrato de geração, um testemunho da fase modernista em Belo Horizonte. Sua ‘geografia sentimental’ carregava o espaço com afeto,

ressignificando, ou revivendo, seu passado como uma elaboração estética.

Assim como descobrimos a Paris, ou o caminho de Guermantes, de Marcel Proust [França, 1871-1922], em sua magistral obra Em Busca do Tempo Perdido [1913-1927].


[3] O filme de 1957, A Ponte do Rio Kwai, do diretor britânico David Lean, tematiza a guerra nas selvas do sudeste asiático com tons cômicos.

https://www.imdb.com/title/tt0050212/



[4] Bola de meia, Bola de gude, canção de Milton Nascimento, em seu álbum Miltons, de 1988/89.


[5] Stanislaw Ponte Preta é o pseudônimo do jornalista e humorista Sérgio Porto [RJ, 1923-1968]


[6] Blaise Pascal [1623-1662] foi filósofo, teólogo e matemático francês, famoso por seu aforisma, “O silêncio eterno desses espaços infinitos me assusta”.







Referências



ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Record, 2009.


MENDES, Murilo. Poesia Completa e Prosa. Volume I. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1997.


ZARFEG, Almir. Água Preta. 5ª ed. São Paulo: Lura Editorial, 2021.



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

coleção FLORES DO CAOS 2022 Selo Starling BH

           Coleção   FLORES DO CAOS 

                        ......                      2022 Selo Starling BH




https://www.facebook.com/seloeditorialstarling2/


















segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Em busca da expressão autêntica do Eu

 

 


 

 

 

Sobre Ansiedades [2021] poemas de André Galvão



Em busca da expressão autêntica do Eu



Poesia é expressão. É uma voz de testemunho. Recursos são usados para a expressão poética. Recursos de som, repetição, paralelismos, oxímoros, grafismo – ainda mais depois do pós-estruturalismo. Mas alguns poetas operam pela sinceridade do sentimento expressando o mundo subjetivo, mais do que por recursos estilísticos.


Simplicidade e autenticidade são modos de expressão valorizados por poetas como Henriqueta Lisboa, Cora Coralina, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Mário Quintana, e mais próximos, espacial e temporalmente, Adélia Prado, Rogério Salgado, Bilah Bernardes, Olga Valeska, Regina Mello. Poetas que expressam a sinceridade da voz lírica como forma de cativar e emocionar o/a leitor/a.


Mas onde ficou o ‘poeta é um fingidor’ de Fernando Pessoa? Um poeta não é um artífice da Palavra? Onde fica o ‘o que pensas e sentes, isso ainda não é poesia’ do Drummond? Acontece que no pacto da sinceridade ou da autenticidade há um Eu lírico que não é fingidor, antes quer declarar e confessar.


Aqui nos prenderemos aos eixos temáticos mais do que formalismos e experimentalismos. Os temas são a ansiedade, o ‘mal-estar na civilização’, a saudade, o remorso, a inconstância do Eu, a tristeza. Sentir-se deslocado, oprimido, reprimido, manipulado, vítima de uma conspiração. Sintomas de um mal moderno que afeta jovens e idosos, conservadores e progressistas, reacionários e democratas, gregos e troianos.


O poeta André Galvão, em seu Ansiedades, sabe sobre o que escreve – ainda que não domine – quem domina nossa condição humana? - na consciência de sua transitoriedade e de sua linguagem inexata e efêmera.


A procura do próprio Eu – ou Identidade – é o grande desafio – em busca do Eu perdido,


Perdi as contas

de quantas vezes

tentei me encontrar

e não consegui

(Álgebra não-linear, p. 14)



Esse ainda sou eu


Mesmo estranho neste

embrutecido mundo

sem espelhos,

mas repleto de muros


[…]


Esse ainda sou eu.

E eu ainda

não desisti.


(Esse ainda sou eu, p. 24-25)



O Eu lírico olha para si mesmo, se contempla e se questiona, quem ele É? E faz de pronto um autorretrato, um “Autorretrato bordado à mão” (p. 19), onde se vê como “um deslocado”, ou “um derrotado”, ou “um deslumbrado”, tal qual um “gauche na vida”, como dizia o poeta Drummond, com um profundo sentimento de não-pertença, de não sou deste mundo. (Questões que nos povoam! De que mundo somos? De que planeta ou mundo astral você veio?)


Ao ponto de o poeta querer ser Outro – fugir de sua auto-imagem de ‘gauche na vida’ - mudar sua condição, como revela o poema Desaviso (pp. 17-18), “Eu só não queria ser assim / Queria ser diferente, / Blindado, / Escoltado”, e continua, “Queria ser diferente, / Impassível, / Incrédulo”, e insiste, “Queria ser diferente, / Fechado, / Indevassável”. Como o Eu poderia se tornar um Outro? Como poderia aceitar tal mudança?


A mudança do Eu só é percebida pela memória. Pois se as lembranças de ontem não são acessadas como dizer que aquele Eu de vinte anos atrás é ainda o mesmo Eu? Nem o corpo é igual? E quem é o Eu? O Eu de agora? O Eu de ontem? A memória de agora do ser de outrora? São as questões muito debatidas pelo existencialismo de Jean-Paul Sartre e de Albert Camus.


Mas o eu não seria justamente em Devir – como dizia o pré-socrático grego Heráclito e o iconoclasta alemão Nietzsche – até ao ponto de um Eterno Retorno. E tal constância da mudança angustia o eu consciente. Será que ALGO ou ALGUÉM – Quem? - se perde?


Não sei bem

quando foi

que me perdi de mim.


(Não é mais uma sigla, p. 28)


A angústia advém da perda possível da Identidade? Mas o que vem a ser IDENTIDADE? Não seria uma narrativa que contamos a nós mesmos? Ou que eles, os outros, contam sobre nós? Temos controle sobre as nossas mudanças á deriva das circunstâncias?


Estou cansado de ser títere

De ideias e tensões absurdas

Enquanto a vida, fluida,

Derrama-se por entre as mãos


(Caminho trôpego, p. 37)


A Linguagem é o que temos para expressar o que SOMOS e SENTIMOS – mas o Eu lírico sabe que suas ferramentas são imprecisas, mas é esperançoso,


Ainda vou encontrar as palavras

perdidas entre luzes e sombras

e talvez eu condiga saber o que digo.


(Sombras, p. 53)


Mas quem sou eu

para designar o que sinto

se nesse retrato torto

a imagem que sobressai

É a face abstrata da imprecisão?


(Retrato Torto, p. 48)


É um pouco perturbador questionar a linguagem numa época de muita metalinguagem, onde todos ressaltam, colocam em evidência, o uso e os abusos da linguagem, quando poemas inteiros falam sobre… fazer poemas! Mas o que leva o poeta a continuar em sua busca? Mesmo com imprecisão? Sua necessidade de desabafar: “Antes de desabar, / Preciso desabafar.” (Limite, p. 30)


Sendo a linguagem imperfeita e ineficiente o Poeta se debate com a Escrita, com os poemas que não se concluem, são abortados, ou ‘lançados ao vento’, que são perdidos, e confessa que “aborreço-me com os poemas perdidos / que nunca foram escritos” (Sombras, p. 52) sempre insatisfeito com “tantas palavras e ideias soltas”. Conceitos, definições, racionalizações que limitam a expressão. Queremos dizer algo e acabamos expressando o oposto.


É preciso fazer escolhas – palavras, emoções, afetos – e até esta escolha gera angústia – um verdadeiro ‘condenados à liberdade’, como dizia Sartre – pois não sabemos o que resultará de nossas escolhas, e se realmente temos alguma escolha (seja intuitiva ou racional). É uma “angústia de ter tantos medos a escolher” (p. 45) que só se agrava com a “persistência do medo”, que “ressignifica tudo” e que “nunca desiste” (pp. 38-39).

Ansiedade, medo, tristeza, sofrimento – tantos sentimentos negativos! - o padecimento do Eu vem do desejo de não sofrer,


Parece sonho ou pesadelo

e é apenas uma ideia

esse motor maligno

que empurra potente esse sofrer

mundo louco afora.


(Apenas uma ideia, p. 35)


A única solução é o Eu desistir de si-mesmo, do apego ao Eu, com a mensagem de Sidarta Gautama, o Buda, o Iluminado, que pregava que “a dor vem do desejo de não sentir dor” e que para se livrar de um círculo vicioso de sofrimento o único modo é o Caminho do Meio, de sobriedade e de desapego, de meditação e de iluminação – superar as ilusões com a consciência de que são ilusões.


A passagem do Tempo – a impermanência – oprime e gera mais ansiedade. O tempo é visto como ‘maldito’ (em Tempo Maldito, p. 45-46), e o Eu sendo mais um refém das ‘filhas de Cronos’ - Cronos a personificação do Tempo entre os gregos clássicos - “Eu, que desafiava o medo, / hoje sou seu refém.” (p. 58). Tempo que é assim terrível – não só metaforicamente – mas evidenciado numa época de pandemia agravada por um desgoverno, no pesadelo de um genocídio,


Vai embora, pandemia,

carrega contigo essa apneia

que sufoca nosso ar e nossa fé (pp. 45-16)



Mas o Poeta vê uma luz no fim do túnel, tem esperança, apesar de tudo, “Vou escancarar as janelas / para arejar a angústia / de ter tantos medos a escolher” (p. 45) pois seu objetivo é “repor a luz em nosso caminho” (p. 46), é necessário seguir adiante, sem se perder nos labirintos da escuridão (metáfora para depressão, quadro clínico mesmo).


Contemplando a luz da consciência desperta e assumindo a responsabilidade sem má-fé, na beleza de um poema simples como um floco de neve, o poeta André Galvão poderia fechar sua obra Ansiedades com uma autêntica Resolução, “Cansei / De tentar / Explicar / Pra mim mesmo / Que eu / Sou / O motivo / Daquilo / Que me faz / Esquecer / O que é / Viver / Em paz.” (p. 56)



jan/22


Leonardo de Magalhaens


poeta, crítico literário

bacharel em Letras FALE / UFMG





Sobre o autor


André Galvão é Doutor em Ciências da Educação [Universidade do Minho]. Autor dos livros de poemas A Travessia das Eras [Ed. Penalux, 2018]

e Depois do Sonho [Ed. Penalux, 2020] e do livro O Coronelismo na

Literatura Espaços de Poder [Ed. da UFRB, 2018].


Coautor do livro Redescobrir-se: poesias de fim de século [Selo Editotrial

Letras da Bahia, 1998]. Membro da Associação Nacional de Escritores,

da Academia independente de Letras e da Academia Internacional de Literatura Brasileira.







Referências



ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2005.


FREUD, Sigmund. Mal-Estar na Civilização. Penguin, 2015.


GALVÃO, André. Ansiedades. Belo Horizonte: Selo Starling, 2021.


NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


PESSOA, Fernando. Poesias. Porto Alegre: L&PM, 1997.


SARTRE, Jean-Paul. O Ser o Nada. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2015.






Links da internet


Budismo. In Wikipedia. (Acesso em 24.01.2022)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Budismo



segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Religiões: invasões aliens, vírus lunático ou outras conspirações? Parte 2


 





Sobre a obra ficcional-filosófica de Yendis Asor Said,
poeta, pensador e profeta de Contagem / Esmeraldas / MG,
alter-ego e heterônimo do autor Sidney Rosa Dias [1977-]


    Religiões: invasões aliens, vírus lunático ou outras conspirações?

    [Parte 2]




    A Verdadeira História de Contagem


    O Livro abre com uma imagem idílica, de uma comunidade sem diferenças, sem desigualdades sociais, como um comunismo primitivo, em uma cidade antes das elites e castas, econômicas e religiosas.

      “Naquela época, naquela cidade, não havia corrupção. Todos se juntavam nas praças para comemorar, todos eram iguais, mesmo sendo diferentes. Não havia ganância, cobiça, não como existe hoje. Aquele povo vivia a simplicidade de uma vida moderna e pacata, uma cidade do interior evoluída, assim era aquela cidade. Uma cidade bela, rica e próspera, que mudou da água para o vinagre com a chegada daquele ser.” [2018, p. 17]


    A situação só piorou quando apareceu os servos da Igrejas, a casta religiosa, com seus párocos, obreiros, apóstolos, freis, diáconos, sacristões, freiras, em suma, toda uma gente que nada produz, mas vivia de explorar a crença alheia, ou instituir nova crença que seria apenas um instrumento de dominação. “Assim ele, o bispo, foi implantando a ideia de religião naquele povo que estava em paz. Junto, vieram todas as perturbações da alma, o inferno, a posse, a dor, os flagelos, a riqueza, o poder e a corrupção. Tudo estava ligado naquele ser que se dizia libertador.” [2018, p. 19]


    A presença dos líderes religiosos, com suas pregações contra o Pecado em favor da Castidade, e da Humildade, ao distribuir uma Culpa na comunidade, com as segmentações entre adeptos, os batizados, e os outros, os infiéis, ou bons e maus, numa verdadeira ‘genealogia da moral’, como diria Nietzsche, a se perguntar a quem interessa rotular alguns como bons e outros como maus? Quem julga os bons e os maus? Quem tem este poder de valorizar e julgar?

    No meio da ‘evangelização’, dos batismos, surge a dúvida e a dissidência, a figura de Yendis, que ouve uma voz, da Alma, e passa a questionar e a duvidar de toda aquela dominação religiosa. Logo, Yendis, junto com seu filho, se vê em apuros, pois uma religião institucionalizada não tolera os ‘hereges’, aqueles que ousam discordar dos dogmas. Começa o pesadelo para o herético Yendis,

     “Realmente não havia acabado. Yendis nem imaginava tudo o que iria ocorrer. Contagem nunca mais seria como antes, nunca mais haveria aquela paz. O povo nunca mais seria íntimo da natureza, não seriam unidos de verdade, nunca mais, e tudo por causa do pastor bispo, o obreiro da igreja da Contagem.” [2018, p. 34]


    O herético, e seu filho, são perseguidos, por adeptos do culto, indignados com os infiéis, e até por monstruosas aranhas, uma cena meio dantesca, tudo em nome da ‘justiça de deus’, sem qualquer piedade, quando adeptos, fanáticos, beatos se unem e conspiram para o ‘justiçamento’ dos apóstatas. Enquanto isso, Yendis percebe que o mal realmente chegou a pacata cidade de Contagem.

    Fanáticos, aranhas, agora um eclipse assustador.  Uma escuridão dantesca, apocalíptica, byroniana, gótica, com ‘gritos horrendos de morte’ é uma cena trágica mesmo – meio ao tom irônico / contraditório com os ‘bondosos’ fiéis defendendo a punição do fugitivo em ‘nome de deus’.  A cena seguinte, onde o Apóstolo, com suas ovelhas adeptas, suplica uma ‘intervenção divina’ contra o herético, exibe sem véus as contradições e as crueldades da seita religiosa.


    O líder religioso sempre precisa de mais adeptos, de ovelhas, prontas para testemunharem e catequizarem novas ovelhas, numa expansão constante, como sabemos ter acontecido com as religiões, as grandes, ao longos do tempo e nas civilizações. A expansão do hinduísmo, do budismo, do cristianismo, do islamismo, mostram como as conquistas ocorrem nos campos da cultura e nos campos de batalhas.


    Pregando a libertação, o sacerdote, ou apóstolo, interfere na comunidade de nativos, de indígenas, de quilombolas, em nome de uma Divindade, o Altíssimo, e contra as obras maléficas de um Demônio, um Destruidor. Se os nativos não se converterem serão abandonados às garras do Grande Mal. Para serem salvos os adeptos precisam aceitar os dogmas e os rituais e implorarem pela salvação, prometida pelo Apóstolo.


    O poder clerical se estende sobre todas as áreas da sociedade, e fanáticos criam mais adeptos e perseguem os dissidentes, ou adeptos de outras crenças. É um círculo dantesco de contaminação doutrinária e caça às bruxas. E Yendis é perseguido por grupos fanatizados e apoiados por outros grupos que resistem à doutrinação do tal Apóstolo.


    O dissidente Yendis até tentou enfrentar o Apóstolo com ajuda de outros resistentes, um verdadeiro duelo, mas percebe ser inútil. Fatos sobrenaturais, fantásticos, surreais,  se sucedem, até mortos saem dos túmulos, como uns zumbis de filme de terror, e tudo se mistura na loucura, mortos e vivos, zumbis e fanáticos. ‘Que os mortos enterrem seus mortos’, diz um verso bíblico.  E Yendis desiste de ficar desafiando ou fugindo do líder religioso.


    Yendis tem um último encontro com o famigerado Apóstolo, mas não há duelo desta vez. O dissidente, o rotulado como herético, não resiste mais, deixa-se aprisionar. E ser executado. Morto em sacrifício em nome de Deus. Os fanáticos venceram. Espere um momento. Tal sacrifício não foi em vão. “A morte de Yendis trouxe claridade àquelas visões esclarecidas.” [2018, p. 94]


 

    Como um ato final, Yendis se sacrifica como um Messias, a deixar-se ser crucificado. Yendis prefere o automartírio do que fugir mais uma vez. É assim um Sócrates, o filósofo, que aceita sua morte como um mártir da Verdade. Yendis morre como um herói. Os fanáticos despertam do transe e voltam para suas vidas. Claro que nunca mais serão como já foram, nunca mais o povo de antes da alucinação religiosa. Mas, por enquanto, a cidade está liberta do drama.





    O Vírus da Religião


    Em época de viroses, epidemias, pandemias, crises sanitárias, caos na saúde pública, Yendis, o poeta & profeta, vem adicionar mais uma conspiração para explicar o surgimento das religiões: e se tudo for culpa de um vírus lunático? A religião pode ser uma virose psicodélica que fugiu ao controle…


    Se em A Invasão [2011] a causa das religiões eram agentes infiltrados de uma conspiração alien, aqui em O Vírus a causa é outra – mais biológica, uma doença nervosa, uma histeria coletiva – num quadro dramático de caos que vemos em A Peste [1947] , do franco-argelino Albert Camus e em Ensaio sobre a Cegueira [1995] do português José Saramago. O ser humano confrontado por forças e fenômenos para os quais não tem resposta nem resistência.


    Aqui Yendis encontra um jovem nas ruas, andando pela cidade e, em seguida, inicia um profundo diálogo, ao estilo platônico, tal como Sócrates conversava com seus convivas, sobre as origens das religiões na sociedade desde os tempos imemoriais. Percebemos que Yendis é uma voz de dissidência e de razão num mundo que tende ao reacionarismo e fundamentalismo. O que ele vem comunicar? Basicamente: Como surgiram as religiões? A quem servem os líderes religiosos? Como os poderosos utilizam os religiosos para manipularem os povos?


    Como era o mundo antes, lá na antiguidade mais remota, numa cidade utópica chamada Abrobaticity, sem desigualdade social, sem preconceitos, onde não havia religião, nem líderes religiosos, nem casta de sacerdotes, e o povo cuidava da própria vida, sem templos e sem seitas. “O ser não vivia debaixo de lei, ele era sua própria lei.” (2021, p. 23)


    Foi a disseminação de um estranho vírus que acabou por gerar as religiões num processo de epidemia e de fanatismo, quando pessoas infectadas começaram a ouvir vozes, a ver sinais no céu e na terra, tomando as ilusões e miragens como fatos autênticos, como mensagens das divindades, e começaram a profetizar pelas ruas, sobre as mensagens divinas e conseguiram seguidores que fanatizaram mais pessoas, num crescendo.


esta doença fazia que o infectado sofresse de alucinações, que ouvisse vozes, que idolatrassem qualquer lixo de coisa existente ou não, que achassem que tinham poderes supraterrenos, e que possuíam alguma missão, e entre estes infectados haviam pessoas influentes que começaram a destilar o ódio sobre o seu próprio povo criando leis ilógicas, criando milícias para reprimir o povo, [...]” [2021, p. 31]



    Enquanto isso, os cientistas começaram a pesquisar o vírus e elaboraram uma cura, mas aconteceu que vários já estavam infectados e disseminando a virose e as alucinações como se fossem visões proféticas, criando cultos e rituais, se ajoelhando diante de ídolos em crenças que então congregavam vários infectados e mais devotos, de modo que os cientistas, responsáveis pela cura, passaram a ser perseguidos e eliminados!  A Ciência passou a ser desacreditada pelos fanáticos, os de mentes fracas ou arrogantes, que julgavam em acesso direto com a[s] divindade[s].


“A cura havia sido descoberta e levada a todos os povos, a todos os líderes da terra, mas o vírus havia já se espalhado, o caos já reinava, todos os líderes daquelas sociedades eram pessoas comuns que não entendiam coisas como riquezas, pois todos tinham de tudo, esses líderes eram pessoas que viviam para o bem do próximo, essas pessoas naquela pandemia, tiveram muito poder em suas mãos e gostaram do que sentiram, esses líderes se aliaram aos doentes e criaram templos de adoração. Estes líderes se aliaram aos seguidores religiosos para manter o poder, aliaram-se a todos os que subiram no púlpito, aos que subiram no altar, se aliaram a estes e puseram a caçar todos os cientistas da terra e os mandaram para a fogueira como pessoas hereges, como pessoas que eram contra os seus deuses, o seu deus, […] Havia a cura, mas não era de interesse dos agora poderosos esta cura para a terra, não!! [2021, p. 44]



    Aqui podemos nos lembrar do julgamento do filósofo Sócrates em Atenas, por supostamente afastar as novas gerações dos cultos das divindades, apenas por questionar os dogmas e os sensos-comuns da sociedade grega. Podemos nos lembrar de Sidarta Gautama, o Buda, sendo perseguido em sua própria terra pela casta de sacerdotes brâmanes. Podemos nos lembrar de Jesus, o Cristo, perseguido pelos líderes religiosos, os fariseus e os saduceus, que queriam manter a todo custo o domínio dos ritos judaicos.


    E podemos nos lembrar de vários que ousaram criticar os estamentos religiosos. Lembramos de Hipácia de Alexandria, matemática e filósofa neoplatônica, atacada e linchada por fanáticos cristãos. Lembramos de Joana D’Arc, queimada como bruxa, traída pelos compatriotas. Lembramos de Giordano Bruno queimado pela Igreja quando defendia suas ideias que não confirmavam os dogmas. Lembramos de Galileu Galilei, cientista e engenheiro, que foi silenciado pela Igreja ao defender o heliocentrismo contra o geocentrismo das castas sacerdotais. E muitos outros mártires da filosofia, da ciência, do conhecimento, que foram torturados e executados em nome de uma aclamada Fé, Crença, Sagrado, mero dogma de domínio político-secular.


    É a mesma crítica do visionário William Blake, que questionava as religiões instituídas, que empregavam os dogmas para controlarem os adeptos e silenciarem os dissidentes, logo rotulado como heréticos. Mais radical que Blake foi Nietzsche, que negou a própria validade das religiões desde a genealogia da moral. Pois se Blake ainda proclamava sua própria ideia de religião, sua religiosidade pessoal, o anticristo Nietzsche denunciava a religiosidade como uma corrosiva decadência.  


    Em seu Vírus da Religião, o pensador & poeta Yendis mostra que o poder corrompe e de modo total. Líderes políticos se aliam aos líderes religiosos apenas para manterem o status quo, sendo a religião mais um modo de manter a ‘ordem social’, com um povo passivo por dogmas e esperançoso por recompensas em Outro Mundo. Infectados e não-infectados são tomados pela mesma insanidade e alucinação,


     “pela loucura que era sintoma do vírus, transpunham esta loucura a outros e o vírus também se espalhara, mas mesmo naqueles em que o vírus não se manifestava, pessoas que eram imunes ao vírus, algumas destas pessoas foram suscetíveis aos infectados e também começaram a seguir os religiosos, como assim se definiam, ou somente adoradores, acho que por medo, não me lembro bem, muitos tiveram que fugir, pois estes religiosos infectados pelo vírus da religião se tornaram pessoas más a querer matar, destruir, lançar ao fogo todos aqueles que não eram a favor de seus deuses, de seus pensamentos, e assim a sociedade que vivia em paz se tornou louca e desprezível quando o vírus se espalhou sobre a terra.” [2021, p. 47]




    Os sintomas só se agravam, os infectados transmitem vírus e alucinações, em quadros cada vez mais bizarros,


em Abrobaticity todos os contaminados eram cegos a inventar a luz, a ver figuras no céu, a ficar ajoelhado perante barro ou madeira a adorar deuses, acreditavam que poderiam mover montanhas, acreditavam que poderiam apagar o sol e a lua, estas pessoas contaminadas estavam cegas e juravam que poderiam levar outros, eram cegos guiando cegos, sim!” [2021, p. 50]



    Inútil foi o trabalho, e o esforço, a dedicação dos heróis, os cientistas, para explicar a doença, esclarecer os sintomas, aplicar a cura – a religião se espalhou, entre infectados e não-infectados com a mesma frequência e bizarrice, mais e mais fiéis e fanatizados crendo em aberrações atmosféricas e ressurreições de mortos, e profetas que clamam no deserto e ‘cegos que guiam cegos’, sem aceitarem qualquer pensamento lógico, filosófico, não-dogmático. “Pois a ciência já estava sendo vista como algo contra os deuses criados pelas mentes adoecidas, contra todo tipo de madeira, pedra, montanha, papiros ou qualquer outro artifício adorado pelos fanáticos.” [2021, p. 54]  


    Uma coisa que sempre me impressiona muito é a idolatria. A mesma que desagradava profundamente a um Lord Verulâmio, Francis Bacon, na Inglaterra dos séculos 16 / 17, que denunciava os tantos ídolos que nos cercam e nos cegam. Precisamos estar atentos aos ídolos da tribo, os ídolos da caverna, os ídolos do mercado, os ídolos do teatro, todos eles erros que cometemos em nossas percepções e julgamentos, nas disciplinas de filosofia, e nas ciências, e no mundo da religião. É realmente bizarro ver como pessoas erguem ‘bezerros de ouro’ que elas mesmo construíram e se prostrarem em adoração! [E bizarro como muitos se vangloriam como se fossem ‘donos de deus’, com um acesso privilegiado à divindade.]


    E, em suas batalhas de suas ‘guerras santas’, os loucos conseguiram suas vitórias na propagação da fé, ou alucinação virótica. Cada grupo com sua divindade, e a disseminar mentiras, e conspirando contra a divindade de outro grupo, e ‘morrendo em nome da fé’, loucos adoradores de imagens e ídolos, e que ouviam vozes, e que viam sinais no céu, num quadro de loucura total que lembra aquelas pinturas de Hieronymus Bosch [século 16, Países Baixos], com visões, alucinações, miragens, numa pluralidade de sombras e penumbras, como delírios do inconsciente.  


Estas pessoas doentes se levantam contra aqueles que possuem a verdade, a ciência, a justiça… Estas pessoas, elas mesmas criaram sua própria verdade, suas leis, sua justiça, criaram um mundo paralelo onde quem manda neles é algo que nunca viram, e os que juram ter visto acabam virando mártires destes próprios adoradores, que ironia, não?” [2021. p. 80]



    Aos poderosos não interessava a cura da pandemia, pois um povo adoecido é melhor dominado, e um povo ignorante é melhor enganado pelas doutrinas. “O gado religioso era dócil, manso, e assim deveria ser, em todas as escrituras religiosas que surgiram diziam que Deus se agradava de ver o seu rebanho manso como cordeiro” [2021, p. 77] E, no entanto, os religiosos insistiam que a religião era boa, humanitária, fazia caridade, abrigava os necessitados. Yendis desmente tal propaganda de religiosos, pois a religião não é a cura, mas a doença,

A religião criou os necessitados e pobres para poder apoiar o seu poder, não existe criador sem criado, não existe líder sem súditos, não existe rico sem o pobre e nem abastados sem os miseráveis, foi isto que a religião criou, ela criou a separação entre os seus, entre o seu povo.” [2021, p. 73]



    Quando os religiosos morrem, pela infecção virótica, ou pelos suplícios, e jejum, em nome da fé, são estes considerados verdadeiros mártires da religião, e novas narrativas – lendas, sagas, mitos, mitologia etc -  são criadas para alastrar mais crenças, como se o sacrifício dos crentes fosse a prova da crença! Aquele que, crendo, poderia andar sobre as águas e, se afoga, é um mártir da fé! E a sandice se propaga e reforça o quadro da pandemia. Em promessas de ser salvo da morte ou, quando morto, ser agraciado com a vida eterna.


Quando morriam um líder deles que pregavam seus deuses estes consumiam o seu corpo e espalhavam a notícia de que Deus ou deuses o haviam arrebatado, que este não morreu e sim foi levado aos céus que era onde moravam os deuses e lá teria a paz eterna e vida eterna, assim prometiam a todos que os seguiam, uma felicidade de pois da morte.” [2021, p. 85]



    A mitologia leva a crença até aos não-infectados que seguem os alucinados infectados na propagação da Fé numa crescente demência que leva o mundo paradisíaco de antes a um lugar de permanente sofrimento, tristeza, pecado e penitência. Não havia qualquer ‘lugar prometido’, nenhum paraíso, mas “este lugar prometido era uma loucura, era uma alucinação causada pelo vírus, este lugar não existia, mas para aquelas pessoas doentes sim, acreditavam fielmente que existia tal lugar e estas pessoas matavam em nome do vírus da religião.” [2021, p. 87]


    Eis a tragédia: as pessoas se feriam, se matavam, guerreavam, matavam umas as outras, em nome de uma crença, de uma loucura, em busca da Salvação e da Vida Eterna. São lutas teológicas, heresias contra ortodoxia, em perseguições, nada de caridade, ao contrário, mais intrigas pessoais e coletivas, em excomunhões, inquisições, condenações e execuções. E ainda vem o religioso falar em caridade e tolerância?


    É fato. Livros, Códices, pergaminhos, obras de Arte foram vandalizadas e destruídas apenas porque não se encaixavam no mundo de crença, não seguiam a ortodoxia no poder. Assim os ataques aos pensadores, filósofos, acadêmicos, matemáticos, que se seguiram por séculos, durante a oficialização da religião cristã, durante a expansão da religão islâmica – até culminar na dpominânica religiosa, e as sangrentas Cruzadas, durante o tenebrosa Idade Média.  


    Judeus expulsaram cristãos, e cristãos expulsaram judeus, e cristãos expulsaram pagãos, e muçulmanos expulsaram cristãos e pagãos, e centros de conhecimento, como a Biblioteca de Alexandria, no litoral norte do Egito, foram saqueados e queimados ao longo das guerras civis e religiosas. As culturas de outra religião eram desprezadas e eliminadas. Só tinham validade os ‘livros santos’ de cada Fé. O que os padres diziam sobre o conhecimento antigo, pré-cristão, a sabedoria helênica e oriental ? Não sendo bíblico o saber então seria pernicioso. “A Bíblia tem tudo e não se atreva a procurar em outro lugar.” [2010, p.184]


    A mesma atitude têm os islâmicos com o Alcorão, ou Corão, que limita a vida religiosa e social no mundo maometano. E qualquer ponto fora do Livro Sagrado revelado é logo rotulado de ‘heresia’ e o herege merecedor da morte. Assim quando tropas islâmicas conquistaram a cidade de Alexandreia, no século VII, o califa não protegeu o conhecimento armazenado na Biblioteca, mas se pronunciou, com desdém, “Se o que está escrito nos livros concorda com o Livro de Deus [Corão], eles não são necessários; se discorda, não são desejáveis. Portanto, destrua-os.” [2010, p. 192]


E também foi naquele tempo que começaram a fazer literaturas inspirada pelo vírus, os doentes que possuíam adoração a escrita, estes doentes, eles começaram a escrever os relatos dos doentes sobre todas as coisas que estes diziam ver e fazer, assim em pouco tempo haviam milhares de livros religiosos no mundo e todos tinham o seu livro e cada um a sua religião.” [2021, p. 81]

Tais histórias eram inventadas para fazer daqueles que não possuíam o vírus acreditar no invisível e para acalentar aquelas almas desprovidas de inteligência, aquelas as quais o vírus já tinha infectado, comendo todo seu intelecto, e realmente acreditar nestes seres invisíveis que os mandavam fazer coisas uns contra os outros.” [2021, p. 84]


    É tudo o que Yendis tem a revelar ao jovem Pedro, que tudo ouvia estarrecido e perplexo, que antes de desafiar o domínio religioso precisaria vencer uma ‘luta interna’. O jovem precisa aprender a ‘viver plenamente’, sem recorrer às ilusões e crenças num Mundo Além. O conselho e a exortação final de Yendis, o atemporal, é que o jovem Pedro seja firma como uma pedra e fortaleça sua ‘energia interior’, uma ‘energia vital’,


Essa força, essa energia interior que nossa sociedade chamava de energia da vida, que é dada a todos os que vivem, tudo desde plantas aos seres humanos, […] Essa energia vital esta dentro de cada ser que vive, ela fornece todas as faculdades mentais que uma pessoa pode ter, ela naquela época era medida assim que a criança nascia, […]” [2021, pp. 82-83]  


    É preciso aceitar e despertar esta força interna para resistir mentalmente às alucinações da vida religiosa, com seus medos e ameaças, com seus delírios coletivos de Pecado e Penitência e Salvação. É preciso combater as falácias religiosas e os poderes que se constituíram sobre os templos, igrejas, sinagogas e mesquitas. É preciso resistir aos tantos fiéis, obreiros, adeptos, clérigos, diáconos, apóstolos, freiras, monges, discípulos, padres, pastores.


Devemos combater o que causou o fim da terra, o vírus da religião, o maior mal já acometido pelo ser humano, a maior desgraça espalhada pela terra há milênios, isto que deemos combater e não os sintomas da doença, vivemos brigando contra os galhos de uma árvores que está podre sem saber que devemos é extirpá-la.” [2021, p. 93]



    Diante da grande ameaça religiosa, as palavras de Yendis são de esperança, já que agora ele não se sacrifica, como fez no livro anterior, diante da figura do Apóstolo, em uma Contagem já corrompida. Agora é diferente. Qual será nosso inapelável Fim? Terá mais tons apocalípticos? Está selado e predeterminado, sem solução?


     “O nosso fim é saber que dentro de nós existem milhares de deuses criados por nós e que como nossos demônios nós temos que ter a consciência que são apenas reflexo de nossa identidade, para o bem ou para o mau e que não existem.
[…]
     O nosso fim é ver revelado as verdades que no íntimo já sabíamos.” [2021, p. 97]







    Conclusão


    É com muita leitura e ironia que Yendis Asor Said, poeta e profeta, apresenta sua Obra, poética, dramática, iconoclasta, profética, sempre jogando com a intertextualidade, com a erudição dos leitores, uns mais, outros menos, mas sempre desafiados a seguirem os passos no labirinto, muitas vezes sem um fio de Ariadne.


    Enquanto leitores, leitoras, é preciso um esforço para adentrar o universo de Yendis, que às vezes é mesmo prolixo, ou repetitivo, mesmo excessivo, mas todo exagero tem um objetivo de ironizar mesmo, de ser sarcástico, como uma ópera bufa ou cordel ou paródia, onde os fatos são aumentados, superdimensionados, mas não gratuitamente. Há um desejo de educar com o riso e o sarcasmo, como percebemos nas obras dos satíricos, como Rabelais [François R., 1494-1553] e Swift [Jonathan S., 1667-1745] e dos  iluministas, um Voltaire [Fraçois-Marie Arouet, 1694-1778] ou um Sade [Marquês de S., 1740-1814].


    A Obra de Yendis Asor Said, ou Sidney Rosa Dias, exige concentração e paciência, mas não é monumento de seriedade, antes, ao contrário, podemos nos divertir muito. Sua crítica mostra erudição e deboche, muita leitura, referências, intertextos, e também tom coloquial, assim uma união de contrários, como desejava William Blake, aquele que anunciava as bodas do Céu e do Inferno, e criticava toda religião estabelecida. Dogma é limitação, é mumificação. É preciso aprender a ‘abrir as Portas da Percepção’ e ‘ver o mundo tal como ele é: Infinito’.



nov/21


             Leonardo de Magalhaens

             poeta, escritor, tradutor,
              bacharel em Letras / FALE / UFMG



Mais sobre a Obra do autor Sidney / Yendis
em

https://clubedeautores.com.br/livros/autores/yendis-asor-said

http://contagem.mg.gov.br/?materia=951901


 

 

Referências


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