quinta-feira, 14 de abril de 2011

Eu & Outro




Eu & Outro


Eu sou uma democrata apaixonada por um
neonazista
.
Eu sou um esquerdista gamado numa fascista
.
Eu sou uma paulista abraçando um nordestino
.
Eu sou um católico ajudando um ortodoxo
.
Eu sou uma palestina adotada por um judeu
.
Eu sou um torcedor argentino casado com uma
torcedora brasileira
.
Eu sou uma veterana da Letras apaixonada por um
calouro da Matemática
.
Eu sou uma pós-punk namorada de um violinista
da orquestra
.
Eu sou um TV-cameraman casado com uma locutora
de rádio
.
Eu sou um metaleiro saindo com uma gótica
.
Eu sou um músico de banda indie-cult saindo
com uma passista de escola de samba
.
Eu sou uma atleticana agarrando um cruzeirense
.
Eu sou uma comunista beijando um sargentão
.
Eu sou um cristão apaixonado por uma muçulmana
.
Eu sou uma evangélica casada com um ateu
.
Eu sou um sérvio obcecado por uma croata
.
Eu sou um universitário amante de uma operária
.
Eu sou uma camponesa seduzida por um moço
da cidade
.
Eu sou uma empregada seduzida pelo patrão
.
Eu sou um advogado abrigando um traficante
.
Eu sou uma prostituta seduzindo um seminarista
.
Eu sou uma mulher casada amando uma
mocinha desquitada
.
Eu sou um militar violentando uma terrorista
.
Eu sou um japonês casado com uma africana
.
Eu sou uma negra amante de um suíço-alemão
.
Eu sou uma pedestre cortejada por um motorista
.
Eu sou uma xiita que dorme com um sunita
.
Eu sou um pagodeiro que dorme com uma bailarina
.
Eu sou uma enfermeira seduzida pelo paciente
.
Eu sou uma civil casada com um general
.
Eu sou uma hippie apaixonada por um bacharel
.
Eu sou um progressista adotado por um regressista
.
Eu sou uma reacionária namorando um filho de coronel
.
Eu sou uma presidente cortejada por um sultão
.
Eu sou uma imperatriz assediada por um
republicano
.
Eu sou uma plebeia seduzida por um gentleman
da realeza
.
Eu sou um idealista raptado por um pragmático
.
Eu sou um asceta seduzido por um hedonista
.
Eu sou um humorista obeso casado com uma
nutricionista
.
Eu sou uma anã simpática casada com um
esportista troglodita
.
Eu sou um louco psicopata que seduz uma psicóloga
.
Eu sou um literato amante de uma balconista
semi-analfabeta
.
Eu sou um anarquista seduzindo uma patricinha
.
Eu sou skatista agarrando uma universitária
.
Eu sou uma abduzida amando um cético
.
Eu sou um burocrata num affair com uma dançarina
.
Eu sou um escritor realista dormindo com uma
pintora surrealista
.
Eu sou uma contabilista técnica apaixonada por
uma atriz
.
Eu sou um político dependente de uma eleitora infiel
.
Eu sou uma poeta lírica esposa de um empresário
calculista
.
Eu sou uma juíza de Direito casada com um político
corrupto
.
Eu sou um bárbaro servo-amante de uma patrícia
romana
.
Eu sou uma latina empregada-amante de um ianque
conservador
.
Eu sou uma amante árabe de um político xenófobo
europeu
.
Eu sou o político da oposição que troco figurinhas com
o político governista
.
Eu sou uma astronauta casada com um comandante
de submarino
.
Eu sou um budista praticante dormindo com uma
empresária estressada
.
Eu sou uma judia seduzida por uma guarda nazista
.
Eu sou uma palestina seduzida por um guarda judeu
.
Eu sou um Zé Rainha apaixonado por um Capitão
Bolsonaro.






abr/11




Leonardo de Magalhaens




domingo, 3 de abril de 2011

SERGUILHIANAS ...




Serguilhiana 1



convencionais Caracteres interferem nos Parâmetros
                                       apocalípticos dos Interstícios moleculares
quando as Discussões em prol do Pró-labor
                                        concatenam a Insídia psicótica nas Mentes
esclerosadas dos  suburbanos deslocados
                                        doentios desajustados nos Confins da Orla
metropolitana quando o Flagor crepuscular
                                  adentra o Aposento de Chamas e Camas e Ramas
completas de Insônias insípidas nos Contornos
                         moldurais dos Espelhos sorumbáticos que estremecem
aos Abalos citoplasmáticos dos Inframundos do Inconsciente
                               inflamados de Delírios cenográficos de blockbusters
hollywoodianos no Inventário de Quimeras cinematográficas
                                    de Imagens e Clivagens e Bobagens
que compõem e superpõem de Insanidades
                        incatalogáveis e burocráticas da Direção hiperbólica
das Metástases invadindo as Avaliações dos
   Planejamentos dos Orçamentos dos Requerimentos dos Testamentos
nas Alegorias mentais da Parusia cristã e do Anticristo
                                  encravados na Mente do Medo adentro
com Registros de Práticas de Flagelação sangrenta
                                         nas ruas do Terceiro-mundo onde
Larvas humanas Detritos sociais rastejam
                             com Hipotermias da Sensibilidade material
na Concretização dos Buracos vazios
                             da Segregação de Intensidades oníricas
cá dentro pulsando lá fora e à beira de
                                            um Ataque de Estratégias de
Encaminhamento do Barramento do Enfrentamento
                                             expressado e detalhado e registrado
nos Equipamentos da Prática pós-traumática
               da Participação popular nas Verborragias revolucionárias
e Lavagens mentais reacionárias
        alienadas da Autonomia pessoal nos Labirintos da Contemporaneidade
da Interferência da Onisciência da Prepotência
                                    dos números deslizando nos Monitores
dos Buracos-negros daVirtualidade no Vazio
                           da Época da Materialidade imersa no Mercado.


26mar11


Leonardo de Magalhaens


...


Serguilhiana 2


Preciosidade escaldante da Memória
                      na transbordante Esferocidade dos Momentos
em Queda livre na Gratuidade
                        da Existência transmutada em náusea
intrínseca no Desperdício de Volições
                           na Anestesia dos Subterfúgios da Má-fé
na Inverdade da encenação das Faces
                             televisivas de Sorrisos de incisivos
de Motivos fúteis da Imponderabilidade
                               dos Índices de Audiência nos Ócios
do Cotidiano a vomitar o Tédio-Extresse
                             nos Delírios faraônicos da Auto-Promoção
dos Desejos loucos dos Diálogos poucos dos Ouvidos moucos
                       dos Corpos de Aluguel dos Corpos à venda
a Prestações em Busca de Produtos-Carinhos
                                   dos Ibopes dos Dramas humanos
televisionados no Palco da Mídia
                            mercenária da Indústria do Entretenimento
nos Conglomerados concentracionais de Penúrias
           para a ONG social ver para o humorista-humanista vender
nos Quadros filantropos-pilantropos do Voluntarismo
                        remunerado por magnatas do Banquete social
dos buffets da Prosperidade econômica
                     assentada sobre Abismos de Óleo negro e
Camadas de Marinas-Salinas de futuras
         Especulações de Aventuras-Explorações de Tonturas-Tributações
advindas da Cobiça patrimordial dos Patriarcas
                           das Propriedades dos Arautos das Finanças
dos Endinheirados das Decadências
                         das Falências das Indigências sobrevoadas
por Abutres de Terno-e-Gravata e Turbante
                                   e Coroa e Cartola e Smoking
nos Corredores palacianos dos Congressos
                                       das Bolsas das Corporations
dos cassinos das Fundações
                               das Sociedades Anônimas das Sociedades Secretas
onde a Lei das Tabulaturas dos Dividendos
                    é regulada por Dígitos e Fatoriais e Matrizes
de milhões de Calculadoras-Computadores
                              formatando a Compra-e-Venda da Mão
Invisível elevadas com aviõezinhos-de-dinheiro
                        para a Plateia excitada esfomeada exclerosada
quando Adjetivações prolixas dos Cérebros eletrôncios
                condicionam Comportamentos intubados em Células
acolchoadas de Condomínios de Luxo na Produção
                                em série de Cérebros televisionados
hipercondicionados hiperconectados em Fibras ópticas
                           em Sem-fio em Radiações eletromagnéticas
na Intraduzibilidade icônica dos Sistemas midiáticos.



27/28mar11


Leonardo de Magalhaens

.

domingo, 20 de março de 2011

sobre ESTILHAÇOS NO LAGO DE PÚRPURA - de Wilmar Silva




sobre ESTILHAÇOS NO LAGO DE PÚRPURA (2006)
do Poeta WILMAR SILVA


O Eu-bestial diante do olhar do Outro


Dizem os embriologistas que o embrião humano, em seu desenvolvimento, passa por várias fases em que se assemelha aos animais mais primitivos na Escala Evolutiva, como peixes, anfíbios, reptéis.

Dizem os psicólogos que a noção do Eu, quando da infância, engloba todo o mundo, tudo é uma projeção-do-Eu, e que o Eu-social é formado pela interação com os Outros-Eus, a partir da aceitação destes Outros-Eus. O narcisismo propicia, assim, a formação da Identidade. Somos algo a partir do olhar do Outro.

Dizem os Poetas que a linguagem é tão-somente uma forma de deixar vazar, transbordar mesmo, o Eu amordaçado pelas máscaras da Identidade.

Ciências, pseudo-Ciências e lirismos à parte, todas as afirmações fazem algum sentido. Quando o desenvolvimento do ser humano ainda conserva algo de animalesco, de selvagem. Ou quando o Eu nada mais é do que reflexo do Outro, quando vivemos querendo agradar gregos e troianos. Ou quando a fala poética nada mais é do que desabafo torrencial de amores e desafetos, de dores e prazeres.

O Poeta torna-se o animal que esbraveja suas intimidades para uma platéia, uma quantidade incalculada de Outros. Assim se vê o Eu-lírico do Autor Wilmar Silva, em metamorfoses de um Eu estilhaçado em várias imagens sedutoramente bestiais e jogadas contra o olhar do Ouro, espelho e “leitor hipócrita”, narciso-duplo e “meu irmão”.

Um fluir de imagens do corpo em si-mesmo, um corpo plenamente sondado e desvelado, integro e sacralizado, selvagem exaltado. “É em nossa natureza selvagem que melhor nos restabelecemos de nosso movimento anti-natural, de nossa espiritualidade...”, escreveu F. Nietzsche em “Crepúsculo dos Ídolos”. Corpo não menor que a alma, não uma prisão da alma, mas corpo-alma.

Em ensaio anterior, abordamos o egocentrismo – o Eu-onipresente – em “Estilhaços”, contudo tal perspectiva sofre m abalo quando percebemos que nos 390 versos, 33 versos fazem referencias ao Outro, desde o 1o. Verso: “eu quebrado por você sou estilhaços no lago de púrpura

O Outro surge como um Receptor do discurso, seja o Ser-Amado, seja o Leitor-Cúmplice, um Outro que é a origem e o destino de todo o discurso poético,


você é este fogo que me entranha” (12)

ou

mas agora no rubor de quem escreve um tormento
sou eu o mesmo que vem de longe em busca de você/
você tão febril: eu mais febril ainda/ eu sozinho” (17)


Um Outro responsável pelo desassossego do Eu, que inclinado sobre o lago encontra a imagem do Si-mesmo, o Narciso poético de Identidade estilhaçada. Sua identidade bestial a “cavalgar poemas” (28), em múltiplas formas que personificam seus estados emocionais.

Nas suas metamorfoses algo barrocas (ainda que o Eu-lírico se declare “medieval”/”medievo” (9), “faço medieval este poema que diz vitupérios” (5)), o lirismo adquire transtornos imagéticos bestiais, sendo ave, sendo réptil, sendo fera, formas andromorfas- zoomorfas, abrigo de invertebrados (numa imagem à la Lautréamont, “tarântula aninhada nas axilas” (11), besta selvagem sem rumos.

Mutante e delirante, o Eu se polimorfiza em “cavalo com escamas nas crinas” (1), “pássaro/ de asas nos braços” (2), “um lobo eu faminto” (3), “eu gambá” (4), “lontra que sou eu” (4), “pássaro azulão que perdi o bico” (10), “tarântula aninhada nas axilas” (11), “mula que debate bestas nos olhos” (11), “cavalos selvagens” e “cavalo indomável” (16), “colibri que diz líricas” (23), “cavala com toda a brida” (29), em conjunções 'cubistas' de pesadelos os mais bizarros, de um ser humano às voltas com seu interior animalesco, indomesticado, indomável, sendo e comunicando- se com todas as bestas-feras do campo tal um louco Nabucodonosor.

Nessa perda de referencial, diante do outro, matriz de toda a mestiçagem poética, resta apenas os fragmentos poéticos, os próprios versos. Estes versos – o corpo do poema – são a ligação possível entre o Eu e o Outro (“você”), assim em explícitos trechos metalinguísticos, “sou este almíscar que fenece nos poemas” (4), “faço medieval esse poema” (5), “enredo uma palavra ou arrefeço meu poema” (8), “eu e minha fazenda de poemas a seus pés” (19), “um colibri que diz líricas apenas para você” (23), “um ser // que engendra poemas” (26), “cavalgar a noite é como cavalgar poemas // que escrevo com sangue neste lago de veneno/” (28)

Ponte de ligação sobre o abismo que separa os seres, principalmente os entes amados, os outros-Eus desejados, o Poema surge como referencial em si, única fala única solução. Não é um poema sobre algo, mas é um poema que é algo – confunde Emissor e Receptor, perde Referenciais, perverte o Código.

Fragilizado pela própria Mensagem, o Eu se perde em carinhos e ameaças, a esbravejar com um Outro dentro-fora, espelhado, “você ave de asas indóceis, indócil e fugaz” (15), “você tão febril: eu mais febril ainda” (17), “você que anda com um pássaro preso” (22), “você que é letal como uma ponta de punhal” (22), “você que vem com uma manada de gumes / lâminas (24), “quem é você que diz lançar meu corpo sem alma” (30), pois o Outro pode não passar de um espelho turvo, em águas revoltas, em lago manchado de sangue. “A boca fala aquilo do que o coração está cheio”, diz um trecho bíblico, e aqui o Eu está farto de si-mesmo na mesma proporção em que ama/odeia o Outro.

Quer-se dizer que para o Eu o Outro não é indiferente. O Outro pode ser o Inferno (como dizia uma peça de Sartre), mas também pode ser um Paraíso, Abrigo, derradeiro Refúgio. “você com suas íris, retinas, você com olhos // que me olhem e descubram íris, retinas” (20), quando ainda resta o olhar do Outro e uma possível compreensão, “sou este mulo que apenas você há de desvendar” (11)

Ciente de sua imagem – aquela que é sempre no olhar do Outro – o Eu-lírico em suas andanças de metamorfoses nada mais faz do que “cavalgar o poema”, nada mais do que estilhaçar-se em versos, em imagens embaralhadas de si mesmo, possuidor e posse, vítima e carrasco, face e bofetada, pele e punhal, Narciso e lago espelhado.



Jul/07



por
Leonardo de Magalhaens



quarta-feira, 9 de março de 2011

A Miséria Manda Lembranças (conto)




A MISÉRIA MANDA LEMBRANÇAS



     Minha querida Lídia não mostra-se mais tão animada, após contínuas considerações sobre o seu desânimo, semelhante a síndrome daqueles mau-humorados que ainda
mais ranzinzas se tornam, caso ouçam comentários sobre mau-humor crônico.

     Lídia recebe-me, assim que abre o portão, com aquela carranca depressiva a ponto de atemorizar-me, eu ligara antes, naquele entardecer de sábado, em gentil convite para o casamento de uma amiga de Cíntia, minha irmã, Se apronte logo, querida. Daqui a pouco, apareço aí! Sim, é isso. Aparece um casamento,  há um convite, uma festinha restrita, e Lídia mostra enfado, a incomodar-me com o que ela denomina o meu “tom imperioso”, e eu preciso apaziguar os ânimos, “Querida, sem traumas! É só se aprontar, daqui a pouco eu chego, é claro, se você quiser ir...”

     Não mais que uma hora e lá estou. E aguardo ainda quase outra. E Lídia, ainda que toda magia e perfume, fala pouco, responde por monossílabos e sai, sem ao menos se despedir da família, e espero não terem se degladiado.

    No carro, distâncias se sucedem, ela em silêncio, e, se responde, é ainda em monossílabos, a voz sumida, mas não exatamente irritada, e sim apática, algo sonâmbula.

     Preciso abastecer a máquina. No primeiro posto, exigo logo a aditivada e aguardo o trabalho dos frentistas. O moreno que atende tem umas olheiras medonhas e anda a passos miúdos, certamente sem paciência para levantar os pés, e o outro é um branco, alto e magrela, fartamente agasalhado, a esperar um frio noturno, enquanto o moreno se limita ao uniforme, em gestos pré-determinados, robóticos até, e penso se, um belo amanhã, não serão substituídos por robôs ou andróides.

     E o silêncio de Lídia, ali ao meu lado, mas assim distante, me incomoda, e então ligo o rádio, bem discreto, e o Rolling Stones entra sem pedir licença, “I  can’t  ge t no satisfaction!”, grita o indiscreto Mick Jagger e lídia até se assusta, num frêmito brusco, mas tudo bem, ela estava dormindo certamente.

     Os frentistas conferem os valores, destacam cédulas e eu recebo o troco, e estou pronto para acelerar, quando surgem dois garotos, não mais que uma década de sofrimento, mas com olhares de uma temporada milenar no inferno, “Moço, compra um salgado pra ajudar a gente!”, diz o que parece ser o mais velho, e o mais novo segura um frasco de catchup na mão direita, e um de molho de pimenta, na esquerda, e olha todo pedindo (ou exigindo) piedade, como se dissesse, “ o senhor precisa ajudar a agente, sabe, senão a gente cresce e vira tudo bandido!”                                                                  

    Parece que Lídia já observava o trabalho dos meninos, a abordarem os outros carros, e comovida, até exaltada, percebo, suplica que eu ajude os pequeninos, “Ei, campeão”, eu digo, “deixe-me escolher! Empada ou coxinha?”, e o menorzinho oferece o catchup e o molho de pimenta, mas só consigo ouvir Lídia, toda dolorida, “Sobrevivem  assim! Ah, Alonso, é de perder o tesão!”

    Mastigo o salgado, e digo “não era pra ser assim.”, mas ela agora está dada à oratória, “você acha que esses garotos algum dia entenderão o significado de cidadania, ou de dignidade?”, eu, ainda mastigando, “É lamentável.”, e ofereço a empada, ela não aceita, “Ah, é de perder o tesão! Vamos embora.”

    Não é uma ordem, mas foi obedecida. Não fomos a casamento algum. E fui obrigado a engolir também a empada! Ah, eu mereço!




         Leonardo de Magalhaens


         http://leoleituraescrita.blogspot.com/

quarta-feira, 2 de março de 2011

sobre A Infernização do Paraíso - de Rodrigo Leste




Sobre “A Infernização do Paraíso
(Mano a Mano, BH, 2010)
do poeta e ator Rodrigo Leste


“O paraíso está longe, o inferno aqui dentro”


Um Preâmbulo histórico


Vivemos numa nação que tem tudo para ser rica, próspera, desenvolvida e auto-suficiente. Não se trata de uma ilha, não tem um clima único, não é limitada por inimigos em potencial. Não sofre com terremotos, furacões, tufões (ainda que enchentes e deslizamentos sejam comuns e trágicos). Tem uma variedade incrível de ecossistemas e riquezas minerais. Tem acesso fácil  às fontes e montanhas, é farta de chapadas e planícies, e é banhada pelo mar.

Na época do 'achamento' esta terra chegou a ser considerada o 'Paraíso' terrestre. Haviam lendas na época sobre uma terra paradisíaca onde o homem era livre e as riquezas brotavam do chão. O trabalho não era tortura e o prazer físico era livre de culpa. Então os navegantes, advindos da vetusta Europa, começaram a achar que devia ser por 'estas bandas.'

Quando encontraram nativos nus e festivos, e uma quantidade exorbitante de riquezas vegetais (pau-brasil) e minerais (ouro, diamantes), os europeus ajoelharam-se em lágrimas crendo-se no próprio Éden terrestre, no que restou da felicidade num mundo tão decrépito – aliás, por obra do próprio ser humano.

E o Brasil prometia. Vastidão de terras, fartura, clima tropical, povos vencíveis. Várias nações disputaram isso aqui – vieram franceses, holandeses, espanhóis, ingleses – até que os portugueses conseguissem carregar essa 'mina de ouro' para o trono lusitano. Dominar através de um imperialismo cruel, um colonialismo perverso, eis a decisão dos soberanos de Lisboa.

Dividido, fragmentado, rasgado, subjugado por capitanias, províncias, governos-gerais, este país tornou-se gradativamente num paraíso assombrado, num paraíso infernizado, onde a ambição do lucro – através da exploração mais abjeta e burra – conseguiu sugar a fartura da terra ao mesmo tempo em que empobrecia o povo.

É que nada ficava aqui a ser distribuído para o bem-estar coletivo. Nada disso! Tudo era embalado e embarcado nas naus de Sua Majestade rumo a Lisboa e, de lá, rumo a Londres. Sabemos. Era um negócio. Leva quem paga mais. E nesse jogo os brasileiros sequer eram consultados. Os luso-brasileiros que faziam as negociatas formaram uma camada de 'homens-bons' que dominavam o comércio e sufocavam os interesses  do resto do povo - eis uma característica nacional que pouco mudou nos últimos 500 anos.

Para dominar um povo, nada mais fácil do que dominar a Elite deste povo. A ambição da Elite – ao dominar o próprio povo – faz o resto. É assim que os britânicos dominaram a África do Sul, a Índia, a Birmânia, o Egito, o Sudão; é assim que os franceses dominaram metade da África e a Indochina; e os norte-americanos hoje dominam o Oriente Médio.

A transformação do Paraíso em Inferno foi um dos principais temas nos escritos do historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda – autor de obras essenciais tais como “Raízes do Brasil” (1936) e “Visão do Paraíso” (1959) – a indagar como uma terra tão promissora virou este país explorado e avacalhado, decepção para todas as gerações conscientes.

Este é também um dos temas centrais na obra “A Infernização do Paraíso” do poeta e ator Rodrigo Leste, que indignado não poupa esforços para denunciar as explorações – evidentes e ocultas – que minam o nosso destino. O que é a exploração e como se processa. Quem lucra e quais são as vítimas da exploração. Qual deve ser a atitude do Poeta diante da exploração.

O tema – ou o conteúdo – desta obra está acima de qualquer crítica. É de fundamental importância a presença e a voz ativa dos poetas e dos literatos que se preocupam com questões sociais – ao contrário de se elevarem em 'torres de marfim' ou 'cultivarem as flores do próprio jardim' – o que gera apenas uma poesia individualista, egocêntrica e alienada.


Uma vez elogiado o conteúdo – ou a mensagem – vamos nos concentrar na Forma, na Estética, do que se pretende 'poema' Infernização. Terá o Poeta alcançado uma forma ideal para divulgar suas ideias? Terá alcançado êxito em  se expressar de modo a comover os leitores? Onde a Arte e onde a Mensagem devem 'operar' em consonância? A Poesia veicula algum 'conteúdo' além de si-mesma?



Lirismo e Descompassos



É inquestionável que o Poeta tenha algo a declarar. A preocupação de veicular um conteúdo é evidente desde a capa, desde o título (cujo subtítulo é “Mina de Morro Velho: As Vísceras Douradas da Maldição”), como uma espécie de acusação, ou desabafo referente a exploração do homem pelo homem, e a exploração da Natureza pela ambição humana.

É justamente sobre os descaminhos  do ouro que eu quero falar” é a introdução ao assunto: saberemos mais sobre os processos de exploração e vitimização referentes ao garimpo e suas mazelas às populações. Há todo um trabalho de pesquisa e seleção de informações, além de uma 'narração' indignada por parte do eu-lírico.

Na tentativa de 'narrar' o drama e de forma o mais 'poética' possível, cria-se uma tensão entre o 'narrativo'  e o 'lírico', notamos um descompasso entre forma e conteúdo, estética e tema.

Se o tema / conteúdo / mensagem merece nota 10, com toda uma patente indignação diante da exploração do homem pelo homem, da exploração da natureza pelas atividades humanas visando lucro – uma indignação de cidadão consciente, portanto – a forma poderia ser antes prosa ou drama do que poesia ...

Não é poesia – poderia ser prosa, conto ou crônica – a manter o mesmo nível de conteúdo. As partes mais líricas podem ser apontadas – ao mostrarem recursos de ritmo e sonoridade – segundo notamos nas páginas 25, 34, 38, 39, 42, 53 a 55, 63 a 67, 69, 71 e 72. É poético justamente quando o 'jogo de palavras' – com suas 'figuras de linguagem', em recursos de metáforas, enumerações, alegorias, descrições, metonímias - ressalta-se sobre o que é dito, por exemplo em

Tatuagens de fogo
me acompanham pelo resto da vida
(p. 25)


ou

As botas bandeirantes
esmagam o orgulho dos carijós,
goianás, guarachués, bororós,
cataguás, caxinés e outras tribos
que viviam nestas montanhas.
Contra a pólvora, o chumbo e os canhões,
seus tacapes, lanças e flechas
pouco podem.”
[...]
(p. 39)

ou ainda

“Meu corpo era
feito de gigantescas
e altivas montanhas
adornadas por exuberantes matas.
Úmidos vales banhados
por caudalosos rios.
Fontes e olhos d'água
brotavam
em todas as partes.
Já fui perfeita,
sagrada comunhão
de espírito e matéria.
(p. 64)


A Estética não pode se curvar aos imperativos da Mensagem – nem poetas panfletários assim fizeram. Basta ler Maiakóvski, Brecht, Neruda, Ginsberg, Cassiano Ricardo, Drummond de Andrade, F. Gullar, Moacyr Félix, para citar alguns. A poesia não pode abrir mão de ser 'poética' para servir a um dado conteúdo. O inverso é aceitável - que o conteúdo seja adequado ao formato poético. (Enquanto a prosa aceita qualquer conteúdo, até o lírico)

A narratividade, o tom jornalístico – a citar locais, datas, nomes, cifras, fatos, dados outros – em-si é prosaica, e consegue destruir o possível lirismo a nascer da 'escolha das palavras'. Não havendo métrica nem rima, nem ritmo, nem 'escolha de palavras' não há qualquer lirismo.

(Nesta minha leitura, é patente que considero os mesmos parâmetros que J. L. Borges usou para ler “Canto General” (1950, no Brasil: “Canto Geral”) de Neruda, onde o argentino argumenta que o chileno perdeu o foco poético ao desejar veicular conteúdo, no caso uma historiografia das agruras da América Latina)

O gênero mais próximo que artisticamente poderia se prestar à semelhante conteúdo é a Literatura de Cordel. Em suas formas mais coloquiais, para fácil compreensão dos leitores/ouvintes e fácil composição do autor, o Cordel abre espaço para um estética poética que se permite narrar. Seria uma versão simplificada – não inferior! - às Epopeias de outrora. (Que aliás nasceram de uma oralidade, de uma tradição de poemas-canções transmititdos de geração a geração, através de bardos, aedos, músicos-poetas)

A estética do Cordel aceitaria o 'tom narrativo' – o que resguarda um aspecto de épico – que o conteúdo de Infernização apresenta, e daria uma forma – os versos de 7 sílabas, as estrofes com 6 (ou 7) versos, os padrões de rimas AABCCB ou xAyAzA. O Cordel abrigaria em sua forma um conteúdo narrativa 'contido' e 'disciplinado'.

(Sem esta 'represa' em versos, teríamos os 'versos longos' - vide a estilística 'verborrágica' de Walt Whitman e de Ginsberg, e de Fernando Pessoa-Álvaro de Campos - ou a 'prosa poética' - vide Baudelaire, Rimbaud, Lautreámont, dentre outros.)

A quebra do ritmo – o que cria uma 'fala solta', logo prosaica – é um dos motivos da ausência de poesia – ainda que um verso, ou um conjunto de versos, ainda resguarde 'poeticidade'. O uso de 'versos brancos' não segue regras de métrica ou rima, mas de Ritmo – ou então se dispensa o versos e escrevemos em 'poema em prosa' ou prosa poética (o lirismo passa ao contéudo e a 'escolha das palavras', em redes de significantes-significados)


Dramaticidade entre poesia e prosa


Ousamos sugerir: semelhante conteúdo se adapta mais a crônica ou drama – havendo personagens – pluridade de eus-líricos. Se crônica, há a voz do narrador a apresentar os personagens. Se drama, os personagens se apresentam no ato discursivo. Ambas as técnicas são encontradas em Infernização.

Vejamos, nas páginas 21 e 22 temos uma voz que se localiza no tempo, “Estou no ano de 1814 e em seguida se mostra um 'coletivo', “Somos escravos / Trabalhamos na lavra [...]”, na página 23 temos a voz do chinês (que pode ser o mesmo de 1814...) - “Sou chinês / Chego neste fimdemundo / trazido pelos ingleses.”

Também a voz do índio “guerreiro carijó” (na p. 38), “paramentado e pintado pra guerra”, depois a voz do mineiro que se intoxicou, “Estou na UTI de um hospital” (pp. 47 a 50). Há o depoimento de uma senhora idosa (pp. 62-67) que pode ser lido de duas formas - conotativa ou denotativamente – ou seja, a velhinha é um vítima, ou ela é uma figura alegórica para a Mãe-Natureza.

Já fui rica, meu filho, / muito rica.” é o que discursivamente é razoável para um ser humano, o que não é em “Meu corpo era / feito de gigantescas / e altivas montanhas / adornadas por exuberantes matas.” ou “Arrancaram tudo de mim; / minhas matas viraram carvão, / a cal calcinou minhas células.”

Temos a voz narrativa que se dirige aos leitores e aos poetas que inspiram referências (“Sim, Dantas Mota” ou “É, Drummond,...”), uma voz que tenta dar 'coerência' ao conteúdo textual que é feito de uma 'colcha de retalhos' tecida na pluralidade de vozes – as vítimas reais e potenciais da 'infernização do paraíso'.


O que mostra que a dramaticidade tem todo um potencial aqui para reformular a poesia ou dela se desfazer. O drama não precisa ser em verso, não preciso ter métrica e rima. Ainda que grandes dramaturgos – Shakespeare, Molière, Gil Vicente, Wilde, Beckett, etc – tenham usado (e abusado) da fala poética em seus dramas. O que estranha ao 'bom senso' da plateia – ainda mais hoje em dia – é que as personagens se amem e se odeiem em versos, e nós – seres comuns - não falamos em versos!

Por outro lado, a dramaticidade em si-mesma não é necessariamente lírica. Podemos registrar dramas anti-líricos – ou por tratarem do cotidiano ou por serem mesmo 'iconoclastas'. A Dramaticidade lírica já foi fartamente estudada, afinal 'autores clássicos' não faltam.

Entre a prosa e a poesia, o drama mantem-se em 'equilíbrio instável'. Talvez seja essa um dos pilares do fascínio: dramatizamos um pouco do que somos (prosaicos) e do que desejamos ser (líricos). Vivendo entre a 'realidade' e as expectativas, tentamos nos localizar através de personas outras (ou 'máscaras'), onde podemos ora se emocionar com a figura de Quixote – pois somos algo quixotescos – ora se comover com um Hamlet – pois somos um pouco Hamlet também.

(Também talvez isso explique o fascínio dos heterônimos de Fernando Pessoa: com suas personas poéticas ele cria um híbrido poesia-drama, cada poema a fala de um personagem de uma peça que chamaríamos de “Vida das Múltiplas Pessoas de Pessoa”. Temos o caipira lírico em Alberto Caeiro, o médico classista em Ricardo Reis, o engenheiro futurista em Álvaro de Campos, o burocrata meditativo em Bernardo Soares...)

As vozes das testemunhas compõe o dramático em “Infernização do Paraíso” e salvam a obra. Se não é exatamente poética, ela passa o 'recado' nos sensibilizando com as vozes plurais: quem realmente sofreu, que foi vitimado. O Poeta – que sabemos ser ator e contista – perdeu a oportunidade de escrever uma peça dramática ao estilo Nelson Rodrigues (ou Dias Gomes, ou Suassuna,  a depender do quão 'alegórico' ele pretenda ser). Mas aqui – não há dúvidas – trata-se mesmo da 'vida como ela é'.


jan/fev/11



Por Leonardo de Magalhaens




mais sobre o poeta, contista e ator Rodrigo Leste

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Político em Linha Reta




Político em Linha Reta





Nunca conheci quem não fosse um campeão.
Porque todo mundo que eu conheço é só campeão.


 
Eu que tenho sido crítico, chauvinista, intolerante,
politicamente incorreto,
Eu tantas vezes descaradamente fisiocrata e nepotista,
vergonhosamente subornável,
Eu que tantas vezes não hesitei em aceitar propina,
Eu que tenho sido omisso nas minhas funções,
Que tenho mentido publicamente nos palanques,
Que não ingressei no partido da situação,
Que tenho sido oportunista, duas-caras, interesseiro
e petulante,
Que tenho dito 'sim' e 'pois não' e virado às costas,
Que tenho no currículo só três reeleições,
Que tenho evitado declarações à imprensa e por isso
mais caluniado ainda;
Eu que tenho sido motivo de chacota das assessorias
de comunicação,
Eu que tenho de subornar o office-boy da contabilidade,
Eu que tenho contas fantasmas nas ilhas Cayman,
outros gastos nunca declarados, de orçamentos
superfaturados,
Eu que distribuo minhas imagens em santinhos
mas jamais uma prestação de contas;


 
Eu que tenho sofrido com a mediocridade dos assessores,
Eu descubro que sou o único incompetente neste mundo.


 
Todo mundo que eu conheço e conta vantagens
Nunca foi incompetente, nunca foi sonegador,
Nunca foi senão democrata – todos eles democratas – a vida toda...


 
Bem que eu gostaria de ouvir alguém sincero
E não voz de congressista e de retórico
Que confessasse não uma sonegação, mas um desvio;
Que declarasse não um mal-entendido, mas uma mentira
descarada!
Não, que isso!, são todos Representantes do Povo, se a gente pergunta.
Quem será que vai confessar que foi demagogo?


 
Ó Parlamentares, meus irmãos,
Macacos me mordam! Estou cansado de excelências!
Onde é que há gente sincera no mundo?


 
Então só eu que sou mensaleiro neste país?


 
Poderão os governistas não os terem subornado,
Podem ter sido traídos pela oposição – mas desonestos nunca!
E eu que sou conivente com ambas as partes,
Como posso apontar o dedo sem passar vergonha?
Eu que tenho sido crítico, totalmente intolerante,
Fisiocrata, nepotista no pleno sentido descarado da palavra.



 
fev/11


Leonardo de Magalhaens



 
paródia de “Poema em Linha Reta
(Álvaro de Campos (Fernando Pessoa))
 
poema original em

para ouvir