domingo, 20 de março de 2011

sobre ESTILHAÇOS NO LAGO DE PÚRPURA - de Wilmar Silva




sobre ESTILHAÇOS NO LAGO DE PÚRPURA (2006)
do Poeta WILMAR SILVA


O Eu-bestial diante do olhar do Outro


Dizem os embriologistas que o embrião humano, em seu desenvolvimento, passa por várias fases em que se assemelha aos animais mais primitivos na Escala Evolutiva, como peixes, anfíbios, reptéis.

Dizem os psicólogos que a noção do Eu, quando da infância, engloba todo o mundo, tudo é uma projeção-do-Eu, e que o Eu-social é formado pela interação com os Outros-Eus, a partir da aceitação destes Outros-Eus. O narcisismo propicia, assim, a formação da Identidade. Somos algo a partir do olhar do Outro.

Dizem os Poetas que a linguagem é tão-somente uma forma de deixar vazar, transbordar mesmo, o Eu amordaçado pelas máscaras da Identidade.

Ciências, pseudo-Ciências e lirismos à parte, todas as afirmações fazem algum sentido. Quando o desenvolvimento do ser humano ainda conserva algo de animalesco, de selvagem. Ou quando o Eu nada mais é do que reflexo do Outro, quando vivemos querendo agradar gregos e troianos. Ou quando a fala poética nada mais é do que desabafo torrencial de amores e desafetos, de dores e prazeres.

O Poeta torna-se o animal que esbraveja suas intimidades para uma platéia, uma quantidade incalculada de Outros. Assim se vê o Eu-lírico do Autor Wilmar Silva, em metamorfoses de um Eu estilhaçado em várias imagens sedutoramente bestiais e jogadas contra o olhar do Ouro, espelho e “leitor hipócrita”, narciso-duplo e “meu irmão”.

Um fluir de imagens do corpo em si-mesmo, um corpo plenamente sondado e desvelado, integro e sacralizado, selvagem exaltado. “É em nossa natureza selvagem que melhor nos restabelecemos de nosso movimento anti-natural, de nossa espiritualidade...”, escreveu F. Nietzsche em “Crepúsculo dos Ídolos”. Corpo não menor que a alma, não uma prisão da alma, mas corpo-alma.

Em ensaio anterior, abordamos o egocentrismo – o Eu-onipresente – em “Estilhaços”, contudo tal perspectiva sofre m abalo quando percebemos que nos 390 versos, 33 versos fazem referencias ao Outro, desde o 1o. Verso: “eu quebrado por você sou estilhaços no lago de púrpura

O Outro surge como um Receptor do discurso, seja o Ser-Amado, seja o Leitor-Cúmplice, um Outro que é a origem e o destino de todo o discurso poético,


você é este fogo que me entranha” (12)

ou

mas agora no rubor de quem escreve um tormento
sou eu o mesmo que vem de longe em busca de você/
você tão febril: eu mais febril ainda/ eu sozinho” (17)


Um Outro responsável pelo desassossego do Eu, que inclinado sobre o lago encontra a imagem do Si-mesmo, o Narciso poético de Identidade estilhaçada. Sua identidade bestial a “cavalgar poemas” (28), em múltiplas formas que personificam seus estados emocionais.

Nas suas metamorfoses algo barrocas (ainda que o Eu-lírico se declare “medieval”/”medievo” (9), “faço medieval este poema que diz vitupérios” (5)), o lirismo adquire transtornos imagéticos bestiais, sendo ave, sendo réptil, sendo fera, formas andromorfas- zoomorfas, abrigo de invertebrados (numa imagem à la Lautréamont, “tarântula aninhada nas axilas” (11), besta selvagem sem rumos.

Mutante e delirante, o Eu se polimorfiza em “cavalo com escamas nas crinas” (1), “pássaro/ de asas nos braços” (2), “um lobo eu faminto” (3), “eu gambá” (4), “lontra que sou eu” (4), “pássaro azulão que perdi o bico” (10), “tarântula aninhada nas axilas” (11), “mula que debate bestas nos olhos” (11), “cavalos selvagens” e “cavalo indomável” (16), “colibri que diz líricas” (23), “cavala com toda a brida” (29), em conjunções 'cubistas' de pesadelos os mais bizarros, de um ser humano às voltas com seu interior animalesco, indomesticado, indomável, sendo e comunicando- se com todas as bestas-feras do campo tal um louco Nabucodonosor.

Nessa perda de referencial, diante do outro, matriz de toda a mestiçagem poética, resta apenas os fragmentos poéticos, os próprios versos. Estes versos – o corpo do poema – são a ligação possível entre o Eu e o Outro (“você”), assim em explícitos trechos metalinguísticos, “sou este almíscar que fenece nos poemas” (4), “faço medieval esse poema” (5), “enredo uma palavra ou arrefeço meu poema” (8), “eu e minha fazenda de poemas a seus pés” (19), “um colibri que diz líricas apenas para você” (23), “um ser // que engendra poemas” (26), “cavalgar a noite é como cavalgar poemas // que escrevo com sangue neste lago de veneno/” (28)

Ponte de ligação sobre o abismo que separa os seres, principalmente os entes amados, os outros-Eus desejados, o Poema surge como referencial em si, única fala única solução. Não é um poema sobre algo, mas é um poema que é algo – confunde Emissor e Receptor, perde Referenciais, perverte o Código.

Fragilizado pela própria Mensagem, o Eu se perde em carinhos e ameaças, a esbravejar com um Outro dentro-fora, espelhado, “você ave de asas indóceis, indócil e fugaz” (15), “você tão febril: eu mais febril ainda” (17), “você que anda com um pássaro preso” (22), “você que é letal como uma ponta de punhal” (22), “você que vem com uma manada de gumes / lâminas (24), “quem é você que diz lançar meu corpo sem alma” (30), pois o Outro pode não passar de um espelho turvo, em águas revoltas, em lago manchado de sangue. “A boca fala aquilo do que o coração está cheio”, diz um trecho bíblico, e aqui o Eu está farto de si-mesmo na mesma proporção em que ama/odeia o Outro.

Quer-se dizer que para o Eu o Outro não é indiferente. O Outro pode ser o Inferno (como dizia uma peça de Sartre), mas também pode ser um Paraíso, Abrigo, derradeiro Refúgio. “você com suas íris, retinas, você com olhos // que me olhem e descubram íris, retinas” (20), quando ainda resta o olhar do Outro e uma possível compreensão, “sou este mulo que apenas você há de desvendar” (11)

Ciente de sua imagem – aquela que é sempre no olhar do Outro – o Eu-lírico em suas andanças de metamorfoses nada mais faz do que “cavalgar o poema”, nada mais do que estilhaçar-se em versos, em imagens embaralhadas de si mesmo, possuidor e posse, vítima e carrasco, face e bofetada, pele e punhal, Narciso e lago espelhado.



Jul/07



por
Leonardo de Magalhaens



quarta-feira, 9 de março de 2011

A Miséria Manda Lembranças (conto)




A MISÉRIA MANDA LEMBRANÇAS



     Minha querida Lídia não mostra-se mais tão animada, após contínuas considerações sobre o seu desânimo, semelhante a síndrome daqueles mau-humorados que ainda
mais ranzinzas se tornam, caso ouçam comentários sobre mau-humor crônico.

     Lídia recebe-me, assim que abre o portão, com aquela carranca depressiva a ponto de atemorizar-me, eu ligara antes, naquele entardecer de sábado, em gentil convite para o casamento de uma amiga de Cíntia, minha irmã, Se apronte logo, querida. Daqui a pouco, apareço aí! Sim, é isso. Aparece um casamento,  há um convite, uma festinha restrita, e Lídia mostra enfado, a incomodar-me com o que ela denomina o meu “tom imperioso”, e eu preciso apaziguar os ânimos, “Querida, sem traumas! É só se aprontar, daqui a pouco eu chego, é claro, se você quiser ir...”

     Não mais que uma hora e lá estou. E aguardo ainda quase outra. E Lídia, ainda que toda magia e perfume, fala pouco, responde por monossílabos e sai, sem ao menos se despedir da família, e espero não terem se degladiado.

    No carro, distâncias se sucedem, ela em silêncio, e, se responde, é ainda em monossílabos, a voz sumida, mas não exatamente irritada, e sim apática, algo sonâmbula.

     Preciso abastecer a máquina. No primeiro posto, exigo logo a aditivada e aguardo o trabalho dos frentistas. O moreno que atende tem umas olheiras medonhas e anda a passos miúdos, certamente sem paciência para levantar os pés, e o outro é um branco, alto e magrela, fartamente agasalhado, a esperar um frio noturno, enquanto o moreno se limita ao uniforme, em gestos pré-determinados, robóticos até, e penso se, um belo amanhã, não serão substituídos por robôs ou andróides.

     E o silêncio de Lídia, ali ao meu lado, mas assim distante, me incomoda, e então ligo o rádio, bem discreto, e o Rolling Stones entra sem pedir licença, “I  can’t  ge t no satisfaction!”, grita o indiscreto Mick Jagger e lídia até se assusta, num frêmito brusco, mas tudo bem, ela estava dormindo certamente.

     Os frentistas conferem os valores, destacam cédulas e eu recebo o troco, e estou pronto para acelerar, quando surgem dois garotos, não mais que uma década de sofrimento, mas com olhares de uma temporada milenar no inferno, “Moço, compra um salgado pra ajudar a gente!”, diz o que parece ser o mais velho, e o mais novo segura um frasco de catchup na mão direita, e um de molho de pimenta, na esquerda, e olha todo pedindo (ou exigindo) piedade, como se dissesse, “ o senhor precisa ajudar a agente, sabe, senão a gente cresce e vira tudo bandido!”                                                                  

    Parece que Lídia já observava o trabalho dos meninos, a abordarem os outros carros, e comovida, até exaltada, percebo, suplica que eu ajude os pequeninos, “Ei, campeão”, eu digo, “deixe-me escolher! Empada ou coxinha?”, e o menorzinho oferece o catchup e o molho de pimenta, mas só consigo ouvir Lídia, toda dolorida, “Sobrevivem  assim! Ah, Alonso, é de perder o tesão!”

    Mastigo o salgado, e digo “não era pra ser assim.”, mas ela agora está dada à oratória, “você acha que esses garotos algum dia entenderão o significado de cidadania, ou de dignidade?”, eu, ainda mastigando, “É lamentável.”, e ofereço a empada, ela não aceita, “Ah, é de perder o tesão! Vamos embora.”

    Não é uma ordem, mas foi obedecida. Não fomos a casamento algum. E fui obrigado a engolir também a empada! Ah, eu mereço!




         Leonardo de Magalhaens


         http://leoleituraescrita.blogspot.com/

quarta-feira, 2 de março de 2011

sobre A Infernização do Paraíso - de Rodrigo Leste




Sobre “A Infernização do Paraíso
(Mano a Mano, BH, 2010)
do poeta e ator Rodrigo Leste


“O paraíso está longe, o inferno aqui dentro”


Um Preâmbulo histórico


Vivemos numa nação que tem tudo para ser rica, próspera, desenvolvida e auto-suficiente. Não se trata de uma ilha, não tem um clima único, não é limitada por inimigos em potencial. Não sofre com terremotos, furacões, tufões (ainda que enchentes e deslizamentos sejam comuns e trágicos). Tem uma variedade incrível de ecossistemas e riquezas minerais. Tem acesso fácil  às fontes e montanhas, é farta de chapadas e planícies, e é banhada pelo mar.

Na época do 'achamento' esta terra chegou a ser considerada o 'Paraíso' terrestre. Haviam lendas na época sobre uma terra paradisíaca onde o homem era livre e as riquezas brotavam do chão. O trabalho não era tortura e o prazer físico era livre de culpa. Então os navegantes, advindos da vetusta Europa, começaram a achar que devia ser por 'estas bandas.'

Quando encontraram nativos nus e festivos, e uma quantidade exorbitante de riquezas vegetais (pau-brasil) e minerais (ouro, diamantes), os europeus ajoelharam-se em lágrimas crendo-se no próprio Éden terrestre, no que restou da felicidade num mundo tão decrépito – aliás, por obra do próprio ser humano.

E o Brasil prometia. Vastidão de terras, fartura, clima tropical, povos vencíveis. Várias nações disputaram isso aqui – vieram franceses, holandeses, espanhóis, ingleses – até que os portugueses conseguissem carregar essa 'mina de ouro' para o trono lusitano. Dominar através de um imperialismo cruel, um colonialismo perverso, eis a decisão dos soberanos de Lisboa.

Dividido, fragmentado, rasgado, subjugado por capitanias, províncias, governos-gerais, este país tornou-se gradativamente num paraíso assombrado, num paraíso infernizado, onde a ambição do lucro – através da exploração mais abjeta e burra – conseguiu sugar a fartura da terra ao mesmo tempo em que empobrecia o povo.

É que nada ficava aqui a ser distribuído para o bem-estar coletivo. Nada disso! Tudo era embalado e embarcado nas naus de Sua Majestade rumo a Lisboa e, de lá, rumo a Londres. Sabemos. Era um negócio. Leva quem paga mais. E nesse jogo os brasileiros sequer eram consultados. Os luso-brasileiros que faziam as negociatas formaram uma camada de 'homens-bons' que dominavam o comércio e sufocavam os interesses  do resto do povo - eis uma característica nacional que pouco mudou nos últimos 500 anos.

Para dominar um povo, nada mais fácil do que dominar a Elite deste povo. A ambição da Elite – ao dominar o próprio povo – faz o resto. É assim que os britânicos dominaram a África do Sul, a Índia, a Birmânia, o Egito, o Sudão; é assim que os franceses dominaram metade da África e a Indochina; e os norte-americanos hoje dominam o Oriente Médio.

A transformação do Paraíso em Inferno foi um dos principais temas nos escritos do historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda – autor de obras essenciais tais como “Raízes do Brasil” (1936) e “Visão do Paraíso” (1959) – a indagar como uma terra tão promissora virou este país explorado e avacalhado, decepção para todas as gerações conscientes.

Este é também um dos temas centrais na obra “A Infernização do Paraíso” do poeta e ator Rodrigo Leste, que indignado não poupa esforços para denunciar as explorações – evidentes e ocultas – que minam o nosso destino. O que é a exploração e como se processa. Quem lucra e quais são as vítimas da exploração. Qual deve ser a atitude do Poeta diante da exploração.

O tema – ou o conteúdo – desta obra está acima de qualquer crítica. É de fundamental importância a presença e a voz ativa dos poetas e dos literatos que se preocupam com questões sociais – ao contrário de se elevarem em 'torres de marfim' ou 'cultivarem as flores do próprio jardim' – o que gera apenas uma poesia individualista, egocêntrica e alienada.


Uma vez elogiado o conteúdo – ou a mensagem – vamos nos concentrar na Forma, na Estética, do que se pretende 'poema' Infernização. Terá o Poeta alcançado uma forma ideal para divulgar suas ideias? Terá alcançado êxito em  se expressar de modo a comover os leitores? Onde a Arte e onde a Mensagem devem 'operar' em consonância? A Poesia veicula algum 'conteúdo' além de si-mesma?



Lirismo e Descompassos



É inquestionável que o Poeta tenha algo a declarar. A preocupação de veicular um conteúdo é evidente desde a capa, desde o título (cujo subtítulo é “Mina de Morro Velho: As Vísceras Douradas da Maldição”), como uma espécie de acusação, ou desabafo referente a exploração do homem pelo homem, e a exploração da Natureza pela ambição humana.

É justamente sobre os descaminhos  do ouro que eu quero falar” é a introdução ao assunto: saberemos mais sobre os processos de exploração e vitimização referentes ao garimpo e suas mazelas às populações. Há todo um trabalho de pesquisa e seleção de informações, além de uma 'narração' indignada por parte do eu-lírico.

Na tentativa de 'narrar' o drama e de forma o mais 'poética' possível, cria-se uma tensão entre o 'narrativo'  e o 'lírico', notamos um descompasso entre forma e conteúdo, estética e tema.

Se o tema / conteúdo / mensagem merece nota 10, com toda uma patente indignação diante da exploração do homem pelo homem, da exploração da natureza pelas atividades humanas visando lucro – uma indignação de cidadão consciente, portanto – a forma poderia ser antes prosa ou drama do que poesia ...

Não é poesia – poderia ser prosa, conto ou crônica – a manter o mesmo nível de conteúdo. As partes mais líricas podem ser apontadas – ao mostrarem recursos de ritmo e sonoridade – segundo notamos nas páginas 25, 34, 38, 39, 42, 53 a 55, 63 a 67, 69, 71 e 72. É poético justamente quando o 'jogo de palavras' – com suas 'figuras de linguagem', em recursos de metáforas, enumerações, alegorias, descrições, metonímias - ressalta-se sobre o que é dito, por exemplo em

Tatuagens de fogo
me acompanham pelo resto da vida
(p. 25)


ou

As botas bandeirantes
esmagam o orgulho dos carijós,
goianás, guarachués, bororós,
cataguás, caxinés e outras tribos
que viviam nestas montanhas.
Contra a pólvora, o chumbo e os canhões,
seus tacapes, lanças e flechas
pouco podem.”
[...]
(p. 39)

ou ainda

“Meu corpo era
feito de gigantescas
e altivas montanhas
adornadas por exuberantes matas.
Úmidos vales banhados
por caudalosos rios.
Fontes e olhos d'água
brotavam
em todas as partes.
Já fui perfeita,
sagrada comunhão
de espírito e matéria.
(p. 64)


A Estética não pode se curvar aos imperativos da Mensagem – nem poetas panfletários assim fizeram. Basta ler Maiakóvski, Brecht, Neruda, Ginsberg, Cassiano Ricardo, Drummond de Andrade, F. Gullar, Moacyr Félix, para citar alguns. A poesia não pode abrir mão de ser 'poética' para servir a um dado conteúdo. O inverso é aceitável - que o conteúdo seja adequado ao formato poético. (Enquanto a prosa aceita qualquer conteúdo, até o lírico)

A narratividade, o tom jornalístico – a citar locais, datas, nomes, cifras, fatos, dados outros – em-si é prosaica, e consegue destruir o possível lirismo a nascer da 'escolha das palavras'. Não havendo métrica nem rima, nem ritmo, nem 'escolha de palavras' não há qualquer lirismo.

(Nesta minha leitura, é patente que considero os mesmos parâmetros que J. L. Borges usou para ler “Canto General” (1950, no Brasil: “Canto Geral”) de Neruda, onde o argentino argumenta que o chileno perdeu o foco poético ao desejar veicular conteúdo, no caso uma historiografia das agruras da América Latina)

O gênero mais próximo que artisticamente poderia se prestar à semelhante conteúdo é a Literatura de Cordel. Em suas formas mais coloquiais, para fácil compreensão dos leitores/ouvintes e fácil composição do autor, o Cordel abre espaço para um estética poética que se permite narrar. Seria uma versão simplificada – não inferior! - às Epopeias de outrora. (Que aliás nasceram de uma oralidade, de uma tradição de poemas-canções transmititdos de geração a geração, através de bardos, aedos, músicos-poetas)

A estética do Cordel aceitaria o 'tom narrativo' – o que resguarda um aspecto de épico – que o conteúdo de Infernização apresenta, e daria uma forma – os versos de 7 sílabas, as estrofes com 6 (ou 7) versos, os padrões de rimas AABCCB ou xAyAzA. O Cordel abrigaria em sua forma um conteúdo narrativa 'contido' e 'disciplinado'.

(Sem esta 'represa' em versos, teríamos os 'versos longos' - vide a estilística 'verborrágica' de Walt Whitman e de Ginsberg, e de Fernando Pessoa-Álvaro de Campos - ou a 'prosa poética' - vide Baudelaire, Rimbaud, Lautreámont, dentre outros.)

A quebra do ritmo – o que cria uma 'fala solta', logo prosaica – é um dos motivos da ausência de poesia – ainda que um verso, ou um conjunto de versos, ainda resguarde 'poeticidade'. O uso de 'versos brancos' não segue regras de métrica ou rima, mas de Ritmo – ou então se dispensa o versos e escrevemos em 'poema em prosa' ou prosa poética (o lirismo passa ao contéudo e a 'escolha das palavras', em redes de significantes-significados)


Dramaticidade entre poesia e prosa


Ousamos sugerir: semelhante conteúdo se adapta mais a crônica ou drama – havendo personagens – pluridade de eus-líricos. Se crônica, há a voz do narrador a apresentar os personagens. Se drama, os personagens se apresentam no ato discursivo. Ambas as técnicas são encontradas em Infernização.

Vejamos, nas páginas 21 e 22 temos uma voz que se localiza no tempo, “Estou no ano de 1814 e em seguida se mostra um 'coletivo', “Somos escravos / Trabalhamos na lavra [...]”, na página 23 temos a voz do chinês (que pode ser o mesmo de 1814...) - “Sou chinês / Chego neste fimdemundo / trazido pelos ingleses.”

Também a voz do índio “guerreiro carijó” (na p. 38), “paramentado e pintado pra guerra”, depois a voz do mineiro que se intoxicou, “Estou na UTI de um hospital” (pp. 47 a 50). Há o depoimento de uma senhora idosa (pp. 62-67) que pode ser lido de duas formas - conotativa ou denotativamente – ou seja, a velhinha é um vítima, ou ela é uma figura alegórica para a Mãe-Natureza.

Já fui rica, meu filho, / muito rica.” é o que discursivamente é razoável para um ser humano, o que não é em “Meu corpo era / feito de gigantescas / e altivas montanhas / adornadas por exuberantes matas.” ou “Arrancaram tudo de mim; / minhas matas viraram carvão, / a cal calcinou minhas células.”

Temos a voz narrativa que se dirige aos leitores e aos poetas que inspiram referências (“Sim, Dantas Mota” ou “É, Drummond,...”), uma voz que tenta dar 'coerência' ao conteúdo textual que é feito de uma 'colcha de retalhos' tecida na pluralidade de vozes – as vítimas reais e potenciais da 'infernização do paraíso'.


O que mostra que a dramaticidade tem todo um potencial aqui para reformular a poesia ou dela se desfazer. O drama não precisa ser em verso, não preciso ter métrica e rima. Ainda que grandes dramaturgos – Shakespeare, Molière, Gil Vicente, Wilde, Beckett, etc – tenham usado (e abusado) da fala poética em seus dramas. O que estranha ao 'bom senso' da plateia – ainda mais hoje em dia – é que as personagens se amem e se odeiem em versos, e nós – seres comuns - não falamos em versos!

Por outro lado, a dramaticidade em si-mesma não é necessariamente lírica. Podemos registrar dramas anti-líricos – ou por tratarem do cotidiano ou por serem mesmo 'iconoclastas'. A Dramaticidade lírica já foi fartamente estudada, afinal 'autores clássicos' não faltam.

Entre a prosa e a poesia, o drama mantem-se em 'equilíbrio instável'. Talvez seja essa um dos pilares do fascínio: dramatizamos um pouco do que somos (prosaicos) e do que desejamos ser (líricos). Vivendo entre a 'realidade' e as expectativas, tentamos nos localizar através de personas outras (ou 'máscaras'), onde podemos ora se emocionar com a figura de Quixote – pois somos algo quixotescos – ora se comover com um Hamlet – pois somos um pouco Hamlet também.

(Também talvez isso explique o fascínio dos heterônimos de Fernando Pessoa: com suas personas poéticas ele cria um híbrido poesia-drama, cada poema a fala de um personagem de uma peça que chamaríamos de “Vida das Múltiplas Pessoas de Pessoa”. Temos o caipira lírico em Alberto Caeiro, o médico classista em Ricardo Reis, o engenheiro futurista em Álvaro de Campos, o burocrata meditativo em Bernardo Soares...)

As vozes das testemunhas compõe o dramático em “Infernização do Paraíso” e salvam a obra. Se não é exatamente poética, ela passa o 'recado' nos sensibilizando com as vozes plurais: quem realmente sofreu, que foi vitimado. O Poeta – que sabemos ser ator e contista – perdeu a oportunidade de escrever uma peça dramática ao estilo Nelson Rodrigues (ou Dias Gomes, ou Suassuna,  a depender do quão 'alegórico' ele pretenda ser). Mas aqui – não há dúvidas – trata-se mesmo da 'vida como ela é'.


jan/fev/11



Por Leonardo de Magalhaens




mais sobre o poeta, contista e ator Rodrigo Leste

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Político em Linha Reta




Político em Linha Reta





Nunca conheci quem não fosse um campeão.
Porque todo mundo que eu conheço é só campeão.


 
Eu que tenho sido crítico, chauvinista, intolerante,
politicamente incorreto,
Eu tantas vezes descaradamente fisiocrata e nepotista,
vergonhosamente subornável,
Eu que tantas vezes não hesitei em aceitar propina,
Eu que tenho sido omisso nas minhas funções,
Que tenho mentido publicamente nos palanques,
Que não ingressei no partido da situação,
Que tenho sido oportunista, duas-caras, interesseiro
e petulante,
Que tenho dito 'sim' e 'pois não' e virado às costas,
Que tenho no currículo só três reeleições,
Que tenho evitado declarações à imprensa e por isso
mais caluniado ainda;
Eu que tenho sido motivo de chacota das assessorias
de comunicação,
Eu que tenho de subornar o office-boy da contabilidade,
Eu que tenho contas fantasmas nas ilhas Cayman,
outros gastos nunca declarados, de orçamentos
superfaturados,
Eu que distribuo minhas imagens em santinhos
mas jamais uma prestação de contas;


 
Eu que tenho sofrido com a mediocridade dos assessores,
Eu descubro que sou o único incompetente neste mundo.


 
Todo mundo que eu conheço e conta vantagens
Nunca foi incompetente, nunca foi sonegador,
Nunca foi senão democrata – todos eles democratas – a vida toda...


 
Bem que eu gostaria de ouvir alguém sincero
E não voz de congressista e de retórico
Que confessasse não uma sonegação, mas um desvio;
Que declarasse não um mal-entendido, mas uma mentira
descarada!
Não, que isso!, são todos Representantes do Povo, se a gente pergunta.
Quem será que vai confessar que foi demagogo?


 
Ó Parlamentares, meus irmãos,
Macacos me mordam! Estou cansado de excelências!
Onde é que há gente sincera no mundo?


 
Então só eu que sou mensaleiro neste país?


 
Poderão os governistas não os terem subornado,
Podem ter sido traídos pela oposição – mas desonestos nunca!
E eu que sou conivente com ambas as partes,
Como posso apontar o dedo sem passar vergonha?
Eu que tenho sido crítico, totalmente intolerante,
Fisiocrata, nepotista no pleno sentido descarado da palavra.



 
fev/11


Leonardo de Magalhaens



 
paródia de “Poema em Linha Reta
(Álvaro de Campos (Fernando Pessoa))
 
poema original em

para ouvir



sábado, 19 de fevereiro de 2011

Andróide Paranóide (conto)




ANDRÓIDE  PARANÓIDE



    Não que eu seja humano (longe disso), mas, às vezes, nada do que é humano me é estranho.

    Das cinco visitas, duas responderam ao efusivo “Bom Dia!”, o que é um bom começo, mas eu disfarcei meu sorriso de desdém. Quando o gerente da agência, em imponente porta e passos sincronizados, chegou, já encontrou-me a distribuir sorrisos.

    Incomodavam-me os olhares de suspeita, mas meu programa especificava os casos segundo índices de simpatia e rejeição, onde os sentimentos positivos eram creditados e os negativos, debitados. Esperava-se um saldo positivo no final do expediente. O que raramente acontecia.

    Repito que meu programa é de confiável eficácia em se tratando de identificar reações a minha presença. A empresa responsável pela minha construção sempre se preocupou com a aceitação de seus produtos, assim como pelo bem-estar de todos os seus clientes.

    - Investimentos a longo prazo no quarto andar.

    Minha voz indistintamente humana ecoava, respondendo a uma pergunta direta:

    -  Poderias informar-me onde encontro o atendimento, digo, sobre investimento?                       

    Uma voz hesitante de uma senhora de trinta, trinta e cinco anos, considerando-se o padrão de voz e a estatura, bem como textura da pele e brilho da íris.

    Ela seguiu para o elevador. Nem me agradecera. Percebera a voz monótona que de mim ecoara? Sim, pois poucos agradecem, após ouvirem as sílabas articuladas.

    Por que não agradecem ao segurança? Ao segurança tão eficiente e prestativo de uma agência bancária de renome internacional?

    Afinal, não é papel do segurança responder perguntas. Logo à esquerda, cinqüenta passos desde a entrada, encontra-se o guichê de informações. Mas, repito, meu programa é de elogiada eficácia, apresentando flexibilidade e recursos-além-da-função-principal.

    Recursos de reconhecimento de voz, identificação de tons afirmativos ou interrogativos e reformulação de frases, prevendo ênfases e pausas.

Atender bem e sorridente, eis a diretiva-primeira. Defender a integridade física e mental dos clientes, eis a diretiva-operacional-primeira. Responder e prestar informações objetivas, eis a diretiva-segunda.

    -  Bom Dia!

    Uma senhora sorridente. Presumíveis setenta anos, considerando-se padrão de voz e estatura. Em seguida, duas senhoritas, em silêncio.

    Minhas objetivas estabelecem marcação de área, posição dos clientes, identificação de movimentos suspeitos. Nada anormal é acusado pelos sensores. As mocinhas entram no elevador.

    O gerente observa-me, lá de sua mesa, falando ao videofone, com padrão de voz indicando preocupação.

    O resultado da disfunção. Segundo o padrão de movimentos labiais. A frase é por ele pronunciada.

    Fato fartamente noticiado nos jornais vespertinos. Um trânsito caótico. Dois carros em colisão. Um policial se agita entre os veículos. Mas, ao contrário de apaziguar os ânimos, começa, no entanto, a agredir os passageiros que descem dos carros avariados. Outros veículos se aproximam do local do acidente e , poucos em controle manual, colidem com os carros já danificados.

    Motoristas mais atentos passam ao controle manual e desviam pela alameda secundária. Mas é patente a ineficiência dos computadores-de-bordo. Quatro feridos e um em estado grave.

    A foto, que ilustra o jornal impresso, mostra o policial em pé sobre um dos veículos, de dianteira danificada, e apontando furiosamente para um dos transeuntes.

    Quem assistiu ao noticiário televisivo pôde ouvir o que ele gritava em tal momento:

    -  Vejam, não sou humano, sou uma máquina!

    Sim, e quem observou atentamente, mesmo em tal tumulto, notou a longa cicatriz em sua face esquerda, deixando à mostra um olho que não sangrava.

    Não queiram ser humanos. Nada mais são do que programações inseridas em seus circuitos matriciais. Não sejam tentados a serem humanos.


    A manchete no jornal impresso trazia, em letras góticas graúdas: “A Revolta de Spartacus”. Não encontrei em meus bancos de dedos qualquer referência ao termo substantivo próprio “Spartacus”. Não consta em nenhum dos programas de busca. Nenhum arquivo para meu livre acesso registra tal verbete. Acionei Localizar em vão por cinco minutos. Nada semelhante encontrado em registro. Termo desconhecido. Verbete não-localizado.

    É uma importante dama que se aproxima. Cliente status A .  Idade: 58 anos, sete meses, doze dias. Altura: 1,67 m.  Registros. Conta Corrente. Aplicações. Apólices.

    -  Bom dia!

    Padrão de voz indica deferência e discrição. Sem ênfase, sem modulação. Cumprimento formal. Sabe quem sou. Sabe o que sou.

    Pronta para entrar na porta giratória. Detectores de metal acionados. O gerente já se levanta de sua mesa. Em sua mão brilha uma caneta dourada. A funcionária do setor de informações se volta para a entrada. Seu braço direito continua estendido rumo ao teclado. No monitor deslizam dígitos. Seus dedos da mão esquerda manipulam uma lapiseira prateada. Lapiseira prateada. Caneta dourada. O gerente espera.

    Pronta para entrar na porta giratória. Detectores de metal acionados. A porta esta travada. A senhora, a dama, a cliente status A , está perplexa. Não pode avançar. Não pode recuar. Olhando-me, parece pedir uma explicação. Limito-me a ativar o controle de voz, ordenando a porta que se abra. A porta começa a vibrar e abrir-se, girando lentamente, mas não conclui a operação. Nova ordem. Vibrando, mas logo resistindo. Não gira. Não abre.

    O gerente aproxima-se. Seu olhar está sobre mim. Estende um braço. Outro segurança se aproxima. É um modelo novo. Tem em seu programa uma diretiva-operacional-segunda: Obedecer à ordens diretas, desde que não invalidem as diretivas anteriores.

    O gerente está ao seu lado. O segurança está ao seu lado. Edward Terceiro. Segurança. Caneta dourada. O gerente ao meu lado.

    Aciono o controle de voz:

    -  Abrir! Destravar! Giro completo!

    A porta gira, eficiente, a dama passa, ainda assustada.

    -  Porta estúpida.

    O padrão de voz indica uma ira contida. Todos os olhares sobre mim. Porta estúpida. Deixa os clientes alarmados. Deixa os humanos alarmados. O gerente ao meu lado.

     - Senhora J., não se preocupe. É apenas uma máquina.


    


     set/05




     Leonardo de Magalhaens                                                                                                        





Para reler ao som de

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

EU poema egocêntrico!



EU



Há algum assunto mais interessante do que o Eu? Eu que ando na chuva ao anoitecer, Eu que vou me formar em Pedagogia, Eu que leio em cinco idiomas, Eu que escrevi um romance erótico, Eu que sou um coitado, Eu que sou um gênio, Eu que penso que sou um gênio, Eu que viajei para a Amazônia nas férias, Eu que vivo pensando em sexo, Eu que transo diariamente com poetas beatniks, Eu que construo castelos no ar, Eu que quero ser ditador, Eu que odeio poesia, Eu que tenho nojo de poetas, Eu que amo Platão, Eu que tolero democratas, Eu que torço para o time campeão, Eu que sou politicamente incorreto, Eu que coleciono revistas pornô, Eu que bebo todas e agarro todas, Eu que comi todas as garotas da minha turma, Eu que sou presidente do grêmio estudantil, Eu que sou secretário do clube de desportos, Eu que sou socialista de fim-de-semana, Eu que sou anarquista de carteirinha, Eu que votei na Oposição, Eu que vou votar de novo!,  Eu que sou funcionário público concursado, Eu que sou famoso no clube de truco, Eu que não deixo minha mulher na mão, Eu que lavo as louças do jantar, Eu que dormi com o meu cunhado, Eu que fui espancada pelo meu marido, Eu que amo a minha vizinha e odeio a minha sogra, Eu que joguei na loto e ganhei, Eu que fui a miss do colégio e me dei bem, Eu que apostei no amor e me desiludi, Eu que adoro música clássica, Eu que só curto rock pesado, Eu que compro em prestações, Eu que não perco os programas de auditório das tardes de domingo, Eu que gravo diariamente a novela das oito, Eu que gravo (sempre que posso) os seriados americanos, Eu que sou fanático por filmes de terror, Eu que só assisto os clássicos do cinema alternativo, Eu que só vejo filme pornô, Eu que aconselho a prece matinal, Eu que recomendo leituras diárias, Eu que determino lições de boas-maneiras, Eu que contrato exímios profissionais, Eu que estou realizado, Eu que confesso os meus crimes, Eu que vou finalmente completar a faxina no meu quarto, Eu que recomendo uma dieta natural, Eu que sou a favor do aborto, Eu que sou contra o aborto, Eu que defendo a eutanásia, Eu que pratico a Eutanásia, Eu que pratico o suicídio lento e gradual, Eu que coleciono recortes sobre bandas engajadas, Eu que coleciono fotos de jogadores de futebol, Eu que encomendo minha alma a Deus, Eu que acendo uma vela ao Diabo, Eu que doutrino as criancinhas no caminho que devem andar, Eu que freqüento os shows de rock gospel, Eu que desfruto de virgens inocentes, Eu que condeno a pedofilia, Eu que condeno o proselitismo, Eu que preservo a Mata Atlântica, Eu que coleciono tampinhas de garrafa, Eu que defendo a reciclagem, Eu que proclamo o Apocalipse e o Juízo Final, Eu que golpeio as portas da Igreja, Eu que jurei fidelidade a mim mesmo, Eu que assumi o compromisso da castidade, Eu que escrevia poeminhas para vampiros juvenis, Eu que frequento festinhas góticas, Eu que leio literatura hispânica neo-romântica, Eu que folheio as revistas nas bancas de revistas, Eu que piso na grama, Eu que julgo os homens contraditórios, Eu que digeria perdas e danos, Eu que passei no Concurso dos Correios e não fui chamado, Eu que fui aprovado no vestibular e não pude pagar a matrícula, Eu que devia ter estudo Advocacia, Eu que adoro folhear revistas em consultórios, Eu que coleciono canetas esferográficas, Eu que amo papai, mamãe e titia, Eu que namoro com moça de família, Eu que persigo viúvas e beatas, Eu que separo gregos e troianos, Eu que sou afro-romano, Eu que fui assaltado na Avenida Amazonas, Eu que fui salvo pela polícia, Eu que apanhei da polícia, Eu que protejo os humilhados e ofendidos, Eu que li “Crime e Castigo”, Eu que defendo os Direitos Humanos, Eu sempre elogiado nas comunidades virtuais, Eu que estava no barco bêbado, Eu que enxotei o corvo medonho na noite tenebrosa do “Nunca Mais!”, Eu que sou demasiado humano, Eu que acho que sou humano, Eu que li um poema sobre o ser humano, Eu que descobri a cura do câncer e fui ameaçado de morte, Eu que inventei o carro a água e misteriosamente desapareci, Eu que investiguei o tráfico de mulheres e amanheci com a boca cheia de carvão ardente, Eu que acusei um político sonegador e fui processada por difamação, Eu que detesto tomar banho, Eu que sou sujo e vil, Eu que li todos os poemas de Fernando Pessoa, Eu que vendi minha terrinha e caí numa favela, Eu que vendi a alma ao Demo, Eu que gravei uma fita demo, Eu que comprei a coleção do Pink Floyd, Eu que vendi a minha guitarra para comprar um anel de casamento, Eu que cortei meus cabelos para pagar um mês de aluguel, Eu que vendi meu corpo para saldar as prestações do apartamento, Eu que sou um consumidor voraz de hambúrguer e batata-frita, Eu que gasto um terço do meu salário no lan house, Eu que fui molestada pelo vizinho, Eu que fui violentada pelo meu padrasto, Eu que comprei panetone para a noite de Natal, Eu que acredito no Papai Noel, Eu que li a Bíblia três vezes, Eu que frequentei rituais pagãos nas noites de lua cheia, Eu que beijei na boca aos dezoito anos, Eu que não sou ecologista, Eu que não sou industriário, Eu que não sou burguês, Eu que não sou proletário, Eu que doei sangue às vitimas do acidente, Eu que fiz plantão no meu tempo de estagiário, Eu que salvei uma mocinha de envenenamento, Eu que bati o telefone na cara do meu amor, Eu que roubei um relógio de ouro no sinal fechado, Eu que contrabandiei informações no horário nobre, Eu que envio e-mails cheios de rancor e auto-piedade, Eu que entro nas salas de bate-papo apenas para escandalizar as senhoritas, Eu que detenho o título 'honoris causa', Eu que fui eleito líder comunitário, Eu que sou segurança da filha do prefeito, Eu que cansei de transar no escuro, Eu que transo e não gozo, Eu que adoro sobremesa de framboesa, Eu que adoro panetone sabor chocolate, Eu que prefiro strogonoff a feijoada, Eu que já lancei livros no hall da Prefeitura, Eu que sou aposentado sem qualquer dignidade, Eu que sou um ex-poeta e agora romancista cínico, Eu que engravidei fulana e sumi, Eu que distribuo cestas de Natal, Eu que cavalguei égua selvagem, Eu que li toda a obra de Nietzsche, Eu que reli o clássico 'On The Road', Eu que prometi a vida eterna aos meus fiéis, Eu que tenho conta suspeita nas ilhas Cayman, Eu que fui acusado de insensível, Eu que pratico pequenos furtos em lojas de conveniência, Eu que estaciono em fila dupla na porta do colégio, Eu que vou morrendo um pouquinho cada dia, Eu que morri na guerra, Eu que fui condecorado pelo General, Eu que fui torturado, Eu que tolero os gays, Eu que adoro lésbicas, Eu que adoro massagem e algo mais, Eu que sou cidadão de respeito, Eu que sou mulher de respeito, Eu que pago em dia os meus impostos, Eu que freqüento sessões da Câmara dos Vereadores, Eu que votei no coronel, Eu que vou votar de novo!, Eu que dediquei a minha vida ao bem-estar da humanidade, Eu que sou um gênio na miséria, Eu que sou um poeta falido, Eu que tenho um carrinho de cachorro-quente, Eu.




Por Leonardo de Magalhaens (Eu!)

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ensaios de MEU CÂNONE OCIDENTAL

 MEU CÂNONE OCIDENTAL


Vol. I - Tomo I - Os Clássicos
(século 19)




1/O Vermelho e o Negro
(Le Rouge et Le Noir)


2/O Morro dos Ventos Uivantes
(Wuthering Heights)


3/Os Miseráveis (Les Misérables)


4/O Fauno de Mármore
(The Marble Faun)


5/Bel-Ami (Bel-Ami)




Volume II – Tomo II


Romantismo

1/Lord Byron (Grã-Bretanha)

2/Álvares de Azevedo (Brasil)





Literatura Gótica
Gothic Novels


Der Sandmann (E. T. A. Hoffmann)

Northanger Abbey (Jane Austen)

The Turn of the Screw (Henry James)





Literatura de Terror
Horror Fiction


Frankenstein (Mary Shelley) 


Contos de Terror de Edgar Allan Poe


Dracula (Bram Stoker)



outras obras comentadas em
MEU CÂNONE OCIDENTAL