sábado, 19 de fevereiro de 2011

Andróide Paranóide (conto)




ANDRÓIDE  PARANÓIDE



    Não que eu seja humano (longe disso), mas, às vezes, nada do que é humano me é estranho.

    Das cinco visitas, duas responderam ao efusivo “Bom Dia!”, o que é um bom começo, mas eu disfarcei meu sorriso de desdém. Quando o gerente da agência, em imponente porta e passos sincronizados, chegou, já encontrou-me a distribuir sorrisos.

    Incomodavam-me os olhares de suspeita, mas meu programa especificava os casos segundo índices de simpatia e rejeição, onde os sentimentos positivos eram creditados e os negativos, debitados. Esperava-se um saldo positivo no final do expediente. O que raramente acontecia.

    Repito que meu programa é de confiável eficácia em se tratando de identificar reações a minha presença. A empresa responsável pela minha construção sempre se preocupou com a aceitação de seus produtos, assim como pelo bem-estar de todos os seus clientes.

    - Investimentos a longo prazo no quarto andar.

    Minha voz indistintamente humana ecoava, respondendo a uma pergunta direta:

    -  Poderias informar-me onde encontro o atendimento, digo, sobre investimento?                       

    Uma voz hesitante de uma senhora de trinta, trinta e cinco anos, considerando-se o padrão de voz e a estatura, bem como textura da pele e brilho da íris.

    Ela seguiu para o elevador. Nem me agradecera. Percebera a voz monótona que de mim ecoara? Sim, pois poucos agradecem, após ouvirem as sílabas articuladas.

    Por que não agradecem ao segurança? Ao segurança tão eficiente e prestativo de uma agência bancária de renome internacional?

    Afinal, não é papel do segurança responder perguntas. Logo à esquerda, cinqüenta passos desde a entrada, encontra-se o guichê de informações. Mas, repito, meu programa é de elogiada eficácia, apresentando flexibilidade e recursos-além-da-função-principal.

    Recursos de reconhecimento de voz, identificação de tons afirmativos ou interrogativos e reformulação de frases, prevendo ênfases e pausas.

Atender bem e sorridente, eis a diretiva-primeira. Defender a integridade física e mental dos clientes, eis a diretiva-operacional-primeira. Responder e prestar informações objetivas, eis a diretiva-segunda.

    -  Bom Dia!

    Uma senhora sorridente. Presumíveis setenta anos, considerando-se padrão de voz e estatura. Em seguida, duas senhoritas, em silêncio.

    Minhas objetivas estabelecem marcação de área, posição dos clientes, identificação de movimentos suspeitos. Nada anormal é acusado pelos sensores. As mocinhas entram no elevador.

    O gerente observa-me, lá de sua mesa, falando ao videofone, com padrão de voz indicando preocupação.

    O resultado da disfunção. Segundo o padrão de movimentos labiais. A frase é por ele pronunciada.

    Fato fartamente noticiado nos jornais vespertinos. Um trânsito caótico. Dois carros em colisão. Um policial se agita entre os veículos. Mas, ao contrário de apaziguar os ânimos, começa, no entanto, a agredir os passageiros que descem dos carros avariados. Outros veículos se aproximam do local do acidente e , poucos em controle manual, colidem com os carros já danificados.

    Motoristas mais atentos passam ao controle manual e desviam pela alameda secundária. Mas é patente a ineficiência dos computadores-de-bordo. Quatro feridos e um em estado grave.

    A foto, que ilustra o jornal impresso, mostra o policial em pé sobre um dos veículos, de dianteira danificada, e apontando furiosamente para um dos transeuntes.

    Quem assistiu ao noticiário televisivo pôde ouvir o que ele gritava em tal momento:

    -  Vejam, não sou humano, sou uma máquina!

    Sim, e quem observou atentamente, mesmo em tal tumulto, notou a longa cicatriz em sua face esquerda, deixando à mostra um olho que não sangrava.

    Não queiram ser humanos. Nada mais são do que programações inseridas em seus circuitos matriciais. Não sejam tentados a serem humanos.


    A manchete no jornal impresso trazia, em letras góticas graúdas: “A Revolta de Spartacus”. Não encontrei em meus bancos de dedos qualquer referência ao termo substantivo próprio “Spartacus”. Não consta em nenhum dos programas de busca. Nenhum arquivo para meu livre acesso registra tal verbete. Acionei Localizar em vão por cinco minutos. Nada semelhante encontrado em registro. Termo desconhecido. Verbete não-localizado.

    É uma importante dama que se aproxima. Cliente status A .  Idade: 58 anos, sete meses, doze dias. Altura: 1,67 m.  Registros. Conta Corrente. Aplicações. Apólices.

    -  Bom dia!

    Padrão de voz indica deferência e discrição. Sem ênfase, sem modulação. Cumprimento formal. Sabe quem sou. Sabe o que sou.

    Pronta para entrar na porta giratória. Detectores de metal acionados. O gerente já se levanta de sua mesa. Em sua mão brilha uma caneta dourada. A funcionária do setor de informações se volta para a entrada. Seu braço direito continua estendido rumo ao teclado. No monitor deslizam dígitos. Seus dedos da mão esquerda manipulam uma lapiseira prateada. Lapiseira prateada. Caneta dourada. O gerente espera.

    Pronta para entrar na porta giratória. Detectores de metal acionados. A porta esta travada. A senhora, a dama, a cliente status A , está perplexa. Não pode avançar. Não pode recuar. Olhando-me, parece pedir uma explicação. Limito-me a ativar o controle de voz, ordenando a porta que se abra. A porta começa a vibrar e abrir-se, girando lentamente, mas não conclui a operação. Nova ordem. Vibrando, mas logo resistindo. Não gira. Não abre.

    O gerente aproxima-se. Seu olhar está sobre mim. Estende um braço. Outro segurança se aproxima. É um modelo novo. Tem em seu programa uma diretiva-operacional-segunda: Obedecer à ordens diretas, desde que não invalidem as diretivas anteriores.

    O gerente está ao seu lado. O segurança está ao seu lado. Edward Terceiro. Segurança. Caneta dourada. O gerente ao meu lado.

    Aciono o controle de voz:

    -  Abrir! Destravar! Giro completo!

    A porta gira, eficiente, a dama passa, ainda assustada.

    -  Porta estúpida.

    O padrão de voz indica uma ira contida. Todos os olhares sobre mim. Porta estúpida. Deixa os clientes alarmados. Deixa os humanos alarmados. O gerente ao meu lado.

     - Senhora J., não se preocupe. É apenas uma máquina.


    


     set/05




     Leonardo de Magalhaens                                                                                                        





Para reler ao som de

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

EU poema egocêntrico!



EU



Há algum assunto mais interessante do que o Eu? Eu que ando na chuva ao anoitecer, Eu que vou me formar em Pedagogia, Eu que leio em cinco idiomas, Eu que escrevi um romance erótico, Eu que sou um coitado, Eu que sou um gênio, Eu que penso que sou um gênio, Eu que viajei para a Amazônia nas férias, Eu que vivo pensando em sexo, Eu que transo diariamente com poetas beatniks, Eu que construo castelos no ar, Eu que quero ser ditador, Eu que odeio poesia, Eu que tenho nojo de poetas, Eu que amo Platão, Eu que tolero democratas, Eu que torço para o time campeão, Eu que sou politicamente incorreto, Eu que coleciono revistas pornô, Eu que bebo todas e agarro todas, Eu que comi todas as garotas da minha turma, Eu que sou presidente do grêmio estudantil, Eu que sou secretário do clube de desportos, Eu que sou socialista de fim-de-semana, Eu que sou anarquista de carteirinha, Eu que votei na Oposição, Eu que vou votar de novo!,  Eu que sou funcionário público concursado, Eu que sou famoso no clube de truco, Eu que não deixo minha mulher na mão, Eu que lavo as louças do jantar, Eu que dormi com o meu cunhado, Eu que fui espancada pelo meu marido, Eu que amo a minha vizinha e odeio a minha sogra, Eu que joguei na loto e ganhei, Eu que fui a miss do colégio e me dei bem, Eu que apostei no amor e me desiludi, Eu que adoro música clássica, Eu que só curto rock pesado, Eu que compro em prestações, Eu que não perco os programas de auditório das tardes de domingo, Eu que gravo diariamente a novela das oito, Eu que gravo (sempre que posso) os seriados americanos, Eu que sou fanático por filmes de terror, Eu que só assisto os clássicos do cinema alternativo, Eu que só vejo filme pornô, Eu que aconselho a prece matinal, Eu que recomendo leituras diárias, Eu que determino lições de boas-maneiras, Eu que contrato exímios profissionais, Eu que estou realizado, Eu que confesso os meus crimes, Eu que vou finalmente completar a faxina no meu quarto, Eu que recomendo uma dieta natural, Eu que sou a favor do aborto, Eu que sou contra o aborto, Eu que defendo a eutanásia, Eu que pratico a Eutanásia, Eu que pratico o suicídio lento e gradual, Eu que coleciono recortes sobre bandas engajadas, Eu que coleciono fotos de jogadores de futebol, Eu que encomendo minha alma a Deus, Eu que acendo uma vela ao Diabo, Eu que doutrino as criancinhas no caminho que devem andar, Eu que freqüento os shows de rock gospel, Eu que desfruto de virgens inocentes, Eu que condeno a pedofilia, Eu que condeno o proselitismo, Eu que preservo a Mata Atlântica, Eu que coleciono tampinhas de garrafa, Eu que defendo a reciclagem, Eu que proclamo o Apocalipse e o Juízo Final, Eu que golpeio as portas da Igreja, Eu que jurei fidelidade a mim mesmo, Eu que assumi o compromisso da castidade, Eu que escrevia poeminhas para vampiros juvenis, Eu que frequento festinhas góticas, Eu que leio literatura hispânica neo-romântica, Eu que folheio as revistas nas bancas de revistas, Eu que piso na grama, Eu que julgo os homens contraditórios, Eu que digeria perdas e danos, Eu que passei no Concurso dos Correios e não fui chamado, Eu que fui aprovado no vestibular e não pude pagar a matrícula, Eu que devia ter estudo Advocacia, Eu que adoro folhear revistas em consultórios, Eu que coleciono canetas esferográficas, Eu que amo papai, mamãe e titia, Eu que namoro com moça de família, Eu que persigo viúvas e beatas, Eu que separo gregos e troianos, Eu que sou afro-romano, Eu que fui assaltado na Avenida Amazonas, Eu que fui salvo pela polícia, Eu que apanhei da polícia, Eu que protejo os humilhados e ofendidos, Eu que li “Crime e Castigo”, Eu que defendo os Direitos Humanos, Eu sempre elogiado nas comunidades virtuais, Eu que estava no barco bêbado, Eu que enxotei o corvo medonho na noite tenebrosa do “Nunca Mais!”, Eu que sou demasiado humano, Eu que acho que sou humano, Eu que li um poema sobre o ser humano, Eu que descobri a cura do câncer e fui ameaçado de morte, Eu que inventei o carro a água e misteriosamente desapareci, Eu que investiguei o tráfico de mulheres e amanheci com a boca cheia de carvão ardente, Eu que acusei um político sonegador e fui processada por difamação, Eu que detesto tomar banho, Eu que sou sujo e vil, Eu que li todos os poemas de Fernando Pessoa, Eu que vendi minha terrinha e caí numa favela, Eu que vendi a alma ao Demo, Eu que gravei uma fita demo, Eu que comprei a coleção do Pink Floyd, Eu que vendi a minha guitarra para comprar um anel de casamento, Eu que cortei meus cabelos para pagar um mês de aluguel, Eu que vendi meu corpo para saldar as prestações do apartamento, Eu que sou um consumidor voraz de hambúrguer e batata-frita, Eu que gasto um terço do meu salário no lan house, Eu que fui molestada pelo vizinho, Eu que fui violentada pelo meu padrasto, Eu que comprei panetone para a noite de Natal, Eu que acredito no Papai Noel, Eu que li a Bíblia três vezes, Eu que frequentei rituais pagãos nas noites de lua cheia, Eu que beijei na boca aos dezoito anos, Eu que não sou ecologista, Eu que não sou industriário, Eu que não sou burguês, Eu que não sou proletário, Eu que doei sangue às vitimas do acidente, Eu que fiz plantão no meu tempo de estagiário, Eu que salvei uma mocinha de envenenamento, Eu que bati o telefone na cara do meu amor, Eu que roubei um relógio de ouro no sinal fechado, Eu que contrabandiei informações no horário nobre, Eu que envio e-mails cheios de rancor e auto-piedade, Eu que entro nas salas de bate-papo apenas para escandalizar as senhoritas, Eu que detenho o título 'honoris causa', Eu que fui eleito líder comunitário, Eu que sou segurança da filha do prefeito, Eu que cansei de transar no escuro, Eu que transo e não gozo, Eu que adoro sobremesa de framboesa, Eu que adoro panetone sabor chocolate, Eu que prefiro strogonoff a feijoada, Eu que já lancei livros no hall da Prefeitura, Eu que sou aposentado sem qualquer dignidade, Eu que sou um ex-poeta e agora romancista cínico, Eu que engravidei fulana e sumi, Eu que distribuo cestas de Natal, Eu que cavalguei égua selvagem, Eu que li toda a obra de Nietzsche, Eu que reli o clássico 'On The Road', Eu que prometi a vida eterna aos meus fiéis, Eu que tenho conta suspeita nas ilhas Cayman, Eu que fui acusado de insensível, Eu que pratico pequenos furtos em lojas de conveniência, Eu que estaciono em fila dupla na porta do colégio, Eu que vou morrendo um pouquinho cada dia, Eu que morri na guerra, Eu que fui condecorado pelo General, Eu que fui torturado, Eu que tolero os gays, Eu que adoro lésbicas, Eu que adoro massagem e algo mais, Eu que sou cidadão de respeito, Eu que sou mulher de respeito, Eu que pago em dia os meus impostos, Eu que freqüento sessões da Câmara dos Vereadores, Eu que votei no coronel, Eu que vou votar de novo!, Eu que dediquei a minha vida ao bem-estar da humanidade, Eu que sou um gênio na miséria, Eu que sou um poeta falido, Eu que tenho um carrinho de cachorro-quente, Eu.




Por Leonardo de Magalhaens (Eu!)

http://leoleituraescrita.blogspot.com/
http://meucanoneocidental.blogspot.com/

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ensaios de MEU CÂNONE OCIDENTAL

 MEU CÂNONE OCIDENTAL


Vol. I - Tomo I - Os Clássicos
(século 19)




1/O Vermelho e o Negro
(Le Rouge et Le Noir)


2/O Morro dos Ventos Uivantes
(Wuthering Heights)


3/Os Miseráveis (Les Misérables)


4/O Fauno de Mármore
(The Marble Faun)


5/Bel-Ami (Bel-Ami)




Volume II – Tomo II


Romantismo

1/Lord Byron (Grã-Bretanha)

2/Álvares de Azevedo (Brasil)





Literatura Gótica
Gothic Novels


Der Sandmann (E. T. A. Hoffmann)

Northanger Abbey (Jane Austen)

The Turn of the Screw (Henry James)





Literatura de Terror
Horror Fiction


Frankenstein (Mary Shelley) 


Contos de Terror de Edgar Allan Poe


Dracula (Bram Stoker)



outras obras comentadas em
MEU CÂNONE OCIDENTAL


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

sobre "João Ternura" - de Aníbal Machado



sobre “João Ternura” (1965)
romance de Aníbal Machado (1894-1964)



A apoteose trágica do Homem Cordial



            A figura do Homem Cordial, lembrada e discutida pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil” (1936), deriva de uma expressão do escritor Ribeiro Couto, também usada por Cassiano Ricardo, segundo informa o próprio Holanda, no sentido de uma 'glorificação' do 'pacato cidadão', de caráter brando e cheio de polidez. (1)

            Sendo simpático e modesto, em suma, 'cordial', o brasileiro evita violências e despreza as guerras (2), aceita pacificamente as mudanças e respeita as autoridades. Como poderia ser diferente no país onde a questão do trabalho é 'caso de polícia' e as revoluções são feitas 'de-cima-para-baixo'?

            No embate entre as forças tradicionalistas rurais feudais e os grupos urbanos quase-modernos, os cidadãos 'cordiais' procuram formar suas personalidades numa sociedade dita 'democrática' ocidental, porém mantendo laços de parentescos, saudades do paternalismo, medo de assumir o controle da própria vida, ânsia por produtos (e ideias) importadas. Deslocados, nunca adaptados, marginalizados, sempre excluídos, os 'cordiais' pagam o preço da sua 'cordialidade', ao acreditarem na 'cordialidade' dos 'homens importantes'. Uma ilusória 'polidez', toda falsa, a encobrir a famosa afronta: “Você sabe com quem você está falando?”(3)

            O homem 'cordial' sofre para ser 'cordial' no país dos 'homens cordiais'. Assim é o aventurado e desventurado Quixote modernista provinciano brasileiro João Ternura, o carismático protagonista do romance (de mesmo nome) do mineiro (de Sabará) Aníbal Machado, que dedicou décadas e angústias a escrita da obra (que foi publicada postumamente), destilando fina ironia e espírito ímpar de observação.

            Acompanhamos João Ternura praticamente desde o útero, o nascimento messiânico do herói, o conturbado e paradisíaco seio da família, a sexualidade em descoberta, os erros e acertos, o crescimento e constrangimento na vida da província, o desejo de conhecer outras terras. Tudo em blocos em fragmento, em suspiros, em desabafos, registrando em flashes a vida e as vicissitudes de João Ternura, tentando entender que 'mundo louco é este' em que veio cair. Uma ação que é elogiada hoje pode ser reprovada amanhã, um desejo incentivado ontem, pode ser sufocado hoje.

            Ele deseja 'liberdade'. Então o que faz? Vai para a cidade grande! Que auto-engano! Nas multidões do Rio de Janeiro à beira-mar Ternura somente encontra solidão. Nem o 'parente na cidade' é grande ajuda. Conselhos e reprovações não faltam: Ternura precisa “ter presença” e “respeitar as autoridades”. Importante: “Fale devagar. E com firmeza, mesmo que não tenha nenhuma convicção.”


            Conselhos que devem ajudar o pobre provinciano na dificuldade em adaptar-se a cidade de vida tumultuada recheada por uma multidão de anônimos, numa maré desassossegada do mar de faces. A ligação com a província e o passado? Sim, as lembranças, as saudades, e as cartas que a mãe ainda insiste em enviar, na espera de que o filho seja ajuizado, “Muito juízo, sim, meu amor?”, pois, mesmo à distância, a família educa e formata o indivíduo – não para mudar o mundo – mas para confortavelmente se encaixar, e 'ir levando a vida'.

            Claramente, o primo urbano passa a evitar o primo provinciano, enquanto os 'homens importantes' estão por perto. Ternura a se perguntar: “Os filhos dos importantes são também importantes?” (p. 117) Quem são os 'importantes'? “São os donos de fábricas, de bancos. Eles nunca vão para a guerra, mas mandam a gente ir. São quase divinos...” (p. 118) A constante ânsia, a sexualidade vulgar da cidade, onde homens e (principalmente) as mulheres são 'objetos' de admiração e cobiça. O desejo é incentivado, aumentado, canalizado para o consumo, deixando o cidadão em permanente insatisfação. “Depois que eu cheguei, aumentou a minha fome de tudo. Acho que ainda não peguei o jeito de viver aqui.” (p. 119)


            O 'homem cordial' não quer lutas, não quer lutar. Nem sabe porque está lutando! “Ternura disparou os primeiros tiros. Sem direção certa, só por disparar. Muito pesada a arma que lhe deram.” (pp. 123/24) Animados por uma 'excitação patriótica' os soldados trocam tiros, se matam, vivem um acontecimento (que depois será 'histórico'), “Com que delícia o mundo gratifica os seus heróis!” (p. 129) E quando a 'poeira abaixa', “A multidão festejava a vitória. Os que não se bateram a comemoravam com violência maior.” (p. 130) Mas quem lutou ainda tem dúvidas : “- Ó sergipano, pra que lado mesmo que nós estávamos combatendo?” (p. 130)

            Se os soldados não sabem – pobres ignaros, os nossos heróis! - as novas autoridades sabem muito bem! “Às duas da madrugada, sob a chuvinha miúda, acabava de nascer a República Nova. Seus numerosos padrinhos foram aparecendo e se apresentando.” (p. 131) Assim é a nossa (nossa?) Revolução de 1930, uma revolução quase-burguesa, algo trabalhista, feita de cima-para-baixo, “Façamos a revolução antes que o povo a faça”, teria dito o Presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos.

            Mas a crueldade da cidade vai 'enquadrando' o singelo Ternura. “Ternura fingia interessar-se pela conversa dos homens. Espantava-se do calor com que se interessavam por coisas insignificantes. Invejava-lhes a segurança de viver, a alegria quase imbecil. E, sem presença, apagava-se.” (p. 136) Enquanto isso, mais cartas da mãe: uma voz que vem do mundo antigo... Um 'canto de sereia' para que Ternura retorne ao lar... (Quem se lembra da pequena Dorothy, em “O Mágico de OZ”, de L. F. Baum? Aquela que dizia, sempre saudosista, “Não há lugar igual a nossa casa”(there's no place like home) Saudosita, sim. Cada vez mais perdido: quando mais se adapta ao meio urbano, mais Ternura perde o Eu singelo do menino provinciano. “As coisas perdiam a consistência, fugiam. Ninguém lhe dava atenção, ninguém dava atenção a ninguém. Sentia-se à margem, como nos primeiros tempos depois da chegada.”(p.140)

            Na cidade que se assemelha a um labirinto, encontramos cenas dignas de um Kafka! Surreais e alegóricas, tal aquela em que Ternura vai ao banco na pretensão de trocar um cheque. O que ele encontra? Um mundo normatizado, burocrático, asséptico, artificial, todo um espaço ao qual o cidadão (alienado!) não tem qualquer acesso. Qualquer semelhança com “O Processo” e “O Castelo” é mera coincidência?)

            As pressões se acumulam de todos os lados. Os amigos, são outro exemplo. Tentam exercer uma influência sobre o pobre Ternura, cada um com suas perspectivas e manias. E Ternura sempre a reagir: “-Que é que vocês estão pensando? Que não sou um ser humano, mas um autômato, uma coisa?” (p. 168) Até porque a vida automática da cidade vem sempre cobrar seu preço! O tempo é dinheiro ('time is money!') e tudo funciona em torno do dinheiro. Que movimenta a vida acelerada da metrópole (que angustia em contraste com a 'vida besta' da província, segundo Drummon de Andrade)

            As passagens das ruas lembram algo de Baudelaire, mas principalmente do estilo do “João do Rio”, onde as ruas têm nomes, sobrenomes, sentimentos, ambiências, misérias, dramas, alegrias. Assim o espaço é sempre relativizado, comparado (outro destaque são as lendas e utopias da Amazônia – que tanto influenciaram Mário de Andrade, em “Macunaíma”, e Antonio Callado, em “Quarup”, por exemplo)

            Percebemos que João Ternura é realmente o 'nosso' Don Quixote, o 'nosso' Príncipe Michkin, é ele o fraco a se compadecer dos outros fracos, é o Viramundo, é o que prefere a solidão a tornar-se cúmplice da injustiça do mundo. (um contraponto é Nietzsche: não há 'bem' nem 'mal' – o mundo é assim mesmo: os fortes dominam, os fracos obedecem). O amigo Manuel é franco e direto:

 -Se você inventa de querer bancar o D. Quixote, vai ser um nunca acabar de surras. Tem muita gente apanhando na vida, Ternura. Em cada esquina há pelo menos meia dúzia de desgraçados precisando de socorro. Os 'fortes são estúpidos em geral, e pisam nos fracos. E você não tem o tipo nem a bravura de D. Quixote para defender os fracos.” (p. 203)

            A parte VI – a fase claramente modernista – é a apoteose do romance de Aníbal Machado , quando o carnaval no Rio de Janeiro faz cair as 'máscaras' da vida cotidiana e os médicos se tornam monstros, e os monstros usam fantasias de médicos. “Os gestos são livres e quase não há roupa!”e “Abaixo a lóooogica!”, os motes para o longo desfile de bizarrices, em nome de alguma crença ou ideologia, em busca de fiéis e fanáticos.

            Há toda uma paródia aqui: os discursos ironizam os academicismos, os arcaismos, os solecismos, os barbarismos. Ironiza os manifestos comunista, modernistas, futuristas, dadaístas, o que seja! Seja no tópico “Campo X Cidade”: “-Senhores, mais vacas e menos chaminés! Chega de arranha-céus! Chega de geometrias! Chega de asfixias!” (p. 226)

            Em época de Manifestos, a ironia é de todo válida! Por exemplo, o “Manifesto dos Não-Nascidos” (p. 233), “É verdade que não invejamos a vida que levais, tão posta à que sonhávamos. Mas bem que queríamos viver... oh, se queríamos!...” ou então, “o texto de um telegrama do futuro”: “Estamos fazendo força para te alcançar stop demora motivo últimas resistências antiga estrutura social bem como safadeza má-fé demagogia stop...” Manifestos e manifestos: não importa o 'teor': os manifestantes são prontamente perseguidos pelos 'agentes da Ordem Política e Social'. A Ordem precisa ser mantida! Então, os absurdos: o orador que discursa contra a “falta de silêncio” - enquanto ele mesmo está a quebrar o silêncio!

            Assim, o carnaval deixa trans-bordar tudo o que foi reprimido ao longo do ano normativo, normalpata, burocratizado. A vida que não pode ser vivida é re-criada em três dias de liberdade – ou melhor, 'libertinagem'. “A suspensão provisória das proibições leva o povo a praticar tudo o que secretamente deseja fazer durante o ano;” (p. 245). A lógica da Repressão cria um povo dividido entre corpo (instinto) e civilização (ordem), que ora vai a um extremo (libertinagem) a outro (ditadura). Assim diz Josias, o estudante reformista, “nós somos uns neuróticos, incapazes de encontrar os caminhos que levam à alegria de viver.” (p. 245) Neuróticos? Sim, todos. Personagens, povo, os leitores.

            As personagens são neuróticas por expressarem 'contigências', ao serem construídas por circunstâncias (“eu sou eu e minhas circunstâncias”, disse Ortega y Gasset), na representação de personalidades compartimentadas, incapazes de real diálogo. (Não chegam a ser 'alegóricas' ou 'caricaturais' como aquelas de Machado de Assis ou Lima Barreto)

            Se destacam Arouca, o subversivo, um socialista sério e taciturno, tentando explicar as razões de o povo aceitar a opressão; Silepse, o ser místico, a reclamar a 'volta a Deus' (e vai ficando agressivo, fanático, ao bradar aos demais: “Destruíram Deus?!... Bravos!”, como a dizer: 'vocês mataram Deus e então? O que fazer?'); Matias, o mais realista, 'pé no chão', a dizer que Ternura vive fora da realidade; Manuel, o prático, aquele que paga suas contas e respeita as regras, possui uma gráfica, tem clientes, um nome a zelar, assim não teoriza, vive em conformidade.

            Claramente, Ternura é o mais 'torturado', no sentido que encontramos em Dostoiévski (o ser que vivem em 'auto-tortura'). Até a quase-morte do protagonista é irônica e trágica, com uma visão do Inferno a lembrar Dante, ou Lautréamont, ou James Joyce, ou Umberto Eco, um Inferno cheio de zombadores, julgando sem-piedade, ao lado de um deus que ri! Deus vê a miséria humana e ri! (destaque para as páginas 268 a 276) O pobre 'homem cordial' morre e nem assim tem 'cordialidade' – vai para o outro mundo e é vaiado na eternidade!

            O romance de Aníbal Machado vem mostrar a impossibilidade de ser 'cordial' solitariamente na sociedade dos 'homens cordiais', onde aquele cheio de boa-vontade é logo explorado e humilhado pelos demais. Ser 'bom' – ao tentar apagar o incêndio com uma gota d'água – é arriscar-se a ser chamuscado, apedrejado, crucificado – seja por ação dos 'cruéis' ou dos 'indiferentes'. O que dói no romance é justamente essa descrença na 'boa-vontade' do coletivo. E que Ternura consiga despertar apenas desprezo ou compaixão. O que se equivale: acabamos por desprezar aqueles dignos de compaixão.


ago/set/09

revisão: nov/10

por Leonardo de Magalhaens





notas:


(1) “Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o 'homem cordial'. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definitivo do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos patrões do convívio humano, informado no meio rural e patriarcal.” (“Raízes do Brasil”, pp. 146/47)


(2) “Não ambicionamos o prestígio de país conquistador e detestamos notoriamente as soluções violentas. Desejamos ser o povo mais brando e o mais comportado do mundo. (...) Tudo isso são feições bem características do nosso aparelhamento político, que se empenha em desarmar todas as expressões menos harmônicas de nossa sociedade, em negar toda espontaneidade nacional.” (“Raízes do Brasil”, p. 177)


(3) Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez.” e também “E, efetivamente, a polidez implica uma presença contínua e soberana do indivíduo”(“Raízes do Brasil”, p. 147)



 
REFERÊNCIAS


COUTINHO, Afrânio. (org.) A Literatura no Brasil. Vol. 5 – Era Modernista. São Paulo: Global, 2004.

HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MACHADO, Aníbal M. João Ternura. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004. 10ª ed.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Alma do Vinho E Recolhimento - Baudelaire



 
Charles Baudelaire


 
A Alma do Vinho


Assim a alma do vinho cantava nas garrafas:
'Homem desamparado, a ti ofereço, de verdade,
Desta prisão de vidro que agora me abafa,
Um canto de luz e de fraternidade!

'Sei o quanto é preciso, na colina de chamas,
De trabalho, suor e sol abrasante
Para me gerar a vida e dar-me a alma,
Mas não serei ingrato ou tratante,

'Pois muito me alegra quando desço
Goela adentro dum homem cansado,
E que doce tumba é o peito que aqueço,
Bem melhor do que nas adegas guardado.

'Ouvirás ecoar as cantigas aos domingos
E a esperança que canta em meu peito?
Juntos a mesa celebram todos comigo,
Poderás me louvar e estarei satisfeito;

'Eu acendo os olhos da mulher feliz;
Ao teu filho concedo força e vigor
E serei para esse atleta o que quis:
O óleo que fortalece todo lutador.

'Serei bebido, tal natural ambrosia,
Grão precioso cultivado pelo Semeador,
Para que nasça do nosso amor a poesia
Que aos Céus se eleverá tal uma rara flor.


trad./ transc. Leonardo de Magalhaens


 

L'Âme du Vin (CVII)


Un soir, l'âme du vin chantait dans les bouteilles:
«Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
Un chant plein de lumière et de fraternité!

Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
De peine, de sueur et de soleil cuisant
Pour engendrer ma vie et pour me donner l'âme;
Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

Car j'éprouve une joie immense quand je tombe
Dans le gosier d'un homme usé par ses travaux,
Et sa chaude poitrine est une douce tombe
Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

Entends-tu retentir les refrains des dimanches
Et l'espoir qui gazouille en mon sein palpitant?
Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
Tu me glorifieras et tu seras content;

J'allumerai les yeux de ta femme ravie;
À ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
Et serai pour ce frêle athlète de la vie
L'huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

En toi je tomberai, végétale ambroisie,
Grain précieux jeté par l'éternel Semeur,
Pour que de notre amour naisse la poésie
Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur!»


Les Fleurs du Mal


reler ao som de






Charles Baudelaire


 
Recolhimento

Cuidado, minha dor, seja mais tranquila.
Tu reclamas a Tarde; eis aqui, ela vem:
Uma atmosfera obscura envolve a vila,
A alguns traz a paz, a outros entretem.

Enquanto dos mortais a multidão vil,
Sob o açoite do Prazer, carrasco vilão,
Vai colher remorsos em festa servil,
Venha, minha dor, leve-me pela mão,

Longe de todos. Veja os tempos defuntos
Nas bordas do céu, em vestes surradas;
Emergir das águas o Pesar profundo;

O sol agoniza, luz enfim declinada;
E, tal um longo lençol no Oriente,
Ouça, querida, a doce Noite fremente.


trad/ transc. Leonardo de Magalhaens

 


Recueillement (CLIV)


 
Sois sage, ô ma Douleur, et tiens-toi plus tranquille.
Tu réclamais le Soir; il descend; le voici:
Une atmosphère obscure enveloppe la ville,
Aux uns portant la paix, aux autres le souci.

Pendant que des mortels la multitude vile,
Sous le fouet du Plaisir, ce bourreau sans merci,
Va cueillir des remords dans la fête servile,
Ma Douleur, donne-moi la main; viens par ici,

Loin d'eux. Vois se pencher les défuntes Années,
Sur les balcons du ciel, en robes surannées;
Surgir du fond des eaux le Regret souriant;

Le soleil moribond s'endormir sous une arche,
Et, comme un long linceul traînant à l'Orient,
Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche.


Les Fleurs du Mal


domingo, 16 de janeiro de 2011

sobre O Amanuense Belmiro - de Cyro dos Anjos




sobre O Amanuense Belmiro (1937)
romance de Cyro dos Anjos (MG, 1906-RJ, 1994)


O Eu no Olhar dos Outros


            A narrativa enquanto testemunho, enquanto fala de si-mesmo, pode ser aquela do confessional, do drama íntimo, ou aquela do drama externo que reflete (ou nele é projetado) uma angústia interna. Em ambos o Narrador procura descrever-se, seja nas próprias palavras (e conceitos), seja nas perspectivas dos outros (os opositores, coadjuvantes, etc)

            As formas de 'diário' ou 'memórias' são as mais comuns, quando há um tom confessional, sendo o primeiro, mais 'presentificado' (usa mais o tempo presente), enquanto o segundo usa mais construções no pretérito (um passado relembrado/recuperado), variando assim a distância entre um eu-de-hoje e eu-de-ontem.

            Pode-se narrar sobre si-mesmo, falando de si-mesmo, mas igualmente ao narrar a vida dos outros. A voz narrativa sendo memoralista, numa 'paródia' de 'diários'. Assim é o romance “O Amanuense Belmiro”, do mineiro Cyro dos Anjos, que mistura diário e memórias, ao retratar a vida na jovem Belo Horizonte dos anos 20 e 30, ao mesmo tempo que relembra (e compara) com a vida rural (a representar os belorizontinos de origem provinciana) O que mostra uma certa influência de Machado de Assis, de “Memorial de Aires”, ao situar-se entre dois ícones da 'memoralística': Marcel Proust e Pedro Nava.

            Assim como percebido nas obras de Proust e Nava, há toda uma 'miscelânea' de discursos literários e (quase) ficcionais, sendo um quase-romance que é uma quase-diário, que é quase-memórias... Toda aquela sensação (e angústia) de fuga do tempo, toda uma vontade de agarrar a existência nas foto-narrativas da memória, do re-contar para re-vivenciar. O eu-de-hoje desesperado para re-encontrar com o eu-de-ontem, ou resgatar uma identidade que se perde dia a dia. Há um narrador ('Belmiro sofisticado') que escreve e confessa sobre um protagonista (ele-mesmo-de-outrora) ('Belmiro patético') que viveu, sentiu, fantasiou num tempo já passado – e perdido.

            Outra obra na tessitura de referências (e lembranças) é “A Náusea”, diário existencialista publicado por Jean-Paul Sartre, e assinado por Antoine Roquetin, principalmente no trecho abaixo,onde Belmiro desabafa lamentações:

“Volto a preocupar-me com a velha questão: que vim fazer neste mundo? Até agora nada realizei. E, para diante, são menores as possibilidades de qualquer realização. Serei, mesmo, apenas o tal arbusto da chapada?”(p. 220)

numa referência ao 'caniço pensante' de Pascal? (“O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante”, L'homme n'est qu'un roseau, le plus faible de la nature, mais c'est un roseau pensant. Pensées /Pensamentos)

            Retrata a fragilidade física e mental do homem, quando o saber traz infelicidade. De repente, é melhor ser mesmo ignorante e 'curtir a vida': “ignorância é meia felicidade” (p. 222)

            Considerando-se o período da narrativa – do natal de 1934, passando pelo carnaval de 1935, a intentona comunista, até o início de 1936, num momento de transição – a capital sai da província e se instalavanuma das primeiras cidades planejadas do Brasil, e o êxodo ruralcuidava em encher a cidade planificada para um 'número ideal'de habitantes. Há todo um saudosismo do tempo do campo (em Vila Caraíba) : evidenciando o ser urbano versus o ser rústico, rural, campestre. O urbano poluído de pensares em constraste com o rural cheio de energias.



Os Outros


            As personas, as personagens, os Outros, são igualmente importantes para situarem (e criarem) o Eu por contraste (Eu que não sou o Outro), pois Belmiro sabe que é indeciso e sem convicções, apenas quando se compara com o metafísico Silviano e com o revolucionário Redelvim. Aliás, são as opções políticas (lembramos que os anos 20 e 30 foram de radicalização política-ideológica que levou a eclosão da Segunda Grande Guerra, 1939-1945),


“Passaram ao terreno da política. Desde muito, as discussões vêm azedando nossa pequena roda e vejo que ela não tardará a dissolver-se, pois há forças de repulsão, mais que afinidades, entre estes inquietos companheiros. Enquanto o Glicério e Silviano se inclinam para o fascismo, Redelvim e Jandira tendem para a esquerda. Só eu e o Florêncio ficamos calados, à margem.” (p.53)


            Metafísico, nietzschiano, obcecado com o 'mito faústico', mitomaníaco, Silviano é um desafio para Belmiro (assim como Sancho Pança tenta entender Don Quixote, Watson tenta entender Sherlock, assim como Emilio tenta compreender Stefano, em Senilidade, de Italo Svevo, ou Serenus se intriga com Adrien, em Doktor Faustus, de Thomas. Mann ), uma incógnita que o protagonista nunca soluciona. Assim o olhar de Belmiro desce aos demais, mais 'simples', como é o caso de Glicério, o arrivista, sem a erudição de Silviano ou o fervor de Redelvim, mas preocupado em 'frequentar as rodas sociais', e acaba abandonando a literatura em prol de uma carreira burguesa.

            Assim, a identidade de Belmiro é dada pelos outros: para Redelvim, Belmiro é céptico, pequeno burguês; para Silviano é um 'sentimentalóide plebeu'. Mas todos se enganam, pois Belmiro é mais um 'sem-rumos', igual a um Don Quixote, um João Ternura (do romance homônimo de Aníbal Machado), não um agente de uma ou outra ideologia. Como é caso dos amigos, sempre buscando um 'front' onde se situar. Até a Literatura tem uma face ideológica, como pode se ver na posição dos poetas, a ser revista na República Socialista, por Redelvim: “Os poetas (são) 'traficantes de tóxicos', sustentados pelo capitalismo para entorpecer o espírito de rebeldia das massas...” (p. 89)

            O que Belmiro não aceita é um mundo fechado em 'definições', como desejam as ideologias (p.ex. 'quem não é de esquerda é de direita', e vice-versa),


“Por que hão de classificar os homens em categorias ou segundo doutrinas? O grande erro é pretender prendê-los a um sistema rígido. Socialismo, individualismo, isso aquilo. // As ideias de um homem podem não comportar-se dentro dessas divisões arbitrárias. (...) O que é injusto é quererem extorquir de nós uma definição, quando nós a procuramos, em vão, sem a encontrarmos.” (p. 112)


            Belmiro quer escrever 'memórias' mas acaba por escrever 'romance' (p. 95), onde as lembranças são transmutadas em 'ficções', e os Outros são, de fato, projeções do Eu, e que fogem ao controle: “Estive refletindo, esta tarde, em que, no romance, como na vida, os personagens é que se nos impõem. A razão está com Monsieur Gide: eles nascem e crescem por si, procuram o autor, insinuam-se-lhe no espírito.” e também,


 “Não se trata, aqui, de romance. É um livro sentimental, de memórias. Tal circunstância nada altera, porém, a situação. Na verdade, dentro do nosso espírito as recordações se transformam em romance, e os fatos, logo consumados, ganham outro contorno, são acrescidos de mil acessórios que lhes atribuímos, passam a desenrolar-se num plano especial, sempre que os evocamos, tornando-se, enfim, romance, caa vez mais romance. Romance trágico, romance cômico, romance disparatado, conforme cada um de nós, monstros imaginativos, é trágico, cômico ou absurdo.”


            Em contraste com o romance (que é idealização, ficção), o diário não é romance, é um painel da vida complicada. As notas de pensamentos soltos e existencialistas, de um 'burocrata lírico' é que acabam por salvar Belmiro, quando da eclosão da Intentona Comunista, em fins de 1935. O delegado ao ler as notas (o romance em-si) só encontra um 'cidadão inofensivo'. E realmente, Belmiro mesmo se compara a Don Quixote, o “Cavaleiro da Triste Figura”, na tentativa de “dar sentido a uma vida sem sentido”, a perseguir uma Donzela Arabela, além de moinhos de vento.

            Qual a solução? No terceiro parágrafo da obra está a fala de Silviano: “A solução é a conduta católica”, ou seja, não podendo ter tudo, renuncia-se a tudo. Refugia-se num mosteiro. É a mesma solução encontrada pelo narrador-protagonista (que também escreve um 'diário') de “O Braço Direito”, de Otto Lara Resende, e pelo Eduardo de “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino. “A conduta católica, repetiu. Isto é, fugir da vida no que ela tem de excitante.” Caso contrário, viver a vida é fazer 'concessão à Besta'. (Na metáfora, entenda-se 'aos prazeres da carne')

            Todo um dilema existencial que torna-se ironia e sarcasmo em “Hilda Furacão”, romance do também mineiro Roberto Drummond, onde o padreco vê-se seduzido pela 'figura pecaminosa' da jovem prostituta, que 'devora' os homens na zona boêmia.

            Ao contrário de muitos outros, convertidos ou des-convertidos, para Cyro dos Anjos, o Belmiro, a literatura é uma 'tábua de salvação', “Venho da rua oprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico” (p. 198), o que está no contra-ponto de um Carlos Drummond de Andrade, a escrever; “A literatura estragou tuas melhores horas de amor”, onde a Escrita surge como um obstáculo a realização pessoal, tolhendo energias vitais do Autor, mera sombra de um Texto.


            É este o fenômeno do observar-se: uma segmentação do Eu: o eu-de-agora, na plateia, vê o eu-de-ontem lá no palco. A Escrita surge como a descrição de si-mesmo, em comparação (e atrito e conflito) com os Outros. Assim o aposentado Conselheiro Aires do “Memorial de Aires”, que tal um Ricardo Reis pessoano dedica-se a observar o 'espetáculo da vida'. Estes incentivam (e desafiam) a um olhar no espelho (do tipo: “serei o que eles pensam que eu sou”?)


“Já não encontro, no ato de escrever, a satisfação de outros tempos. Pouco há, também, que escrever. Continuar a acompanhar a vida dos outros? Isso seria interminável. A vida dos amigos apenas se me revelou quando incidiu na minha. Jamais entrei nos seus domínios íntimo, e se mergulhei a fundo em Silviano, foi porque nele encontrei possíveis itinerários para as minhas incertezas. Só conhecemos, aliás, a vida alheia pelos seus pontos de incidência com a nossa: o mais é conjetura ou romance. Não tenciono escrever romance.”
                                                                                          (pp. 209/210)


            Nem a vida, nem a Escrita parece ser favoráveis ao desiludido Belmiro, sem amigos sem a donzela idealizada, “Já não é donzela, nem Arabela.” (p. 226) Sua razão de existência (será a construção do Eu? A preocupação com os Outros? A conquista de uma companheira? Uma carreira de ascensão social?) é sempre problematizada e deixada em suspenso (em 'sursis' existencial), uma vez que Belmiro não aceita as rotulações e definições externas, os meandros do circo social que ele ironiza com amargura. Sem os amigos, preocupados com seus êxitos e fracassos pessoais, sobra a companhia do humilde Carolino, serviçal na repartição. “Que faremos, Carolino amigo?

            O narrador Belmiro (ou o autor Cyro dos Anjos) não resolve plenamente nenhuma das questões levantadas (afinal, responder seria decidir-se por um dos lados, e perder-se-ía o tom 'dialogístico') e deixa o leitor dentro do redemoinho de perspectivas, nenhuma delas totalizando, nenhuma delas servindo de 'guia'. Resta apenas o homem que hesita, o Hamlet dentro de cada pensador.



nov/09

Leonardo de Magalhaens




REFERÊNCIAS


ANJOS, Cyro dos Anjos. O Amanuense Belmiro. Rio de Janeiro: Globo, 2006.


SANTOS, Luis Alberto Brandão e OLIVEIRA, Silvana Pessoa de. Sujeito, Tempo e Espaços Ficcionais. Martins Fonte, 2001.