segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

diante da paisagem urbana de BH




Poema de ocasião diante da paisagem urbana de Belo Horizonte

(releitura-paródia do poema “Westberlinstadtlandschaftsgelegenheitsgedicht
do poeta alemão Helmut Heissenbüttel (1921-1996))


quando se desce da estação de metrô ali na Praça da Estação
    pode seguir pelo cartão-postal para americano ver
    com direito a chafariz luminoso e leões de pedra
mas tome cuidado pois elementos suspeitos
     se deslocam pelas calçadas sujas de escarros
pode atravessar um túnel fétido para o bairro
      ironicamente chamado Floresta
pode subir para as calçadas dos botecos copo-sujo
      para tomar uma caipirinha ou cachaça com groselha
pode folhear revistas com artistas globais ou astros
     do esporte ou atrizes grávidas ou goleiro psicopata
pode conversar com os guardas municipais com os
     guardas de trânsito com os encarregados de obras
      com os vendedores ambulantes com as mulheres da vida
pode ver arte grafiteira fila de táxi promoção de bíblias
      CDs gospels empórios de tabaco garrafas de cerveja
pode esperar o ônibus à direita de quem sobe ou
     pode chamar o táxi à esquerda de quem desce
vai achar decadente e espectral as fachadas dos prédios
     clássicos e gélidas e indiferentes as fachadas dos edifícios
     pós-pós-modernos que projetam talos de concreto e vidro
toda a nossa Belô (para os íntimos) é uma enorme
      pintura estampada num muro com reboque descascado
projetada do alto da rua Sapucaí sobre a Aarão Reis
     tendo em primeiro plano a mancha amarelecida
     da vetusta Estação e o Museu de Artes e Ofícios com restos
     de engenhos e engenhocas máquinas e maquinários
pode ver a silhueta dos prédios quase arranha-céus
     pintados sobre o azul manchado de fuligens
uma atordoante aquarela urbana
enquanto os carros passam ruidosos ensurdecem
     o deslizar dos vagões do metrô na entrada da estação central
constante ida e vinda de vagões vultos humanos
     pressa sacolas bonés de times ianques livros best-sellers
eis a cidade onde peregrinou Roberto Drummond e Cyro dos Anjos
    e Pedro Nava e Emílio Moura e Murilo Rubião e
     Adão Ventura e Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos
onde estátuas de escritores petrificados observam
     o ir e vir de pressa sacolas pastas de executivos
     catadores de papelão biscateiros batedores de carteira
basta atravessar o Viaduro Santa Teresa basta subir a
     rua da Bahia basta virar à esquerda no Mercado das Flores
basta de abastecer de informações turísticas
     basta atravessar a Rua Goiás basta atravessar a
      Avenida Augusto de Lima divisar o Condomínio Maletta
      vislumbrar o Castelinho gótico fotografar a
      fachada da Imprensa Oficial
subir Bahia e buscar o oásis da Praça da Liberdade
    agora centro cultural depois que o Governo Estadual
    se mudou para o Country Club, digo, Cidade Administrativa
atento para não ser atropelado na Gonçalves Dias
    ou esmagado na João Pinheiro ou assaltado na Bias Fortes
pode se chegar ao cinema-arte ao cinema-alternativo
    longe das padronizadas salas de cinema de shopping-center
    depois que os bispos e pastores compraram as salas
    de cinema espalhadas outrora no hipercentro
    Cine Odeon Cinema Brasil Cine Acaiaca
    Cine Tupis Pathé Glória Palladium Avenida
pode cruzar a Praça Sete pode sobreviver à Praça
    de Rodoviária pode vislumbrar o Acaiaca e as carrancas
    dos índios de concreto
pode fazer o sinal-da-cruz diante da fuliginosa
    igreja de São José pode deixar uma moedinha
     aos pés do mendigo mais próximo
pode esperar o domingo de manhã para caminhar
    na feira de artesanato entre mestres da capoeira
    entre vendedores de bijouterias entre artistas hippie 
    de cabelos trançado e chinelas sertanejas
pode peregrinar até a igreja da Boa Viagem
    tropeçando em flanelinhas e fezes de pitbulls
turistas chineses ianques argentinos franceses
    ingleses portugueses japoneses com câmeras
    blusas multicores óculos raybans carteiras cheias
    de cartões de crédito e olhares vazados de curiosidade
    na exposição de pernas morenas braços tatuados
    pés descalços shorts à mostra seios inchados
    nádegas transbordantes dentes faiscantes
ou um almoço no PF mais próximo com
    direito a uma 'caninha' e uma porção de fritas
    com rodelas de cebola e mostarda
ou um hot-dog gorduroso entre as mocinhas de
    bolsas floridas e chinelas singelas ou um hamburguer
    entre velhinhas com 10% de charme e 90% de cosméticos
    entre casais entre beijos e beijocas e outros lugares-comuns
meio ao trânsito que se desvia em ruas vielas becos
     e se paralisa em congestionamentos
nas avenidas demolidas e ampliadas
    nos viadutos povoados de mendigos e putas
    fedendo a mijo e vômito nas brumas noturnas
    de fumaça e fumacê
eis o tráfico de drogas e corrupção a olhos vistos
    só não vê quem não quer ou foi cegado pelos
    cacos de vidros ou ácidos sufúricos dos meninos e meninas
    de rua anjos e demônios vítimas e carrascos
Belô é uma aldeia grande, os transeuntes dizem,
    as mulheres traficam informações sobre casais
    e infidelidades e comentam as compras de
    fim-de-ano entre promessas de mercadorias
    e satisfação garantida
entre os olhares de vendedores de compradores
    de vencedores de perdedores de endinheirados
    e excluídos
pode ser que Vossa Senhoria se reconheça numa
foto desbotada de um sonho positivista-modernista
    a cidade planejada de Aarão Reis e que ficou
    só na ideia e no papel
com seu tabuleiro de xadrez infestado de restos
    humanos roedores baratas ratazanas assombrosas
    e guardas relapsos e bandidos geniais e loiras
    fantasmais e cemitérios-metrópoles de arte funérea
cidade-capital isolada entre cidades-dormitório
    e cidades-industriais e cidades-penitenciárias
    e cidades-turísticas e cidades-museu
    com novas chaminés e novas senzalas e novas
    casas grandes e novos cortiços e
Gruta da Maquiné igreja de São Francisco de Assis
   Lagoa dos Ingleses Mina de Morro Velho
   Aeroporto de Confins Museu da Inconfidência
   Casa dos Contos Palácio dos Governadores
    igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo
    Santuário dos Senhor Bom Jesus de Matosinhos
    Adro dos Profetas em Congonhas
    Matriz de Nossa Senhora da Assunção
enquanto a vida barroca se resguarda no mundo
    pós-moderno de celulares e note-books e ipods
    se resguarda entre fibras ópticas os despachos
    de esquinas em bairros de classe média média
    e ciganas que trazem os amantes em 24 horas
    e pais-de-santo que curam e amaldiçoam mediante
    uma generosa oferenda
pode Vossa Excelência vagar confortavelmente
    em busca de diversão mulheres travestis boates motéis
    ao longo de avenidas interregionais alamedas escuras
    anéis rodoviários alças viárias marginais
obras superfaturadas de polpiticos da situação
    e da oposição de direita e de esquerda de centro
    e de conveniência
nisto que chamamos de cidade
mas não passsa de suburbanismo
gaiola de loucos neurotizados  e psicopatas
    em potencial basta que subam num carro importado
     e passem por cima de sinais placas radares pedestres
     guardas com bloquinho de multa na mão
a velocidade espasmódica da modernidade doentia
    incapaz de digerir a História ou se deixar digerir
     pela História com ou sem Ordem e Progresso
na deformidade de cobiça de eternidade e efemeridade
    querendo o Céu e o Crédito & Débito o Paraíso e condomínio de luxo
    a Redenção e o iate em Búzios o Trono do Altíssimo
    e a casa de campo com varanda colonial
neste vale entre mar de morros que chamaram
     de Belo Horizonte
mas nem se vê horizonte nenhum
     nem que Vossa Santidade suba ao morro
     à Praça do Papa onde cada polegada é
      'propriedade particular – não entre'
onde paga-se para respirar o ar e a fuligem
     e o privilégio de ser envenenado pelo carro
     último modelo de marca nipônica
e mesmo que se descrevesse todo o guia turístico
      de nossa bela vertical capital
Vossa Sapiência ainda se permitirá acreditar
    que tudo não passa de um cartão-postal
    que é vendido por alguns reais – entre 10 e 15
    dependendo do estabelecimento comercial -
    com imagem propagandística de 'cidade com o melhor
    nível de vida' ou algo assim – que a vida não para
    os problemas não acabam nem vão acabar
pois alguém precisa lucrar e precisa haver outra eleição.



BH, 28nov & 02dez10


Leonardo de Magalhaens


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

sobre SERAFIM PONTE GRANDE - de Oswald de Andrade



sobre “Serafim Ponte Grande” (1933)
do poeta e escritor brasileiro
Oswald de Andrade ( 1890-1954)


A visão do Brasil na saga de Serafim


Visões do Brasil

Enquanto um dos mais ativos representantes da geração modernista no início do século 20, o poeta e escrito Oswald de Andrade lançou um olhar irônico sobre a realidade brasileira, numa visão carnavalizada do que seria o Brasil – 'que país é este?' - no formato de uma literatura feita de fragmentos e poemas-piada.

Afinal, a visão de Brasil sempre foi mutável. Antes do achamento (ou descobrimento) os europeus já tinham uma 'visão do paraíso', do que julgavam encontrar aqui nestes trópicos. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda trata desta 'visão edênica' em livros tais como “Visão do Paraíso” e “Raízes do Brasil”, que apresentam todo um 'imaginário' do período histórico.

Na obra “Visão do Paraíso” (1959), o historiador Sérgio Buarque de Holanda descreve as esperanças dos navegadores europeus quanto a um suposto “Éden” na América, onde 'bons selvagens' viveriam num “paraíso terrestre”, o “horto das delícias”, uma “terra sem mal”, semelhante aquele da descrição bíblica. Eruditos e religiosos seguiam em debates acalorados sobre a localização de tal Paraíso, aquele El Dorado que fazia delirar os navegantes, aquelas civilizações sem pecado, vivendo em integração com a Natureza.

Justamente a exuberância da Natureza seria uma das marcas da terra brasileira, enquanto local de exploração de novos produtos. Pau-brasil, madeira-de-lei, frutos tropicais, escravos indígenas. Uma exuberância de flora e fauna que não era desabitada, ao contrário, era povoada por homens e mulheres estranhos à civilização, ou seja, a cultura europeia. Viviam em sensível integração com o mundo natural. O fato de tais populações não desenvolverem artigos de cultura – propriamente pólvoras e armas de fogo  –é que possibilitou aos europeus – portugueses e espanhóis, principalmente – o domínio e a colonização das 'novas terras' num época de Grandes Descobrimentos (a expansão do mercantilismo de base capitalista).

Atualmente encontramos toda uma bibliografia de obras que procuram reconstruir - de forma histórica ou ficcional – as origens do Brasil colônia. A mescla de História e jornalismo celebrizou as obras de Eduardo Bueno na cultura pop, tais como “A Viagem do Descobrimento” e “Náufragos, Traficantes e Degredados”; além do romance “Terra Papagalli” de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta que re-cria as experiências de um grupo de degredados antes da expedição de Martin Afonso (1530), quando a Coroa portuguesa resolveu se apossar realmente do 'novo mundo' tropical ameaçado por 'hereges' holandeses, ingleses, franceses, além dos concorrentes espanhóis.

Também lembramos de um conto de Fernando Bonassi, “15 Cenas de descobrimento de Brasis”, de 1999, onde a história nacional sofre todo um processo de des-construção. Devido a fragmentação não se permite uma 'colagem', daí o uso do plural “Brasis”, pela pluralidade de decepções que cerca o sonho do “País do Futuro”, aquele do “Ame-o ou deixe-o”, nos ápice das miragens e “milagres econômicos”. Tudo se confunde, o anti-herói, a prostituta, a filhas prostituídas do índio, os devotos e os homens-de-negócio. A des-construção abrange as personagens e o tempo, destruindo os traços de causa-e-efeito, as 'causalidades' de uma 'sucessão temporal', um suposto “processo histórico”, incapaz de explicar porque uma terra tão promissora se tornou tão frustrante, tão excludente e miserável.
                                                                                                                                 
Enquanto se espera uma narração histórica linear, com os fatos expostos em ordem cronológica, com datas, eventos, interpretações, em espaços definidos, os fragmentos do conto acabam por se desviar de qualquer explicação ou ordenamento histórico. As cenas se sucedem sem ligação, arrasando todos os projetos de construção de uma Nação, explicitando as misérias, a exploração dos indígenas, a prostituição infantil, o cidadão entregue às crenças e crendices, ausência de cordialidade, a incapacidade de ‘pensar coletivo’ (quando cada um se julga perseguido por um suposto destino, assim individualizando os problemas), ou seja, em resumo, uma impossibilidade de ascensão nacional, o Brasil ainda pensando enquanto Colônia. É o que rompe toda a cronologia.


Modernismo: tradição, folclore e vanguardas


Justamente este rompimento de cronologia – ou saltos cronológicos – são marcantes na obra modernista de Oswald de Andrade, “Serafim Ponte Grande”, escrita em 1928, e publicada em 1933. Não há exatamente uma linearidade, uma narração contínua, um narrador onisciente ou personagem que coordene os fatos. As múltiplas formas de discurso – ou gêneros – são apresentados, despejados sobre o olhar do leitor, que terá a missão de decodificar o 'enredo'.

Paródias de cartas, telegramas, receitas culinárias, peças teatrais, narrativas de guerra ou de viagens, diários de bordo, glossários, óperas bufas, literatura erótica, folhetins, etc, com experimentalismos de linguagem – neologismos, transtornos sintáticos, termos tupy-guarani, recortes-montagem (ao estilo cubista), absurdos cronológicos e geográficos, em suma, o autor pretende seguir aquela ideia do futurista russo Maiakovski, para quem “não há arte revolucionária sem forma revolucionária.”

E não apenas Oswald de Andrade apreendeu esta 'forma revolucionária'. Muitos nomes do Modernismo se destacam nas revoluções de forma e conteúdo – novas temáticas com novas formas de apresentar os temas – de modo que pretendem 'atualizar' a literatura nacional, não mais se referendar por artes estrangeiras. Não mais importar, mas exportar – como escreveu Oswald no “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, de 1924, “Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.”

A busca por uma nova 'forma' está presente em vários autores da época, seja em prosa ou poesia. Qual linguagem seria a 'brasileira'? Uma fala criada na mestiçagem da expressão lusitana, do coloquial africano e indígena? Explica-se assim a fartura de termos e expressões tupy-guaranis? De comes e bebes de origem afro? De danças e rituais dos povos nativos?

Parece haver uma mescla de 'coisas da terra' com 'vanguardas', onde um romance (ou 'rapsódia') “Macunaíma” (1928), do também modernista Mário de Andrade, apresenta-se numa miscigenação de lendas indígenas, 'causos' cablocos, lendas caipiras, retórica parnasiana, herói picaresco, em suma, um desordenamento carnavalizado do que seja 'cultura nacional'. O autor erudito transveste-se de 'leitor das tradições' – o mundo do folclore – em nome de um lançar-se ao futuro – as 'vanguardas'.

Em comparação, “Serafim” é mais modernista – tanto na forma quanto nas temáticas – do que “Macunaíma” - que tem certa inovação estilística na forma, mas o 'tema' é baseado em (recuperados de) lendas indígenas, um patrimônio cultural conservado oralmente ao longo de gerações, e que foi registrado mais recentemente. A forma é basicamente uma 'costura' de 'releituras', quando não paródias, das lendas. Assim é uma forma nova para uma série de temas tradicionais (visto que folclóricos).

Assim também o Brasil do futuro parece estar num passado a ser resgatado – ou numa região interiorana – assim as personagens folclóricas, as narrativas da Colônia, as lendas do Pantanal  ou da Amazônia, dos igapós e das chapadas, passam a coabitar os textos mais 'vanguardistas'. Nossos modernistas não pensam definitivamente como o futurista italiano Marinetti, ao abolir o passado, em seu “Manifesto Futurista”, 1909 (“Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo tipo”)

Basta uma leitura das obras modernistas de vanguarda – no primeiro período do Modernismo – para perceber o quanto o tradicional-folclórico se mescla ao vanguardista-moderno. É o caso do 'verdeamarelismo' com toda uma face de 'neo-indianismo' (ou a questão do 'tupy or not tupy', como diria Oswald) ou de uma 'língua não-catequizada'. Vejamos. “Cobra Norato” (1931) de Raul Bopp tem toda uma linguagem surrealista ao tratar de temáticas de fundo indígena, ou “Martim Cererê” (1928), de Cassiano Ricardo, emprega tons expressionistas para recontar a História brasileira, com índios, curupiras, bandeirantes, curumins, gigantes, jesuítas, imigrantes, burgueses, numa imenso painel tal qual se apresenta o 'muralismo' mexicano nos paineis de um Diego Rivera.


Serafim Ponte Grande : uma saga


Conhecedores do contexto – o modernismo brasileiro – poderemos adentrar o texto. Numa época de transformações macroeconômicas, que de certo modo, determinam os construtos culturais – segundo uma perspectiva marxista – não é de se espantar que tenha sido do ventre da burguesia paulista o parto da Semana de Arte Moderna de 1922. (1) Sob patrocínio de muitos artistas, burocratas, barões do café, a semana pretendia formular – e apresentar – o 'moderno', ou seja, o que era de vanguarda. Isso num contexto europeu. Afinal, as condições mesológicas (do meio nacional) eram de, digamos, feudalismo, medievalismo. Afinal, nem uma 'revolução burguesa' ainda acontecera (aquela que muitos situam em 1930, e outros em 1964).

Oswald de Andrade não pretendia fazer História ou algum ensaio/relato de historiografia. Sua escrita tende mais ao 'individualismo anárquico' (posteriormente, o Autor se engajaria nas esquerdas radicias, de ideologia comunista) do que ao registro dos movimentos coletivos, dos quais ao menos tem consciência. O próprio confessa em prefácio,

“Continuei na burguesia, de que mais que aliado, fui índice cretino, sentimental e poético. Ditei a moda Vieira para o Brasil Colonial no esperma aventureiro de um triestino, proletário de rei, alfaiate de Dom João 6º.

Do meu fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo. Servi à burguesia sem nela crer. Como o cortesão explorado cortava as roupas ridículas do Regente.”


Porém ao manter o foco numa personagem – no caso, o Serafim Ponte Grande - em narrativa que mescla 1ª com 3ª pessoa – o Autor mostra por contraponto – por efeito de imagem-fundo – a moldura nacional. Serafim não representa o 'brasileiro', assim como o Jeca Tatu é uma imagem do caboclo, do 'caipira'. Seria mais uma representação da classe média alta – quem se envolve com cultura, arte e literatura? Quem viaja em transatlântico? Quem vai flanar  pelos boulevards parisienses? Quem se passa por 'barão'? Entenda-se. O Serafim é um 'tipo' e concentra um tom de crítica, na qual não poupa a si-mesmo – autocrítica é o que não falta aos 'modernistas'.

Crítica à classe social dominante, ao modelo de país, ao atraso cultural (entenda-se, em relação à Europa), crítica ao artista pouco engajado, tudo isto se mistura no tom irônico-cínico-amargo de “Serafim Ponte Grande”, que não poupa a imagem do país, envolto em hipocrisia e alienação. As personagens tem pouco ou nenhum caráter – por exemplo o Pinto Calçudo lembra algo de Macunaíma, sem a alegoria deste último – pois servem mais à 'carnavalização'.

A pastiche, a paródia, o chiste, a piada percorrem toda a narrativa – fragmentada, caótica, cubista, mais sugestiva que descritiva – aliando a crítica ao riso. (Estilo que a teledramaturgia brasileira identifica em Machado de Assis, como um velho dado ao deboche, pura e simplesmente.) Serafim não pode ser levado a sério – e nem ele se leva. Interpreta personagens – o burguês, o literato, o barão no cruzeiro marítimo, o viajante-peregrino no Egito, na Palestina (onde vem a descobrir que “Cristo nasceu na Bahia” (!). A própria paisagem mundial está em referência ao 'eixo' brasileiro-paulista. Na Palestina “fazia uma lua paulista” ou o quarto de hotel lembrava “um hotel de São João del Rei” - ou seja, o viajante carrega o país consigo.

O País que ele ama e odeia. Reverencia e ironiza. País que vale um a luta? As revoltas paulistas – em 1924, 1930 e 1932 – mostram uma insatisfação depois de uma era de 'política do café com leite' – quando as elites de São Paulo e Minas Gerais se alternam no poder federal – além de uma noção de perda do poder – os paulistas se sentem como uma 'locomotiva' e desejam liderar o país não apenas economicamente, mas sobretudo politicamente. A visão de Brasil é uma visão de São Paulo-liderando-o-Brasil.

“Um vento de insânia passou por São Paulo. Os desequilíbrios saíram para fora como doidos soltos. A princípio nas janelas, depois nas soleiras das portas. O meu país está doente há muito tempo. Sofre de incompetência cósmica. Modéstia à parte, eu mesmo sou um símbolo nacional. Tenho um canhão e não sei atirar. Quantas revoluções serão necessárias para a reabilitação balística de todos os brasileiros?” (p. 76)

e também,


“Os paulistas vão e voltam, bonecos cheios de sangue.

Mas a revolução é uma porrada mestra nesta cidade do dinheiro a prêmio. S. Paulo ficou nobre, com todas as virtudes das cidades bombardeadas.

Assoviam ninhos nas telhas. Na distância, metralhadoras metralham pesadamente.” (p. 76)


Em trechos que parecem confundir criatura e criador – Personagem e Autor – a impotência política (ou balística) da personagem parece refletir a aquela do próprio Oswald, sempre pronto para a 'batalha'. Afinal, ser 'vanguarda' não é nada fácil. É ser (e estar)  linha de frente (front) a receber de peito aberto os primeiros petardos dos leitores e dos críticos. Enquanto os primeiros podem ser 'benevolentes',os segundos são agudos e inclementes. (2)

Num segundo momento da narrativa temos uma viagem transatlântica. No palco do tombadilho, nas cabines, se desenrola  todo um drama-folhetim. O talento picaresco de Pinto Calçudo – o secretário bajulador que define Serafim como “o meu prezado colega e particular amigo” - acaba por 'roubar a cena' em mil peripécias a bordo, e , assim, o protagonista não hesita em expulsá-lo. É que o romance zomba do romance.

“Na noite estrepitosa Serafim passeia para cá e para lá. Chegam-lhe os ruídos da farra de despedida em que a voz nasal de Pinto Calçudo tudo domina, produzindo balbúrdia e riso.

(...)

Mas Serafim insiste; dirige-se atrás dele até o reservado dos homens e grita-lhe:

- Diga-me uma coisa. Quem é neste livro o personagem principal? Eu ou você?

Pinto Calçudo como única resposta solta com toda a força um traque, pelo que é imediatamente posto para fora do romance.” (pp. 98-99) 



A narrativa se concentra, então, em Serafim, que é uma espécie flâneur na Avenue des Champes Elysées, em Paris, cenário dos poemas modernos de um Charles Baudelaire. O lírico se mescla ao prosaico no mundo 'progressista' da Cidade-Luz que fascina o homem provinciano advindo da terra dos cafezais – como realmente fascinou ao Autor, que devorou a cultura europeia e voltou ao Brasil para melhor digeri-la.

A consciência de brasileiro-paulista aflora em contato com o estrangeiro. A identidade que surge em contraponto. Para se sentir melhor brasileiro basta passar uma temporada na Europa, parece. Num diálogo meio teatral, Serafim se apresenta, enquanto não francês, diante de um mal-entendido (“Eu não sou de França, Excelência!”),

Serafim - São Paulo é a minha cidade natal.

Salomão - A Chicago da América do sul. Mas nunca me convencerá que a sua desenvoltura que tão preciosa torna a sua estadia entre nós, é originária do Anhangabáu! Guarde para desespero de sua modéstia esta pequena verdade: o meu amigo vem de Florença. E sabe de que Florença? Da dos Médici!” (pp. 113-114)


A presença do brasileiro no exterior – seja Europa, ou atualmente EUA – faz surgir uma identidade por contraste, torna-se brasileiro ou se perceber não-francês, não-alemão, ou não-norte-americano. Ao se conhecer a cultura alheia, paramos para pensar na própria cultura. O que faz um alemão ser diferente de um francês? E um brasileiro diferente de um francês? Há uma tradição, há uma História que todos os brasileiros compartilham. Um conjunto de símbolos que transcendem o meio paulista, nordestino, amazônico – deve haver uma 'identidade nacional', uma 'nacionalidade'. Mesmo que atrasada em relação ao capitalismo dos 'países desenvolvidos'.

Um folclore indígena, uma mitologia africana, uma colonização lusitana, eis uma nova 'raça' a despontar. Serafim passa a meditar sobre o 'ser brasileiro' durante um baile – 'dancing metaphysique' – onde na mente do 'herói' se mesclam elementos da cultura europeia (baile, glamour, peles, 'fêmeas brancas') e da afro-brasileira (favela, florestas, mulatas, 'animais de todas as Áfricas'),

“Ora, ele é da raça vadia que passa o dia na voz do violão. Sambas e queixumes. Tanguinhos de cozinheira. Valsas das cidades.

-Meu caro amigo, o Barsil é isso. Daqui a vinte anos os Estados Unidos nos imitarão.” (p.122)

Duas ironias em uma. Primeira, o modo cínico de dizer 'raça vadia' que vive de modinhas de violão. Para quem leu “Memórias de um Sargento de Milícias” (de Manuel Antônio de Almeida), “O Cortiço” (de Aluízio de Azevedo) e “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (de Lima Barreto) há de lembrar as cenas onde surgem as 'modinhas ' de viola. Gente sem disciplina, o tipo brasileiro que só pensa em se divertir, ou a pândega que destrói toda a virtude do lusitano que vem enriquecer, ou ainda o símbolo da cultura nacional em contraponto às sinfonias europeias (contraponto que somente foi desfeito com as composições 'eruditas-populares' de um Villa-Lobos com suas 'Bachianas brasileiras').

Segunda, a ideia de que a superpotência em ascensão – os Estados Unidos da América – de certa forma gostaria de imitar  uma nação subdesenvolvida da América Latina. Ou que a cultura puritana  conservadora ianque de alguma forma invejaria a cultura afro-lusitana carnavalizada brasileira. (No máximo atraímos turistas para o Carnaval, ou exportamos Carmem Miranda, símbolo do tropical-em-frutífero-exotismo.)

De súbito, em sua saga, Serafim sofre um colapso com tantos fragmentos de civilização e barbárie, de tecnologia moderna e guerra moderna, de miríades de coisas e seres-coisas que transbordam no mundo dito civilizado. (Assim o Futurismo era uma tentativa de tentar 'digerir' tanta informação. Basta uma leitura atenta de poemas de Marinetti, Maiakovski e Fernando Pessoa-Álvaro de Campos, com odes extensas e radicais, onde o conhecimento cognitivo e inconsciente do mundo vem a transbordar.


“Relógios imperturbáveis, arcangélicos, oscilogrfam ameaças interplanetárias. No silêncio monumental a morte se espirala nos transformadores. Até parece a precisão dos tangos.

De repente a aláo de Serafim afunda numa cabina, salta pelo arame agudo, finca a cabeça na atmosfera, atravessa os azuis, as tempestades, as neves, os bolchevismos, escala o Everest, passa guerras, crimes, crimeias, festas antagônicas e comunica-se com Pompeque do outro lado estrelado do oceano atmosférico.

Raça dos apólogos de Machado de Assis, nunca! Dos batuques. Das batotas.

Ele é apenas o que os jesuítas estragaram – magro, desconfiado e inocente no Concerto das Nações enriquecidas pela Reforma.

Mas é o paladar mesmo da aventura.” (pp. 122-123)


No mundo de avanços tecnológicos e ambições imperialistas, o antigo 'paraíso tropical' (exportador de pau-brasil e indígenas, e importador de escravos africanos ) procura se encaixar no mundo que se globaliza. Será um modo de inserção a curar os males do atraso? Atraso no qual muitos dizem ver uma culpa do 'espírito de contra-reforma', ou o catolicismo motivador de atraso, em comparação com o calvinismo-luteranismo dos protestantes anglicanos anglo-saxões brancos – WASP - que souberam aproveitar os 'bens' do capitalismo (é a tese de Max Weber, em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de 1904, onde o sociólogo alemão examina as relações entre fé religiosa e organização econômica). No mais, soa irônico o “Estados Unidos do Brasil” – nominação de nossa Nação até meados dos anos 60, até o regime militar.

Da Europa, o 'herói' segue para o Oriente – em 'Os Esplendores do Oriente' – na busca de aventuras mediterrâneas, ou travessias de desertos, ou peregrinações na 'terra santa'. Daí o caráter de saga, por mais carnavalizada que seja. Há referências fartas quanto ao Reich (império alemão), aos turcos (Kemal Paxá), aristocracia russa, presença francesa e inglesa na Palestina, exploração dos turistas, comércio de relíquias no turismo religioso, ao pé do Muro das Lamentações ou do Santo Sepulcro. É quando surgem as ironias - “Cristo  nasceu na Bahia” – daí não haver “nenhum Santo Sepulcro”.  

Enquanto isso – em pleno turismo religioso, o 'herói' – tal um Macunaíma – continua em tentativas de sedução de donzelas deslumbradas. O carnal parece imperar sobre um possível espiritual. A busca por relíquias – ou algo semelhante – se perde em cruzeiros marítimos cheios de promessas de prazeres e seduções de gula e luxúria. Pois o “nosso herói tende ao anarquismo enrugado. / O Brasil dos morros da infância que lhe ofertava a insistência dos mais feijões, dos mais biscoitos – dá-lhe o amor no regresso.” (p. 150)


É o regresso que sobra ao herói em plena saga para fora de sua terra. Ele retornará – mas transmutado. Como convém aos heróis de sagas. Se em tudo ele vê coisas brasileiras – pois em plena Palestina a lua lembra o luar paulista e um quarto de hotel lembra um quarto de hotel do interior de Minas Gerais! - nada mais a esperar que o retorno do herói à sua pátria. É o fim de Serafim.

Fiel ao manifesto de seu ideal antropofágico, o romance-saga de Oswald de Andrade finda num cruzeiro marítimo para lá de sui generis, com a liberação de tudo aquilo que a civilização (Kultur) nega. Destruindo na base o 'mal-estar na civilização' (como argumenta o estudo de Freud), os passageiros – e marinheiros – liberam o lado não-civilizado, isto é, o animal que somos. Derrubam a ditadura do smoking e da elegância. Decidem viver sem roupas, em libertinagem sexual. Recusam a vida civilizada e preferem vagar sem rumos pelos oceanos, telegrafando ameaça de 'peste' a bordo. Consideram-se a “humanidade liberada”, na “base do humano futuro, uma sociedade anônima de base priápica” (p. 160) . É uma manifestação de 'contracultura', de vida indígena – ou hippie - numa prévia (ainda mais radical) do 'tropicalismo' que a cultura nacional conhecerá nos anos 60 e 70.




nov/10



Leonardo de Magalhaens






Notas



(1) Sobre a conjuntura econômica agindo sobre a produção cultural, o poeta e crítico Haroldo de Campos usa um argumento marxista em seu texto sobre a obra de Oswald, “Uma Poética da Radicalidade”, onde relaciona o modernismo ao quadro imediatamente anterior e posterior à Primeira Guerra Mundial.

“Começou a despontar uma 'economia propriamente nacional' (como nunca existira antes no Brasil), 'condicionada sobretudo pela constituição e ampliação de um mercado interno, isto é, o desenvolvimento do fator consumo, praticamente imponderável no conjunto do sistema anterior, em que prevalece o elemento produção”. A abolição dos escravos, a imigração maciça de trabalhadores europeus, o progresso tecnológico dos transportes e comunicações, contam-se, ainda, entre as causas determinantes dessa nova economia em germinação. [citação de Caio Prado Junior, 'História Econômica do Brasil'] Evidentemente que estes processos haveriam de repercutir, sob a forma de conflito, na linguagem dessa sociedade em transformação, e se entenda aqui linguagem no seu duplo aspecto: de meio técnico, ao nível da infra-estrutura produtiva, sujeito aos progressos da técnica; e – na obra de arte dada – de manifestação da superestrutra ideológica. [...]”


(2) A Crítica sempre parece meio século atrasada em relação à Obra de Arte. (Daí os verdadeiros críticos serem aqueles artistas-ensaístas, tais como Poe, Baudelaire, Sartre, Eliot, Pound, Borges, Octavio Paz, Calvino, dentre outros, que são criadores e, ao mesmo tempo, bons leitores, exímios observadores.






REFERÊNCIAS



ANDRADE, Oswald de. Serafim Ponte Grande.
          São Paulo: Globo, 2004.

BONASSI, Fernando. 15 Cenas de descobrimento de Brasis.
   In: MORICONI, Italo (org.) Os cem melhores contos brasileiros
    do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

BUENO, Eduardo. Náufragos, traficantes e degredados: as
            primeiras expedições ao Brasil.
             Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

CAMPOS, Haroldo de. “Uma Poética da Radicalidade
     In: ANDRADE, Oswald de. Poesias Reunidas.
    Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

COUTINHO, Afrânio. (org.) A Literatura no Brasil.
Vol. 5. Era Modernista. São Paulo: Global, 2004.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26a. ed.
   São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

___________ . Visão do Paraíso. Os motivos edênicos no descobrimento
e colonização do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2004. 6ª ed.


TORERO, José Roberto, e PIMENTA, Marcus Aurelius.
           Terra Papagalli.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.    





pesquisa na Internet - links



Nosso velho modernismo
Gerson Valle
disponível on-line em


O modernismo em Serafim Ponte Grande
Cinthia de Oliveira Andrade


Ensaio interpretativo de Oswald de Andrade
Fabio Della Paschoa Rodrigues
disponível on-line em


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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

poemas de Charles Baudelaire



 
Charles Baudelaire


Correspondências


A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam às vezes sair confusas palavras;
O Homem atravessa florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.


Como longos ecos de longe se confundem
Dentro de tenebrosa e profunda unidade
Tão vasta como a noite e a claridade,
Os perfumes, as cores, os sons se correspondem.


Perfumes de frescor tal a carne de infantes,
Suaves iguais oboés e verdes iguais os prados,
- E outros, corrompidos, ricos e triunfantes,


Possuindo a expansão de coisas infindas,
Tal qual âmbar, almíscar, benjoim, incenso,
Que cantam o êxtase do espírito e dos sentidos.




Trad. livre : Leonardo de Magalhaens


 

Correspondances


La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.


Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.


II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,


Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.




 
Charles Baudelaire


À une passante
A uma passante


A rua ruidosa em torno de mim.
Alta, pesarosa, dor majestosa
Uma mulher passa, com mão faustosa
Erguendo, balançando a saia assim;

Ágil e nobre, de estátua o porte.
Eu bebia, louco tal extravagante,
No olhar, céu lívido e ondulante,
Doçura a fascinar, prazer de morte.

Clarão... e a noite! – Fugitiva beldade
Com olhar que me fez assim renascer,
Não te verei senão na eternidade?

Longe daqui! Tarde! Nunca mais rever
Pois não sei onde vais, onde vou não sabes,
Ó tu que eu amaria, tu bem o sabes!


Trad. livre:



À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!

 




 

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Leonardo de Magalhaens