sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Primeiro amor que não desabrochou - crônica by LdeM

 


                                                      fonte da imagem: Internet



Crônica 


    O primeiro amor que não desabrochou 



    Hoje vou contar para vocês, minhas leitoras, a história do João Carlos que ontem reencontrou, no aeroporto, a primeira namorada, o primeiro amor, que não desabrochou pois ela casou com outro.


    Conheço o meu amigo João Carlos desde o mestrado, na mesma época em que conheci a Rose, minha amiga, que casou com meu amigo! Tipo assim, fui eu mesma que formei o casal.


    -- Sabe quem eu vi ontem no aeroporto, hein, Elisa? A Carmem! Tão diferente... cabelo curto, gordinha... até com os netos!


    A Carmem é a tal primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro. Ouvi este drama umas setenta vezes nos últimos trinta anos. E que fez do João Carlos o homem rico e influente que elogiamos hoje.


    Conheci o João Carlos na faculdade de arquitetura, meio aos projetos e pesquisas de mestrado, e o jovem de vinte e poucos estava ainda sofrendo de amores perdidos. Principalmente pela primeira namorada, o primeiro amor, a Carmem.


    Pois a moça assim que se formou não demorou em casar com um homem dez anos mais velho e cheio das fortunas. Aí o João Carlos quase morreu de amor. 


    Ou ódio, pois depois disso ele jurou vingança: ficaria mais rico que o noivo e marido de sua eleita! E foi dito e feito!


    Toda a vida do João Carlos pode ser resumida em Quero ficar rico. Para mim, de família já segura e próspera financeiramente falando, foi um caso interessante, e no que eu podia acabei por ajudar.


    Jovem arquiteto, o João Carlos escolhia projetos e amizades. Sabia influenciar e ser influenciado. Criava mansões ao gosto dos ricaços da Pampulha etc


    João Carlos era um bom pai de família classe média que conseguiu os melhores contratos da construção e decoração nas últimas duas décadas como as leitoras sabem. 


    Se tem alguém que sabe negociar e investir e fazer bons amigos é o João Carlos. Sempre sabia o momento certo e a oportunidade de ouro em eventos e festas. Conheceu o João Paulo Mendes assim. Outro magnata da arquitetura. Então começou a empresa em conjunto com os bons sócios. Muito marketing e networking né. 


    Nisso o João Carlos foi abandonando as festas da vizinhança e até da família. Fez novos amigos onde tinha mais marketing e investimentos. Entrou pro mercado imobiliário e financeiro. 


    Por isso deixou a arquitetura que também em algum momento fora uma paixão. Só conservou duas paixões: a Carmem e o tango argentino. 


    João Carlos era fã de dança de salão. Ele e a Rose e eu. Era o nosso passatempo e entretenimento. Dançar um bom tango era essencial. Mas nos últimos tempos a Rose desanimou por causa da saúde e o João Carlos por causa da idade. Ele envelhece muito rápido né. 


    Por que? É o que eu disse: o homem só pensava em ficar rico. Para mim era obsessão. Eu que sempre fui bem de vida nunca entendi os arrivistas. Mas o João Carlos era um caso interessantíssimo. 


    E o meu marido também era fã do João Carlos. Meu marido, um bom marido que não está entre nós. Também  da área de investimento imobiliário. Toda a família dele aliás. Na Pampulha eles vendem e compram e alugam residências e casarões e apartamentos etc 


    Então com a nova empresa o João Carlos subiu muito e muito e foi deixando as velhas amizades. Só andava com os doutores e investidores e esnobava os bacharéis e mestres. Virou honoris causa. Virou financiador de campanhas de vereadores e prefeitos e deputados etc


    Mas a saúde do João Carlos não ajudava. Muito estresse e insônia. Salvava um pouco o tango argentino. Mas ele nunca se conformou com a perda do primeiro amor.


    João Carlos era fanático por dinheiro? Mais fanático pela primeira namorada! Sabia que ela estava bem casada, com um homem rico e influente, dois filhos e uma filha, com casa de campo e casa na praia.


    Então foi lá o João Carlos comprar casa de campo e casa na praia. Foi gastar dinheiro com reformas etc Foi perder tempo e dinheiro. Raramente saía de BH. Uma vez por ano Bahia ou Guarapari. Enquanto nas férias, ele levava notebook e continuava comprando e vendendo e alugando.


    Os amigos dele não o entendiam. Porque eles já tinham dinheiro. Minha família tem dinheiro. A família do meu marido tem dinheiro. Então nem falava em dinheiro: só investia e gastava.


    Mas o João Carlos só falava de dinheiro com juros e Bolsa e contratos e relatórios e superávits. Virou o maior amigo de um economista, o J. Souza Bastos. 


    Nossos amigos das antigas se ressentiam. O João Carlos ignorava todo mundo. Passou uma década e ele já estava em outro círculo de amigos! Amigos? Muito marketing e networking né 


    Foi quando eu conversei com a Rose a minha amiga e a mulher  do João Carlos, como sabem. Claro que ela sabia sobre a tal Carmem, mas não tudo, ou o que veio depois. Tipo o marido ficar de olho na vida da ex primeira namorada etc


    Infelizmente causei uma briga de casal e não resolvi o problema que era a obsessão.  Certamente foi ali que nossa amizade ficou abalada. 


    Ter reencontrado a primeira namorada num aeroporto Internacional foi uma ferida que se abriu no nosso João Carlos. A Carmem feliz com sua família sem neuras de dinheiro e viajando pra Disney etc


    Por isso eu foi de braços abertos quando ele ligou. Ele que estava uma temporada em Porto Seguro. Lembrou que eu, sua amiga Elisa existe, e chegou com desabafos.


    -- Ela não me reconheceu. Passou nas filas com marido e filhos e netos. Viu a fila onde eu estava com a Rose e tal. Nenhum sinal de que tenha me visto e reconhecido!


    Agora entendo o desabafo do meu amigo. Será que ele viveu para si e família? Será que viveu para agradar (em imaginação!) uma outra pessoa? Por que ele se cobrava tanto? Com quem ele competia?


    Tudo o que ele fizera a vida toda fora para impressionar aquela primeira namorada, o primeiro amor que não desabrochou pois ela casou com outro!


Jan 26


LdeM 


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meus bons amigos -- crônica by LdeM 2026

 



                                                   fonte da imagem: Internet 


Crônica 


Meus bons amigos



"Meus bons amigos, onde estão 

Notícias de todos quero saber"

Barão Vermelho 


    Ouvindo uma velha canção rock'n'roll me lembrei dos meus bons amigos. Pessoas que conviveram comigo três décadas atrás e aqueles que conheci nas duas últimas. 


    Onde estão? Em BH ou no estrangeiro? Casados ou desquitados? Pais de família? Devotos católicos? Convertidos evangélicos? Livres ou prisioneiros?


    Lembrei do Lindomar, o companheiro dos goles nos fins de semana. Um cara do metal pesado que era de uma família do interior e que era office boy. Gastava todo o dinheiro com bebidas e mulheres. 


    Depois, da última vez que o encontrei, estava casado. Fez amizade na igreja evangélica onde tocava bateria, se converteu e casou com a filha do pastor. Conseguiu carta de indicação para trabalhar numa empresa de equipamentos para construção pesada.


    Lembrei do Luka, também músico, que virou professor e foi para Sampa e depois para o interior paulista e depois para o interior baiano. Casou e descasou. Continua professor?


    Tem também o Jovin, nome dado pela galera, no cartório era Matheus B**, não era músico, mas fanático pelo rock e que não perdia shows, seja de bandas covers até atrações internacionais. Da última vez que vi o Jovin estava casado e com um filho recém nascido. 


    Era o maior anticristo. Hoje deve estar em alguma igreja evangélica. 


    Certo dia vi a foto do Tony, o Antonio, que eu conheci na faculdade. Na rede social ele está bem-vestido. Ou virou empresário ou pastor de igreja. Ostentação ou falsa imagem? Marketing pessoal?


    Quando conheci o Tony ele era socialista militante, com camiseta do Che e pregando revolução agrária. Mas as coisas mudam, né? Incendiário aos vinte mas empresário aos quarenta. Se ele está feliz, tudo bem. 


    Era uma turma animada. O pessoal da faculdade era tudo calouro se defendendo dos veteranos. Hoje cada um para um lado; bacharel continuou amigo do bacharel. Os mestres só amigos dos que também tem mestrado. Os doutores só andam com os raros com anel de doutorado. Assim caminha a humanidade. 


    Meus bons amigos às vezes eu revejo nas redes sociais. Ou às vezes quando dou umas voltas em BH. Tempos atrás quase cumprimentei o Thales mas ele não me reconheceu. 


    Meu amigo gótico continua gótico e católico. Ele estava saindo da primeira missa da manhã. Acho que é o único que não mudou. Só não era tão católico. 


    Hoje ele também não acreditaria que sou católico. A moda agora é curtir um show na igreja evangélica de paredes pretas com projetor de luzes coloridas e enormes telas de alta resolução. 


    Meus bons amigos estão por aí cada um em sua cela acolchoada. Cada um com seus dramas e traumas e felizes de não terem os dramas dos outros, mas achando o gramado do vizinho mais verde e deslumbrante. Ou o carro do vizinho ou a mulher do vizinho ou a religião do vizinho ou os amigos do vizinho. 


    Meus bons amigos onde estão? Será que quero mesmo saber? Tenho medo de encarar seus fracassos ou invejar seus sucessos. Por isso fico longe deles e eles longe de mim.



Jan 26


LdeM 


Escritor, crítico literário 

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