quarta-feira, 6 de maio de 2015

conto de guerra - NA PRÓPRIA PELE




Contos de Guerra



NA PRÓPRIA PELE

           I

    Ouviram o Ministro da Propaganda. Sua Voz ecoava no Rádio, meio abafada pelos Estrondos sobre a Capital.

    O que mais poderiam fazer? Recuando sem Proteção desde o Rio à leste. O que mais o Ministro esperava? Morrer com Honra? Isso não existe! Que Honra sobrara para a Tropa? “Defensores!”, o Ministro numa última Aclamação, a lembrar de nossa “Provação”. Ele não deixará a Capital, e sua Esposa e Filhos aqui permanecem. Ao menos é diferente dos Outros. Os Crápulas que já fugiram. Quando o Barco afunda, os Ratos não perdem Tempo.

    As grossas Mãos, tão jovens!, esfregam o Suor da Face. Ele nunca havia passado pela Marinha, nunca pisara num Navio, tão somente os Barcos nos Rios à leste, e num passeio no Sena, ainda nos áureos Tempos, e se angustiava ao imaginar os Naufrágios! E as Tripulações nos Fundos das Águas, e os Pobres enlatados nos Submarinos agora nos Abismos! Mas o Exército tem lá suas Profundezas: quantos não morreram soterrados nas Trincheiras! Nas Casamatas e nos Abrigos! Seu último Bunker desabara sepultando cinco Homens!

    A Artilharia trovoava à leste, e Alguém abafou os Estrondos, ao fechar a Porta. Heinz Berger, o Homem da Comunicação, entrara.

    -Sargento, os Homens não acreditam mais. Zombam do Ministro. Se me permite...

    Fala pausado, com Dificuldade. Mas uma Voz clara, sem Ranhuras. Vivera sempre na Capital, interrompera o Curso na Faculdade. Seria Jornalista. O mais entusiasmado com o Ministro e seu Regime sanguinário. Queria doutrinar a Tropa, inutilmente. Ninguém mais acreditava em Vitória, e muito menos em “Armas secretas”. Ninguém mais se deixava enganar desde... desde os Bombardeios.

    Recuavam, nada mais. A Munição faltava, também as Peças de Reposição para os Tanques, os pneus para os Carros da Artilharia. De Perseguidores passaram a Perseguidos, sem Tréguas.

    -Estamos pagando. Arruinamos o país deles. Agora eles arruínam o nosso. O Reich se despedaça.

    -Sargento, nunca acreditou no glorioso Futuro de nosso Povo?

    Ah, o idealista Heinz Berger, com sua Necessidade de Crença. Nunca poderia entender. Crenças são inúteis, só há a Fome e a Guerra. A Competição. Perdera a Fé, abandonara seus Pais católicos e seus Padres amedrontados. Sua Devoção, desde Jovem, era a Guerra. Não pelo Regime, não pela Glória da Raça, mas pela Guerra! Pelo Horror, pelo Fascínio do Horror! Isso o Berger não entende. Crer no Futuro? Na Vitória? Desde o Führer quase voara pelos Ares, a sua Fidelidade ao Reich estava abalada. Ele lutava ainda, mas para salvar sua Cidade, sua própria Pele.

    -Não importa o que eu penso. Reúna os Homens, devemos manter nossas Posições no Bairro operário. Quem organizou as Barricadas? Os Civis, inclusive as Mulheres, devem ajudar.

    -Devemos aguardar o Exército do Sul, Sargento.

    -Promessas. Não percebes? Mais Promessas a serem quebradas. Não virá qualquer Exército do Sul. Os Ingleses já devem mante todos ocupados. Chegaram ao Elba.

    -Mais Relatório, Sargento. Duas Esteiras danificadas. Duas Baixas: Propp e Müller. Morreram de Armas em Mão. Recuperamos as Armas. Já sepultados.

    Um Estrondo próximo. Longo Alcance da Artilharia. Ecoava. Apenas mais Alguém que entrava. Um súbito Cheiro de Carne. Com uma Marmita aberta, o Cabo Weber olhou pra dentro da Sala e dispensou as Saudações.

    -O Resto das Provisões. Aproveitem.

     A Marmita sobre a Mesa. Um Chiado de Rádio preencheu a Sala, além do Cheiro de Carne. Ali Heinz Berger em Tentativas de Contato com o Resto das Tropas. Dividiu o Conteúdo da Marmita com o concentrado Heinz Berger, atento ao Rádio, assim inclinado, com sua Águia brilhante na lapela do Uniforme. Depois o Sargento reclinou-se para descansar. Não fechara os Olhos o Dia todo! Agora já escurecia, merecia um Cochilo. Afinal, ao Alvorecer haveria Barulho.




           II

    Acordou antes da Luz. Um Estrondo agita as Folhas da Janela. A Casa era frágil, sua Consciência desliza em Busca de uma Noção de si mesmo, Sargento Hans Kreis, do Exército, no Perímetro sudeste da Capital, no Comando de onze Homens, tendo sofrido duas Baixas nas últimas Vinte e quatro Horas, com Ordem para defender a Ferrovia sobre o Rio.

    -Sargento, más Notícias. Estamos divididos! Em quatro Guarnições. O Comando passou a Defesa a um Tenente-General das Tropas SS, mas nada sabemos.

    -Antes, um Bom-dia, Heinz. Nada de nervosismo. Inútil agora. Quanto aos “Camisas-Negras”, os “Homens-da-Caveira”, não me admira. Não espere Contra-ataque algum. A Defesa só pode contar com a nossa Gente. Nossas Famílias, nossos Rapazes. Notícias sobre a Barricada além do Rio, no Bairro operário?

    -Negativo. Mas as Ordens exigem a Expansão das Barricadas antes do Tronco ferroviário à leste. Serviço para os nossos Quadros noturnos.

    -E você dormiu, Heinz? Será um longo Dia, esteja certo. Precisamos de Munição e Provisões. Envie o Erich. Ainda seremos oito, uma Muralha de oito Heróis!

    O olhar de Heinz. Como diante de um Inimigo do Estado. Ele não entende. Não mencionar o Capitão Günther perseguido na “Ação Tempestade” depois do 20 de Julho. Heinz veria um Traidor, e, em sua Inocência, não hesitaria em denunciar ao Comissário mais próximo. Heinz sabe ser eficiente. O Comissário, não sei. Todos fogem agora. Somente sobrou o Povo.

    -Entendeu, Heinz. Envie o Erich. E que ele tenha Sorte. Quanto a nós, vamos levantar Acampamento. Dentro de Horas, esta Casa não passará de Escombros. Vamos.

    E Heinz saiu, batendo a Porta. Confiava em Heinz? Infelizmente, não. A última Pessoa em quem confiara fora o Capitão Günther, Homem honrado, ao lado da Tropa desde o 'Passeio' em Paris.  Depois da Dureza das Ardenas, claro. Mas tinham Tanques novos, seus “Tiger” de 50 Ton moendo Troncos e Raízes da Floresta francesa.  Um 'Passeio'. Mas passados cinco Anos, tudo se perdera, em Massacres e Delírios de Poder. Por pouco, ele, Hans Kreis, não fora enviado ao Front sul, quando da Deposição do Duce, e a Traição dos Italianos. Mas a Defesa da Capital não poderia dispensar sua “Experiências e Espírito de Liderança”, como era elogiado, e jamais decepcionaria seus Comandantes e Comandados. Nem com o Golpe de 20 de Julho e a Execução dos Oficiais, entre eles o seu Capitão Günther Spitzer, acusado de “Traição”.

    Lá fora, os homens à espera. Erich fechava a mochila, e fez a obsoleta Saudação. Seguiria para o “Mitte”, o Centro, onde encontraria as Tropas do Sargento Klein, ainda em plena Unter Den Linden. Todos apreensivos. Afinal, os Russos, os Autores dos medonhos Estrondos, se insinuavam ao Norte, num Avanço sobre o Reichstag, aquele mesmo que os Assassinos incendiaram.

    E imaginar que aquele Histérico conseguira fascinar todo o Povo! Um Louco como se mostrou! Invadir a Rússia! Bombardear a Inglaterra! A França até faz Sentido – tínhamos Contas a acertar. Ele mesmo, Hans, matara uma boa Dúzia de Franceses, além dos tantos que sua Metralhadora giratória alvejara! Os Franceses, a gente pisa e cospe em cima! Mas incomodar os Russos? Aquela Horda de Bárbaros! Culpa dos Ingleses, os rancorosos, que colocaram o Mundo todo contra o nosso Povo! Loucura! Logo os Ingleses, Povo metódico, fleumático, que ele tanto admirava!

      Os Homens se adiantaram. Alguns pedidos. O Cabo Friedler estendia o Envelope com a Carta para a Noiva. A bela Freya, ruiva e dominadora. Queria que Erich a entregasse na Moabiter Strasse. Seria possível? E depois o Engenheiro Kempf com sua Lista de Peças de Reposição. Apontava os dois Tanques, em Operação, onde se apoiam Vicent Bucher e Alfred Hoffman, ambos da Artilharia, enquanto o terceiro Tanque, danificado, fora deixado sob um Telhado semi-desabado. No mais, o Geógrafo Alois Handke, a cuidar dos 'Cálculos de Balística', a reclamar da Munição. Falta de Munição. O de sempre. Desde o Oder. E o Ministro pregando a Resistência, falando em “Muralhas de nossa Cidade” onde devia ser quebrada a “Tormenta mongol”, ah o velho Ministro, mentiroso até a medula, a atemorizar os Homens com esse Terror ancestral das Hordas do Oriente!

      Ergueu o Braço, cheirou o Ar, fez um Sinal. Com um Gesto, o Sargento Hans Kreis subiu ao primeiro Tanque, ciente de que sua Tropa o seguia.




[CONTINUA]



abr07//mai15


by Leonardo de Magalhaens



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terça-feira, 28 de abril de 2015

Tenham pressa! (um antipoema)






Tenham pressa!
(um antipoema)

I


É preciso ter a maior pressa!
Tropecem nas escadas
Engulam as marmitas
Acelerem as máquinas
Transbordem os lotações
Turbinem os autos
Entupam as pistas
Lotem os trens urbanos!


É preciso correr sempre!
Comprem mais inúteis
Aproveitem as promoções
Colecionem os bônus
Acumulem os enlatados
Sigam as modas
Vivam os prazeres
Detonem o crédito!


É preciso consumir tudo!
Conquistem os pódios
Colecionem as medalhas
Asfaltem as trilhas
Pavimentem os bosques
Construam arranha-céus
Comam os agrotóxicos
Poluam terra & água!



II

Vamos nutrir a pressa!
Engolir em garfadas
Digerir em segundos
Acumular em lixões
Despejar em privadas
Afundar em dejetos
Descartar em grotões!

Vamos poluir as águas!
Cimentar os córregos
Escalar os monturos
Entupir os mananciais
Rechear os bueiros
Transbordar os esgotos
Aterrar os pantanais!


Vamos poluir os ares!
Queimar em caçambas
Ofegar em fuligens
Aquecer sem medida
Regurgitar em miasmas
Perfurar o ozônio
Vamos destruir a Vida!




25/26abr15


Leonardo de Magalhaens



quinta-feira, 23 de abril de 2015

dia a dia : lotação - poema by LdeM









dia a dia : lotação


Pressa & correria
apitos & buzinas
caos de passantes:
escadas rodam acima
em aflições abaixo:
luzes piscam todas
sirenes gritam loucas!


Trompetas de Jericó
& as portas se fecham:
a serpente de aço
sacode & acelera
janelas & janelas:
faces turvadas olham
onde corre a multidão!


Onde desce a lotação
leds loucos piscam
buzinas todas gritam
a pressa é digerida
a tarifa é paga
os números acumulam
itinerários na mente!


Portas se abrem,
se fecham cursos,
as bolsas seguras,
as carteiras cativas,
money digital à espera
outra estação se aproxima
um vem & outra vai:


alguém vende chocolate
ou bala de mascar
outro reza ao Altíssimo
alguém medita no Além
outro calcula a dívida;
o moço dobra o jornal
a jovem retoca o batom:


dois sonidos trovoam
vozes se alteiam
destinos se buscam:
compromissos prometidos
de futuros definidos
itinerários traçados
amanhãs tão sonhados!


Corpos se mostram
em painéis reluzem
prazeres em promoção:
novas satisfações,
todas para o comprador,
o futuro vencedor
pagará o alto preço!


Cores, alturas, gestos,
suor, tremores, tonturas,
avanço & recuo, horror
acelerado & frenado,
rompido & golpeado,
em soluço contido
da servidão imóvel !





22abr15




Leonardo de Magalhaens


sábado, 18 de abril de 2015

panta rei - tudo flui by LdeM





panta rei (tudo flui)


panta rei os potamós” (tudo flui como um rio)
Heráclito



                                                                               I

Tudo se move, tudo flui,
águas passadas não mais,
ondas se batem, se vão;
novos acenos, urgências:
pressa dia a dia, lotação;
povos migram, cidades ocas,
bombardeios & epidemias:
golpes contínuos do devir!


Famílias se abortam,
caravanas se perdem,
as trevas se repetem:
ascensão de dinastias,
impérios decaídos somem:
novos bárbaros devastam,
conquistam, plantam, mudam:
sobre crânios os tronos!


Novo ciclo, novo aeon:
outras tribos de novo reino
oligarquias roídas por plebeus:
leis caem caducas, prisões
rompidas, as falidas
fundações doentias,
decretos, vozes vazias,
federações já desunidas!


Sobre os destroços os brotos
de novos sonhos & pilares,
em argamassa de sangue,
em ferragem de carne,
em pintura de cultura,
ostentação de edifícios,
santuários de nova moral,
beleza cheia de fissuras!




II

Tudo se muda, se desfaz,
tetos trincam, pontes caem,
viadutos desabam, ruínas;
geleiras deslizam, fundem;
grupos se agregam, desviam;
línguas falam & se calam,
dialetos se mesclam, somem,
deixam lacunas na história!


Climas mudam, hecatombes,
vulcões mumificam cidades,
ondas varrem povoados,
terra engolindo metrópoles;
machados ceifam florestas,
chamas lambem palácios,
fissuras invadem pilares,
heras abraçam muralhas!


Materiais trocam, abruptos,
rudes colapsos ressoam,
armas, bigornas, ferro
ardentes peças surgem
para arado & guerra,
para cultivo & matança,
para edificar & derrubar,
para cultura & barbárie!


Banquetes, orgias, festins,
salões, palácios, torres,
as saudações aos deuses,
ou rituais aos demônios,
libações & sacrifícios,
em vão buscam conservar,
parar o dia, o momento,
estancar o curso do rio!



15abr15


Leonardo de Magalhaens



terça-feira, 14 de abril de 2015

Eduardo Galeano - Patas Arriba






EDUARDO GALEANO



A Escola do Mundo ao Avesso

La Escuela del Mundo al revés



>> Curso básico de injustiça


A publicidade manda consumir e a economia o proíbe. As ordens
de consumo, obrigatórias para todos, mas impossíveis para a
maioria, são convites ao delito. Sobre as contradições
de nosso tempo as páginas policiais dos jornais ensinam
mais do que as páginas de informação política e econômica.

Este mundo, que oferece o banquete a todos e fecha
a porta no nariz de tantos, é ao mesmo tempo igualador
e desigual: igualador nas ideias e nos costumes que
impõe e desigual nas oportunidades que proporciona.



Trad. Sergio Faraco



DE PERNAS PRO AR / PATAS ARRIBA




>> O Ensino do Medo

Num mundo que prefere a segurança à justiça, há
cada vez mais gente que aplaude o sacrifício
da justiça no altar da segurança. Nas ruas das
cidades são celebradas as cerimônias. Cada
vez que um delinquente cai varado de balas,
a sociedade sente um alívio na doença que a
atormenta. A morte de cada malvivente
surte efeitos farmacêuticos sobre os
bem-viventes. A palavra farmácia vem de
phármakos, o nome que os gregos davam às
vítimas humanas nos sacrifícios oferecidos
aos deuses nos tempos de crise.



Trad. Sergio Faraco



DE PERNAS PRO AR / PATAS ARRIBA




>> O medo global


Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar
trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres
têm medo de ser atropelados.

A democracia tem medo de lembrar e a linguagem
tem medo de dizer.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm
medo da falta de armas, e as armas têm medo da
falta de guerras.

É o tempo do medo.

Medo da mulher da violência do homem e medo do
homem da mulher sem medo.

Medo dos ladrões, medo da polícia.

Medo da porta sem fechaduras, do tempo sem relógios,
da criança sem televisão, medo da noite sem comprimidos
para despertar.

Medo da multidão, medo da solidão, medo do que
foi e do que pode ser, medo de morrer, medo de viver.




Trad. Sergio Faraco


DE PERNAS PRO AR / PATAS ARRIBA