sábado, 18 de abril de 2015

panta rei - tudo flui by LdeM





panta rei (tudo flui)


panta rei os potamós” (tudo flui como um rio)
Heráclito



                                                                               I

Tudo se move, tudo flui,
águas passadas não mais,
ondas se batem, se vão;
novos acenos, urgências:
pressa dia a dia, lotação;
povos migram, cidades ocas,
bombardeios & epidemias:
golpes contínuos do devir!


Famílias se abortam,
caravanas se perdem,
as trevas se repetem:
ascensão de dinastias,
impérios decaídos somem:
novos bárbaros devastam,
conquistam, plantam, mudam:
sobre crânios os tronos!


Novo ciclo, novo aeon:
outras tribos de novo reino
oligarquias roídas por plebeus:
leis caem caducas, prisões
rompidas, as falidas
fundações doentias,
decretos, vozes vazias,
federações já desunidas!


Sobre os destroços os brotos
de novos sonhos & pilares,
em argamassa de sangue,
em ferragem de carne,
em pintura de cultura,
ostentação de edifícios,
santuários de nova moral,
beleza cheia de fissuras!




II

Tudo se muda, se desfaz,
tetos trincam, pontes caem,
viadutos desabam, ruínas;
geleiras deslizam, fundem;
grupos se agregam, desviam;
línguas falam & se calam,
dialetos se mesclam, somem,
deixam lacunas na história!


Climas mudam, hecatombes,
vulcões mumificam cidades,
ondas varrem povoados,
terra engolindo metrópoles;
machados ceifam florestas,
chamas lambem palácios,
fissuras invadem pilares,
heras abraçam muralhas!


Materiais trocam, abruptos,
rudes colapsos ressoam,
armas, bigornas, ferro
ardentes peças surgem
para arado & guerra,
para cultivo & matança,
para edificar & derrubar,
para cultura & barbárie!


Banquetes, orgias, festins,
salões, palácios, torres,
as saudações aos deuses,
ou rituais aos demônios,
libações & sacrifícios,
em vão buscam conservar,
parar o dia, o momento,
estancar o curso do rio!



15abr15


Leonardo de Magalhaens



terça-feira, 14 de abril de 2015

Eduardo Galeano - Patas Arriba






EDUARDO GALEANO



A Escola do Mundo ao Avesso

La Escuela del Mundo al revés



>> Curso básico de injustiça


A publicidade manda consumir e a economia o proíbe. As ordens
de consumo, obrigatórias para todos, mas impossíveis para a
maioria, são convites ao delito. Sobre as contradições
de nosso tempo as páginas policiais dos jornais ensinam
mais do que as páginas de informação política e econômica.

Este mundo, que oferece o banquete a todos e fecha
a porta no nariz de tantos, é ao mesmo tempo igualador
e desigual: igualador nas ideias e nos costumes que
impõe e desigual nas oportunidades que proporciona.



Trad. Sergio Faraco



DE PERNAS PRO AR / PATAS ARRIBA




>> O Ensino do Medo

Num mundo que prefere a segurança à justiça, há
cada vez mais gente que aplaude o sacrifício
da justiça no altar da segurança. Nas ruas das
cidades são celebradas as cerimônias. Cada
vez que um delinquente cai varado de balas,
a sociedade sente um alívio na doença que a
atormenta. A morte de cada malvivente
surte efeitos farmacêuticos sobre os
bem-viventes. A palavra farmácia vem de
phármakos, o nome que os gregos davam às
vítimas humanas nos sacrifícios oferecidos
aos deuses nos tempos de crise.



Trad. Sergio Faraco



DE PERNAS PRO AR / PATAS ARRIBA




>> O medo global


Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar
trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres
têm medo de ser atropelados.

A democracia tem medo de lembrar e a linguagem
tem medo de dizer.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm
medo da falta de armas, e as armas têm medo da
falta de guerras.

É o tempo do medo.

Medo da mulher da violência do homem e medo do
homem da mulher sem medo.

Medo dos ladrões, medo da polícia.

Medo da porta sem fechaduras, do tempo sem relógios,
da criança sem televisão, medo da noite sem comprimidos
para despertar.

Medo da multidão, medo da solidão, medo do que
foi e do que pode ser, medo de morrer, medo de viver.




Trad. Sergio Faraco


DE PERNAS PRO AR / PATAS ARRIBA

quarta-feira, 25 de março de 2015

2 poemas de Herberto Helder





Herberto Helder






poeta português


1930 – 2015





Sobre um Poema



Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.


- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
-E o poema faz-se contra o tempo e a carne.







Herberto Helder
















EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.




Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.




Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.




Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.







Herberto Helder









mais poemas em



http://www.culturapara.art.br/opoema/herbertohelder/herbertohelder.htm









segunda-feira, 2 de março de 2015

lágrimas cheias de fuligens - LdeM




 
 
Lágrimas cheias de fuligens

 

 

Dos telhados a fuligem

junto às vidraças sujas

escorre a chuva ácida

entre tijolos & vidros

ali gotejam em fúria calma

entre estátuas a erosão corrói,

desde a praça ao parque

espalhadas derretidas

pela chuva em aflição.

 
 

Do alto a chuva chora

num desafio de paciência

em sutil carícia de ácido

insinuando gotas no granito

nos bustos abrem fissuras

ousam cirurgias discretas

rugas surgem onde o luar

brota & treme num redemoinho

entre as copas pesadas

se aderem gotas densas
 
em lágrimas cheias de fuligens.




1º mar 15



LdeM

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

2 poemas de Fernando Fiorese





Fernando Fiorese



CARTA ABERTA

                                       Ao anagrama Magog
aos que de mãos impolutas assinam a miséria
aos que preferem o bunker ao abismo
aos que propõem civilizar o coração selvagem
aos que no teorema petrificam o poema
aos que não riem do dicionário
aos que emplumam o cão
aos que evitam os olhos do inimigo
aos contra-regras do gran teatro del mundo
aos que prefixam o radical
aos que prometem Ítaca sem epopéia
aos que rezam para adormecer o escorpião
aos que não sabem fazer o plural
aos que horizontalizam a paisagem
aos que tomam assento

a todos advirto:
escrever é também vingar-se



                        De Papéis Avulsos

 
COMO DESFAZER BAGAGENS
Como quem de viagem
demora a acomodar-se
ao clima, ao horário,
às vogais de outra sintaxe,
também escrever estranha
quando muda de paisagem.

Como quem de viagem,
o que carrega apouca
a dicionários, passagens
e alguma muda de roupa,
também escrever exige
aprender a descartar-se.

Como quem de viagem
pouco ou nada decifra
do manuscrito-cidade
(mal soletra as esquinas),
também escrever ensina,
menos importa encontrar-se.

Como quem de viagem
evita, quando sabe,
os apelos do fóssil,
do que é fausto adrede,
também escrever prefere
o que se dá sem salvas.

Como quem de viagem
sabe o prazer de andar
sem endereço ou idade,
com a roupa amassada,
também escrever comparte
esse corpo sem abas.

Como quem de viagem,
para rever a janela onde
lhe sorriu uma criança,
o embarque adiaria,
também escrever alcança
os vestígios desse dia.

Como quem de viagem,
das malas faz relicário
de rostos, ruídos e mares,
de balas, livros e ácidos,
escrever também seria
como desfazer bagagens.



                        De Corpo Portátil (1998-2000)





Mineiro de Pirapetinga, onde nasceu em 1963, Fernando Fábio Fiorese Furtado é mais identificado com a cidade de Juiz de Fora, onde reside desde criança. 
Professor de literatura, poeta, contista e ensaísta


entrevista em http://www.selmovasconcellos.com.br/colunas/entrevistas/fernando-fiorese-entrevista/



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Nossa pobre Civilização Ocidental - by LdeM


 


Nossa pobre Civilização Ocidental
(ou A Civilização e seus Descontentes)


Pobre Civilização Ocidental !

Para os iluministas o Ocidente é irracional

Para os reacionários o Ocidente é degenerado

Para os revolucionários o Ocidente é alienado

Para os surrealistas o Ocidente é racionalista

Para os cristãos o Ocidente é pecado

Para o Islã o Ocidente é profanação

Para o capitalista o Ocidente é consumo

Para o pós-moderno o Ocidente é líquido

Para a feminista o Ocidente é machista

Para o machista o Ocidente é efeminado

Para a recalcada o Ocidente é libertino

Para os lógicos o Ocidente é superstição

Para o psicanalista o Ocidente é neurótico

Para a neurótica o Ocidente é mal-estar

Para o psicodélico o Ocidente é careta

Para os poetas o Ocidente é burocracia

Para o músico o Ocidente é barulho

Para os ecologistas o Ocidente é devastação

Para o gnóstico o Ocidente é Caos

Para os políticos o Ocidente é manipulação

Para a politicamente-correta o Ocidente é domínio

Para os xenófobos o Ocidente é tolerante

Para a cínica o Ocidente é pastiche

Para os orientais o Ocidente é afetação

Para os tradicionais o Ocidente é decadência

Para os vanguardistas o Ocidente é atraso

Para as devotas o Ocidente é blasfêmia

Para os pobres o Ocidente é exclusão



09jan15



Leonardo de Magalhaens


...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Philip Lamantia - A voz dos médiuns da Terra







philip lamantia


a voz dos médiuns da Terra


Estamos mesmo alimentados
com máquinas mentais de paz & guerra
cérebros nucleares de monóxido, computadores cancerígenos
motores sugando nossos corações de sangue
que outrora cantaram coros de aves naturais!
Basta de dínamos & guindastes
bá-bá-bate de polias & pistões
invenção da Humanidade do Demônio
E logo
se forem silenciadas
e sobrevivermos aos altares de sacrifício
do deus automóvel e das vulvas de aço
vertendo loucura molecular
por várias camadas de pó satânico


se a Máquina completa da multidão algemada
não for dissolvida, voltando à Terra
de onde seus elementos foram roubados
deveremos evocar
a Grande Onda Oceânica
Neter das águas
e o Rei Atlante e seus espíritos-serpentes
também conhecidos como
Orco
Dagon & Draco
para que mandem ondas de marés calamitosas
de mil pés de altura, se preciso –
para enterrar todas as cidades monstruosas de metal
e suas bilhões, bilionárias rodas de morte química!


Oh, William Blake!
tu podes inspecionar, se te aprazes,
esta lição da Varredura Geral de Aquário
que o maravilhoso espírito de purificação terrena do Oceano
irá deter tais pesos e rapinagens
seu sangue metálico e pele muito fina
para nos ensinar a canção terrena de harmonias taoístas!


Trad. Márcio Simões






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