quarta-feira, 25 de março de 2015

2 poemas de Herberto Helder





Herberto Helder






poeta português


1930 – 2015





Sobre um Poema



Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.


- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
-E o poema faz-se contra o tempo e a carne.







Herberto Helder
















EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.




Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.




Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.




Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.







Herberto Helder









mais poemas em



http://www.culturapara.art.br/opoema/herbertohelder/herbertohelder.htm









segunda-feira, 2 de março de 2015

lágrimas cheias de fuligens - LdeM




 
 
Lágrimas cheias de fuligens

 

 

Dos telhados a fuligem

junto às vidraças sujas

escorre a chuva ácida

entre tijolos & vidros

ali gotejam em fúria calma

entre estátuas a erosão corrói,

desde a praça ao parque

espalhadas derretidas

pela chuva em aflição.

 
 

Do alto a chuva chora

num desafio de paciência

em sutil carícia de ácido

insinuando gotas no granito

nos bustos abrem fissuras

ousam cirurgias discretas

rugas surgem onde o luar

brota & treme num redemoinho

entre as copas pesadas

se aderem gotas densas
 
em lágrimas cheias de fuligens.




1º mar 15



LdeM

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

2 poemas de Fernando Fiorese





Fernando Fiorese



CARTA ABERTA

                                       Ao anagrama Magog
aos que de mãos impolutas assinam a miséria
aos que preferem o bunker ao abismo
aos que propõem civilizar o coração selvagem
aos que no teorema petrificam o poema
aos que não riem do dicionário
aos que emplumam o cão
aos que evitam os olhos do inimigo
aos contra-regras do gran teatro del mundo
aos que prefixam o radical
aos que prometem Ítaca sem epopéia
aos que rezam para adormecer o escorpião
aos que não sabem fazer o plural
aos que horizontalizam a paisagem
aos que tomam assento

a todos advirto:
escrever é também vingar-se



                        De Papéis Avulsos

 
COMO DESFAZER BAGAGENS
Como quem de viagem
demora a acomodar-se
ao clima, ao horário,
às vogais de outra sintaxe,
também escrever estranha
quando muda de paisagem.

Como quem de viagem,
o que carrega apouca
a dicionários, passagens
e alguma muda de roupa,
também escrever exige
aprender a descartar-se.

Como quem de viagem
pouco ou nada decifra
do manuscrito-cidade
(mal soletra as esquinas),
também escrever ensina,
menos importa encontrar-se.

Como quem de viagem
evita, quando sabe,
os apelos do fóssil,
do que é fausto adrede,
também escrever prefere
o que se dá sem salvas.

Como quem de viagem
sabe o prazer de andar
sem endereço ou idade,
com a roupa amassada,
também escrever comparte
esse corpo sem abas.

Como quem de viagem,
para rever a janela onde
lhe sorriu uma criança,
o embarque adiaria,
também escrever alcança
os vestígios desse dia.

Como quem de viagem,
das malas faz relicário
de rostos, ruídos e mares,
de balas, livros e ácidos,
escrever também seria
como desfazer bagagens.



                        De Corpo Portátil (1998-2000)





Mineiro de Pirapetinga, onde nasceu em 1963, Fernando Fábio Fiorese Furtado é mais identificado com a cidade de Juiz de Fora, onde reside desde criança. 
Professor de literatura, poeta, contista e ensaísta


entrevista em http://www.selmovasconcellos.com.br/colunas/entrevistas/fernando-fiorese-entrevista/



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Nossa pobre Civilização Ocidental - by LdeM


 


Nossa pobre Civilização Ocidental
(ou A Civilização e seus Descontentes)


Pobre Civilização Ocidental !

Para os iluministas o Ocidente é irracional

Para os reacionários o Ocidente é degenerado

Para os revolucionários o Ocidente é alienado

Para os surrealistas o Ocidente é racionalista

Para os cristãos o Ocidente é pecado

Para o Islã o Ocidente é profanação

Para o capitalista o Ocidente é consumo

Para o pós-moderno o Ocidente é líquido

Para a feminista o Ocidente é machista

Para o machista o Ocidente é efeminado

Para a recalcada o Ocidente é libertino

Para os lógicos o Ocidente é superstição

Para o psicanalista o Ocidente é neurótico

Para a neurótica o Ocidente é mal-estar

Para o psicodélico o Ocidente é careta

Para os poetas o Ocidente é burocracia

Para o músico o Ocidente é barulho

Para os ecologistas o Ocidente é devastação

Para o gnóstico o Ocidente é Caos

Para os políticos o Ocidente é manipulação

Para a politicamente-correta o Ocidente é domínio

Para os xenófobos o Ocidente é tolerante

Para a cínica o Ocidente é pastiche

Para os orientais o Ocidente é afetação

Para os tradicionais o Ocidente é decadência

Para os vanguardistas o Ocidente é atraso

Para as devotas o Ocidente é blasfêmia

Para os pobres o Ocidente é exclusão



09jan15



Leonardo de Magalhaens


...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Philip Lamantia - A voz dos médiuns da Terra







philip lamantia


a voz dos médiuns da Terra


Estamos mesmo alimentados
com máquinas mentais de paz & guerra
cérebros nucleares de monóxido, computadores cancerígenos
motores sugando nossos corações de sangue
que outrora cantaram coros de aves naturais!
Basta de dínamos & guindastes
bá-bá-bate de polias & pistões
invenção da Humanidade do Demônio
E logo
se forem silenciadas
e sobrevivermos aos altares de sacrifício
do deus automóvel e das vulvas de aço
vertendo loucura molecular
por várias camadas de pó satânico


se a Máquina completa da multidão algemada
não for dissolvida, voltando à Terra
de onde seus elementos foram roubados
deveremos evocar
a Grande Onda Oceânica
Neter das águas
e o Rei Atlante e seus espíritos-serpentes
também conhecidos como
Orco
Dagon & Draco
para que mandem ondas de marés calamitosas
de mil pés de altura, se preciso –
para enterrar todas as cidades monstruosas de metal
e suas bilhões, bilionárias rodas de morte química!


Oh, William Blake!
tu podes inspecionar, se te aprazes,
esta lição da Varredura Geral de Aquário
que o maravilhoso espírito de purificação terrena do Oceano
irá deter tais pesos e rapinagens
seu sangue metálico e pele muito fina
para nos ensinar a canção terrena de harmonias taoístas!


Trad. Márcio Simões






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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Obsessões e Imagens Surrealistas na Poética Visceral de Miguel Nava



 






Sobre a poética de Luís Miguel Nava


in O Céu sob as Entranhas





Obsessões e Imagens Surrealistas na Poética Visceral de Nava




Leonardo Magalhães
Fale – UFMG


      A riqueza da poética do português Luís Miguel Nava está nos excessos. Há um excesso de vísceras e entranhas, embrulhadas em obsessões. Imagens excessivas que desafiam nossa lógica insuficiente. Uma necessidade de desabafar obsessões em repetidas imagens ao estilo surrealista, isto é, carregadas de nonsense, junção de opostos, cortes e sobreposições, em sinestesias sugeridas por metáforas exageradas.

      Algo de um simbolismo não-discursivo, onde fala de uma coisa se referindo a outra (roupa e pele, estacas e ossos, p.ex.), em um expressionismo de imagens deformadas por desejos repetidos, delírios que buscam corporificações, em ossos que são estacas, em águas que arrebatam avassaladoras, onde os sentimentos se atropelam, das trevas para a luz, órgãos expostos, em entranhas que se exibem.

      Em presenças obsessivas surgem pele e ossos, vísceras em sangue, tecidos esticados, corpos recortados, como nas poéticas expressionistas dissecadoras de um Gottfried Benn, ou de um Augusto dos Anjos. O corpo sem alma, como uma carne tão nossa e mesmo tão estranha, um familiar que é desconhecido, em tom de pesadelo que não finda, mas migra de poema em poema, numa gradação obsessiva. Os nervos expõe a tormenta interior, a hemorragia é o transbordar de um mar interno, quando o poeta ousa mergulhar em si-mesmo, a adentrar os poros.

       Pois a “nossa anatomia é uma terra enigmática e longínqua” quando o poeta se assusta com a possibilidade de “ver na rua um osso ou um órgão meu” em seu longo poema em prosa “A Cor dos Ossos” numa verdadeira dissertação lírica sobre a estranheza que é ter a consciência de um corpo. Pois a consciência nasce justamente desta percepção, uma vez que segundo o filósofo Espinosa (1632-1677), sem transcendências, a alma é a ideia que o corpo tem sobre si-mesmo.

      O corpo que é liricamente dissecado em imagens fortes, surrealistas, tais como ossos que são estacas fincadas no deserto,

Os meus ossos estão espetados no deserto, não há
um só no meu corpo que lhe escape.
Cravados todos eles na areia do deserto, uns a seguir
aos outros, alinhados.
                         (Estacas)

 
tais são os ossos ocultados sob a pele, uma roupa que nos reveste, estendida sobre nosso corpo estranho que é e não é a nossa identidade. Somos um corpo ou estamos numa corpo? Alma e corpo são aspectos da mesma coisa? Ou há mesmo um dualismo mente X corpo, ou espírito X carne, como professam as religiões espiritualistas? Afinal, trata-se de um sujeito lírico que sonda as “profundidades da alma” encarcerado num corpo de sombras e memórias.

os ossos se poderem refugiar, em certos casos, na memória, como se esta os absorvesse e quem por eles fosse constituído então se invertebrasse ou reduzisse a um mero filamento onde assentasse a carapaça da memória, no interior da qual o corpo inteiro se engolfasse até completamente se sumir. (A Cor dos Ossos)

       A alma é uma percepção e o corpo é uma densidade, materialização de sentimentos, que são enraizados, profundamente, então dissecados, obsessivamente, sem respostas, apenas mais desassossego, como se fossem as “cordas do nosso espírito esticadas num terraço” (Paisagem Citadina), quando as entranhas são o campo de batalha de trevas e luz, águas e lembranças, sendo que real e simbólico se mesclam em obsessões.

      Mesmo a escrita é problematizada, vista como inviável, como deformada, nunca desfazendo as trevas internas, nunca realmente mergulhando em busca de luz. Que luz? “A luz que desse sangue irradiava” ou “a luz que das vísceras emana” (Matadouro) em colagem de opostos, pois as entranhas são o local da escuridão, do desconhecido, do inenarrável.

      Nos poemas em prosa Insónia e Os Ossos temos as tentativas de poemas com narrativas, onde sujeitos se deparam com forças insondáveis, a presença do corpo que abriga consciência, que é habitado por pesadelos de dissecação, de desmembramento, como se submetido a uma pressão de dissociação, quando o corpo sem a alma é mera carne a ser pendurada, retalhada, exposta.

[…] esses ruídos lhe chegarem como vindos de dentro de si próprio,
de dentro desse coração a que os sentidos pareciam encostar-se, e, mediante uma identificação entre o espaço e o tempo a que a escuridão também era propícia, se lhe apresentarem como provenientes duma época remota, tão distante do presente como da sua cama o inimaginável troço de estrada ou de linha férrea donde a espaços irrompiam. (Insónia)

 
     Afinal, não temos controle sobre o corpo, nem vivos nem mortos. As vísceras funcionam involuntariamente, seus movimentos peristálticos constantes sem a nossa consciência. E ainda mais quando o corpo é cadáver. Não é mais um eu, uma alma, ou consciência, mas é uma coisa (quando o Eu também se coisifica), a ser examinada e sepultada. Não temos domínio sobre o nosso corpo após a more, que destinação terá, se um laboratório, ou um túmulo, ou forno crematório.

       O corpo, presente em toda a poética de Nava, é uma materialização e uma densidade, um cárcere e um objeto de desejo, e uma profunda obsessão ao ponto de alucinação, com suas metáforas exageradas, como bem aponta o autor Moisés David Sousa Gomes Ferreira, em seu artigo Luís Miguel Nava e o espaço do corpo em O Céu Sob as Estranhas, de 2009,

As descida que se opera ao universo visceral será um passo recorrentemente dado no caminho que a poesia de Luís Miguel Nava percorre, caminho de procura e sondagem de um conhecimento essencial em que, pela via de um peculiar, profuso e explosivo trabalho metafórico, se diluem as fronteiras entre sentidos/razão, sensível/abstracto, sensorial/espiritual. […] Este processo [trabalho metafórico] caracteriza-se pelo estabelecimento de uma relação de proximidade entre universos semânticos aparentemente afastados, originando efeitos por vezes desconcertantes.” (2009, p. 3)


      Em alucinações na obsessiva ruminação de ter um corpo ou ser um corpo, o sujeito busca símbolos para expressar seu desassossego, em repetições que levam ao mesmo ponto de partida, com sua duplicidade, matéria-consciência, sua descoberta/ocultação, sua razão insuficiente, com os opostos em tensionamento até às imagens surrealistas. Assim a pele é uma bandeira hasteada, ou uma partitura para os ossos, e ossos que são estacas cravadas, enquanto o espírito tem cordas esticadas, e a carne atrai as estrelas, e os órgãos podem ser expostos na rua, há uma luz que vaza das vísceras.

      Obsessivamente, o sujeito que é corpo, e divaga sobre o corpo, adentra o universo da linguagem como única forma de exteriorizar o abismo de suas entranhas. Ele disseca a si mesmo nas páginas, em escrita árida, difícil, ansiosa, turbulenta, desconcertante. Por isso voltar-se tanto para o trabalho com a linguagem, a labuta, em tanta metapoética. O sujeito-poeta tem algo urgente a dizer, mas é quase inviável. Muitas vezes não é possível entender. Mas a poesia sincera, a real poesia, é capaz de comover antes mesmo de ser compreendida. Em matéria de poesia visceral é mais questão de sentir do que de raciocinar.




Referências


FERREIRA, Moisés David Sousa Gomes. Luís Miguel Nava e o espaço do corpo em O Céu Sob as Estranhas. Artigo. 2009.

NAVA, Luís Miguel. Poesia Completa (1979-1994). Lisboa: D. Quixote, 2002.

SOUSA, Carlos Mendes de. A coração das vísceras. Representações do Avesso na poesia de Luís Miguel Nava. Universidade do Minho. Artigo.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

2 poemas de Ronaldo Werneck





RONALDO WERNECK


NOVA YORK

só num canto de loja distraído
esquecido numa rua do soho

a lupa no olho o relojoeiro
escuta o bater-rebater do mundo

e nos conduz sós ao topo do tempo
de seu consumo templário templo

fora do céu o skyline aqui está
tombando sol horizonte às avessas

a noite desce e escorre pelo mundo
nenhum barulho nem tampouco medo

do alto do império são formigas
as gentes grandes carros de brinquedo

o tempo nas mãos do relojoeiro
nada tem de sólido ou partido

tem 'pó esse mecanismo do mundo
mas nada de parado nem perdido



                           Nova York
                           maio de 2014








TEMPO EM TRÊS TEMPOS

Seja sábio, beba logo esse seu vinho
e trague a esperança para onde estamos,
mesmo agora, enquanto de nós nos falamos,
o tempo ciumento nos está fugindo.
Horácio By RW


1 .TEMPOEMA

no espaço do quarto
campo-fundo universo
tempo de onde parto

largo tempo largo
espaço de meu canto

um tempo-espaço avesso
de mim exíguo verso



2 .POEMA CINEMAR

o metro o cine copacabana e o mar
o rio pomba o nelo e o edgard

lá as salas de ar chiquê
as cançonetas derradeiras

cá não se ouve nem se vê
cenas de pulgas e poeira

metro mundo de lá
mundo metro de cá



3 .TEMPO ARREDONDADO

menino na janela
saia redonda alçar
a moça na calçada
o seu arredondar

tempo por trás do tempo
arredondadas formas
anos cinquenta e tanto
e lá vem ela e o vento

salta suave o espanto
um sôfrego apontar
saia rotunda saia
o seu arredondar

nesga uma só nesga
um quê de arredondada
saia ponta de perna
um tempo de si mesma

o menino se esconde
nele de si vexado
para dentro de si
de si ensimesmado

da janela o menino
redonda moça vê
ela a passar e o tempo
a passar atrás dela







                    in: o mar de outrora & poemas de agora / 2014








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