segunda-feira, 28 de outubro de 2013

prosa & verso de Paulo Mendes Campos







PAULO MENDES CAMPOS


[1922-1991]


 
prosa & verso




Declaração de Males

Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda


Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.
Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.
Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.
Marchei em colégio interno durante seis anos mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.
Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.
Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.
Já estive, sem diagnóstico, bem doente.
Fui acabando confuso e autocomplacente.
Deixei o futebol por causa do joelho.
Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.
No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.
Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.
Sou órfão de mãe excelente.
Outras doces amigas morreram de repente.
Não sei cantar. Não sei dançar.
A morte há de me dar o que fazer até chegar.
Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.
Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.
Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.
Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?
Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.
Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.
Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.
Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.
Não acredito nos relógios... the pule cast of throught... sou o que não sou (all that I am I am not).
Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.
O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.
Não creio contudo em myself.
Nem creio mais que possa revelar-me em other self.
Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.
Sou o próprio síndico de minha massa falida.
Não amei com suficiência o espaço e a cor.
Comi muita terra antes de abrir-me à flor.
Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.
Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.
A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.
A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.
Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.
Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.
Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.
Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.
Jamais compreendi os estatutos da mente.
O mundo não é divertido, afortunadamente.
E mesmo o desengano talvez seja um engano.








O Morto


Por que celeste transtorno
tarda-me o cosmo do sangue
o óleo grosso do morto?
 
Por que ver pelo meu olho?
Por que usar o meu corpo?
Se eu sou vivo e ele morto?
 
Por que pacto inconsentido
(ou miserável acordo)
Aninhou-se em mim o morto?
 
Que prazer mais decomposto
faz do meu peito intermédio
do peito ausente do morto?
 
Por que a tara do morto
é inserir sua pele
entre o meu e o outro corpo.
 
Se for do gosto do morto
o que como com desgosto
come o morto em minha boca.
 
Que secreto desacordo!
ser apenas o entreposto
de um corpo vivo e outro morto!
 
Ele é que é cheio, eu sou oco.








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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

poema de Denise Emmer





DENISE EMMER

Rio de Janeiro, 1958-



O INVENTOR DE ENIGMAS

Para Moacyr Félix



Os poetas carregam seus sacos de poeira
e sobem e descem inúteis ladeiras...
levam os poetas como se levassem filhos
nas suas costas os mundos pesados de Carlos.

São tão poucos para tantos mundos que existem
dentro de tantos sacos imensos e cinzas
são tão raros os sábios que sonham como pássaros
que restarão países sobre países empilhados

Os poetas escutam o ranger dos séculos
que se abrem que se fecham como portas trágicas
a poesia veste blusas claras em meninas mortas
ou absolutamente não surpreenderá as guerras.

Se um dia ela mudar os deuses de seus picos
a ponto de evitar que um câncer se espalhe

no organismo dos mares ou dos intestinos podres

ou se um dia ela acender um corpo baleado
antecipando a luz materna das estrelas
uma cidade será uma cidade bela
a Terra minha única memória.

Acho que ela passa voando sobre os cisnes
e cheira a carne em brasa dos campos de extermínio
ela pode cruzar as mãos de um velho
ou disparar uma fábrica de enigmas.

Os poetas são seres inegavelmente invisíveis
mas a poesia é tão clara como um piano no espaço
eles se infiltram incógnitos nas multidões raivosas
ela descreve um arco no céu e reinventa a noite
eles atravessam portas fechadas de cofres vazios

ela projeta o sonho do Homem no espectro da luz


(do livro O inventor de Enigma)


in: 41 Poetas do Rio. Funarte, 1998.





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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

2 poemas de Carlos Lima








CARLOS LIMA


RJ , 1945


ALMAS MOFADAS

A André Breton


A vida apenas esta
no picadeiro dos nossos corações destroçados
sob a cal e os esqueletos dos sonhos impossíveis

A vida apenas esta
na usura dessa saudade lusa que me rói
como as garras de um violino fantasma numa casa deserta

A vida apenas esta
no exílio selvagem dos meus olhos perdidos dos teus
na vertigem do abismo desse céu onde se escreve a palavra nunca

A vida apenas esta
enquanto o carnívoro liebestod do destino
afia as suas facas na garganta azul do tédio

A vida apenas esta
onde o espantalho fluvial da dor
acende o teu nome nas pálpebras da noite vasta

A vida apenas esta
eu aqui bebendo genebra só pensando nela
eu aqui tomando um porre de gim sem pensar em mim

A vida apenas esta
nesta melancolia de minotauro encarcerado
no labirinto desse amar cegamente o amargo amor

A vida apenas esta
ainda que nossas almas mofadas nas cicatrizes de sonâmbulos
silogismos
continuem apenas tateando nesse ossuário dos desejos a terrestre
aventura lucilante


(1.9.1996)





CANÇÃO DESESPERADA


Dentro de mí mismo me he perdido,
Chego de llorar una ilusión...
E. S. DISCÉPOLO


Como um cão louco como uma canção desesperada
só no meio do mundo só no meio da madrugada
sob o beijo frio da lua somos despejados da ilusão
(toda saudade é galega e nem toda cerveja é gelada)
tocamos a fímbria da noite desiludidos e sem perdão

Minha poesia, diz a ela, que noite e dia
de amor padeço, sofro, anoiteço
a esperança não é mais irmã da fantasia
Chego cedo do dia já vencido
para dizer esses versos aos teus ouvidos
mas sei que os dentes do tédio ultimam os seus desígnios

Ah, a tirania da tua ausência
deixará as noites obscenamente incompletas
a poesia será mendiga sem a pureza dos teus mistérios
já não haverá mais calma no mundo
a paixão desertará da vida e tudo que amarmos nos fará sofrer

Mas esta é apenas uma noite vulgar uma simples canção
no peito de um homem comum num subúrbio qualquer da cidade
e não é bom nos determos nas tentações desta paisagem
fiquemos silentes com o cristal da presença só da presença
neste dédalo o sonho o sonhador a sonhada não se separam
nunca mais


(25.8.1996)



in: 41 Poetas do Rio. Moacyr Félix (org.) RJ, Funarte, 1998.



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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

um poema de Roberto Piva (de 1979)










Roberto Piva


(Meditações de Emergência)


a vida é suja meu garoto
o enforcado brinca sob a lua o travesti detido
mija na escuridão
a cratera da miséria aumenta cada dia
os pássaros rosnam
os canalhas dançam nas paredes
eu conheci párias mais doces que churros
eu conheci o braço do amor a fome o nojo
eu conheço Raul Bopp & Tristan Corbière
o rio da poesia passa pelo meu quarto
o rio da poesia passa pelo meu quarto
o barco do amor corre entre os rochedos
da minha cama
o girassol da loucura pisca sua lâmpada
amarela na minha direção
a religião castra o homem que castra
a criança & seus fantasmas
a mulher se masturba com o punhal
todo mundo é virgem menos o mundo
as flores do deserto explodiam em alegria
África prepara o batuque de auroras
África prepara as zagalas da poesia
as ruas asfaltadas do fim do mundo
os escorpiões aninhando-se na palma da mão
os trilhos desaparecem no horizonte
como nuvens
você que vai me amar neste ano de 1979
cuidado com os inventores de deserto
com a formiga no coração
com as tripas ao vento da tempestade
círculo após círculo
o inferno lisérgico de Dante
vai nos levando até o Paraíso
a paixão da serpente pelo seu veneno
o esporte dos loucos nos canteiros de pálpebras
suas coxas imberbes & longas na minha boca
os pastéis de palmitos meio comidos
a gelatina gigante
meu guaraná da Antártica & Gal Costa
na vitrola
minha cama arca de Noé dos animais
selvagens
alcova como diria Sade
onde eu escrevo este poema ventríloquo
carregado de eletricidade
carregado com o musgo vermelho
dos tombadilhos
carregado com os gemidos da adolescência
alcova onde deslizo com esquis de esperma
as constelações me veem brincar com a
espaçonave do seu corpo
garoto sujo de dor
que ouviu as vozes de metal dos ratos
de um cargueiro
que viu desabarem os corações da Terra
em plena época industrial
quando os comerciais da TV fazem desaparecer
a felicidade



in: Singular & Plural Nº 3 / fev 1979



Meditações de Emergência / Piva entrevista Willer










quinta-feira, 19 de setembro de 2013

2 poemas de Edimilson de Almeida Pereira










EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA

Juiz de Fora/ MG



SIGNOS


Endereço nos cabelos leva a mais do que leio

onde estão dançando em ritmos vermelhos.

Dançam tatuagens alheias a seu desenho.

As siglas dos mistérios fecham sem correntes

um corpo que intenso se move na inércia.

E sobre outro corpo – maestro por urgência -

dança como se antes vencesse o desespero.

Dentro da música o pente a silhueta a hora

em que a última fera sabe o sigilo dos velhos.

Os ritmos que entendo pelo ruído dos dentes

são outros são estes atentos como espelhos.

Aquela que me dança na mais perfeita esfera

luta com seus nervos e as cartas que escreve.

O blues me atravessa uma rajada de espíritos

as ilusões viram seta navegando pelos discos.

O céu se dobra em ruas as flores nos oceanos.

A dança que se espera dura se não dançamos.







ZEOSÓRIO


Para bateria e colher de pedreiro o mesmo

braço, ritmos diferentes. Nas duas o empenho

para se esquecer os andaimes: casa e melodia

são mais ou menos um giro pelos dentes.

Não há que mordê-las nem tirar suas luvas.

Quando muito, se puder estendê-las na tarde.

Assento um piso como um músico tocando

improviso: sei as curvas que evito e aquelas

a que me abandono. Uma prima pede o favor,

evêm as chuvas – que lhe conserte o telhado.

A cunhada, que levante um muro na horta.

A outro parente, por saúde, não cobro nada.

Mas aos de fora, dado que fazem meu salário,

arrecado na medida de um espetáculo.

Afino martelos para não estragar os pregos:

metais são a cozinha da banda, se a sua chama

falha, que fiasco. No mês vencido, sem

dinheiro, acertei de consertar serviço alheio.

É a urla mudar o ritmo de quem esperou moradia

e viu o tempo perdido. Se alguém errou a vez

da batida, nem prumo nem balanço: só avaria.

Mais fácil dançar na lama de sapato branco.

Com bateria e colher de pedreiro um homem

faz seus meios e a si mesmo como puder.





Fonte: Antologia Comentada da poesia brasileira do século 21.
Manuel da Costa Pinto (org) São Paulo: Publifolha, 2006





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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

2 poemas de ROMÉRIO RÔMULO









ROMÉRIO RÔMULO


os calos detrimentam meu estrato.
a pele, osso e pedra, é solta em rebordosas amplas.
viveres e pontes cabem meu caminho
como as amplitudes recaem sobre  nós.
olhando o espasmo, meu relincho dorme.
os homens neutros, os rios neutros,
se despedaçaram.

sobrou de tudo a última trompa.

se muros fervilharam, outros muros cabem
como estampas nos rins e coração.
a construção do novo, breve aura
no olho vê-se, brusca.

quando etapas rangerem, vou rever meus antros.








quantos antros e destinos me ataram
pelo avesso da ilha.
mágicas só revertem a metade das noites
que as outras são concretos.

quantos avos e destinos me atormentaram
o rosto e o osso;
curvei-me a todos para estar perfeito.

a todos busquei ver como água e pedra:
com o olho, retalhei-lhes as faces
e o contíguo dos lábios.

pólvoras deixaram meu corpo em frangalhos.
mas atei-lhe os nós e os pedaços
como quem range à utopia.
fiz ver que vales e montanhas são nacos da vida.
no fôlego quente da espécie.

quando surgi de mim, fiquei varrido
e meu estado de coisa correu solto.



in Matéria Bruta / 2006




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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Canto do Homem Cotidiano - Ildásio Tavares









ILDÁSIO TAVARES

[1940-2010]

Canto do Homem Cotidiano


Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O playboy das mariposas
O imperador da contabilidade.


Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.


Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.


Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.


Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.


Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.


Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.


Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.


Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.


Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.


Esse que joga pelada
E é craque da canelada.


Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.


Esse que aguenta o rojão
Pro filho ter instrução.


Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.


Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.


Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor

(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,
Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.


In: O Canto do Homem Cotidiano / 1977



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