quinta-feira, 19 de setembro de 2013

2 poemas de Edimilson de Almeida Pereira










EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA

Juiz de Fora/ MG



SIGNOS


Endereço nos cabelos leva a mais do que leio

onde estão dançando em ritmos vermelhos.

Dançam tatuagens alheias a seu desenho.

As siglas dos mistérios fecham sem correntes

um corpo que intenso se move na inércia.

E sobre outro corpo – maestro por urgência -

dança como se antes vencesse o desespero.

Dentro da música o pente a silhueta a hora

em que a última fera sabe o sigilo dos velhos.

Os ritmos que entendo pelo ruído dos dentes

são outros são estes atentos como espelhos.

Aquela que me dança na mais perfeita esfera

luta com seus nervos e as cartas que escreve.

O blues me atravessa uma rajada de espíritos

as ilusões viram seta navegando pelos discos.

O céu se dobra em ruas as flores nos oceanos.

A dança que se espera dura se não dançamos.







ZEOSÓRIO


Para bateria e colher de pedreiro o mesmo

braço, ritmos diferentes. Nas duas o empenho

para se esquecer os andaimes: casa e melodia

são mais ou menos um giro pelos dentes.

Não há que mordê-las nem tirar suas luvas.

Quando muito, se puder estendê-las na tarde.

Assento um piso como um músico tocando

improviso: sei as curvas que evito e aquelas

a que me abandono. Uma prima pede o favor,

evêm as chuvas – que lhe conserte o telhado.

A cunhada, que levante um muro na horta.

A outro parente, por saúde, não cobro nada.

Mas aos de fora, dado que fazem meu salário,

arrecado na medida de um espetáculo.

Afino martelos para não estragar os pregos:

metais são a cozinha da banda, se a sua chama

falha, que fiasco. No mês vencido, sem

dinheiro, acertei de consertar serviço alheio.

É a urla mudar o ritmo de quem esperou moradia

e viu o tempo perdido. Se alguém errou a vez

da batida, nem prumo nem balanço: só avaria.

Mais fácil dançar na lama de sapato branco.

Com bateria e colher de pedreiro um homem

faz seus meios e a si mesmo como puder.





Fonte: Antologia Comentada da poesia brasileira do século 21.
Manuel da Costa Pinto (org) São Paulo: Publifolha, 2006





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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

2 poemas de ROMÉRIO RÔMULO









ROMÉRIO RÔMULO


os calos detrimentam meu estrato.
a pele, osso e pedra, é solta em rebordosas amplas.
viveres e pontes cabem meu caminho
como as amplitudes recaem sobre  nós.
olhando o espasmo, meu relincho dorme.
os homens neutros, os rios neutros,
se despedaçaram.

sobrou de tudo a última trompa.

se muros fervilharam, outros muros cabem
como estampas nos rins e coração.
a construção do novo, breve aura
no olho vê-se, brusca.

quando etapas rangerem, vou rever meus antros.








quantos antros e destinos me ataram
pelo avesso da ilha.
mágicas só revertem a metade das noites
que as outras são concretos.

quantos avos e destinos me atormentaram
o rosto e o osso;
curvei-me a todos para estar perfeito.

a todos busquei ver como água e pedra:
com o olho, retalhei-lhes as faces
e o contíguo dos lábios.

pólvoras deixaram meu corpo em frangalhos.
mas atei-lhe os nós e os pedaços
como quem range à utopia.
fiz ver que vales e montanhas são nacos da vida.
no fôlego quente da espécie.

quando surgi de mim, fiquei varrido
e meu estado de coisa correu solto.



in Matéria Bruta / 2006




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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Canto do Homem Cotidiano - Ildásio Tavares









ILDÁSIO TAVARES

[1940-2010]

Canto do Homem Cotidiano


Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O playboy das mariposas
O imperador da contabilidade.


Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.


Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.


Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.


Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.


Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.


Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.


Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.


Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.


Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.


Esse que joga pelada
E é craque da canelada.


Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.


Esse que aguenta o rojão
Pro filho ter instrução.


Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.


Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.


Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor

(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,
Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.


In: O Canto do Homem Cotidiano / 1977



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terça-feira, 20 de agosto de 2013

2 poemas de Piva em PARANOIA



Roberto Piva

Paranoia [1963]


Poema Submerso


Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror,
          quando os cílios do anjo verde enrugavam as
          chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
          uma centena de pássaros fortemente de passagem
Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
          infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
          ausente do Criador
 
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
          Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
          meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aleias olhando com alucinada ternura
          as meninas na grande farra dos canteiros de
          insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
          piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
          para mim, em leves mazurcas



...


 

Visão de São Paulo à noite
Poema Antropófago sob Narcótico


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
 
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada
 
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
 
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
 
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta
 
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo



Roberto Piva

[1937-2010] 


Paranoia em






terça-feira, 13 de agosto de 2013

O caso dos dez negrinhos - Bráulio Tavares






BRAULIO TAVARES


(Campina Grande, PB, 1950)


O caso dos dez negrinhos
(ROMANCE POLICIAL BRASILEIRO)


Dez negrinhos numa cela
e um deles não mais se move.
Fugiram de manhã cedo,
mas eram nove.


Nove negrinhos fugindo
e um deles, o mais afoito,
dançou: cruzou com uma bala…
Correram oito.


Oito negrinhos trabalham
de revólver e canivete;
roupa cáqui vem chegando,
fugiram sete.


Sete negrinhos passando
pela rua de vocês;
alguém chamou a polícia,
correrem seis.


Seis negrinhos dão o balanço:
bolsa, anel, relógio, brinco…
Houve um erro na partilha,
sobraram cinco.


Cinco negrinhos de olho
na saída do teatro.
Um vacilou, deu bobeira…
Correram quatro.


Quatro negrinhos trombando,
todos quatro de uma vez.
Um deles a gente agarra,
mas fogem três.


Três negrinhos que batalham
feijão, farinha e arroz.
Um se deu mal: a comida
dava pra dois.


Dois negrinhos se embebedam
de brahma, cachaça e rum.
Discussão, briga, navalha…
e fica um.


E um negrinho vem surgindo
no meio da multidão.
Por trás desse derradeiro…
vem um milhão.




In: O homem artificial / 1999






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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Cotidiano - conto de LdeM






Cotidiano

Pode alguém desvencilhar-se
do
cotidiano?Eustáquio Gorgone


Ele se levantou cedo. Ainda mais cedo do que de costume. Era preciso pegar o metrô das 7h40 na Estação central. O fax não mentia: marcava o encontro com o fornecedor às 8hs no estacionamento do shopping. Se demorasse o que acontecia? O sujeito seguiria para cuidar de outros lucros.

Só precisava assinar uns papéis. O resto até poderia resolver via e-mails. Sobrava para a secretária, claro. Mas nada de deixar trabalho acumular. Não tinha marcado um descanso, quase férias, com sua querida? Bem que Thairine dizia que ele precisava descansar. Jogar o celular na privada, vez ou outra.

Para degustar o merecido descanso só bastaria cumprir os prazos, encontrar os fornecedores nos horários, não implodir a paciência de ninguém. Só isso. Daí ele empunhar o celular de cinco em cinco minutos para conferir as horas.

Mas de nada adiantou, pois o metrô passou às 7h40 e foi sem ele. Tudo por causa do engarrafamento que reteve o ônibus no viaduto por mais de vinte minutos. Um absurdo, mas estamos numa cidade grande, não? Todo mundo que pode comprar um carro, vai e compra um carro.

Assim tudo contabilizado, ele perdeu o metrô por 2 minutos e meio, aproximadamente. Puxou o celular e ligou para o fornecedor. O homem impaciente não poderia esperar. Mas estaria de volta às 9 hs, certamente. Assim, o próximo metrô recebe mais um passageiro. Aliás, que metrô lotado! Aliás, tudo anda meio lotado nesta cidade lotada...

Diante dele, ao lado da porta, vai uma mocinha. Vê-se que ela se concentra num livro. Universitária? Secretária? Atendente de telemarketing? O que ela faz na vida além de ler livros de …? livros de quê mesmo? Ele se aproxima, olha meio torto, ela sequer repara no vizinho. É uma livro da saga Crepúsculo, com esta capa, onde duas mãos pálidas aninham uma maçã rubra-sanguínea, assim, bloody-red, soa melhor.

A mocinha que não deve ter mais de vinte anos, ele calcula. Ela de cabelos encaracolados, meio aloirados, com orelhas pequenas, desprovidas de brincos assim como ela está sem maquilagem. Tudo ao natural. Ela usa uma sandália e não um tênis ou botinha. Ela está em outro mundo, entre mordidas de vampiros juvenis e peripécias de lobisomens adolescentes. Pelo menos o filme é assim … Nada que acontece ao redor interessa àquela mocinha fantasiosa e que desperta fantasias.

O celular toca e o arranca do devaneio. O que será? Sim, é o Renan. Diga. Claro, no metrô. Mas atrasado. Eu, atrasado. Perdi o outro. Fazer o quê? Quando chegar lá eu te ligo, ok? Bye. E a mocinha virava páginas e páginas e o metrô atravessava o Horto florestal e passava túnel e sumia debaixo da terra. Em breve a estação do shopping...

Lá de cima, da perspectiva da estação, donde se vê a avenida lá embaixo, ele testemunha um acidente. Até então ele não tivera sequer tempo de ver acidentes. Sempre acontecia antes ou depois, então via as consequências, as manchas de óleo ou de sangue, ou sabia pelos jornais que exatamente naquela esquina um ônibus afrontara um poste. Mas agora ele via em tempo real, ao vivo e sem cortes.

Um carro vem, encontra um outros próximo demais, um choque repentino, e pronto. Ou então um transeunte incauto fora da faixa de pedestre que sofre um atropelamento fatal ou não. Mas agora, eram as dois coisas. Um carro, para não bater num mais próximo, desvia-se e acaba por fechar um cruzamento. Alguém tenta passar e é atropelado pela moto que vem logo atrás. Um acúmulo de incidentes que causam um acidente.

Eis a gratuidade da existência, ele pensa. Eis a morte a qualquer momento. Somos apenas os próximos na fila. E a fila anda, uns chegam e outros vão embora. Simplesmente. Um mero atraso de um carro, ou o desvio de outro, o avanço ou hesitar do fluxo de trânsito e eis alguém fatalmente arremessado sobre o meio-fio.

Ele lembra-se de Thairine, da família de Thairine, do aconchego do lar. Ele – ainda bem! - se dava muito bem com sogra e sogro, coisa rara, e preferia ficar com a família de Thairine, e tal, e se a sua Thairine sumisse? Assim, gratuitamente? Ela poderia atravessar a rua e pronto! O fim! Não, não! Que coisas para se pensar assim logo de manhãzinha!

E assim os seus filhos jamais existiriam, e seus netos ficariam no limbo, e pronto. Pelo menos os seus filhos e netos com Thairine, não? E quem ele deixaria neste mundo? Quem ele devia amar com devoção... Quem haveria de nascer dele e da querida... E assim tudo gratuito: vem uma moto do nada e pronto! Adieu! Rest in peace! Não, nada disso.

E o acidente ali nem era fatal. A mulher – pois era uma mulher assim de uns trinta anos – estava caída junto ao meio-fio e sendo amparada por um policial que apareceu logo. Uma galera de outros transeuntes curiosas logo se ajuntava. Impressionante mesmo! E ele seguiu adiante, não ficaria a contemplar as desgraças alheias, e seguiu a própria sombra até a passarela.

Pois lá o esperava outra visão. Bem debaixo da passarela dois ETs se encolhiam, dois seres encurvados, em andrajos. Seriam mesmo seres humanos? Parecia um casal, sim, de idosos, ou ainda, envelhecidos pela miséria. Não deviam ter mais que quarenta décadas nas costas, mas pareciam anciãos. O homem um tanto grisalho e amassado, e a mulher um tanto reduzida, manchada, envergonhada dos trapos que exibia.

O casal de mendigos esquentava as mãos diante de uma fogueira modesta ali debaixo da passarela. Ao lado uma lata de óleo de tamanho grande sobre tijolos enegrecidos. Seria uma sopa matinal ? O que esperavam do longo dia pela frente? Não teriam reuniões nem agenda de negócios. Não teriam vendas para fechar nem filhos para buscarem no colégio. Não passariam a tarde na galeria de arte nem a noite num concerto de rock. O que faziam com suas míseras vidas encolhidas sob viadutos e passarelas?

Será que eles, os mendigos, pensavam em uma vida paralela? Uma vida com filhos, colégios, jardim florido, viagem para Miami? Que vida paralela mais inusitada! Era um vida paralela inusitada mesmo para ele, Renan Welerson, empregado de uma loja de peças elétricas, cursando Engenharia, com toda uma carreira pela frente. Em Miami! Ora, vejam!

Mas não era uma viso? Se você não trabalhar estudar como um desvairado poderá acabar assim: mendigo debaixo de uma passarela ! Então que ele valorizasse sua família, sua futura esposa, e sogra e sogro, e patrões e fornecedores, e cuidasse do jardim e da roupa de cama e dos mantimentos na cozinha, em ordem e precaução, a degustar com prazer e gratidão o arroz-com-feijão que ele comia tão maquinalmente.

Ele pensava isso, andando ao redor. Entre passarela, trânsito ruidoso, transeuntes curiosos, buzinas apocalípticas, vendedores de balas do tipo eu-poderia-estar-roubando-mas-estou-aqui-trabalhando. Doceiras com lenços estampados e lavadores de parabrisas, entregadores de peças e de botijões de gás, todos se esgueirando no amanhecer da avenida, cada um cuidando de seus afazeres, solenemente se ignorando.

Uns vinte passos adiante, uma senhora fazia cooper, correndo suada e sem fôlego, no centro da avenida, a respirar o saudável monóxido de carbono dos escapamentos. Se amparava numa árvore, parecia fazer flexões de coxa e joelho, ao tentar elevar a perna, mas inutilmente. Pobre senhora! Queria ela ganhar mais uns dez anos de vida? Por isso insistia em correr pela avenida meio às névoas de fuligens?

Ao menos Thairine corria no Parque Municipal. Pelo menos antes de cair aquela árvore enorme a esmagar uma outra pobre senhora - que corria para o bem da saúde! Então, fecharam o parque e cortaram centenas de árvores podres ou quase podres, velhas, centenárias, caducas que ameaçavam cair sobre outros incautos. E depois reabriram o parque – mas Thairine ficara meio que transtornada, traumatizada, via as árvores como inimigas, como toras de madeira prontas a se precipitarem sobre sua indefesa cabecinha de mocinha correndo pelas alamedas!

Ali na avenida do shopping, a senhora tentava um exercício. Ali, sozinha na manhã. Dá saltos, pula de uma perna só, estica a perna pros lados, afasta as folhas secas, se ampara num banco de cimento, toma fôlego, reinicia seu martírio em nome da boa forma. Afasta outras folhas secas com os pés protegidos por um tênis de marca. Falso, certamente. Ou da netinha? Ela afasta os gravetos ao redor, ela prepara o espaço. Só não pode afastar os carros que passam céleres distantes poucos metros da sua ginástica matinal.

Nisso Renan Welerson olha o celular. São apenas 8h20 da manhã. Ele precisa esperar até 9hs. O fornecedor assim assegurou. Imagine, por causa de alguns minutos, você pode perder uma hora de sua manhã, assim, em perambulações! Ele que não era de reparar em mocinhas em metrô, ou acidentes numa avenida, ou mendigos sob passarelas, ou senhoras idosas fazendo ginástica! Ele seguia meio às novidades do cotidiano! Esperou quase duas décadas e meia por isso! Uma manhã repleta de PESSOAS!

Sim, ele vivia numa cidade, uma capital, uma metrópole, cheia de pessoas! E não coisas, ou números, ou roupas ambulantes, ou penteados que passam! Não, nada disso. PESSOAS, seres de carne e osso iguais a ele! Ele um jovem de 24 translações, ou primaveras, como queiram! Ele vai e descobre PESSOAS – oh Dio mio! Ach, mein Gott! - percebe-se finalmente no meio de seres as quais denominamos PESSOAS, seres humanos, Homo Sapiens!

Então ele viu! A mocinha no ponto de ônibus! Ela, como ele diria?, se destacava de tudo, de todos, da avenida, do trânsito, do mundo. A roupa? Os óculos escuros? A forma de virar a cabeça? A mão segurando um livro? Ou seria uma agenda? Os lábios meio descoloridos... Seria isso? Não era pálida, era antes como uma miragem.

Lembrou então de seu amigo Jesley. Sim, claro. O Jesley tinha descrito um lance assim! Quando se apaixonou por uma mocinha da orquestra. Era um concerto da filarmônica no Parque e o Jesley reclinado no gramado teve quase um momento de conversão religiosa. Ele cismou com a loira do violoncelo! Cismou, então deixa!

A moça, inclinada, concentrada tocava o violoncelo, vibrava as cordas do imenso instrumento, fazia sua função na orquestra, e o Jesley viajava , delirava, sabe-se lá. Uma loira com jeito de ninfa, ou fada, ou sabe-se lá que ente fabuloso! Era uma polonesa? Uma tcheca? Ou croata? Sabe-se lá! O Jesley empolgou: era a idealização da mulher amada.

E não é que ele, Renan, atrasado para um compromisso por causa de um atraso de 150 segundos, não entendia finalmente o seu amigo! Mas não era uma devoção por uma artista, uma violoncelista, ou uma bailarina num palco alucinado! Nada disso. Sua musa era uma mocinha a esperar o ônibus sob a sombra da passarela do shopping!

Mas o delírio, a empolgação, digamos, não durou muito e pela conjunção de dois fatores além do controle de Renan, o boquiaberto observador do cotidiano, tão ignorado cotidiano! De repente, surgiu o ônibus da mocinha, e o encanto se quebrou: ela se levantou tão bruscamente! Parecia acordar de um devaneio! E se atirou rumo ao ônibus que parava alguns metros adiante.

E no mesmo instante um carro parava ao lado de Renan. Um carro que ele não reconhecia, por nada haver que reconhecer. Era um carro banal. Ele sequer o vira antes! Uma voz, porém, ele identificou. Era o Luam, da Baeta Máquinas, o fornecedor.

-Ei Renan! Aqui! - uma buzina estrondou – O que foi? Entra aí! O Adilson entregou o reator... A gente já resolve esse lance... O que foi? Parece que viu fantasmas...!

Sim, era mesmo o fornecedor. Que fala pelos cotovelos. Que aparecera antes. Ótimo. Assim Rena deixou de ver fantasmas e regressou ao reino da concreta banalidade.


Mai/12



Leonardo de Magalhaens



quarta-feira, 24 de julho de 2013

2 poemas de ELISA LUCINDA






ELISA LUCINDA


Lambe-lambe


Passam muitas pessoas no saguão dos aeroportos.
Passam neste aeroporto de agora,
e eu, no meu pensamento,
não me comporto, imagino elas fodendo:
fulano com fulano,
são casados, gozam, fazem planos?
E ela, quer logo que acabe?
E ele, penetra rosnando?
Fantasio as inúmeras possibilidades de encaixes,
em como foram as noites de amor que tiveram pra fazer essas
crianças chinesas africanas alemãs francesas mexicanas libanesas
brasileiras cabo-verdianas espanholas cubanas holandesas
senegalesas turcas e gregas.

(Meu pensamento é inconveniente mas ninguém sabe,
escrevo num café, estou, por fora, muito chique no cenário
e nitidamente estrangeira.)

Agora passam dois homens.
Sentam à mesa ao lado.
Falam germânico mas a tradução é da mais alta putaria,
uma iguaria da mais pura sacanagem!
Eu sei, são gays. Eles não sabem que eu sei.
Pensam que escrevo o abstrato
e capricham descansados ao colo do idioma que não alcanço.
Mas sou poliglota na linguagem dos olhares,
cílios a mais antiga cortina do mais antigo teatro
na pátria universal dos gestos, meu bem!
Ele não me escapam.
Um chupa muito o outro, que eu sei,
e o magrinho gosta de dar por cima e de lado.
Importante dizer que dentro desse meu pensamento safado
também não tem pecado.
Só me diverte
ver o que todos negam,
o que não se diz no social,
uma radiografia verbal da intimidade alheia é o que faço aqui,
sem que ninguém suspeite,
sem ninguém me permitir.

Aquele tem pau pequeno e, pior que isso,
ele, mais que suas parceiras, acha isso um problema.
Aquele ali também tem, mas arde na cama e se empenha muito
compensando a diferença.
Aquela, num outro esquema,
diz que não gosta da coisa
e fala sem parar.
Só uma pirocada de jeito para fazê-la calar.
A gostosa gordinha engole a espada todinha
daquele altão desajeitado,
cujo grosso membro se torna,
em meio às coxas dela, disfarçado.

E o velhinho punheteiro
de pau mole com jornal no colo?
Talvez seja o único a adivinhar o teor dos meus escritos,
dado que me olha dissimulado e constante
de modo a nunca perder meus segredos de vista.

(com licença mas é dessa matéria hoje minha poesia)

Enxerida, vejo a mulher com cabelos cortados à la moicano
com a menina que iniciara a tiracolo,
feliz em ser por ela lambida
e sem saber no que estou pensando.

Passam as pessoas
no saguão do aeroporto,
fingem que fazem check-in,
fingem viajar sérias e de férias,
fingem estar trabalhando...
mentira,
pra mim tá todo mundo trepando!





Frankfurt, 6 de junho de 2002







Suicidas invisíveis


São jovens senhores e senhoras
se despedindo dos agoras.
Desembarcam da vida
antes que se cumpra o destino,
antes de escrito o percurso,
sem giletes, sem tiros,
sem cortar os pulsos,
sem se jogar dos edifícios,
sem abrir o gás
dão pra trás na lida,
focados no passado e suas dores,
no pretérito de suas frustrações,
no fungo dos rancores.
Esses personagens e suas ações
vão dando cabo do viver,
começam a produzir a morte
e ninguém vê.

Diante da televisão,
presos à Internet,
cativos de shoppings e dopings,
eliminam todos os confetes,
desconsideram as comemorações para o novo dia,
odeiam vésperas de alegria,
desprezam os inoportunos sóis
que anunciam que a vida continua.

Sem cartas, sem avisos,
sem marquises,
sem os comprimidos assassinos
e seus vidros vazios ao lado,
escolhem o lado do dado
que não tem jogada nenhuma.

Os suicidas invisíveis
veem esmola na cara do carinho,
não suportam a esperança do vizinho,
matam-se devagarinho
no meio da sala,
na mesa do jantar,
diante dos hambúrgueres,
atrás das taças transparentes de vinho
e ninguém ora.
Sem alarme, sem chavão,
sem investigação,
o suicida invisível
não sai no jornal
nem passa na televisão.

Não virá o baile,
não virá o passeio,
o cinema,
o novo amigo,
o encontro,
a compreensão.

O suicida invisível
se mata na nossa cara
e, como não se nota,
não se pede explicação.
Aperta o botão da morte,
encerra sua condição,
sai antes do fim do filme,
antes de acabar a sessão.

O amor não virá,
não virá a felicidade
em sua homeopática e antipática dose.
Virá talvez o mais rápido possível
algum câncer ou trombose,
alguma artrose de falta de movimento,
filha da falta de caminho.
O beijo não virá,
não virá o sonho realizado aos pouquinhos.

Os suicidas invisíveis
dizem com o seu “não bom dia”,
com seu rancor,
com o seu medo,
com o seu horror:
eu estou me matando agora.

E ninguém liga
e ninguém para
e ninguém olha
e ninguém chora.



São Paulo, 14 de junho de 2001




in: A Fúria da Beleza / 2006




Elisa Lucinda (ES, 1958-)