terça-feira, 20 de agosto de 2013

2 poemas de Piva em PARANOIA



Roberto Piva

Paranoia [1963]


Poema Submerso


Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror,
          quando os cílios do anjo verde enrugavam as
          chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
          uma centena de pássaros fortemente de passagem
Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
          infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
          ausente do Criador
 
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
          Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
          meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aleias olhando com alucinada ternura
          as meninas na grande farra dos canteiros de
          insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
          piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
          para mim, em leves mazurcas



...


 

Visão de São Paulo à noite
Poema Antropófago sob Narcótico


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
 
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada
 
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
 
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
 
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta
 
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo



Roberto Piva

[1937-2010] 


Paranoia em






terça-feira, 13 de agosto de 2013

O caso dos dez negrinhos - Bráulio Tavares






BRAULIO TAVARES


(Campina Grande, PB, 1950)


O caso dos dez negrinhos
(ROMANCE POLICIAL BRASILEIRO)


Dez negrinhos numa cela
e um deles não mais se move.
Fugiram de manhã cedo,
mas eram nove.


Nove negrinhos fugindo
e um deles, o mais afoito,
dançou: cruzou com uma bala…
Correram oito.


Oito negrinhos trabalham
de revólver e canivete;
roupa cáqui vem chegando,
fugiram sete.


Sete negrinhos passando
pela rua de vocês;
alguém chamou a polícia,
correrem seis.


Seis negrinhos dão o balanço:
bolsa, anel, relógio, brinco…
Houve um erro na partilha,
sobraram cinco.


Cinco negrinhos de olho
na saída do teatro.
Um vacilou, deu bobeira…
Correram quatro.


Quatro negrinhos trombando,
todos quatro de uma vez.
Um deles a gente agarra,
mas fogem três.


Três negrinhos que batalham
feijão, farinha e arroz.
Um se deu mal: a comida
dava pra dois.


Dois negrinhos se embebedam
de brahma, cachaça e rum.
Discussão, briga, navalha…
e fica um.


E um negrinho vem surgindo
no meio da multidão.
Por trás desse derradeiro…
vem um milhão.




In: O homem artificial / 1999






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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Cotidiano - conto de LdeM






Cotidiano

Pode alguém desvencilhar-se
do
cotidiano?Eustáquio Gorgone


Ele se levantou cedo. Ainda mais cedo do que de costume. Era preciso pegar o metrô das 7h40 na Estação central. O fax não mentia: marcava o encontro com o fornecedor às 8hs no estacionamento do shopping. Se demorasse o que acontecia? O sujeito seguiria para cuidar de outros lucros.

Só precisava assinar uns papéis. O resto até poderia resolver via e-mails. Sobrava para a secretária, claro. Mas nada de deixar trabalho acumular. Não tinha marcado um descanso, quase férias, com sua querida? Bem que Thairine dizia que ele precisava descansar. Jogar o celular na privada, vez ou outra.

Para degustar o merecido descanso só bastaria cumprir os prazos, encontrar os fornecedores nos horários, não implodir a paciência de ninguém. Só isso. Daí ele empunhar o celular de cinco em cinco minutos para conferir as horas.

Mas de nada adiantou, pois o metrô passou às 7h40 e foi sem ele. Tudo por causa do engarrafamento que reteve o ônibus no viaduto por mais de vinte minutos. Um absurdo, mas estamos numa cidade grande, não? Todo mundo que pode comprar um carro, vai e compra um carro.

Assim tudo contabilizado, ele perdeu o metrô por 2 minutos e meio, aproximadamente. Puxou o celular e ligou para o fornecedor. O homem impaciente não poderia esperar. Mas estaria de volta às 9 hs, certamente. Assim, o próximo metrô recebe mais um passageiro. Aliás, que metrô lotado! Aliás, tudo anda meio lotado nesta cidade lotada...

Diante dele, ao lado da porta, vai uma mocinha. Vê-se que ela se concentra num livro. Universitária? Secretária? Atendente de telemarketing? O que ela faz na vida além de ler livros de …? livros de quê mesmo? Ele se aproxima, olha meio torto, ela sequer repara no vizinho. É uma livro da saga Crepúsculo, com esta capa, onde duas mãos pálidas aninham uma maçã rubra-sanguínea, assim, bloody-red, soa melhor.

A mocinha que não deve ter mais de vinte anos, ele calcula. Ela de cabelos encaracolados, meio aloirados, com orelhas pequenas, desprovidas de brincos assim como ela está sem maquilagem. Tudo ao natural. Ela usa uma sandália e não um tênis ou botinha. Ela está em outro mundo, entre mordidas de vampiros juvenis e peripécias de lobisomens adolescentes. Pelo menos o filme é assim … Nada que acontece ao redor interessa àquela mocinha fantasiosa e que desperta fantasias.

O celular toca e o arranca do devaneio. O que será? Sim, é o Renan. Diga. Claro, no metrô. Mas atrasado. Eu, atrasado. Perdi o outro. Fazer o quê? Quando chegar lá eu te ligo, ok? Bye. E a mocinha virava páginas e páginas e o metrô atravessava o Horto florestal e passava túnel e sumia debaixo da terra. Em breve a estação do shopping...

Lá de cima, da perspectiva da estação, donde se vê a avenida lá embaixo, ele testemunha um acidente. Até então ele não tivera sequer tempo de ver acidentes. Sempre acontecia antes ou depois, então via as consequências, as manchas de óleo ou de sangue, ou sabia pelos jornais que exatamente naquela esquina um ônibus afrontara um poste. Mas agora ele via em tempo real, ao vivo e sem cortes.

Um carro vem, encontra um outros próximo demais, um choque repentino, e pronto. Ou então um transeunte incauto fora da faixa de pedestre que sofre um atropelamento fatal ou não. Mas agora, eram as dois coisas. Um carro, para não bater num mais próximo, desvia-se e acaba por fechar um cruzamento. Alguém tenta passar e é atropelado pela moto que vem logo atrás. Um acúmulo de incidentes que causam um acidente.

Eis a gratuidade da existência, ele pensa. Eis a morte a qualquer momento. Somos apenas os próximos na fila. E a fila anda, uns chegam e outros vão embora. Simplesmente. Um mero atraso de um carro, ou o desvio de outro, o avanço ou hesitar do fluxo de trânsito e eis alguém fatalmente arremessado sobre o meio-fio.

Ele lembra-se de Thairine, da família de Thairine, do aconchego do lar. Ele – ainda bem! - se dava muito bem com sogra e sogro, coisa rara, e preferia ficar com a família de Thairine, e tal, e se a sua Thairine sumisse? Assim, gratuitamente? Ela poderia atravessar a rua e pronto! O fim! Não, não! Que coisas para se pensar assim logo de manhãzinha!

E assim os seus filhos jamais existiriam, e seus netos ficariam no limbo, e pronto. Pelo menos os seus filhos e netos com Thairine, não? E quem ele deixaria neste mundo? Quem ele devia amar com devoção... Quem haveria de nascer dele e da querida... E assim tudo gratuito: vem uma moto do nada e pronto! Adieu! Rest in peace! Não, nada disso.

E o acidente ali nem era fatal. A mulher – pois era uma mulher assim de uns trinta anos – estava caída junto ao meio-fio e sendo amparada por um policial que apareceu logo. Uma galera de outros transeuntes curiosas logo se ajuntava. Impressionante mesmo! E ele seguiu adiante, não ficaria a contemplar as desgraças alheias, e seguiu a própria sombra até a passarela.

Pois lá o esperava outra visão. Bem debaixo da passarela dois ETs se encolhiam, dois seres encurvados, em andrajos. Seriam mesmo seres humanos? Parecia um casal, sim, de idosos, ou ainda, envelhecidos pela miséria. Não deviam ter mais que quarenta décadas nas costas, mas pareciam anciãos. O homem um tanto grisalho e amassado, e a mulher um tanto reduzida, manchada, envergonhada dos trapos que exibia.

O casal de mendigos esquentava as mãos diante de uma fogueira modesta ali debaixo da passarela. Ao lado uma lata de óleo de tamanho grande sobre tijolos enegrecidos. Seria uma sopa matinal ? O que esperavam do longo dia pela frente? Não teriam reuniões nem agenda de negócios. Não teriam vendas para fechar nem filhos para buscarem no colégio. Não passariam a tarde na galeria de arte nem a noite num concerto de rock. O que faziam com suas míseras vidas encolhidas sob viadutos e passarelas?

Será que eles, os mendigos, pensavam em uma vida paralela? Uma vida com filhos, colégios, jardim florido, viagem para Miami? Que vida paralela mais inusitada! Era um vida paralela inusitada mesmo para ele, Renan Welerson, empregado de uma loja de peças elétricas, cursando Engenharia, com toda uma carreira pela frente. Em Miami! Ora, vejam!

Mas não era uma viso? Se você não trabalhar estudar como um desvairado poderá acabar assim: mendigo debaixo de uma passarela ! Então que ele valorizasse sua família, sua futura esposa, e sogra e sogro, e patrões e fornecedores, e cuidasse do jardim e da roupa de cama e dos mantimentos na cozinha, em ordem e precaução, a degustar com prazer e gratidão o arroz-com-feijão que ele comia tão maquinalmente.

Ele pensava isso, andando ao redor. Entre passarela, trânsito ruidoso, transeuntes curiosos, buzinas apocalípticas, vendedores de balas do tipo eu-poderia-estar-roubando-mas-estou-aqui-trabalhando. Doceiras com lenços estampados e lavadores de parabrisas, entregadores de peças e de botijões de gás, todos se esgueirando no amanhecer da avenida, cada um cuidando de seus afazeres, solenemente se ignorando.

Uns vinte passos adiante, uma senhora fazia cooper, correndo suada e sem fôlego, no centro da avenida, a respirar o saudável monóxido de carbono dos escapamentos. Se amparava numa árvore, parecia fazer flexões de coxa e joelho, ao tentar elevar a perna, mas inutilmente. Pobre senhora! Queria ela ganhar mais uns dez anos de vida? Por isso insistia em correr pela avenida meio às névoas de fuligens?

Ao menos Thairine corria no Parque Municipal. Pelo menos antes de cair aquela árvore enorme a esmagar uma outra pobre senhora - que corria para o bem da saúde! Então, fecharam o parque e cortaram centenas de árvores podres ou quase podres, velhas, centenárias, caducas que ameaçavam cair sobre outros incautos. E depois reabriram o parque – mas Thairine ficara meio que transtornada, traumatizada, via as árvores como inimigas, como toras de madeira prontas a se precipitarem sobre sua indefesa cabecinha de mocinha correndo pelas alamedas!

Ali na avenida do shopping, a senhora tentava um exercício. Ali, sozinha na manhã. Dá saltos, pula de uma perna só, estica a perna pros lados, afasta as folhas secas, se ampara num banco de cimento, toma fôlego, reinicia seu martírio em nome da boa forma. Afasta outras folhas secas com os pés protegidos por um tênis de marca. Falso, certamente. Ou da netinha? Ela afasta os gravetos ao redor, ela prepara o espaço. Só não pode afastar os carros que passam céleres distantes poucos metros da sua ginástica matinal.

Nisso Renan Welerson olha o celular. São apenas 8h20 da manhã. Ele precisa esperar até 9hs. O fornecedor assim assegurou. Imagine, por causa de alguns minutos, você pode perder uma hora de sua manhã, assim, em perambulações! Ele que não era de reparar em mocinhas em metrô, ou acidentes numa avenida, ou mendigos sob passarelas, ou senhoras idosas fazendo ginástica! Ele seguia meio às novidades do cotidiano! Esperou quase duas décadas e meia por isso! Uma manhã repleta de PESSOAS!

Sim, ele vivia numa cidade, uma capital, uma metrópole, cheia de pessoas! E não coisas, ou números, ou roupas ambulantes, ou penteados que passam! Não, nada disso. PESSOAS, seres de carne e osso iguais a ele! Ele um jovem de 24 translações, ou primaveras, como queiram! Ele vai e descobre PESSOAS – oh Dio mio! Ach, mein Gott! - percebe-se finalmente no meio de seres as quais denominamos PESSOAS, seres humanos, Homo Sapiens!

Então ele viu! A mocinha no ponto de ônibus! Ela, como ele diria?, se destacava de tudo, de todos, da avenida, do trânsito, do mundo. A roupa? Os óculos escuros? A forma de virar a cabeça? A mão segurando um livro? Ou seria uma agenda? Os lábios meio descoloridos... Seria isso? Não era pálida, era antes como uma miragem.

Lembrou então de seu amigo Jesley. Sim, claro. O Jesley tinha descrito um lance assim! Quando se apaixonou por uma mocinha da orquestra. Era um concerto da filarmônica no Parque e o Jesley reclinado no gramado teve quase um momento de conversão religiosa. Ele cismou com a loira do violoncelo! Cismou, então deixa!

A moça, inclinada, concentrada tocava o violoncelo, vibrava as cordas do imenso instrumento, fazia sua função na orquestra, e o Jesley viajava , delirava, sabe-se lá. Uma loira com jeito de ninfa, ou fada, ou sabe-se lá que ente fabuloso! Era uma polonesa? Uma tcheca? Ou croata? Sabe-se lá! O Jesley empolgou: era a idealização da mulher amada.

E não é que ele, Renan, atrasado para um compromisso por causa de um atraso de 150 segundos, não entendia finalmente o seu amigo! Mas não era uma devoção por uma artista, uma violoncelista, ou uma bailarina num palco alucinado! Nada disso. Sua musa era uma mocinha a esperar o ônibus sob a sombra da passarela do shopping!

Mas o delírio, a empolgação, digamos, não durou muito e pela conjunção de dois fatores além do controle de Renan, o boquiaberto observador do cotidiano, tão ignorado cotidiano! De repente, surgiu o ônibus da mocinha, e o encanto se quebrou: ela se levantou tão bruscamente! Parecia acordar de um devaneio! E se atirou rumo ao ônibus que parava alguns metros adiante.

E no mesmo instante um carro parava ao lado de Renan. Um carro que ele não reconhecia, por nada haver que reconhecer. Era um carro banal. Ele sequer o vira antes! Uma voz, porém, ele identificou. Era o Luam, da Baeta Máquinas, o fornecedor.

-Ei Renan! Aqui! - uma buzina estrondou – O que foi? Entra aí! O Adilson entregou o reator... A gente já resolve esse lance... O que foi? Parece que viu fantasmas...!

Sim, era mesmo o fornecedor. Que fala pelos cotovelos. Que aparecera antes. Ótimo. Assim Rena deixou de ver fantasmas e regressou ao reino da concreta banalidade.


Mai/12



Leonardo de Magalhaens



quarta-feira, 24 de julho de 2013

2 poemas de ELISA LUCINDA






ELISA LUCINDA


Lambe-lambe


Passam muitas pessoas no saguão dos aeroportos.
Passam neste aeroporto de agora,
e eu, no meu pensamento,
não me comporto, imagino elas fodendo:
fulano com fulano,
são casados, gozam, fazem planos?
E ela, quer logo que acabe?
E ele, penetra rosnando?
Fantasio as inúmeras possibilidades de encaixes,
em como foram as noites de amor que tiveram pra fazer essas
crianças chinesas africanas alemãs francesas mexicanas libanesas
brasileiras cabo-verdianas espanholas cubanas holandesas
senegalesas turcas e gregas.

(Meu pensamento é inconveniente mas ninguém sabe,
escrevo num café, estou, por fora, muito chique no cenário
e nitidamente estrangeira.)

Agora passam dois homens.
Sentam à mesa ao lado.
Falam germânico mas a tradução é da mais alta putaria,
uma iguaria da mais pura sacanagem!
Eu sei, são gays. Eles não sabem que eu sei.
Pensam que escrevo o abstrato
e capricham descansados ao colo do idioma que não alcanço.
Mas sou poliglota na linguagem dos olhares,
cílios a mais antiga cortina do mais antigo teatro
na pátria universal dos gestos, meu bem!
Ele não me escapam.
Um chupa muito o outro, que eu sei,
e o magrinho gosta de dar por cima e de lado.
Importante dizer que dentro desse meu pensamento safado
também não tem pecado.
Só me diverte
ver o que todos negam,
o que não se diz no social,
uma radiografia verbal da intimidade alheia é o que faço aqui,
sem que ninguém suspeite,
sem ninguém me permitir.

Aquele tem pau pequeno e, pior que isso,
ele, mais que suas parceiras, acha isso um problema.
Aquele ali também tem, mas arde na cama e se empenha muito
compensando a diferença.
Aquela, num outro esquema,
diz que não gosta da coisa
e fala sem parar.
Só uma pirocada de jeito para fazê-la calar.
A gostosa gordinha engole a espada todinha
daquele altão desajeitado,
cujo grosso membro se torna,
em meio às coxas dela, disfarçado.

E o velhinho punheteiro
de pau mole com jornal no colo?
Talvez seja o único a adivinhar o teor dos meus escritos,
dado que me olha dissimulado e constante
de modo a nunca perder meus segredos de vista.

(com licença mas é dessa matéria hoje minha poesia)

Enxerida, vejo a mulher com cabelos cortados à la moicano
com a menina que iniciara a tiracolo,
feliz em ser por ela lambida
e sem saber no que estou pensando.

Passam as pessoas
no saguão do aeroporto,
fingem que fazem check-in,
fingem viajar sérias e de férias,
fingem estar trabalhando...
mentira,
pra mim tá todo mundo trepando!





Frankfurt, 6 de junho de 2002







Suicidas invisíveis


São jovens senhores e senhoras
se despedindo dos agoras.
Desembarcam da vida
antes que se cumpra o destino,
antes de escrito o percurso,
sem giletes, sem tiros,
sem cortar os pulsos,
sem se jogar dos edifícios,
sem abrir o gás
dão pra trás na lida,
focados no passado e suas dores,
no pretérito de suas frustrações,
no fungo dos rancores.
Esses personagens e suas ações
vão dando cabo do viver,
começam a produzir a morte
e ninguém vê.

Diante da televisão,
presos à Internet,
cativos de shoppings e dopings,
eliminam todos os confetes,
desconsideram as comemorações para o novo dia,
odeiam vésperas de alegria,
desprezam os inoportunos sóis
que anunciam que a vida continua.

Sem cartas, sem avisos,
sem marquises,
sem os comprimidos assassinos
e seus vidros vazios ao lado,
escolhem o lado do dado
que não tem jogada nenhuma.

Os suicidas invisíveis
veem esmola na cara do carinho,
não suportam a esperança do vizinho,
matam-se devagarinho
no meio da sala,
na mesa do jantar,
diante dos hambúrgueres,
atrás das taças transparentes de vinho
e ninguém ora.
Sem alarme, sem chavão,
sem investigação,
o suicida invisível
não sai no jornal
nem passa na televisão.

Não virá o baile,
não virá o passeio,
o cinema,
o novo amigo,
o encontro,
a compreensão.

O suicida invisível
se mata na nossa cara
e, como não se nota,
não se pede explicação.
Aperta o botão da morte,
encerra sua condição,
sai antes do fim do filme,
antes de acabar a sessão.

O amor não virá,
não virá a felicidade
em sua homeopática e antipática dose.
Virá talvez o mais rápido possível
algum câncer ou trombose,
alguma artrose de falta de movimento,
filha da falta de caminho.
O beijo não virá,
não virá o sonho realizado aos pouquinhos.

Os suicidas invisíveis
dizem com o seu “não bom dia”,
com seu rancor,
com o seu medo,
com o seu horror:
eu estou me matando agora.

E ninguém liga
e ninguém para
e ninguém olha
e ninguém chora.



São Paulo, 14 de junho de 2001




in: A Fúria da Beleza / 2006




Elisa Lucinda (ES, 1958-)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

alguns poemas de Marcos Fabrício





Fonte da imagem: paoepoesia2009.blogspot.com




Marcos Fabrício



MENSAGEM

Maria Madalena,
mina magistral.

Mala miolo mole mauricinho maltrata marginal.
Mansão menospreza morro.
Muro minado.
Murro mordaça.
Mesmo monarca martelando. Magnatas metidos. Maracutaia mesmice.
Mestre malandro. Maior monstro mané.
Moeda maldita molesta mocinha mendiga.
Morte matada. Merda!
Madame Mercedes mordomia.
Mídia morde maioria. Marmelada!
Melhoral melhora? Mentira machuca.
Moçada movimenta mudança. Mundo mete medo, mas manda maravilha.
Massa! Mais mobilização, menos marasmo.
Mínima máquina, máxima música.
Magnífica metamorfose moral.
Maturidade multiplicada.
Miragem? Montagem? Mito? Mágica? Mente motivada.

Mel, melodia mil!
Mano Marcos.






IMUNDO

a américa da morte
condena a américa canibal
e a américa do nu
a serem a américa latrina

os estados munidos
e a montanha russa
dividiam o imundo
numa guerra gelada


com a globarbarização
a pena capital alastrou
pânico e terror
no lugar de paz e amor

nas ruas
perfilados
cantamos o hino sanduíche de gente
cegos no refrão
eu prefiro ser um big mico ambulante


a ira do bush de canhão
enfrenta a fúria
dos encolhidos por alá, por ali, por acolá

de que laden estão?
de que laden estão?


a azia se ocidenta
(ou se acidenta?)
ao invés de se orientar

a egoropa
vive em um eterno barril
de pólvora

o g-7
a gangue dos sete maiores ladrões
senta nos estoques de comida
enquanto a aflita
morre de fome

a fortuna do imundo está concentrada
em bancos suínos e paraísos artificiais


numa banheira cheia de grana
a turma de brás cubas deita e rola
quando levanta
enrola

sem pão
e marcado como mico de circo
o povo come grama e filé miau
debaixo da mesa do banquete
para não fazer barulho







A HORA DO ESPANTO

Quando escrevo,
faço a radiografia
dos meus espantos.





PEDRA POLIDA

na mesa
sopa de pedra

deixei a sopa
comi a pedra

virei uma pedreira
um ser lascado

na ânsia de triturar
deixei de polir
ato supremo
de digerir






Marcos Fabrício Lopes da Silva


from Brasília


fonte: facebook do autor :



mais do poeta



sexta-feira, 5 de julho de 2013

empunhar vozes nas ruas - LdeM





empunhar vozes nas ruas


primeiro vieram os estudantes
querem passe livre
protestam contra as passagens de coletivos
tantos gritam sob cartazes
alguma cifra nos jornais
e mais e mais
policiais adentram a cena
e sobra gás & lágrimas
e aumenta a revolta
e mais e mais
estudantes empunham gritos
mais exigências mais urgências
saúde transporte público transparência
uma pauta recitada com punhos
contra políticos corruptos contra fascistas midiáticos
depois contra o governo contra as farsas televisivas
depois mais e mais
punhos e pedras e máscaras e slogans
atingem barreiras e cassetetes e sprays
depois aparecem os políticos
que não entendem as vozes da rua
que não querem entender
depois aparecem os jornalistas
para explicitar os dramas de quebras
quebras de bens e patrimônio
por vândalos arruaceiros anarquistas
jovens raivosos dos black blocs
com máscaras com anonimato
sem líderes em rede em onda em coletivo
que jogam as bombas de volta
depois aparecem os acadêmicos
os intelectuais os especialistas
os que explicam exemplificam
os que tematizam catalogam
os que departamentalizam equacionam
para legitimar ou deturpar
segundo interesses impublicáveis
o que acontece pelo que se divulga
enquanto isso a bola rola
na copa do pão & circo
onde torcedores vendem o almoço
para garantirem ingressos
super-ultra-faturados
para a arena de uniformes & cornetas
de chutes & passes & Vs de vitória
de taças & milhões na conta
para os jogadores nas telas & câmeras
nas peças publicitárias nos capítulos da nova novela
para os sorrisos de outdoors
para os flashes de celebridades
para tudo continuar o mesmo com a bola no pé
o mesmo com os discursos parlamentares
o mesmo para os políticos ditos reformistas
para os salvadores da pobre pátria
rica de petróleo matérias-primas
de commodities de bens de consumo
de orçamentos superfaturados de obras em andamento
de hospitais assassinos de médicos ausentes
de juízes comprados & vendidos de policiais fascistas
pobre pátria rica de carências & ausências
terra de gente acomodada até que o circo pega fogo
gigante adormecido que boceja
ao horário eleitoral gratuito
terra de nova classe média, B, C, que seja,
mas de alienados D e E, diante da tela,
a espera de uma bolsa governamental qualquer
de um assistencialismo que gera dependentes
nunca cidadãos autônomos e críticos
depois a onda da copa encobre tudo na maré
da vitória do poster da seleção do verde-e-amarelo
que faz esquecer a fome a carestia o abandono
a morte precoce
até o dia seguinte quando alguém empunha um grito
sob um cartaz e começa outra vez
outra tentativa outro brado
outra manifestação


03jul13

Leonardo de Magalhaens


segunda-feira, 1 de julho de 2013

assim procria a crueldade (ou: assim violenta a humanidade)






Assim procria a crueldade
(ou: assim violenta a humanidade)


Em dor e sangue a mesma cena:
soldados estranhos estrangeiros invadem
uma aldeia, uma cidade, uma nação
incrementes incendeiam, matam,
se dedicam aos saques, violentam
violentam, violentam ...
caldeus violentam sumérias
sumérios violentam assírias
assírios violentam hebreias
egípcios violentam hititas
hebreus violentam cananeias
persas violentam babilônicas
gregos violentam troianas
persas violentam gregas
romanos violentam gregas
cartaginenses violentam romanas
romanos violentam gaulesas
romanos violentam bretãs, germanas, etc
germanos violentam romanas
bárbaros violentam romanas
árabes violentam bárbaras
árabes violentam visigodas
cristãos violentam odaliscas
mongóis violentam chinesas
ingleses violentam celtas
ingleses violentam escocesas
franceses violentam turcas, egípcias, sírias, etc
portugueses violentam africanas, indianas, chinesas
espanhóis violentam maias, astecas, incas
portugueses violentam tapuias, tamoias, tupinambás
ingleses e irlandeses violentam peles-vermelhas
ingleses violentam indianas, chinesas, birmanesas
ingleses violentam francesas
franceses violentam alemãs
alemães violentam francesas
franceses violentam russas
alemães e russos violentam polonesas
franceses violentam argelinas
espanhóis violentam argelinas, tunisianas
norte-americanos violentam sul-americanas
norte-americanos violentam mexicanas, cubanas, filipinas
italianos violentam líbias
paraguaios violentam brasileiras
brasileiros violentam paraguaias
alemães violentam belgas, francesas, russas
turcos violentam armênias, curdas, sírias
russos brancos violentam russas vermellhas
espanhóis franquistas violentam espanholas legalistas
japoneses violentam chinesas
japoneses violentam coreanas, filipinas, birmanesas
italianos violentam etíopes
alemães violentam polonesas, belgas, gregas,
francesas, holandesas, italianas, etc
alemães violentam russas, ucranianas, lituanas, etc
italianos e romenos violentam russas
russos violentam alemãs, e russas, polonesas, etc
norte-americanos violentam italianas, alemãs, japonesas
iraquianos violentam iranianas
iranianos violentam iraquianas
sul-coreanos violentam norte-coreanas
norte-americanos violentam vietnamitas
russos violentam afegãs
indianos violentam paquistanesas
paquistaneses violentam indianas
judeus violentam palestinas, libanesas, sírias
palestinos violentam judias
chineses violentam tibetanas
ingleses violentam argentinas
angolanos violentam angolanas e portuguesas
hutus violentam tutsis
sérvios violentam croatas, bósnias, etc
norte-sudaneses violentam sul-sudanesas
sul-sudaneses violentam norte-sudanesas
norte-americanos violentam iraquianas
norte-americanos violentam afegãs, iraquianas,
paquistanesas, etc
etc etc
a mesma cena até a náusea.



29jun13


Leonardo de Magalhaens