quinta-feira, 25 de abril de 2013

3 poemas de Reynaldo Valinho Alvarez




REYNALDO VALINHO ALVAREZ



PROUST BEBE HIDROLITOL NUM BOSQUE DA LAPA

ninguém vende hidrolitol em quiosques inexistentes
estão dispersos os bebedores de vermute genebra underberg

o bonde-pipa não lavará o vômito das calçadas em jatos controláveis
não há bêbados cantando nem trilhos para lubrificar
nem muito menos a paciência dos limpa-trilhos

estou emporcalhado de gritos ruídos e cansaços
apunhalado com o câncer em ruas esburacadas

estrelas de falácias explodem no ar mendacidades
estou roído de trenos e cantos fúnebres
falam-me de penegíricos e empurram-me palinódias
não ouso celebrar meu próprio epitalâmio
estou entre lama e lâmina de alvas cãs alvacansado
pálido débil lábil emoliente
entre os delírios nervosos dos anúncios luminosos que o prefeito mandou apagar
e já não brilham na noite rouca da laringe de sílvio caldas

de repente me lembro na orla de fortaleza comendo lagosta grelhada
e sinto o sabor proustiano da estrelada noite da lapa





O BOM MENINO BEM COMPORTADO
NA CORTE DOS TECNOCRATAS


às quinze horas
não mais que às três em ponto desta tarde
estarei fechado entre quatro paredes
ouvirei engenheirês e economês
explicarão que é comigo o português
beberei café
aspirarei a fumaça do cigarro alheio
encherei os pulmões de ar viciado
estragarei o cérebro com palavrório
sentirei sono tédio vontade de ir embora
mas ganharei meu pão muito calado
não prejudicarei ninguém
não serei indelicado
tudo farei pelos melhores resultados
minha família pode ficar em paz
porque me mostrarei um bom menino

enquanto isso
às três em ponto desta tarde
há mulheres enroscadas nos amantes
há secreções em mistura
vaginas casam-se com pênis
há jatos de espermas contra diafragmas
há sêmen contido em camisas de vênus
há corpos que se contraem e relaxam
há um sujeito solitário tomando chope escuro e comendo salada de batata
no bar luís

às três em ponto da tarde
não envergonharei minha família

às três em ponto da tarde
haverá uma pedra incorruptível no meu peito





A MORTE ANTECIPADA


engenho novo engenho velho engenho de dentro engenho da rainha
uma sucessão de engenhos pontilhando os caminhos de outrora e presente
os caminhos do futuro abertos em galerias subterrâneas túneis viadutos
a ponte descomunal sobre a baía poluída onde os botos ainda brincam de ir e vir

a estrada real de santa cruz dividida subdividida retalhada em nomes e nomes ao gosto
                                                                                                          da terra
os botequins transformando-se em lanchonetes
os restaurantes virando churrasquetos galetos e balcões com tamboretes
as casas de pasto de alvas toalhas repletas de vitualhas desaparecendo em pensões as-
                                                                                                      sobradadas

o alto leblon contempla da encosta do dois irmãos o baixo leblon intoxicado biritado
                                                                                                        badalado
a zona norte invade regularmente a zona sul aos sábados e domingos
estamos todos de acordo no desacordo
crianças cachorros futebolistas frescobolistas policiais e guarda-vidas
os ares rebentam aos gritos de limãozinho mate mineral brahma e coca
e há coca fumo bolinha mandrix correndo solto pelas areias
de tarde há maracanã latas de urina atiradas nas cabeças
o povo se diverte e a violência é um barato
vamos curtir telenovela telejornal teledocumentário
é realmente fantástico/fantasticamente real
todos os bancos boutiques botequins já foram assaltados várias vezes
os restaurantes da lagoa servem tresoitões quarenta e cinco metralhadoras de sobreme-
                                                                                                                   sa
estamos todos perdidos e mal pagos mas a vida continua
esta longa travessia que é a morte antecipada




In: O Sol nas Entranhas / 1982


in: LYRA, Pedro. A Poesia da Geração 60 . 1995.



mais info / poemas










segunda-feira, 22 de abril de 2013

o choro do bebê

 


o choro do bebê


1


o choro do bebê
irrompe de repente
o choro do bebê
rasga a madrugada
o choro do bebê
despedaça o sono & o sonho
o choro do bebê
interrompe o beijo de paixão
& afasta o peso dos olhos
& solidifica a insônia
& impede a leitura de Hamlet
& naufraga o barco bêbado
& ressoa o sino da divisão
& assusta o herói Tom Sawyer
& gira a ciranda de pedra
& abriga o pranto das prisões
& reflete a paisagem na janela
& repõe os pingos nos is
& contempla os lírios do campo
& recolhe os girassóis de Van Gogh
& atrasa o brilho da aurora


2

enquanto irrompia o choro
uma mulher gemia
uma mãe gritava
um meteorito descia
a mãe ao lado sangrava
enquanto subia o choro
uma melodia assobiada
uma marcha engatada
um carro derrapava
uma fronteira avançada
enquanto agonia o choro
um policial ergue o apito
uma militante detona
uma puta seduzia
um ladrão invadia
enquanto ouvia o choro
a mãe ao lado suava
o médico vigia
a enfermeira lavava
a mãe da mãe silencia
enquanto ondula o choro
o homem gozava
o pop star gemia
a doméstica dormia
o patrão lucrava
enquanto soluça o choro
um povo declara a paz
outro povo faz a guerra
um povo vende as armas
um povo recolhe os corpos



3


enquanto ecoa o choro
a mão que escreve se suspende
& o olho que se fechava se abre
inclemente
& a buzina que perfura se
avoluma
& o braço que descia interrompe
o golpe
& o discurso que feria se engole
em soluços
& a cena de teatro se congela
indiferente
& o drama cotidiano é oculto
por cortinas
& a mão que se estende é
satisfeita
& o ápice do ódio se
racionaliza
& o espetar do desejo é
aprofundado
& o calor sob o edredom é
abafado
& a dor dos sentidos se
anestesia
& o pulsar de gozo se deixa
em risos
& a música chega ao fim
por enquanto


19abr13

Leonardo de Magalhaens



terça-feira, 16 de abril de 2013

2 poemas de Cláudio Murilo







Cláudio Murilo


ODE À LOUCURA

O transatlântico do Capitalismo desce pela 5 th Ave.
Repleto de esquizofrenia.
Quem não pode ser branco,
                             manager
                             executivo
bancário ou banqueiro
vendedor, empregado de Trustees and Co.
Vem pulando e gritando
                          nesta Barca dos Loucos
que desliza mansamente pelo asfalto,
como um carro alegórico.
Das 138th à 8th street afluem os passageiros,
felizes e sujos, com os olhos esgazeados pela droga,
conversando ou discutindo com seus anjos interiores.
Quem não tem 75 cents pra pegar o subway ou o bus
ou não quer gastar dinheiro em táxi
goza da alternativa da Barca,
cuja infinita capacidade
é louvada no Guia Turístico: 7.5000 loucos
são transportados por horas pelas calçadas de NY,
e muitos, extenuados com a viagem,
se esticam no tombadilho das praças.
O ar de Manhattan penetra no cérebro de seus habitantes
apodrecendo glóbulos vermelhos e enzimas.
Os loucos viajam envoltos em suas carapaças,
solitários e aéreos, por roteiros particulares.
Falam, cantam, gesticulam,
estão sós na multidão.
Ninguém deve ter medo do louco de NY,
ele não ataca, nem mesmo se dirige ao transeunte,
ele segue à deriva por ruas e avenidas
e desemboca, sereno, no rio Hudson.


...


SUBWAY


Durante 3 dias e 3 noites viajei em tuas tripas NY,
reino onde o sol jamais se levanta,
imundo inferno ambulante,
museu sem arte da loucura moderna,
painéis semoventes da violência,
sprays, sprays, sprays, sprays,
já vem o trem, já cai o trem, já
vem o trem carregado de droga,
                   carregado de
sexo
                   carregado de
ódio
                   carregado de
negros.


Subway, caminho por baixo da pele,
                borborigmo,
     diarreia.
Ali viaja a merda diária,
todos os dejetos – o moço,
a porra, o lixo, cocô, o cuspe,
o mijo, o plasma, o magma,
a alma,
            em direção aos 4 pontos cardiais.

Durante muitos séculos
correrás impunemente sobre teus trilhos,
                                       subway,
até o dua da Parada Final,
quando os que pedem por justiça
serão chamados como testemunhas.
Neste dia,
aqueles que foram estuprados em teus vagões
                            serão ressuscitados
os que foram roubados
                            serão indenizados
os drogados
                    chegarão escoltados por anjos
os suicidas
                     receberão o perdão
os desempregados, as putas, os maquinistas,
os veados, os turistas, os crioulos
entrarão pela última vez em
                  teus carros
subway submundo.
Pela última vez receberás
                 os teus usuários
que entrarão dentro de ti
entoando hinos de vitória,
dando glória ao Senhor por esta derradeira viagem,
que terá fim em Time Square
                      Aleluia
onde serás finalmente julgado por todos os
crimes perpetrados em teus vagões
                      Aleluia
por todos os vícios
                      Aleluia
pela violência
                     Aleluia
e por todo o mal que abrigaste em ti
                    Aleluia Aleluia.
Serás julgado e condenado
a que te esvaziem inteiramente.
E será desligada a chave elétrica geral
e tapadas com cimento tuas bocas de hálito pestilento.
Ficarás sós,
no escuro dos túneis e das estações,
entregue às ratazanas e ao remorso,
entregue, enfim, a ti mesmo,
sucata
           eterna.




in: O poeta versus Maniqueu [1984]


na antologia: LYRA, Pedro. A Poesia da Geração 60. RJ, 1995.




mais do poeta & crítico





quarta-feira, 27 de março de 2013

Próximos Ensaios em MEU CÂNONE OCIDENTAL





Próximos Ensaios sobre Obras clássicas


em


MEU CÂNONE OCIDENTAL





Notas do Subsolo [ Memórias do Subterrâneo ] -
F. Dostoiévski [Rus]


Fome – K. Hamsun [Nor]


O Lobo da Estepe – H. Hesse [Ale]


Pergunte ao Pó – J. Fante [EUA]


Angústia – Graciliano Ramos [Bra]


A Náusea – J.- P. Sartre [Fra]


O Estrangeiro – Albert Camus [Fra]


O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald [EUA]


Herzog – Saul Bellow [EUA]


A Consciência de Zeno – I. Svevo [Ita]


O Livro de Daniel – E. L. Doctorow [EUA]


Complexo de Portnoy – P. Roth [EUA]


Pedro Páramo – Juan Rulfo [Mex]


A Laranja Mecânica – A. Burgess [UK]



 & outras



LdeM

quinta-feira, 7 de março de 2013

pulsão & pulsação - poema LdeM


pulsão & pulsação

um estalo foi o bastante
para fecundar o dia
e pulsando na noite
em suores & gemidos
novos pulsos reatar
& conectar neuronas
& fermentar células
num bater de repuxos
após um cruzar de olhos
de um juntar de vidas
& entrelaçadas fazer brotar
a pulsação de novo ser
um novo a nascer
para a ciranda renascer
de gerações de filhos
avós & netos & famílias
ao longo de séculos
em pulsação de sangue
a sangue da pulsão
de fazer brotar
antes de fenecer
para deixar renascer
antes de esgotar
a seiva de tantas esperas
antes de prantear
todos os que morrem
festejar aqueles brotos
que vicejantes nascem.



03/04mar13


Leonardo de Magalhaens



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sobre Memórias Infames (2009) de Antonio Miranda





Sobre Memórias Infames (Anome Livros / 2009)
poemas de Antonio Miranda (Brasília, DF)



O Poeta enquanto Leitor


Abordamos em ensaios anteriores as fontes da criação poética corporificadas nos poemas, onde a participação do Autor seria um eco de um contexto, o espelho de uma época, seja por leituras ou por vivências; ou uma resistência, um contraponto ao estilo da época; ou ainda, um não situar-se na época, sendo antes um anacrônico, um deslocado, um 'gauche', um 'nascido póstumo', um 'flutuante'.

Existem os Poetas que deixam ecoar as leituras e vivências de um momento, a ponto de serem verdadeiras testemunhas; outros, procuram negar tudo o que a época diz, fazem tudo ao contrário, são dissonantes; e outros não têm acesso à leitura, ou não vivem a época, ou, tendo lido e vivido, procuram esquecer tudo que leram/viveram.

Aquele que segue a Época é um 'farol', um 'príncipe', conduz ao igual, acomodado ou não, mas sempre integrado. Tendo voz ativa, será líder. Aquele que nega a Época pode passar por louco ou marginal, ou visionário, e será idolatrado depois de morto. E aquele que não sabe (não leu e/ou não viveu) será um original, enquanto aquele que leu e/ou viveu terá que se esforçar para ser 'original'.

Este ensaio cuidará em situar o Poeta enquanto Leitor, que dialoga com os múltiplos textos anteriores (e servirá de interlocutor para textos futuros), e cria sua obra em diálogo (nos sentido dados por Bahktin) com todos os outros – lidos e imaginados. Até porque os bons autores imaginam os seus leitores de agora e de amanhã (Walt Whitman que o diga!) e sabem 'digerir' a Tradição da Época com uma sensível reverência e uma elegante ironia. (Se for apenas reverente, será mais um na multidão de seguidores; se for irônico, cairá na fila dos rebeldes, marginais, dos dissonantes)

A importância da Intertextualidade não diminui a singularidade do Poema – a corporificação da Poesia (imagem abstrata por excelência) pois a Autoria transmite ao texto seu espaço de subjetividade, de indivíduo numa Época mas também em relação a Época (afirmando ou negando), uma vez que o Estilo é original em relação a outro Estilo (do passado ou do futuro). Cada poema é um conjunto fechado de palavras certas em posições certas. No sentido de que modificar qualquer verbete é arriscar-se ao desmoronamento do edifício de cartas.

Aqui não será situada a pessoa do Autor nem sua trajetória literária (matéria suficiente para mais de um livro, onde destacaríamos uma impressionante tentativa de diálogo com a obra alheia - no caso um poeta grego! - nos cantos de “Eu, Konstantinos Kaváfis de Alexandria” (Thesaurus, 2007) (1)) Atentos a leitura dos poemas de Antonio Miranda, evitaremos abordar Antonio Miranda.


O Poeta que escreve para Poeta não pode dispensar a metalinguagem, onde vem contrapor as palavras X a realidade, ou o ideal X o factual. Não pode esquecer que trata-se de um diálogo (feito de monólogo + leitores) com outros poetas/literatos, que sabem tanto quanto ele (se não qualitativa, pelo menos quantitativamente)

O livro já abre com a 'síndrome' da poesia atual (dito pós-moderna) a metalinguagem. Não hesita em dizer: “o mesmo poema é muitos” (“Metapoema”, p. 11)

Toda uma Poesia auto-referente – a Poesia que fala sobre... Poesia! A palavra enroscada em si-mesma, a Linguagem debruçada sobre a Linguagem. A mania do Poeta em explicar a Poesia cria nada mais nada menos que uma selva de ecos e espelhos onde ele mesmo vai se perder.

Poesia é essas outras coisas
que só existem na Poesia
(“O indizível”, p. 12)

-- circulo e me
circuns
(e)screvo

(“Círculos”, p. 20)

Mas a Poesia sobre Poesia não foge ao círculo vicioso, a menos que a Poesia seja um veículo para uma viagem rumo a outro locus, situado numa 'geografia sentimental'. Não que Poesia seja apenas 'sentimento', mas precisa de sentimento. (E todos têm sentimentos, mas nem todos são poetas!) O que salva a Poesia auto-referente é a evocação (chamada 'memória') do vivido. A vida evocada desde a vivência uterina. Digamos, uma lírica 'memória' do útero,

Faço a regressão, vou em busca
do entendimento que não tinha,
mas sabia, sem saber, eu sabia.

Tento decifrar o  que ficou gravado.
Não sei o que é, Mas o que não sei
molda tudo o que sei, e o que serei.

(“Antes de nascer, eu ouvia”, p. 16)


A memória re-construi o Ontem, pois a re-evocação é uma presentificação do Eu-ontem feita pelo Eu-hoje que obviamente não mais a 'mesma pessoa'. Há um abismo (não de continuidade!) entre o eu-que-vivi-ontem e o eu-que-relembro-agora.

Assim são as Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade, que não sabemos se encadeiam prosa ou destilam poesia. (2) As memórias exigem uma nova linguagem, entre a vigília e o sono, entre fragmentos e pedregulhos, onde as partes nunca formam um todo, onde a coesão e coerência (ah, as aulinhas de redação!) não passam de ambições de um racional inexistente.

O extenso “Memórias Infames” (p. 26-45) carrega o Leitor para dentro deste universo de recortes, fragmentos, cenas e cenários que o Eu-de-hoje monta para si-mesmo tendo como referência (o epicentro) o Eu-de-ontem. O poema vem em ondas, ora joga-se para dentro, ora vertendo para fora, não há um ponto de equilíbrio além do Sujeito que enuncia.

Fizemos um pacto: eu era outro.” ou “Se (me) n amava / e saía de mim” ou “Identidade – dialética – inversa” quando a Sexualidade nasce do Eu para ou outro, do prazer solitário para o amor a dois (ou para um ménage a trois...) , quando o erótico transborda do pleno amor do si-mesmo ofertado como dádiva ao prazer do outro. (Caso o fenômeno de reciprocidade não ocorra, temos a rejeição, a frustração, o egoísmo e o narcisismo.)

A sexualidade – recriada pela memória – vai transbordar igualmente nos poemas “Meu primeiro amor”(pp. 48-53), “Não Mais” (p. 72) e “Nu em suores” (p. 74), quando a bela disposição das letras – poesia tradicional de qualidade – serve como veículo para transportar (eis aqui a 'metáfora'!) as muitas memórias gravadas no corpo (e nos corpos!) quando a chama do amor vivido é poeticamente reaquecida.

Nu, irredutível nu, naquela paisagem
que é de qualquer um — se quisesse,
sempre em movimento, deslizante, polido
pelo roce e suor, saliva; arfante, pés.

Nu, irremediável nu, em suores, cores,
refletindo sua relação com o mundo.


(“Nu em suores”)



Destaque: O Jovem na Livraria

Meio ao barulho do trânsito, aos trapos humanos, a miséria da existência, a pobreza e a insatisfação, o jovem leitor, fascinado, lendo 'de pé', sem qualquer comodidade, consegue ir-além do caos externo e mergulhar num mundo de imagens construídas de /por palavras.


Temos em "O Jovem na Livraria" uma pérola da poesia de referências. Tudo a erudição que foi absorvida pelo Autor e vertida pelo Eu Lírico. Temos aqui referências à C. Drummond, Maiakóvski, Mallarmé, dentre outros. Temos o poeta enquanto leitor, a imagem do jovem deslocado na livraria (justamente um símbolo da Erudição, da Tradição Literária)

As múltiplas leituras podem produzir Autores do tipo 'caixas de ressonância' (quantas cópias de Melo Neto e Leminski brotam por aí !) ou Autores de fina sensibilidade para deslizar entre as 'florestas de símbolos' e saírem ilesos com uma Obra singular. Em diálogo. Significa: a controlar as referências e as influências. A menos que se queira ser conhecido como autor de paródias ou (hélas!) plagiador.

Encontraremos intertextualidades conscientes e inconscientes (ver Bakhtin) onde muitas vezes o Autor nem sabe que dialoga com outro Autor, cita sem perceber, imagina-se autor de um pensamento lido em sua tenra infância. Cabe ao literato se abrir para a leitura atenta (dos leitores e/ou dos críticos) e 'encontrar a si mesmo na fala alheia'.

Fato é que muitos sofrem da “angústia da Influência”, que contagia todos os literatos de boa-vontade, que – tal qual Borges – continuam a querer escrever o livro que gostariam de ler! Aqui o Eu Lírico caminha com Maiakovski e discursa com Mário de Andrade (“Ode ao Burguês”) a declarar/re-evocar – em “Suicídio de Maiakóvski” e “Maiakovskianas” - que “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. (Esperamos que o Autor esteja a acompanhar a Obra poética de Wilmar Silva / Joaquim Palmeira)(3)

Era culpa de Maiakóvski se ele poeta era mais 'revolucionário' que a Revolução? O ser poeta não seria ser propriamente de 'vanguarda'? Como deve o poeta guiar a Revolução e não ser atropelado pelo 'plebeísmo'? E não ser vítima, como o próprio futurista russo finalmente foi? A 'massa' deve ser educada para entender o Poeta OU o poeta deve 'entregar tudo mastigado' para a livre deglutição?

Os poemas "Encurralado", "Assim caminha a Humanidade" e "Rodoviária do Plano Piloto" soltam a voz sobre o drama da tragédia da comédia humana que rasteja pela terra sem coragem de tomar a História nas mãos e trocar a opressão da desigualdade pelo coletivo da igualdade.

O homem escraviza a família e o céu,
devora seus semelhantes, trapaceia
e se instaura como um deus dissimulado.

'Quem é o homem?' seria a indagação a ecoar a cada estrofe deste poema (“Encurralado”) onde, por sua vez, ecoam as indagações do poema de Carlos Drummond de Andrade, “Especulações em torno da palavra homem(4),

Mas que coisa é homem,
Que há sob o nome:
Uma geografia?
Um ser metafísico?
Uma fábula sem
Signo que a desmonte?
Como pode o homem
Sentir-se a si mesmo,
Quando o mundo some?


Com passos de formiga e sem vontade” (Lulu Santos) assim caminha a Humanidade , a deixar uma trilha de ossos, ruínas, genocídios, lixo, desmatamento, subliteratura, novelas televisivas, pseudo-músicas, barulhos comerciáveis, trânsitos caóticos, poluição visual, etc etc, enquanto ouvimos os intelectuais (pagos pelo Sistema ) apregoarem que 'vivemos no melhor dos mundos possíveis' e que pensar diferente é 'coisa de gente desajustada ou infectada por utopias'.

a história da humanidade
é a prova da insanidade
a que estamos submetidos
sem deus, sem destino


Destacamos também a criação de imagens – mais do que descrições, são sugestões, mais do que pinturas, são figuras de linguagem. Assim norteamos nossa leitura de “Se me movo”, “Mar”, “Barco à deriva” e “Janela para dentro”, os poemas que fecham (mas não concluem) esta edição. (Nada de conclusões: ainda temos um CD – com a Voz do Poeta - no encarte!)

A 'fluidez' psicodélica em 'se me movo',

se os pássaros me vêem, sou cristal
se o rio passa, eu também passo
passado, frio, além, miragem

ou a ondulação da maré em 'mar',

o mar sem fissuras
um mar sem vincos, estrias
um mar-amplidão
sem marcas, em movimento

mar a que tudo vai
 mar adiante, mar amor


ou a 'imagética' fremente em 'barco à deriva',

Pássaros sem pouso, nuvens estagnadas.
Ilhas (ainda) desabitadas, escaladas impossíveis.
Sonhar. Ares degradados, repouso, vácuo
e um olhar sem rumo, sem prumo, turvo.

Explicitam um espaço de invenção que o jogo de palavras permite a partir dos pluri-significados, e das torsões semânticas,

A janela olhando o horizonte,
o horizonte dentro da janela.
Olhando para dentro: sem você.
Quando aportaremos, seguros?
As paredes estalam. Estremecemos.
Nada além disso, é o bastante.

(janela para dentro, p. 89)


O simbolismo imagético nasce (ou é tecido) numa poesia enquanto exercício de introversão, de introvisão, de olhar-para-dentro, onde se há referências ao 'mundo externo' estas são mescladas com o 'estado de espírito' do Eu Lírico. Assim são construídas as poéticas de Rimbaud (ecos de “Barco Bêbado”), Baudelaire (algo de “As Janelas”), Verlaine (ressonâncias de vários poemas) (5), onde o simbólico - e o sonoro – diz além das palavras através do trampolim das palavras.

Antes que a orla virasse muralha e vidro,
horizonte tapado, visão retroversa, errática

São imagens não explicadas, mas sentidas. Recuperam todo o peso da palavra que flutua leve livre de um sentido único, conceitual, de dicionário. “pássaro adiantado no tempo / — o inverno anuncia dias calados.” Aqui qualquer denotação é suspeita, e toda conotação é possível. As figuras de linguagem tomam de assalto as cidadelas do significado. O que está fora apenas reflete o que viceja dentro, Uma chuva letárgica, atrasada molha sem pressa, afogando.

Não se explica um poema. A 'explicação' do poema é o próprio poema. O poeta e crítico Octavio Paz assegura que a 'imagem poética' não é explicável. E quanto mais 'imagens' tiver, melhor o poema, assim mais 'inexplicável'. Não exatamente 'hermético' – seja ao Crítico ou ao Leitor. 'Inexplicável' no sentido de tudo que se diga sobre o poema é inútil e redundante. [Se a Crítica reevoca/repete a Imagem ela é pleonástica; e se nega a Imagem, é surda, cega e muda.](6)

O máximo que a Crítica pode fazer é situar um dado Texto num determinado Contexto, além de considerar que há uma Autoria (um estilo, um subjetivismo, etc), e assim contextualizar o Escrito na Época, em diálogo (afirmando ou negando) com a experiência e/ou a leitura, a espelhar ou idealizar - através da Literatura - um modo de vida.


mar/10
revsd: fev/13

Leonardo de Magalhaens



Blog do poeta Antonio Miranda

mais sobre Memórias Infames


Notas:

(1) Poema e prosas de Konstandinos Kavafis

(2) Trechos de “Memórias sentimentais de João Miramar” (1924) de Oswald de Andrade (1890-1954)

"O PENSIEROSO

Jardim desencanto
O dever e processões com pálios
E cônegos
Lá fora
E um circo vago e sem mistérios
Urbanos apitando noites cheias
Mamãe chamava-me e conduzia-me para dentro do oratório de mãos grudadas.
- O anjo do Senhor anunciou à Maria que estava para ser a mãe de Deus.
Vacilava o morrão do azeite bojudo em cima do copo. Um manequim esquecido avermelhava.
- Senhor convosco, bendita sois entre as mulheres, as mulheres não tem pernas, são como o manequim de mamãe até embaixo. Para que nas pernas, amém."


Indiferença

"Montmartre
E os moinhos do frio
As escadas atiram almas ao jazz de pernas nuas

Meus olhos vão buscando lembranças
Como gravatas achadas

Nostalgias brasileiras
São moscas na sopa de meus itinerários
São Paulo de bondes amarelos
E romantismos sob árvores noctâmbulas

Os portos de meu país são bananas negras
Sob palmeiras
Os poetas de meu país são negros
Sob bananeiras
As bananeiras de meu país
São palmas claras
Braços de abraços desterrados que assobiam
E saias engomadas
O ring das riquezas

Brutalidade jardim
Aclimatação

Rue de La paix
Meus olhos vão buscando gravatas
Como lembranças achadas."


(3) ”Ode ao Burguês” (Mário de Andrade)



(4) Poema de CDA, “Especulações em torno da palavra homem” em

(5) Rimbaud, “Barco Bêbado” (duas traduções)

Baudelaire, “As Janelas” / Les Fenêtres

Alguns poemas de Paul Verlaine

(6) Mais sobre Octavio Paz em






LdeM