quarta-feira, 27 de março de 2013

Próximos Ensaios em MEU CÂNONE OCIDENTAL





Próximos Ensaios sobre Obras clássicas


em


MEU CÂNONE OCIDENTAL





Notas do Subsolo [ Memórias do Subterrâneo ] -
F. Dostoiévski [Rus]


Fome – K. Hamsun [Nor]


O Lobo da Estepe – H. Hesse [Ale]


Pergunte ao Pó – J. Fante [EUA]


Angústia – Graciliano Ramos [Bra]


A Náusea – J.- P. Sartre [Fra]


O Estrangeiro – Albert Camus [Fra]


O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald [EUA]


Herzog – Saul Bellow [EUA]


A Consciência de Zeno – I. Svevo [Ita]


O Livro de Daniel – E. L. Doctorow [EUA]


Complexo de Portnoy – P. Roth [EUA]


Pedro Páramo – Juan Rulfo [Mex]


A Laranja Mecânica – A. Burgess [UK]



 & outras



LdeM

quinta-feira, 7 de março de 2013

pulsão & pulsação - poema LdeM


pulsão & pulsação

um estalo foi o bastante
para fecundar o dia
e pulsando na noite
em suores & gemidos
novos pulsos reatar
& conectar neuronas
& fermentar células
num bater de repuxos
após um cruzar de olhos
de um juntar de vidas
& entrelaçadas fazer brotar
a pulsação de novo ser
um novo a nascer
para a ciranda renascer
de gerações de filhos
avós & netos & famílias
ao longo de séculos
em pulsação de sangue
a sangue da pulsão
de fazer brotar
antes de fenecer
para deixar renascer
antes de esgotar
a seiva de tantas esperas
antes de prantear
todos os que morrem
festejar aqueles brotos
que vicejantes nascem.



03/04mar13


Leonardo de Magalhaens



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Sobre Memórias Infames (2009) de Antonio Miranda





Sobre Memórias Infames (Anome Livros / 2009)
poemas de Antonio Miranda (Brasília, DF)



O Poeta enquanto Leitor


Abordamos em ensaios anteriores as fontes da criação poética corporificadas nos poemas, onde a participação do Autor seria um eco de um contexto, o espelho de uma época, seja por leituras ou por vivências; ou uma resistência, um contraponto ao estilo da época; ou ainda, um não situar-se na época, sendo antes um anacrônico, um deslocado, um 'gauche', um 'nascido póstumo', um 'flutuante'.

Existem os Poetas que deixam ecoar as leituras e vivências de um momento, a ponto de serem verdadeiras testemunhas; outros, procuram negar tudo o que a época diz, fazem tudo ao contrário, são dissonantes; e outros não têm acesso à leitura, ou não vivem a época, ou, tendo lido e vivido, procuram esquecer tudo que leram/viveram.

Aquele que segue a Época é um 'farol', um 'príncipe', conduz ao igual, acomodado ou não, mas sempre integrado. Tendo voz ativa, será líder. Aquele que nega a Época pode passar por louco ou marginal, ou visionário, e será idolatrado depois de morto. E aquele que não sabe (não leu e/ou não viveu) será um original, enquanto aquele que leu e/ou viveu terá que se esforçar para ser 'original'.

Este ensaio cuidará em situar o Poeta enquanto Leitor, que dialoga com os múltiplos textos anteriores (e servirá de interlocutor para textos futuros), e cria sua obra em diálogo (nos sentido dados por Bahktin) com todos os outros – lidos e imaginados. Até porque os bons autores imaginam os seus leitores de agora e de amanhã (Walt Whitman que o diga!) e sabem 'digerir' a Tradição da Época com uma sensível reverência e uma elegante ironia. (Se for apenas reverente, será mais um na multidão de seguidores; se for irônico, cairá na fila dos rebeldes, marginais, dos dissonantes)

A importância da Intertextualidade não diminui a singularidade do Poema – a corporificação da Poesia (imagem abstrata por excelência) pois a Autoria transmite ao texto seu espaço de subjetividade, de indivíduo numa Época mas também em relação a Época (afirmando ou negando), uma vez que o Estilo é original em relação a outro Estilo (do passado ou do futuro). Cada poema é um conjunto fechado de palavras certas em posições certas. No sentido de que modificar qualquer verbete é arriscar-se ao desmoronamento do edifício de cartas.

Aqui não será situada a pessoa do Autor nem sua trajetória literária (matéria suficiente para mais de um livro, onde destacaríamos uma impressionante tentativa de diálogo com a obra alheia - no caso um poeta grego! - nos cantos de “Eu, Konstantinos Kaváfis de Alexandria” (Thesaurus, 2007) (1)) Atentos a leitura dos poemas de Antonio Miranda, evitaremos abordar Antonio Miranda.


O Poeta que escreve para Poeta não pode dispensar a metalinguagem, onde vem contrapor as palavras X a realidade, ou o ideal X o factual. Não pode esquecer que trata-se de um diálogo (feito de monólogo + leitores) com outros poetas/literatos, que sabem tanto quanto ele (se não qualitativa, pelo menos quantitativamente)

O livro já abre com a 'síndrome' da poesia atual (dito pós-moderna) a metalinguagem. Não hesita em dizer: “o mesmo poema é muitos” (“Metapoema”, p. 11)

Toda uma Poesia auto-referente – a Poesia que fala sobre... Poesia! A palavra enroscada em si-mesma, a Linguagem debruçada sobre a Linguagem. A mania do Poeta em explicar a Poesia cria nada mais nada menos que uma selva de ecos e espelhos onde ele mesmo vai se perder.

Poesia é essas outras coisas
que só existem na Poesia
(“O indizível”, p. 12)

-- circulo e me
circuns
(e)screvo

(“Círculos”, p. 20)

Mas a Poesia sobre Poesia não foge ao círculo vicioso, a menos que a Poesia seja um veículo para uma viagem rumo a outro locus, situado numa 'geografia sentimental'. Não que Poesia seja apenas 'sentimento', mas precisa de sentimento. (E todos têm sentimentos, mas nem todos são poetas!) O que salva a Poesia auto-referente é a evocação (chamada 'memória') do vivido. A vida evocada desde a vivência uterina. Digamos, uma lírica 'memória' do útero,

Faço a regressão, vou em busca
do entendimento que não tinha,
mas sabia, sem saber, eu sabia.

Tento decifrar o  que ficou gravado.
Não sei o que é, Mas o que não sei
molda tudo o que sei, e o que serei.

(“Antes de nascer, eu ouvia”, p. 16)


A memória re-construi o Ontem, pois a re-evocação é uma presentificação do Eu-ontem feita pelo Eu-hoje que obviamente não mais a 'mesma pessoa'. Há um abismo (não de continuidade!) entre o eu-que-vivi-ontem e o eu-que-relembro-agora.

Assim são as Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade, que não sabemos se encadeiam prosa ou destilam poesia. (2) As memórias exigem uma nova linguagem, entre a vigília e o sono, entre fragmentos e pedregulhos, onde as partes nunca formam um todo, onde a coesão e coerência (ah, as aulinhas de redação!) não passam de ambições de um racional inexistente.

O extenso “Memórias Infames” (p. 26-45) carrega o Leitor para dentro deste universo de recortes, fragmentos, cenas e cenários que o Eu-de-hoje monta para si-mesmo tendo como referência (o epicentro) o Eu-de-ontem. O poema vem em ondas, ora joga-se para dentro, ora vertendo para fora, não há um ponto de equilíbrio além do Sujeito que enuncia.

Fizemos um pacto: eu era outro.” ou “Se (me) n amava / e saía de mim” ou “Identidade – dialética – inversa” quando a Sexualidade nasce do Eu para ou outro, do prazer solitário para o amor a dois (ou para um ménage a trois...) , quando o erótico transborda do pleno amor do si-mesmo ofertado como dádiva ao prazer do outro. (Caso o fenômeno de reciprocidade não ocorra, temos a rejeição, a frustração, o egoísmo e o narcisismo.)

A sexualidade – recriada pela memória – vai transbordar igualmente nos poemas “Meu primeiro amor”(pp. 48-53), “Não Mais” (p. 72) e “Nu em suores” (p. 74), quando a bela disposição das letras – poesia tradicional de qualidade – serve como veículo para transportar (eis aqui a 'metáfora'!) as muitas memórias gravadas no corpo (e nos corpos!) quando a chama do amor vivido é poeticamente reaquecida.

Nu, irredutível nu, naquela paisagem
que é de qualquer um — se quisesse,
sempre em movimento, deslizante, polido
pelo roce e suor, saliva; arfante, pés.

Nu, irremediável nu, em suores, cores,
refletindo sua relação com o mundo.


(“Nu em suores”)



Destaque: O Jovem na Livraria

Meio ao barulho do trânsito, aos trapos humanos, a miséria da existência, a pobreza e a insatisfação, o jovem leitor, fascinado, lendo 'de pé', sem qualquer comodidade, consegue ir-além do caos externo e mergulhar num mundo de imagens construídas de /por palavras.


Temos em "O Jovem na Livraria" uma pérola da poesia de referências. Tudo a erudição que foi absorvida pelo Autor e vertida pelo Eu Lírico. Temos aqui referências à C. Drummond, Maiakóvski, Mallarmé, dentre outros. Temos o poeta enquanto leitor, a imagem do jovem deslocado na livraria (justamente um símbolo da Erudição, da Tradição Literária)

As múltiplas leituras podem produzir Autores do tipo 'caixas de ressonância' (quantas cópias de Melo Neto e Leminski brotam por aí !) ou Autores de fina sensibilidade para deslizar entre as 'florestas de símbolos' e saírem ilesos com uma Obra singular. Em diálogo. Significa: a controlar as referências e as influências. A menos que se queira ser conhecido como autor de paródias ou (hélas!) plagiador.

Encontraremos intertextualidades conscientes e inconscientes (ver Bakhtin) onde muitas vezes o Autor nem sabe que dialoga com outro Autor, cita sem perceber, imagina-se autor de um pensamento lido em sua tenra infância. Cabe ao literato se abrir para a leitura atenta (dos leitores e/ou dos críticos) e 'encontrar a si mesmo na fala alheia'.

Fato é que muitos sofrem da “angústia da Influência”, que contagia todos os literatos de boa-vontade, que – tal qual Borges – continuam a querer escrever o livro que gostariam de ler! Aqui o Eu Lírico caminha com Maiakovski e discursa com Mário de Andrade (“Ode ao Burguês”) a declarar/re-evocar – em “Suicídio de Maiakóvski” e “Maiakovskianas” - que “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. (Esperamos que o Autor esteja a acompanhar a Obra poética de Wilmar Silva / Joaquim Palmeira)(3)

Era culpa de Maiakóvski se ele poeta era mais 'revolucionário' que a Revolução? O ser poeta não seria ser propriamente de 'vanguarda'? Como deve o poeta guiar a Revolução e não ser atropelado pelo 'plebeísmo'? E não ser vítima, como o próprio futurista russo finalmente foi? A 'massa' deve ser educada para entender o Poeta OU o poeta deve 'entregar tudo mastigado' para a livre deglutição?

Os poemas "Encurralado", "Assim caminha a Humanidade" e "Rodoviária do Plano Piloto" soltam a voz sobre o drama da tragédia da comédia humana que rasteja pela terra sem coragem de tomar a História nas mãos e trocar a opressão da desigualdade pelo coletivo da igualdade.

O homem escraviza a família e o céu,
devora seus semelhantes, trapaceia
e se instaura como um deus dissimulado.

'Quem é o homem?' seria a indagação a ecoar a cada estrofe deste poema (“Encurralado”) onde, por sua vez, ecoam as indagações do poema de Carlos Drummond de Andrade, “Especulações em torno da palavra homem(4),

Mas que coisa é homem,
Que há sob o nome:
Uma geografia?
Um ser metafísico?
Uma fábula sem
Signo que a desmonte?
Como pode o homem
Sentir-se a si mesmo,
Quando o mundo some?


Com passos de formiga e sem vontade” (Lulu Santos) assim caminha a Humanidade , a deixar uma trilha de ossos, ruínas, genocídios, lixo, desmatamento, subliteratura, novelas televisivas, pseudo-músicas, barulhos comerciáveis, trânsitos caóticos, poluição visual, etc etc, enquanto ouvimos os intelectuais (pagos pelo Sistema ) apregoarem que 'vivemos no melhor dos mundos possíveis' e que pensar diferente é 'coisa de gente desajustada ou infectada por utopias'.

a história da humanidade
é a prova da insanidade
a que estamos submetidos
sem deus, sem destino


Destacamos também a criação de imagens – mais do que descrições, são sugestões, mais do que pinturas, são figuras de linguagem. Assim norteamos nossa leitura de “Se me movo”, “Mar”, “Barco à deriva” e “Janela para dentro”, os poemas que fecham (mas não concluem) esta edição. (Nada de conclusões: ainda temos um CD – com a Voz do Poeta - no encarte!)

A 'fluidez' psicodélica em 'se me movo',

se os pássaros me vêem, sou cristal
se o rio passa, eu também passo
passado, frio, além, miragem

ou a ondulação da maré em 'mar',

o mar sem fissuras
um mar sem vincos, estrias
um mar-amplidão
sem marcas, em movimento

mar a que tudo vai
 mar adiante, mar amor


ou a 'imagética' fremente em 'barco à deriva',

Pássaros sem pouso, nuvens estagnadas.
Ilhas (ainda) desabitadas, escaladas impossíveis.
Sonhar. Ares degradados, repouso, vácuo
e um olhar sem rumo, sem prumo, turvo.

Explicitam um espaço de invenção que o jogo de palavras permite a partir dos pluri-significados, e das torsões semânticas,

A janela olhando o horizonte,
o horizonte dentro da janela.
Olhando para dentro: sem você.
Quando aportaremos, seguros?
As paredes estalam. Estremecemos.
Nada além disso, é o bastante.

(janela para dentro, p. 89)


O simbolismo imagético nasce (ou é tecido) numa poesia enquanto exercício de introversão, de introvisão, de olhar-para-dentro, onde se há referências ao 'mundo externo' estas são mescladas com o 'estado de espírito' do Eu Lírico. Assim são construídas as poéticas de Rimbaud (ecos de “Barco Bêbado”), Baudelaire (algo de “As Janelas”), Verlaine (ressonâncias de vários poemas) (5), onde o simbólico - e o sonoro – diz além das palavras através do trampolim das palavras.

Antes que a orla virasse muralha e vidro,
horizonte tapado, visão retroversa, errática

São imagens não explicadas, mas sentidas. Recuperam todo o peso da palavra que flutua leve livre de um sentido único, conceitual, de dicionário. “pássaro adiantado no tempo / — o inverno anuncia dias calados.” Aqui qualquer denotação é suspeita, e toda conotação é possível. As figuras de linguagem tomam de assalto as cidadelas do significado. O que está fora apenas reflete o que viceja dentro, Uma chuva letárgica, atrasada molha sem pressa, afogando.

Não se explica um poema. A 'explicação' do poema é o próprio poema. O poeta e crítico Octavio Paz assegura que a 'imagem poética' não é explicável. E quanto mais 'imagens' tiver, melhor o poema, assim mais 'inexplicável'. Não exatamente 'hermético' – seja ao Crítico ou ao Leitor. 'Inexplicável' no sentido de tudo que se diga sobre o poema é inútil e redundante. [Se a Crítica reevoca/repete a Imagem ela é pleonástica; e se nega a Imagem, é surda, cega e muda.](6)

O máximo que a Crítica pode fazer é situar um dado Texto num determinado Contexto, além de considerar que há uma Autoria (um estilo, um subjetivismo, etc), e assim contextualizar o Escrito na Época, em diálogo (afirmando ou negando) com a experiência e/ou a leitura, a espelhar ou idealizar - através da Literatura - um modo de vida.


mar/10
revsd: fev/13

Leonardo de Magalhaens



Blog do poeta Antonio Miranda

mais sobre Memórias Infames


Notas:

(1) Poema e prosas de Konstandinos Kavafis

(2) Trechos de “Memórias sentimentais de João Miramar” (1924) de Oswald de Andrade (1890-1954)

"O PENSIEROSO

Jardim desencanto
O dever e processões com pálios
E cônegos
Lá fora
E um circo vago e sem mistérios
Urbanos apitando noites cheias
Mamãe chamava-me e conduzia-me para dentro do oratório de mãos grudadas.
- O anjo do Senhor anunciou à Maria que estava para ser a mãe de Deus.
Vacilava o morrão do azeite bojudo em cima do copo. Um manequim esquecido avermelhava.
- Senhor convosco, bendita sois entre as mulheres, as mulheres não tem pernas, são como o manequim de mamãe até embaixo. Para que nas pernas, amém."


Indiferença

"Montmartre
E os moinhos do frio
As escadas atiram almas ao jazz de pernas nuas

Meus olhos vão buscando lembranças
Como gravatas achadas

Nostalgias brasileiras
São moscas na sopa de meus itinerários
São Paulo de bondes amarelos
E romantismos sob árvores noctâmbulas

Os portos de meu país são bananas negras
Sob palmeiras
Os poetas de meu país são negros
Sob bananeiras
As bananeiras de meu país
São palmas claras
Braços de abraços desterrados que assobiam
E saias engomadas
O ring das riquezas

Brutalidade jardim
Aclimatação

Rue de La paix
Meus olhos vão buscando gravatas
Como lembranças achadas."


(3) ”Ode ao Burguês” (Mário de Andrade)



(4) Poema de CDA, “Especulações em torno da palavra homem” em

(5) Rimbaud, “Barco Bêbado” (duas traduções)

Baudelaire, “As Janelas” / Les Fenêtres

Alguns poemas de Paul Verlaine

(6) Mais sobre Octavio Paz em






LdeM

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

2 poemas da PARANOIA de Piva




Roberto Piva
 
Paranoia em Astrakan

Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo seus olhos com
lágrimas invulneráveis
onde crianças católicas oferecem limões para pequenos paquidermes
que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros para os telhados
estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam
a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em festa e a noite caminha
no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei o Outono de sua
última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua inesperada no horizonte
branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela fotografia de peixe
escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das
beatas
onde os mortos se fixam na noite e uivam por um punhado de fracas
penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários desordenados da
imaginação



Roberto Piva




Visão de São Paulo à noite
Poema Antropófago sob Narcótico


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo

...



para folhear online



mais sobre Paranoia / 1963



Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. [Faleceu em São Paulo em 3 de julho de 2010] Poeta ligado aos marginais dos anos 60, esteve na Antologia dos Novíssimos de Massao Ohno em 1961 e em 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Foi professor na rede de ensino público, produtor de shows de rock e é um dos três únicos poetas brasileiros a ser citado no Dicionário Geral do Surrealismo publicado na França.




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

3 poemas de Leonardo Morais





Leonardo Morais


(foto: Mallarmargens)



PONTO DE ORVALHO

Doses infinitas de orvalho na noite destilada em fantasmagorias
fecundas de maçãs em fuga no lapso de uma promessa inventada

A noite como casa do infinito aconchego & solidão de uísque
ao estilo de anjos pistoleiros queimados em basalto nato

Degredo de tropeços docemente dilapidados mon amour azul
distante flanando na lábia perversa do Conde Lautréamont

Berrando as janelas pautam na invisível comoção um senso de
relâmpagos cromados sodomizando ouvidos à estardalhaços

Piscadelas de estrelas desorientando nuvens em reverência
à perdição da sombra suave contorno eco do indizível

Salvação a prospecção úmida na vertigem de asas à vontade
no flanar do olho em delírio na contradição entre o sim

& o não.


[Leonardo Morais]





MEU POEMA DE CAVEIRA

A vida como osso doce entalado na garganta
Périplos em rótulas às catedrais do enriquecimento ilícito de Deus
Olhos & almas embalsamados pelo toque de midas do Lúcifer midiático
A juventude deliciosamente apascentada se olha no espelho e ri do ignorante & contente vazio branco odontológico de seus dias
Velhos ovulam ocasos & esquecimentos
Crianças rugem por atenção principesca
às portas das casas, nos corredores de lojas, intransitável purgatório capitalista
Outras, esmolam ou (se) vendem
rosas
vermelhas brancas amarelas negras azuis
Cientes de que não pode haver perdão ou alento
enquanto o hálito da maquinaria esganar pulmões ou erigir paragens
cujo perfil
chicoteia em labirintos
a retina de uma multidão
desde sempre
natimorta
para a qual
eu mando um beijo e faço um brinde
um verso de amor
ao futuro
nos domínios da caveira.

[Leonardo Morais]





FALÊNCIA MÚLTIPLA DE ÓRGÃOS

I.

A sordidez arrastada dos tapetes em doce crise de baganas
cambaleia na borda do sono canibal enquanto ponteiros mentem
SIM à esfinge indizível ritual de abismos abocanhando asas

II.

Jabuticabas cauterizadas pelo esgar de nuvens perfuradas em sal
não suportam mais o peso neon terror químico de uma trilha
AINDA executada à luz em aspereza do acorde uníssono mor

III.

Moravia em terno & pó espreitando La bella vita por cima do muro urro ensimesmado tropeçando em si ali o alho & olho
VIVO na vida na seta no arco no alvo no alvo no alvo


[Leonardo Morais] 



fonte: facebook do autor

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

sobre Zuns Zum Zoom - de Luiz Edmundo Alves




sobre Zuns Zum Zoom [BH: Anome Livros, 2012]
do poeta Luiz Edmundo Alves

Poética entre o fingimento e a confissão


Fingi-dores


Na poética, assim como em qualquer fala ou texto, temos alguém que expressa algo sobre si mesmo ou sobre outro ser (real ou imaginário), temos quem enuncia e quem ao qual o enunciado faz referência, assim tecnicamente temos o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado. Por exemplo no verso “Eu caminho sobre as águas”, temos o enunciado cujo sujeito é o que diz 'eu' , mas certamente não é o poeta, a pessoa, o sujeito da enunciação, que não é exatamente capacitado a perambular sobre superfícies aquosas.

O eu do poema é o autor ou não? Apenas quando o sujeito do enunciado se confunde com o sujeito da enunciação – e, para maior efeito, o leitor assim espera: que as dores do texto sejam aquelas do autor. Quando o poeta diz “Sou o caminho até o céu e o inferno”, o leitor espera que assim seja, que seja o 'eu poético' o poeta, o 'eu autoral', ser sublime a transcender bem e mal, paraíso e pecado, acima e abaixo do singelo leitor, sempre em busca de guia e iluminação, a espera de visões e delírios – é para isso que existe poeta: ver o que não vemos, fazer os desatinos que não ousamos, vivenciar o que desejamos e tememos.

Se o leitor não 'força' a junção sujeito da enunciação (autor) com o sujeito do enunciado (eu lírico) sente que o poema perde efeito: pois quem mais será este EU no poema se não o/a poeta? Ou o/a poeta anda a simular personagens? A incorporar entidades? O poeta é médium além de ator? Este fingidor de dores num mosaico de palavras...


Na folha o/a poeta, com seu disfarce de eu lírico, vem fingir as dores que ele/ela sofre. Por outro lado, o leitor é um fingidor também. Ele finge que a dor lida – a dor do poeta, do eu lírico – é sua dor, e chora e geme e sofre com o poema, aquelas palavras numa folha. É meio dramático o par – autor e leitor – pois ambos atuam numa peça de eu sofro, vou fingir sofrer, você sofre, vai fingir sofrer – seja lá o que for 'sofrer'...

O autor quer provocar um efeito, usa técnica e confissão, mas não controla o efeito sobre o leitor – que pode ir em consonância mas também dissonância. Um poema criado para irritar alguém, pode agradar a outro. Um poema de amor que encanta uma ilustre musa, pode causar efeito zero sobre um ativista militante engajado nada lírico.

O fingimento deve ser aceitável. Mais do que isto, deve ter efeito. Fazer o leitor esquecer o fingimento. O bom poema causa efeito, não deixa o leitor indiferente. O bom poema consegue nos comover, ou irritar, provocar uma catarse, levar a uma outra cosmovisão. Um bom poema pode nos converter – ao Redentor ou ao Niilismo. Poemas que nos fazem amar e odiar, mas nunca passam despercebidos, nunca ignorados. O poema, com seu efeito, será sempre (re)lembrado.

É agora clássico o exemplo drummondiano “no meio do caminho”, poema que tem admiradores e detratores, mas que, por seu efeito, não deixa de ser relido, seja para elogios, seja para ironias. O pior para um poema é este passar despercebido, como se não existisse, como se jamais escrito. Uma folha branca.


Provocando algum zum-zum-zum

Para encher as folhas em branco de Zuns Zumm Zoom o poeta Luiz Edmundo Alves explora certas facetas de sua visão poética ou de sua vida pessoal em eixos que ora destacamos. A presença dos metapoemas é esperada, o fingimento às vezes é declarado, estamos diante de jogos de palavras. Então, eis o poeta a explicar que escreve poemas e quais as suas motivações. A temática da vida pessoal fornece boa matéria-prima para poemas confessionais – até longos poemas confessionais – pois o poeta ousa um resgate dos meandros da memória. Em ambos os eixos o poeta se entrega ao exercício de auto-observação.

É explícito o papel da memória e suas atuações para a paz ou para a aflição, em dado momento de olhar para trás, para o que foi vivido. Encontramos o poeta enquanto vítima de fluxos de memória involuntária, tal qual um Proust em busca do tempo perdido, ao degustar um bolo, ou emocionar-se com um solo de violino, ou vislumbrar uma cor,

tenho uma
memória nos olhos,
que às vezes ativa-se
com uma cor, agora
estou ativado pelo amarelo.

p. 20


tenho
uma memória
evocada pelas perdas
que me embaralha as
emoções e depois me
distribui para o
jogo cotidiano

p. 14


tenho umas lembranças
coladas em meus ouvidos que
às vezes floram com
o canto do bem-te-vi.
Simultaneamente as
lembranças afloradas:

p. 33



É assim o poeta vitimizado pela memória involuntário, que o lança, sem mais nem menos, do agora para um passado não-cicatrizado, numa condição de embaraço entre o ser-agora e o revivenciar-pela-recordação, num estado de indefinição, no qual o eu lírico flutua entre o falar e o silenciar,


tenho uns ferimentos que mantenho
ocultos. Expor ferimentos fere mais.

p. 16


dentre tantas palavras
o q dessas palavras
dentre tantos silêncios
n coisas pra dizer

p. 46



Não é fácil viver entre o falar e o silenciar, ou melhor, entre as memórias e o esquecimento, entre o que sabemos e o que nem gostaríamos de saber, afinal, algo vem sempre ferir, um ato, uma palavra dita inconvenientemente, um não quando deveríamos ter dito sim,


não insisto: recordar e escrever
é mesmo da ordem dos sentidos,
calar e esquecer também.

p. 15

penso no futuro,
penso no passado,
naquilo que perdura,
no que não sei, e no
que esqueci para me
proteger.

p. 22


Em 'esqueça-me' (p. 45) o eu-lírico, ou o poeta, é ambíguo, quer ser esquecido, quer ser lembrado, deseja evadir-se de outro eu, mas ser resguardado nas profundas lembranças do amor de outrora,

esqueça-me numa rosa de prata barata,
ou quando desejar que a semana voe,
que o pensamento voe

[…]

hoje que não mais me quer.
esqueça-me,
e guarde-me em seu esquecimento.


Para manter tal senso de localização – onde ele vive, onde ele se relembra? - é preciso recorrer a observação de si mesmo, a recolher os fragmentos de agora e de outrora, e imaginar-se um indivíduo (fábula que narramos para nós mesmos diariamente). Ao observar-se, não falta ao eu poético uma certa auto-ironia, diante de uma figura meio risível, meio amarga. Assim é em 'cadê meus óculos' (p. 53), onde o acessório se torna até essencial,

cadê meus óculos?
perdi meus óculos e,
com eles, a nitidez das coisas.
sem eles eu converso mal, distingo mal,
respiro mal, eu mal entendo o que está ali,
o que está lá. tá, tudo está lá e ali, sim, tudo
embaçado, desfocado, impreciso. Eu preciso
de meus óculos, preciso, para precisar melhor,


A auto-ironia, o brincar consigo mesmo e suas limitações, está lado a lado com o divertir-se com as palavras, que causa um efeito de desabafo, pois é no ludismo em jogos com as palavras que o humor lúdico do poeta se revela, segundo ele – eu poético - confessa no poema da p. 29, vejamos,

meu divertimento é
da ordem do poético e
da imaginação,
tem o brincar das
palavras e das
ênclises inesperadas bem
na palma da página.
quando meus olhos
avançam sobre as
palavras eu brinco,
me dobro em brincar.


e se evidencia em outros poemas, que deslocam palavras não por semântica, mas por sonoridade, por figuração na página, rumo – muro por anagrama, ou muro – escuro por rima, ou turvo – turvam-me por mudança de classe gramatical (adjetivo para verbo), dentre outros processos, ou, digamos, jogos,

sem rumo
eu e o muro que
nos ampara

arrisco
pulo esse muro
e caio no escuro

paixão escura
mundo turvo
turvam-me.

p.41


Ou em listas de palavras que se evocam, ecoando umas e outras, segundo lembram alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade, Haroldo de Campos, Affonso Ávila, ou Affonso Romano de Sant'Anna, onde palavra atrai palavra não pelo sentido (semântica) mas pela semelhança ortografia, pelas arbitrariedades fonéticas e morfológicas do idioma,


as assonâncias
os assuntos

as arrivistas
os arquétipos

as uvas
os ovos

os milhões
as migalhas

os cântaros
as cantoras


p. 48


Além do Eu – seja o poeta ou não - a presença do outro surge como que espelhada – i.e., em função do Eu – para objeto de percepção, para o amor e para o insulto. Pois temos um discurso literário autocentrado, voltado para si mesmo. O outro é a musa, é a mulher amada – até nomeada – mas sempre em função do Eu, centro do mundo. Então pode-se pensar mais: e há algum contexto social? alguma política? algum protesto? Um resto de ideologia? Ou acabou-se mesmo a fala engajada?

Os poemas em prosa ( pp. 43, 47), claramente voltados para um outro, dirigidos ao outro (objeto de desejo) mostram o umbigo do eu lírico bem aflorado, pois é dele que tudo parte e para tudo se converge. O outro é projeção, é imagem onírica. Já falamos sobre isso em outros ensaios. O amor que o eu expressa, promete, delira, não convence, pois sequer imaginamos a Amada além do delírio do Eu. Não se trata aqui de romance de cavalaria, nem bardos românticos. Então onde o eu lírico se sobressai (além dos metapoemas) ?

No jogo, o locus da confissão


Em Arritmia, entre a escrita e a perda, o poeta Luiz Edmundo Alves se mostra além das convenções do sujeito lírico. São sete páginas de denso poema em prosa, com transplante do sentir para o escrever, em ritmo emotivo e jogos de palavras, dor e técnica entrelaçada. É o sofrer do poeta se transmutando em lirismo. A dor do poeta é uma dor humana, pessoal, mas também pode ser matéria-prima para uma estética, onde se amalgama lirismo e tecnicismo. Não só de sentimento, não só de movimentos lúdicos se constrói o efeito poético. Mas é preciso a alquimia. Caso contrário, o poema é um gigante com pés de barro e ferro fadado a queda no ostracismo.

Pois “um poeta se faz e se desfaz por um desejo de linguagem no limite da língua. No limite da língua o poeta encontra o poema e se faz. O poema é a identidade essencial do poeta.” assim revela o autor, em página anterior ao fluxo lírico de Arritmia. É uma forma de nos lembrar da condição do poeta: entre a potência e entre a desistência. O poeta pode fazer o poema – mas será o poema que o poeta desejava fazer?


eu escrevi livre e infeliz. colhi e selecionei palavras, escrevi fácil e
difícil, certo e errado, feliz escrevi. escrevi quando tive outra
alternativa, quando não tive qualquer alternativa no amor na tragédia
na multidão no rumo no gesto no desamparo.
escrevi e nem senti que tanto doeu.


Ao escrever é que o eu lírico se encontra – para a redenção ou para a perdição – enquanto tentativa de convergências – do ontem e do hoje, do eu e do objeto de desejo. Mas acima de tudo, aqui, o encontro com o outro, o Pai, aqui o Pai Ausente, que simboliza a perda, tanto fisicamente quanto freudianamente dizendo, quando o filho deve assumir a vida (se já não o fez antes...),


escrevi quando perdi meu pai, quando chorei meu pai, quando
procurei e não encontrei meu pai, quando meu pai era tudo o que eu
precisava pra chamar de pai pai pai pai pai pai pai . ei pai cadê você
pra me responder pra me explicar para me amparar para me parar. pai


Ainda em Arritmia temos o jogos de palavras, encontramos um escrevi no muro no namoro na moral namorada na morada, mas não é lúdico que é o prato principal do menu. A degustação aqui exige mais, tem exigências de outros paladares. Quiçá, o autor demonstrasse mais conteúdos de fina culinária na primeira parte, mais voltada para a própria poética, em metapoemas vislumbrando as reentrâncias do umbigo. Esperamos que a próxima obra do poeta Luiz Edmundo Alves seja um amplo e irrestrito Arritmia, não apenas uma segundo parte, ou apêndice, não apenas para mais algum zum-zum-zum, mas expressão de ser autoral, enquanto ser leitor, enquanto confissão de voz humana, conscientemente poeta e fingidor, escrevendo indignado revoltado insultado, e com raiva e arrepiado, com plena consciência do efeito.



jan / 13


Leonardo de Magalhaens





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