quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

3 poemas de Leonardo Morais





Leonardo Morais


(foto: Mallarmargens)



PONTO DE ORVALHO

Doses infinitas de orvalho na noite destilada em fantasmagorias
fecundas de maçãs em fuga no lapso de uma promessa inventada

A noite como casa do infinito aconchego & solidão de uísque
ao estilo de anjos pistoleiros queimados em basalto nato

Degredo de tropeços docemente dilapidados mon amour azul
distante flanando na lábia perversa do Conde Lautréamont

Berrando as janelas pautam na invisível comoção um senso de
relâmpagos cromados sodomizando ouvidos à estardalhaços

Piscadelas de estrelas desorientando nuvens em reverência
à perdição da sombra suave contorno eco do indizível

Salvação a prospecção úmida na vertigem de asas à vontade
no flanar do olho em delírio na contradição entre o sim

& o não.


[Leonardo Morais]





MEU POEMA DE CAVEIRA

A vida como osso doce entalado na garganta
Périplos em rótulas às catedrais do enriquecimento ilícito de Deus
Olhos & almas embalsamados pelo toque de midas do Lúcifer midiático
A juventude deliciosamente apascentada se olha no espelho e ri do ignorante & contente vazio branco odontológico de seus dias
Velhos ovulam ocasos & esquecimentos
Crianças rugem por atenção principesca
às portas das casas, nos corredores de lojas, intransitável purgatório capitalista
Outras, esmolam ou (se) vendem
rosas
vermelhas brancas amarelas negras azuis
Cientes de que não pode haver perdão ou alento
enquanto o hálito da maquinaria esganar pulmões ou erigir paragens
cujo perfil
chicoteia em labirintos
a retina de uma multidão
desde sempre
natimorta
para a qual
eu mando um beijo e faço um brinde
um verso de amor
ao futuro
nos domínios da caveira.

[Leonardo Morais]





FALÊNCIA MÚLTIPLA DE ÓRGÃOS

I.

A sordidez arrastada dos tapetes em doce crise de baganas
cambaleia na borda do sono canibal enquanto ponteiros mentem
SIM à esfinge indizível ritual de abismos abocanhando asas

II.

Jabuticabas cauterizadas pelo esgar de nuvens perfuradas em sal
não suportam mais o peso neon terror químico de uma trilha
AINDA executada à luz em aspereza do acorde uníssono mor

III.

Moravia em terno & pó espreitando La bella vita por cima do muro urro ensimesmado tropeçando em si ali o alho & olho
VIVO na vida na seta no arco no alvo no alvo no alvo


[Leonardo Morais] 



fonte: facebook do autor

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

sobre Zuns Zum Zoom - de Luiz Edmundo Alves




sobre Zuns Zum Zoom [BH: Anome Livros, 2012]
do poeta Luiz Edmundo Alves

Poética entre o fingimento e a confissão


Fingi-dores


Na poética, assim como em qualquer fala ou texto, temos alguém que expressa algo sobre si mesmo ou sobre outro ser (real ou imaginário), temos quem enuncia e quem ao qual o enunciado faz referência, assim tecnicamente temos o sujeito da enunciação e o sujeito do enunciado. Por exemplo no verso “Eu caminho sobre as águas”, temos o enunciado cujo sujeito é o que diz 'eu' , mas certamente não é o poeta, a pessoa, o sujeito da enunciação, que não é exatamente capacitado a perambular sobre superfícies aquosas.

O eu do poema é o autor ou não? Apenas quando o sujeito do enunciado se confunde com o sujeito da enunciação – e, para maior efeito, o leitor assim espera: que as dores do texto sejam aquelas do autor. Quando o poeta diz “Sou o caminho até o céu e o inferno”, o leitor espera que assim seja, que seja o 'eu poético' o poeta, o 'eu autoral', ser sublime a transcender bem e mal, paraíso e pecado, acima e abaixo do singelo leitor, sempre em busca de guia e iluminação, a espera de visões e delírios – é para isso que existe poeta: ver o que não vemos, fazer os desatinos que não ousamos, vivenciar o que desejamos e tememos.

Se o leitor não 'força' a junção sujeito da enunciação (autor) com o sujeito do enunciado (eu lírico) sente que o poema perde efeito: pois quem mais será este EU no poema se não o/a poeta? Ou o/a poeta anda a simular personagens? A incorporar entidades? O poeta é médium além de ator? Este fingidor de dores num mosaico de palavras...


Na folha o/a poeta, com seu disfarce de eu lírico, vem fingir as dores que ele/ela sofre. Por outro lado, o leitor é um fingidor também. Ele finge que a dor lida – a dor do poeta, do eu lírico – é sua dor, e chora e geme e sofre com o poema, aquelas palavras numa folha. É meio dramático o par – autor e leitor – pois ambos atuam numa peça de eu sofro, vou fingir sofrer, você sofre, vai fingir sofrer – seja lá o que for 'sofrer'...

O autor quer provocar um efeito, usa técnica e confissão, mas não controla o efeito sobre o leitor – que pode ir em consonância mas também dissonância. Um poema criado para irritar alguém, pode agradar a outro. Um poema de amor que encanta uma ilustre musa, pode causar efeito zero sobre um ativista militante engajado nada lírico.

O fingimento deve ser aceitável. Mais do que isto, deve ter efeito. Fazer o leitor esquecer o fingimento. O bom poema causa efeito, não deixa o leitor indiferente. O bom poema consegue nos comover, ou irritar, provocar uma catarse, levar a uma outra cosmovisão. Um bom poema pode nos converter – ao Redentor ou ao Niilismo. Poemas que nos fazem amar e odiar, mas nunca passam despercebidos, nunca ignorados. O poema, com seu efeito, será sempre (re)lembrado.

É agora clássico o exemplo drummondiano “no meio do caminho”, poema que tem admiradores e detratores, mas que, por seu efeito, não deixa de ser relido, seja para elogios, seja para ironias. O pior para um poema é este passar despercebido, como se não existisse, como se jamais escrito. Uma folha branca.


Provocando algum zum-zum-zum

Para encher as folhas em branco de Zuns Zumm Zoom o poeta Luiz Edmundo Alves explora certas facetas de sua visão poética ou de sua vida pessoal em eixos que ora destacamos. A presença dos metapoemas é esperada, o fingimento às vezes é declarado, estamos diante de jogos de palavras. Então, eis o poeta a explicar que escreve poemas e quais as suas motivações. A temática da vida pessoal fornece boa matéria-prima para poemas confessionais – até longos poemas confessionais – pois o poeta ousa um resgate dos meandros da memória. Em ambos os eixos o poeta se entrega ao exercício de auto-observação.

É explícito o papel da memória e suas atuações para a paz ou para a aflição, em dado momento de olhar para trás, para o que foi vivido. Encontramos o poeta enquanto vítima de fluxos de memória involuntária, tal qual um Proust em busca do tempo perdido, ao degustar um bolo, ou emocionar-se com um solo de violino, ou vislumbrar uma cor,

tenho uma
memória nos olhos,
que às vezes ativa-se
com uma cor, agora
estou ativado pelo amarelo.

p. 20


tenho
uma memória
evocada pelas perdas
que me embaralha as
emoções e depois me
distribui para o
jogo cotidiano

p. 14


tenho umas lembranças
coladas em meus ouvidos que
às vezes floram com
o canto do bem-te-vi.
Simultaneamente as
lembranças afloradas:

p. 33



É assim o poeta vitimizado pela memória involuntário, que o lança, sem mais nem menos, do agora para um passado não-cicatrizado, numa condição de embaraço entre o ser-agora e o revivenciar-pela-recordação, num estado de indefinição, no qual o eu lírico flutua entre o falar e o silenciar,


tenho uns ferimentos que mantenho
ocultos. Expor ferimentos fere mais.

p. 16


dentre tantas palavras
o q dessas palavras
dentre tantos silêncios
n coisas pra dizer

p. 46



Não é fácil viver entre o falar e o silenciar, ou melhor, entre as memórias e o esquecimento, entre o que sabemos e o que nem gostaríamos de saber, afinal, algo vem sempre ferir, um ato, uma palavra dita inconvenientemente, um não quando deveríamos ter dito sim,


não insisto: recordar e escrever
é mesmo da ordem dos sentidos,
calar e esquecer também.

p. 15

penso no futuro,
penso no passado,
naquilo que perdura,
no que não sei, e no
que esqueci para me
proteger.

p. 22


Em 'esqueça-me' (p. 45) o eu-lírico, ou o poeta, é ambíguo, quer ser esquecido, quer ser lembrado, deseja evadir-se de outro eu, mas ser resguardado nas profundas lembranças do amor de outrora,

esqueça-me numa rosa de prata barata,
ou quando desejar que a semana voe,
que o pensamento voe

[…]

hoje que não mais me quer.
esqueça-me,
e guarde-me em seu esquecimento.


Para manter tal senso de localização – onde ele vive, onde ele se relembra? - é preciso recorrer a observação de si mesmo, a recolher os fragmentos de agora e de outrora, e imaginar-se um indivíduo (fábula que narramos para nós mesmos diariamente). Ao observar-se, não falta ao eu poético uma certa auto-ironia, diante de uma figura meio risível, meio amarga. Assim é em 'cadê meus óculos' (p. 53), onde o acessório se torna até essencial,

cadê meus óculos?
perdi meus óculos e,
com eles, a nitidez das coisas.
sem eles eu converso mal, distingo mal,
respiro mal, eu mal entendo o que está ali,
o que está lá. tá, tudo está lá e ali, sim, tudo
embaçado, desfocado, impreciso. Eu preciso
de meus óculos, preciso, para precisar melhor,


A auto-ironia, o brincar consigo mesmo e suas limitações, está lado a lado com o divertir-se com as palavras, que causa um efeito de desabafo, pois é no ludismo em jogos com as palavras que o humor lúdico do poeta se revela, segundo ele – eu poético - confessa no poema da p. 29, vejamos,

meu divertimento é
da ordem do poético e
da imaginação,
tem o brincar das
palavras e das
ênclises inesperadas bem
na palma da página.
quando meus olhos
avançam sobre as
palavras eu brinco,
me dobro em brincar.


e se evidencia em outros poemas, que deslocam palavras não por semântica, mas por sonoridade, por figuração na página, rumo – muro por anagrama, ou muro – escuro por rima, ou turvo – turvam-me por mudança de classe gramatical (adjetivo para verbo), dentre outros processos, ou, digamos, jogos,

sem rumo
eu e o muro que
nos ampara

arrisco
pulo esse muro
e caio no escuro

paixão escura
mundo turvo
turvam-me.

p.41


Ou em listas de palavras que se evocam, ecoando umas e outras, segundo lembram alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade, Haroldo de Campos, Affonso Ávila, ou Affonso Romano de Sant'Anna, onde palavra atrai palavra não pelo sentido (semântica) mas pela semelhança ortografia, pelas arbitrariedades fonéticas e morfológicas do idioma,


as assonâncias
os assuntos

as arrivistas
os arquétipos

as uvas
os ovos

os milhões
as migalhas

os cântaros
as cantoras


p. 48


Além do Eu – seja o poeta ou não - a presença do outro surge como que espelhada – i.e., em função do Eu – para objeto de percepção, para o amor e para o insulto. Pois temos um discurso literário autocentrado, voltado para si mesmo. O outro é a musa, é a mulher amada – até nomeada – mas sempre em função do Eu, centro do mundo. Então pode-se pensar mais: e há algum contexto social? alguma política? algum protesto? Um resto de ideologia? Ou acabou-se mesmo a fala engajada?

Os poemas em prosa ( pp. 43, 47), claramente voltados para um outro, dirigidos ao outro (objeto de desejo) mostram o umbigo do eu lírico bem aflorado, pois é dele que tudo parte e para tudo se converge. O outro é projeção, é imagem onírica. Já falamos sobre isso em outros ensaios. O amor que o eu expressa, promete, delira, não convence, pois sequer imaginamos a Amada além do delírio do Eu. Não se trata aqui de romance de cavalaria, nem bardos românticos. Então onde o eu lírico se sobressai (além dos metapoemas) ?

No jogo, o locus da confissão


Em Arritmia, entre a escrita e a perda, o poeta Luiz Edmundo Alves se mostra além das convenções do sujeito lírico. São sete páginas de denso poema em prosa, com transplante do sentir para o escrever, em ritmo emotivo e jogos de palavras, dor e técnica entrelaçada. É o sofrer do poeta se transmutando em lirismo. A dor do poeta é uma dor humana, pessoal, mas também pode ser matéria-prima para uma estética, onde se amalgama lirismo e tecnicismo. Não só de sentimento, não só de movimentos lúdicos se constrói o efeito poético. Mas é preciso a alquimia. Caso contrário, o poema é um gigante com pés de barro e ferro fadado a queda no ostracismo.

Pois “um poeta se faz e se desfaz por um desejo de linguagem no limite da língua. No limite da língua o poeta encontra o poema e se faz. O poema é a identidade essencial do poeta.” assim revela o autor, em página anterior ao fluxo lírico de Arritmia. É uma forma de nos lembrar da condição do poeta: entre a potência e entre a desistência. O poeta pode fazer o poema – mas será o poema que o poeta desejava fazer?


eu escrevi livre e infeliz. colhi e selecionei palavras, escrevi fácil e
difícil, certo e errado, feliz escrevi. escrevi quando tive outra
alternativa, quando não tive qualquer alternativa no amor na tragédia
na multidão no rumo no gesto no desamparo.
escrevi e nem senti que tanto doeu.


Ao escrever é que o eu lírico se encontra – para a redenção ou para a perdição – enquanto tentativa de convergências – do ontem e do hoje, do eu e do objeto de desejo. Mas acima de tudo, aqui, o encontro com o outro, o Pai, aqui o Pai Ausente, que simboliza a perda, tanto fisicamente quanto freudianamente dizendo, quando o filho deve assumir a vida (se já não o fez antes...),


escrevi quando perdi meu pai, quando chorei meu pai, quando
procurei e não encontrei meu pai, quando meu pai era tudo o que eu
precisava pra chamar de pai pai pai pai pai pai pai . ei pai cadê você
pra me responder pra me explicar para me amparar para me parar. pai


Ainda em Arritmia temos o jogos de palavras, encontramos um escrevi no muro no namoro na moral namorada na morada, mas não é lúdico que é o prato principal do menu. A degustação aqui exige mais, tem exigências de outros paladares. Quiçá, o autor demonstrasse mais conteúdos de fina culinária na primeira parte, mais voltada para a própria poética, em metapoemas vislumbrando as reentrâncias do umbigo. Esperamos que a próxima obra do poeta Luiz Edmundo Alves seja um amplo e irrestrito Arritmia, não apenas uma segundo parte, ou apêndice, não apenas para mais algum zum-zum-zum, mas expressão de ser autoral, enquanto ser leitor, enquanto confissão de voz humana, conscientemente poeta e fingidor, escrevendo indignado revoltado insultado, e com raiva e arrepiado, com plena consciência do efeito.



jan / 13


Leonardo de Magalhaens





mais info em










vídeo do lançamento do livro




sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

2 poemas de Luiz Edmundo Alves




2 poemas 

em zuns zum zoom


luiz edmundo alves



transformo-me,
reescrevo-me.
reescrevo-lhes,
narro-lhes, transformo-lhes.
é meu divertimento.
meu divertimento é
da ordem do poético e
da imaginação,
tem o brincar das
palavras e das
ênclises inesperadas bem
na palma da página.
quando meus olhos
avançam sobre as
palavras eu brinco,
me dobro em brincar.
então intuo que
algumas palavras são como
bolas que inesperadamente
escapam, impróprias para
pedaladas e brincadeiras.
aí escolho outras e sigo
imaginando e pedalando,
pedalando e brincando,
brincando
brincando impulsionado pela
beleza ambígua da língua.




...



por onde passo,
seus passos

você na praça
eu sem rumo

eu sorriso
você só riscos

só riscos
você e a parede
que nos separa

sem rumo
eu e o muro que
nos ampara

arrisco
pulo esse muro
e caio no escuro

paixão escura
mundo turvo
turvam-me.




mais info em










lançamento do livro



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

parecer - poema de João Diniz - em Ábaco




parecer


do vácuo o espaço
do sonho o despertar

do risco o relato
da fala o explicar

do verso a canção
do gesto o contido

da mágoa conclusão
da busca o sentido

               pode não parecer
               a possível razão de ser

da treva o caminho
da légua o descanso

da regra o desalinho
do grito ressonância

do erro descoberta
do medo a coragem

da falta o impulso
do caos a unidade

               pode não parecer
               a possível razão de ser

do novo a energia
do velho a infância

do amor a sintonia
do ódio tolerância

do sábio a humanidade
do rico a oferta

do pobre o desafio
do triste felicidade


                pode não parecer
                a possível razão de ser

da guerra a fraqueza
da calma o movimento

do vento a solidez
da fome o invento

do móvel o repouso
do falso a verdade

do ócio o esforço
da pausa velocidade

               pode não parecer
               a possível razão de ser

do gênio a pergunta
do tolo a imagem

do belo o interno
do breve o durável

da vida o instante
do morto a vivência

do visto o alcance
do dia experimento

                pode não parecer
                a possível razão de ser



in : ábaco / 2011


mais sobre João Diniz – autor e obra






ábaco



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2 poemas de Paulo Henriques Britto



 
Ontologia sumaríssima


Umas quatro ou cinco coisas,
no máximo, são reais.
A primeira é só um gás
que provoca a sensação
de que existe no mundo
uma profusão de coisas.


A segunda é comprida,
aguda, dura e sem cor.
Sua única serventia
é instaurar a dor.


A terceira é redondinha,
macia, lisa, translúcida,
e mais frágil do que espuma.
Não serve para coisa alguma.


A quarta é escura e viscosa,
como uma tinta. Ela ocupa
todo e qualquer espaço
onde não se encontre a quinta
(se é que existe mesmo a quinta),
a qual é uma vaga suspeita
de que as quatro acima arroladas
sejam tudo o que resta
de alguma coisa malfeita
torta e mal-ajambrada
que há muito já apodreceu.


Fora essas quatro ou cinco
não há nada,
nem tu, leitor,
nem eu.



Paulo Henriques Britto







Ecce Homo


Não ser quem não se é é coisa trabalhosa.
Exige a disciplina austera e rigorosa

de quem, achando pouco simplesmente ser,
requer o luxo adicional de parecer.

As essências enganam, e o eu é tão escasso
que há que ocupar com alguma coisa tanto espaço,

e nada como a negação da negação
pra efetuar tão delicada operação.

E pronto: está completo. O homem mais o andróide,
imune a suave mari magno e Schadenfreude,

ser e não ser na mais perfeita sintonia.
Use e abuse. A coisa vem com garantia.



Paulo Henriques Britto






página do autor




quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Carta a Stalingrado - Drummond de Andrade



BATALHA  DE  STALINGRADO  1942-43

Carta a Stalingrado

Carlos Drummond de Andrade

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
[*] Extraído do livro A Rosa do Povo (poemas escritos entre 1943 e 1945). Rio de Janeiro: Record, 1987


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 by LdeM

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

sobre Livro de Papel - de Adriana Versiani dos Anjos




SobreLivro de Papel(BH, 2009)
da poeta Adriana Versiani dos Anjos


Entre a prosa poética e o poema-em-prosa


Mesmo que ainda não tenhamos uma definição positivista para o termopoesia, temos uma definição quase-positivista do termoprosa. Desde Bakhtin, e outros formalistas, temos mil e umas definições de Prosaico. (Como se definir demais fosse definir em definitivo!) Prosa para diferenciar de Poesia, e dePoema em Prosa(imortalizados pelos textos clássicos de Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, etc) nos momentos de transição (recriando o Romantismo nas sutilezas do Simbolismo, em contraponto ao neoclassicismo dos sonetos parnasianos)

No Brasil, lembramos agora de Raul Pompeia (o autor deO Ateneu) com suascanções sem metro, onde não versos em estrofes, mas também não propriamente narrativa, mas um fluxo de confidências líricas. Também encontramos textos que no Modernismo transitavam na fronteira entre 'poesia' e 'prosa' (um exemplo clássico é oMemórias Sentimentais de João Miramar(1924), de Oswald de Andrade) em textos ambíguos, em retalhos de fragmentos, em formato prosaico, mas em fluxo lírico, pulsando além das amarras da prosa. (1)

Amarras da Prosa? Sim. Visto que a escrita prosaica, mais racional e formalista, considera algumas normas precisas (início, meio e fim; argumentação; lógica; síntese e conclusão; uso de conectivos, conjunções, etc;) mesmo que não acompanhe as 'amarras' da Poesia (tais como ritmo, versos, silabas métricas, rimas, aliterações, assonâncias, etc) No mais, a Prosa objetiva explicar algo, explicitar, narrar, coordenar fatos na descrição, convencer o interlocutor, influenciar uma conclusão (para futura concordância), enquanto a Poesia espera atenção e projeta emoção, sem precisar deter-se em explicações e argumentações.

A concluir, o que distingue a Poesia não é apenas o formato (versos, estrofes, métrica, rimas, assonâncias, etc) mas sobretudo que a Poesia é espanto é ritmo é re-inventar o olhar gerando novas emoções. O suporte principal da Poesia é a linguagem, a fala, que pode ser escrita, copiada, impressa, divulgada. (Ainda que muitos defendam uma 'poesia visual', à la Concretismo, mas seria mais um exemplo de Artes Plásticas do que de Poesia - que sabemos surgiu dos cânticos, das elegias, das baladas, etc)

São questões que pululam em nossa mente quando diante da obraLivro de Papel, nos dois sentidos do termo 'obra': o objeto livro e o texto. Quase artesanal, em multicores, ofertando o prazer de ser folheado, manipulado, o objeto seduz. Depois, encontramos o texto. Seria Prosa? Seria Poesia? De fato, um livro difícil de classificar, ainda mais por sua pluralidade de personas e estilosaté porque é uma 'obra 2 em 1', contendoBiografias de Vocês que não ExistemeMadrágora.


Biografia de inexistentes

É uma poesia que 'narra' algo, precisa contar uma história, a equilibrar-se na fronteira entre o lírico e a narrativa, ora no fluxo poético ora na contenção prosaica. Portanto, essa 'indefinição': é poema em prosa ou conto escrito em versos? uma ausência de versos e estrofes, mas um ritmo, uma fluência, que encontramos nos poèmes em prose de Baudelaire e Rimbaud, nas 'canções sem metro' de Pompeia. (2)

Objeto que fala sem palavras:

O que é que não tem língua e fala, que fala e não tem palavras? O que
é que está guardando além do que está guardado? O que é que nos faz
querer estar com coisas e pessoas? O que é que não me deixa abandonar
essa caixa?

O segredo.

(p.11)

realmente um segredo aqui. Antes, um mistério. A cativar o Leitor para testemunhar confidências de outrem, como bons voyeurs que somos. Sempre 'dando uma espiadinha' nas biografias de vizinhos e celebridades. Mas aqui trata-se de uma biografia de inexistentesfragmentos de inexistênciasde 'possíveis personas' que somente existem enquanto 'seres-textuais'.

Ou seja, biografias de Ninguéns. Numa poesia que não fala do existente, mas uma fala poética que inventa a realidade, que pretende tecer um corpo textual para o inexistente (igualzinho aos 'contos de fadas'...), mas poesia não é simplesmente 'mentira' (como muitos dizem queLiteratura é ficção, é mistificação, se assim fosse, o Paulo Coelho seria o nosso guru...)

Eu, esquecida delirante, pastora da igreja invisível, tenho andado em
estado alterado de consciência.
Vivo entre papéis, trouxas, retalhos, restos deixados por meu irmão aqui
no quartinho dos fundos onde ele tocava blues.

Sim, eu os percebo. Eles estão comigo.

(p.17)

A voz lírica não sendo única, una e onisciente, é mais uma 'legião' de personas dispersas, habitando desde o mundo interior até longínquas paragens do possível (ou do impossível, onde somente a imaginação pode ir...) Mil imagens de seres oníricos, fadas, feéricas criaturas feitas de brisas, ou bruxas demasiadamente siamesas (ou o contrário), ou então, vidas bem prosaicas, cotidianas, como testemunham as confissões de esposas traídas (que vivem do que compartilham com o marido), conversas francas entre amigas, visões místico-ecológicas, os duelos entre os homens e as mulheres (estas prolixas, estes reticentesaté serem devorados), ou seja, a pluralidade é a única unanimidade aqui.


mandrágora: poema-veneno

A mandrágora é uma planta cercada de lendas mágicas, esotéricas, envoltas em poções de amor, venenos, encantamentos, alucinações... Ou então a abir os olhos da persona para uma 'realidade outra', abrindo as 'portas da percepção', afastando os veús,

move o véu e o que por trás das palavras(p.79)

Uma coletânea de imagens fortes, rubras, inflamadas, de palavras em folhas laranja-chama, pois é paixão ardente que move a Voz lírica,Como você sabe, sou movida a paixões, e assim este leitmotiv leva ao próprio ato da escrita, a vontade de gritar, desabafar o cataclisma íntimo nos ouvidos de alguém (ainda bem que inventaram o psicanalista...)

Aconteceu de um dia de ele lamber minha orelha, assim do nada, em público
e foi dramático cheio d'água e saliva e enzima digestiva. Não entenderam.
Tudo gratuito, desnecessário. Talvez não pareça uma passagem importante,
não mereça nem relato, mas senti que dez metros são diferentes de dois
centímetros. Foi um segundo, previ tudo, comecei a adoecer.

(p.53)

Não é tão-somente uma 'voz feminina'reduzir ao gênero é diminuir a multiplicidade da fala poética, assim como parcializar em cor, etnia, classe social, etcque adoeceu com 'uma língua no ouvido', e pois sente saudades da mesmíssima 'língua no ouvido', como a desejar e temer o que deseja, mas a apresentação da contradição humanaoscilando entre a repressão e a libertinagem, entre o desejo e a culpa.

Encharcada de suor gelado desmaiei e levantei e fiquei ereta e olhei em volta e
cuspi e aqui estou eu acordando animada, nessa manhã fria de outono,
morrendo de saudade da sua língua em meu ouvido.

(p.57)

Destacam-se os poemas da Ana (Uns dos Muitos Sonhos de Ana, Telhado Azuisas cartas de Ana e Girassóis Douradosa última morada de Ana) dotados de uma beleza ímpar : levam a 'carga prosaica' ao ápice na tentativa de fazer desabrochar o 'poema', mas as contenções da própria prosa (frases longas, conectivos, etc) diminuem a 'força poética' que precisa ser concentrada (o próprio Edgar A Poe, autor de The Raven, dizia que 'mesmo o poema longo é feito de vários poemas curtos') Sendo 'prosa' e não conjunto de 'poemas', o tom lírico se perde.

Os sonhos de Ana são dignos da atenção psicanalítica, com suas infindas imagens, relembranças, referências, citações, num cubismo lírico, que quase 'corporifica' a persona Ana, apenas um nome a concentrar um ser esfumaçado, feito de linhas escritas num papel Offset 240 g/m2, color orange.


Se quiséssemos, poderíamos virar pedra.
Não esculturas de sal ou granito como se tivéssemos cometido algum pecado
ou, se sem espelho, olhássemos no fundo da pupíla da bruxa.
Não, era se quiséssemos.

E eram ágatas de superfície lisa e colorida onde refletia uma nesga de luz.

(p.81)


As cartas de Ana possuem um odor de 'romance epistolar', daqueles que os Românticos adoravam (quem ainda não leuSofrimentos do Jovem Werther,Ligações Perigosas,Frankenstein, ouDrácula? Todos arquitetados na forma de correspondência...) Nas cartas líricas encontramos várias vozes femininas, as várias personas de Ana, desmembrada na comunicação com vários remetentes, as projeções de Ana, nos mais variados lugares, numa mescla dos desejos turísticos e das idealizações literáriasainda que Leningrado não se chamasse assim em 1807, mas é a São Petersburgo de Púshkin, Gógol, Dostoiévski, Blok, Bélyem datas díspares, numa coletânea de possíveis existências, ou (esotericamente falando) vidas passadas.

Vou contar-lhe um segredo:
-peguei esquizofrenia da flor de lírio branco, agora sou dona da minha
dor.

(p.89)

e

Querida, nosso mistério me assombra.

Não se preocupe com os outros, eles não sabem que existimos.
Afinal de contas, somos de papel.

(p.93)


Portanto, daí referir-se a uma 'multidão' de Anas possíveis, cada uma a retratar uma época, um espírito de época (Zeitgeist), um delírio, um desejo de transmutação alquímica (voltamos ao esotérico...), para ousar uma superação da condição humana, confinada ao imperativos prosaicos de uma vida rotineira, quando exercendo 'funções sociais' a pessoa humana esquece de si-mesma.

Na consciência de ser um corpo, de despertar desejos e acalentar desejos, sendo um sujeito num mundo de 'objetos' (inclusive as outras pessoas...), os conflitos do amar e ser amada, mais que um idílio neo-romântico vem gerar uma realidade de entrechoques, de mal-entendidos, que desloca o ser de si-mesmo (ele precisa aceitar as 'máscaras'), como evidencia o 'testamento' de Ana:


Anna estou a luz que cega inteira e que fere as retinas possíveis.
Nada preenche tempo e espaço, vácuo, Anna sou o que é dado.
Anna longe de Anna, sonho que se desmancha sobre o telhado.

(p.99)


Mas não é novidade para Ana (ou quem quer que seja a Voz lírica), pois antes sua mão escrevera sobre o papel da carta, num lampejo visionário da realidade humana (no e fora do papel), num grito mudo de fatalidade, o que deveria ser a frase final desta obra ambíguaLivro de Papel,Lu, a tragédia humana não tem fim.


Jan/10

revsd: dez/12


Leonardo de Magalhaens



mais poemas / textos de Adriana Versiani






Notas

(1)Hoje em dia, temos o romance em 'prosa poética', com imensos fluxos de consciência, como são exemplosUlisses, de J. Joyce,As Ondas, de V. Woof, e os contos de Clarice Lispector, mas com narrativas densas, personagens em duelo, como mostram as obras ímpares de Raduan Nassar, os inclassificáveisLavoura Arcaica(1975) eUm copo de cólera(1978), com uma prosa-fluxo, transpondo fronteiras líricas e prosaicas.

(2)A prosa poética de Baudelaire e Rimbaud são célebres, estão na mídia. Mas poucos conhecem as 'canções sem metro' do nosso Pompeia (parece que a gente gosta mesmo é de estrangeiros...) Então eis uma pequena amostra.

Vibrações

Comme des longs échos qui de loin se confondent
Dans
une ténébreuse et profonde unité,
Vaste
comme la nuit et comme la clarté,
Les
parfums, les couleurs et les sons se repondent.
C.
BAUDELAIRE

Vibrar, viver. Vibra o abismo etéreo à música das esferas; vibra a convulsão do verme, no segredo subterrâneo dos túmulos. Vive a luz, vive o perfume, vive o som, vive a putrefação. Vivem à semelhança os ânimos.
A harpa do sentimento canta no peito, ora o entusiasmo, um hino, ora o adágio oscilante da cisma. A cada nota, uma cor, tal qual nas vibrações da luz. O conjunto é a sinfonia das paixões. Eleva-se a gradação cromática até à suprema intensidade rutilante; baixa à profunda e escura vibração das elegias.
Sonoridade, colorido: eis o sentimento.
Daí o simbolismo popular das cores.