terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre disrupção (2008) do poeta Jorge Melícias




Sobre disrupção (Cosmorama, Portugal, 2008)
do poeta Jorge Melícias


Quando pode-se falar muito com poucas palavras


Adentremos o campo da Poesia curta e concentrada, aquela a poesia concisa, resumida, em pílulas homeopáticas, com efeitos totais, a expressar-se mais nas entrelinhas do que propriamente no 'escrito', a dizer mais no 'implícito' do que no 'dito'.

Pensemos nos sintéticos (e, muitas vezes, herméticos) haikais, de tradição oriental japonesa, que sabem condensar em imagens intuitivas, sinestésicas, místicas, a pluralidades das imagens percebidas pelo sujeito lírico. Temos três versos, curtos, e uma experiência de fotografia, um captar de um momento, um instante de visão ou reflexão.

Há igualmente um grau fantástico de concisão num poema do inglês William Blake, onde o visível dialoga com o invisível, o corporal espelha algo do espiritual, a virtude perpetua algo do pecado, onde a pureza e o desejo dançam uma valsa de colisões, onde o desabrochar romântico conserva a inquietude barroca.

Nos tempos modernos, Emily Dickinson e Paul Celan ambos são referência quando se trata de concisão, versificação resumida em contraponto aos poemas longos, extensos, prolixos, verborrágicos. Mostram um poder de resumir raciocínios em poucas palavras que é como se pudessem encolher o Himalaia dentro de um frasco de geleia.

A concisão da poeta norte-americana Emily Dickinson é muito mais difícil de 'interpretar' do que a prolixidade do conterrâneo Walt Whitman, pois cada palavra de Emily pesa toneladas em relação aos versos extensos de Walt. Dificuldade esta que deve-se a maior intensidade lírica condensada em pouco versos.

Muitos poetas oscilavam entre o curto e o extenso, por exemplo, o clássico- moderno português Fernando Pessoa, a criar odes contidas sob o heterônimo Ricardo Reis e odes verborrágicas sob o heterônimo Álvaro de Campos. Este último num dramático desassossego entre a exaltação e a fadiga, o futurismo e o niilismo.

Também lembramos do poeta de tradição germânica Rainer Maria Rilke a oscilar entre o prolixo e o contido, citemos os poemas longos, as Elegias à Duíno, em contraponto aos clássicos sonetos de Sonetos a Orfeu. O desejo de recriar a percepção pela fala, e o esforço de espelhar o sentimento em escrita.

Pós-Segunda Guerra Mundial, na mesma época em que Paul Celan, judeu-romeno, de fala alemã, sobrevivente do Holocausto, publicava seus poemas curtos, meditativos, compartilhando a memória e a culpa (no sentido em que as vítimas sobreviventes se sentiam culpadas por sobreviverem) numa época em que o Genocídio era documentado; os poetas beatniks, norte-americanos, deixavam jorrar seus poemas fluentes, metapoéticos, excessivos, exagerados, ofensivos, que empolgavam as plateias com ironias e mordacidades múltiplas de mil.

Pois bem, na poesia contemporânea em Língua Portuguesa temos, igualmente, um exemplo de contraponto nas poéticas de Luís Serguilha (1966-) e Jorge Melícias (1970-). Quando a versificação do primeiro é extensa e verborrágica, a do segundo limita-se ao conciso e sintético. Diz muito em pouquíssimas palavras. Resume questões de vastas enciclopédias em três ou cinco versos. Em contrapontos, concisão e verborragia são lados da mesma moeda quando se propõem a trabalhar com 'imagens poéticas.

Texto e contexto. Não só de 'tamanho' se tece o julgamento de um poema. A amplidão de um texto poético não é quantidade de versos ou estrofes. Há outros diferenciais. Podemos dizer que a poesia de Emily Dickinson é mais 'cerebral', meditativa e racional, algo de 'masculino', do que a de Walt Whitman, mais emotiva, passional, prolixa, digamos 'feminina'. Enquanto a poesia de Paul Celan é mais 'equilibrada' entre a razão e a emoção. Se é que podemos falar em 'equilíbrio' numa poesia tão tensa quanto a de Celan.

Mas a poesia concisa de Jorge Melícias não é emotiva ou cerebral, não está 'em equilíbrio', antes pretende ser imagética, irracional, sintética (até hermética), barroca nos oxímoros, modernista nos enquadramentos cubistas (todos os lados na mesma perspectiva), e pós-modernista ao suspeitar da própria Linguagem, a capacidade de 'representar' o mundo, o que denominamos 'a realidade'.

A obradisrupçãoé umapoesia reunida, um conjunto de sete obras publicadas pelo Poeta, de 1998 a 2008, no formato antologia poética na íntegra (não apenas os 'melhores poemas'), a facilitar assim o acesso a Obra completa e possibilitar uma leitura da 'carreira' do Autor.

Começamos pelo fim.iniciação ao remorso, de 1998, tem algo de barroco, tanto quanto os romances psicologistas de Feódor Dostoiévski. Algo de confessional, mas não exatamente claro. O sintético pode levar ao hermético. A estilística estrutura-se em tópicos frasais, incisivas afirmativas, em tom declarativo, tipo 'fim de papo', onde a concisão cria um estilo 'dono da verdade', ao pretender a 'veracidade' de um provérbio (quem, em consciência, vai questionar um provérbio, a 'vox populi vox dei'?)

A febre é um porto onde se regressa sempre.(p. 149), oue o silêncio da casa está todo nos ombros.(p. 144)

Um mosaico de imagens surrealistas 'condensadas', em sensível releitura de painéis cubistas,enquanto as mulheres enlouquecem de pé, / cuspindo os espelhos.(p. 148) ou A mulher respira arqueada sobre as esquinas, / o rosto fechado por um lenço de fogo.(p. 136)

A Voz lírica não se limita a monólogos, mas articula uma 'conversa' com o leitor – eis o uso do TU – o Leitor idealizado mas que pode não 'entender' o poema,

Partirás então como chegaste, intruso,
na boca a cal de um poema que não soubeste entender. (p. 147)


É de perguntar mais seriamente sobre a possibilidade de uma 'poesia compreendida pelo Leitor' ? Desde quando a Poesia pode realmente comunicar algo?O Abismo entre as almas não pode ser transposto, podemos traduzir um verso de Fernando Pessoa, nos english sonnets, The abyss from soul to soul cannot be bridged, Sonnet I.

Mas aqui ao Leitor, que não compreende, incapaz de compreender, resta apenas o 'choro e o ranger de dentes' da profética maldição bíblica. As imagens são 'fortes', ásperas demais para a nossa sensibilidade! Resta o silêncio, diria Hamlet, ou o Remorso após o crime, que o diga Raskólnikov. A presença do Crime é um corpo de delito muito flagrante aqui. O poeta se afoga nas evocações do sangue,

onde o sangue dorme sob a pedra(p. 141), ousobre as lajes do sangue / brilham alto os crimes.(p. 142), ouSão altas as cúpulas quando o sangue / ilumina as paredes do relâmpago.(p. 135), ou ainda,e a loucura gritava-se inteira pelo sangue acima.(p. 134)

Apresenta-se, portanto, um 'ritmo semântico', com a repetição das imagens poéticas em vários níveis (dentro do 'nível semântico'), temos metáforas, metonímias, sinédoques, sinestesias, oxímoros, tudo ao mesmo tempo agora!

Contudo, por mais 'fortes' que sejam as 'imagens' (no sentido dado por Octavio Paz, emO Arco e a Lira) estas não permitem reconstituir a cena primordialem versos descritavisto ser o poema maior que a soma das partes. Cada fragmento por mais 'impactante' que seja, é apenas um fragmento. São drágeas enfileiradas - para serem engolidas de hora em hora.

Os poemas extensos podem ser verborrágicossem qualquer tom pejorativono intuito de 'empolgarem' o Leitor. Assim um frenesi numaOde Triunfalou uma viagem numaOde Marítima(F. Pessoa) ou a exaltação de si-mesmo emSong of Myself(W Whitman) ou o drama de uma geração emThe Howl(A Ginsberg). Efeito que um poema curto raramente provocaa não ser que seja excepcional. o que dissemos: é mais 'fácil' fazer um poema de dez páginas do que um poema de cinco versos. Pessoalmente confirmo tal axioma.)

Outra 'imagem' é a presença da noite, enquanto símbolo do segredo, do oculto, daquele 'unheimlich' mencionado por S Freud, enquanto elemento do 'suspeito' ou 'não domesticado', o que foge ao controle humano, o Estranho que mora debaixo da cama, e não exatamente fora,

Espessa é a noite das catedrais(p. 135) ouAs noites eram prodigiosas e terríficas(p. 134)

Percebemos um desassossego a perpassar todoiniciação ao remorsoque além de problematizar o 'sangue'/'crime' e a 'noite'/'medo', lança suspeita sobre as palavras, que não podem evitar uma 'cegueira'. O livro abre comolhos nas palavrase fecha coma cegueira é ainda uma forma de ver. Não contradição. A visão da poesia é a visão de um cego? (Dizem que Homero era cego, e em plena cegueira Borges compôs excelentes poemas. )

Diante de uma 'fragmentação' da realidade que a Linguagem (mesmo enquanto 'dom', 'dádiva' ) não é capaz de totalizar. Uma cegueira muito produtiva esta diante de um jogo de espelhos! Mas se Narciso fosse cego talvez não morresse tão tragicamente... Cegueira: não compreender a totalidade do mundo? Então somos todos cegos! Todo conhecimento é parcial, pois não uma 'perspectiva privilegiada' para podermos ver o mundo,

O homem está de pé como se soubesse
e o horizonte possível é a renúncia de deus. (p. 135)


Segue-sea luz nos pulmões(2000), onde a presença da palavra jaz sob potentes holofotes da suspeita. toda uma metalinguagem aqui. A começar por uma citação do poeta russo futurista e revolucionário V Maiakóvski, que não hesitava em fazer poesia com o corpo, nem que para isso precisasse usar as 'próprias vértebras'.Na ponta dos dedos / batem as palavras sísmicas(p. 112) cujo produto (em tessitura de palavras) são os poemas!O poema são fogueiras levantadas na garganta(p. 126) ondea palavra acende-se(p. 126) pois o poeta nada faz além de 'sinais de fumaça' até seu interlocutor/Leitor.

O quanto as palavras podem trazer uma 'narratividade' sobre o mundo? Pois o desejo poético aqui é de tecer uma história da cultura humana – ou da 'consciência humana' – enquanto 'descoberta da linguagem', onde homens e mulheres se unem para construir um 'mundo humano'. Assim, a palavra nasceria lírica sobre a epopeia da civilização, da humanidade ao arquitetar a si mesma.

As mulheres enquanto 'cimento afetivo' da civilização, pois elas formaram as famílias, amamentaram os filhos, contaram as estórias/histórias, Em redor as mulheres delimitam a casa, / são os pulsos da casa(p. 115) ondeAtrás dos vidros ondulam as mulheres. / Acendem os filhos pela boca, / sopram-nos por dentro.(p. 117), poisElas são o sítio da memória(p. 122).

Memória esta que se cria pelo remorso, pelo golpear da dor, segundo escreveu F. Nietzsche, quando o indivíduo sofre as pressões (e opressões) sociais, a introjetar a crueldade como 'marcas', e a reconhecer uma 'moral' ligada ao medo e a repressão. (Apenas o que não cessa de causar dor é o que persiste na memória, em A Genealogia da Moral, Segunda Dissertação)

Enquanto isso, o homem perpetua o trabalho, ergue o mundo de construtos, para suprir suas carências, a criar outras, e resolver seus problemas, a criar outros, O homem está dobrado sobre a mesa, / as palmas das mãos presas ao tampo(p. 115), ouO homem é um fole a prumo / sob o arco da língua(p. 124) e ainda,À beira das salinas os homens declinam (p. 113)

Na sequênciatal a leitura de um 'mangá'encontramosuma estaca levantada na cegueira que sugere uma continuação desta 'narratividade' sobre o criar e o destruir, o observar e o perceber-se cego, ao contrapor imagens de noite/cegueira versus nome/claridade, a inserir o elemento da loucura como um 'desfocar' de lentes, pois o desejo da humanidade é criar um mundo de 'sentido'conferir sentido à existência, nem que seja inventando deuses e semideuses. A Linguagem como uma tentativa de 'verbalizar' o mundo e ao nomear finalmente apoderar-se das 'coisas', congregar tudo em classificações (ah, o belo sonho de Aristóteles!)

Ele incorre na morte.
Apropria-se da soberba do verbo.

Sobre as mãos assenta
o estame benigno
da loucura.

A beleza como um dínamo infrene.

(p. 102)


Muitos temas se repetem emo dom circunspecto, de 2003, mais como uma 'consagração' do estilo. Uma estilística que 'situa' o Autorse não em originalidade, ao menos no sentido de 'apoderar-se de uma Linguagem'. O que antes seria um experimentalismo agora é uma 'determinada' Escrita autoral. Chamemos, pois, de Estilo.

Um Estilo que agora identificamos ao manter a suspeita quanto a 'verbalização', ao criar uma poesia da não-comunicação, pois pressupõe uma 'incompreensão do poema'o poema é para ser compreendido? - onde a palavras parece estar, digamos, 'murada',os dedos em volta / como um verbo murado.(p. 79)

O próximo éincûbusde 2004, com uma epígrafe citando Nietzsche fora de contexto, quando poderia citar, por exemplo, alguma fala de Raskólnikov, aquele a sofrer emCrime e Castigodo clássico russo. Se Nietzsche discursaria sobre a ideia de crime no âmbito da 'moral', o anti-herói Raskolnikov julga-se além da Moral, pois o 'homem extraordinário'e seu modelo é o General-Imperador Napoleão Bonaparteestá fora do ditado da lei. Para o (seria?) Übermensch / Além-do-Homem não haveria o 'dura lex sed lex'. Seria um deus a seguir as próprias leis que ele mesmo criou.

É lacônico e iconoclasta dizer:Aquele que mata decifra(p. 51) Se aplica ao anti-herói russo: se ele não cometesse o crime não haveria crise de consciência, não haveria psicologismo, não haveria a narrativa, o clássico romance russo, onde lemos (até com prazer!) os sofrimentos alheios. Afinal, ferir o outro pode ser a melhor forma de ferir a si mesmo. Ou muitas vezes julga-se fazer o 'bem' quando se pratica o 'mal' .A mão que afaga é a mesma que apedreja, sussurra, sombrio, o poeta Augusto dos Anjos.

São belos os instrumentos da minha morte
nas suas mãos, à destreza da ira

sobre os trépanos,

a forma como o grito se abre de cânulas. (p. 56)

As imagens são 'fortes', expressionistas. Sangue, faca, gume, navalha vem retalhar e estripar vísceras para expor o sangue, algo de uma 'metonímia' para a existência enquanto 'luta pela vida'. Algo da 'seleção' darwinista é o que promete o 'banho de sangue', as machadadas na cabeça. Quem sobreviver, verá. As facas nada mais do que revelam o que está oculto sob a pele.Abrem as virilhas à / soberba das facas(p. 58)


O surrealismo adentra seu labirinto ema longa blasfêmia, de 2006, onde imagens exigem empatia (simpatia ou antipatia, à votre guise) não compreensão. Deveria ser 'digerido' de imediato? Ou a imagem nos emocionaria? Se não, seguimos para o próximo fragmento... A epígrafe vem citar palavras do poeta expressionista alemão Gottfried Benn, e lembramos de um certo 'olhar subjetivo' sobre o mundo que vem a explodir como um grito (aquele mesmo do angustiante quadro de Edvard Munch). Pois é de se indagar, 'Existe o mundo fora? Ou existe aqui dentro? É um acordo entre o fora e o dentro? Que sentido na beleza de ?'

E se o clarão sobe dos recessos

e toca a fractura

há-de rasgar-se uma gárgula
na fronte.

(p. 39)


Afinal, belas palavras para dizer o quê? Se as palavras são ilusão, imaginemos então o 'beletrismo'! De repente, voltamos à poética labiríntica de um L. Serguilha..., onde possivelmente encontraríamos 'construções frasais' do tipo:lentas tubagens do medo,cabeças laudativas,emanação coaxial,metalurgia brutal,ferocidade acúlea,tuberosa calcificação,assunção cabal,menstruação metálica! para ficar em alguns exemplos...

As imagens de violência criam antes uma 'violência estética', ou uma poética da miséria,E onde cães e homens / disputam a carniça / à lisura dos ossos.(p. 13) aqui emagma(oumagma?) de 2008, onde abrindo-se em qualquer página encontraremos as mesmas imagens de crueldade, agora mais 'encorpadas' por um vocabulário denso de preciosismo vernacular, com verbetes do tipo,alvídrio,aloquetes,ágona,âmnio,aporia,carena,esquírolas,exacção,gárrulos,goivas,ignívaga,múrias,resilência,sufusão,vernação, para ficarmos em alguns exemplos.

Parece realmente abolida a 'logopeia' (rede de sentidos) em prol da 'fanopeia' (mosaico de imagens), neste cubismo de concretos e abstratos, a explorar os níveis de semântica, em metáforas, metonímias e contrapontos de cunho barroco,

Descerei das canas
para a rasura da redenção.

No dorso o relâmpago
como uma carena blasfêmica.

E um amor profundo pela impiedade.

(p. 15)

Barroco? Certamente. Excessivo em contrastes, o pecado em se pensar no pecado, o criminoso a revivificar o crime, o remorso inexistente na cegueira, a virtude pode ser vício, as 'virtudes teologais'Fé, Esperança e Caridadepodem não passar de 'auto-engano' a serem postas de 'pernas-pro-ar', a 'virtude cristã' da 'esperança' pode ser re-posta pelo 'desespero',E o desespero / era uma forma de beatitude( p. 21).


Realmente 'disrupção' parece ser um livro e não uma antologia a abarcar uma década de produção poéticanão apenas por uma 'coesão textual interna', ou 'ritmo semântico', quando persistem mudanças sutis, em leves nuances, para se repetir o mesmo. [O que é diverso numa Voz autoral múltiplavejam Fernando Pessoaou o poetaator multiartista Wilmar Silva - Joaquim Palmeira, cujo Estilo é justamente a 'ruptura' de estilos, a deixar o Leitor num suspense, diante de uma incógnita, pois não se sabe o que virá a ser a próxima Obra! basta compararArranjo de Pássaros e FlorescomAnu, por exemplo]

Dessa forma, o Autor, o poeta Jorge Melícias, engendrou um Estilo, numa labuta decenal, um esforço de castor operário, uma técnica de aranha a tecer teias, para encontrar-se regente das palavras, mesmo ao exumar algumas delas. Imaginemos uma Emily Dickinson a la Penélope a construir uma tessitura de símbolos que a interpretação logo vem desfiar a cada leituraa mesma Leitura que tece novos meta-poemas ao desfazer os poemas.


Abr/10

(revsd: dez/12)


Leonardo de Magalhaens




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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

2 poemas de João Diniz - em ábaco




João Diniz

memórias


lugar de ligar
a paisagem não para
rio um fio móvel
a esmo nunca o mesmo
na cidade que se descobre
azula o turvo leito
numa luz noturna e nobre

o país e seus preconceitos
juízos e ilusões
suas ironias e tradições

memórias e invenções
acordam da urbana insônia
nos sonhos gerais
direções são tantas
revelações às pampas
na solidão amazônica

humanos de bronze
imagem e lembrança
numa saudade da vida
escalada pela criança
numa nova estátua
na inexistente tumba
de um ex fogo fátuo

o lugar de ligar
pode nunca parar
pobre curso sem cor
reinventa a margem
desatando a florestal dor
inverso da alva água
mágoa sem vertigem

esgoto nosso osso presente
fuso úmido de números
votos efêmeros confusos horários

procurando a América interna
flor refletida em felicidade ética
eterno indivíduo ao coletivo eclético
futuro um furo no temporário
passa pela ponte um sentimento a jato
intacto no invisível horizonte






sério

e o que seria?
Se tudo não fosse tão sério
se não houvesse mistério
nesse avesso do sorrir

amor é humor quando começa
cegas cócegas em sócio ego
chamego no ódio seco
carinho por um soco oco

apagando as rugas de um foco
a piada é a melhor espada

na linha da corda bamba
anda o sábio em ciranda
o tédio esse remédio engana
frágil alegria numa mão fria


amor é humor
desarmar o siso se preciso o tiro
acender o riso a rédea da comédia
lavar a inédita mágoa
água benta em ardente solo

na guia pátria de um colo
a pessoa tenta reatar a paz

criança a herança do passado
agir um remanso no cansaço
agora foi embora brincar
chora ou gargalha a voz

cordas para pular a sós
um futuro cheio de nós
quando nenhuma certeza jaz
nesse tempo de tanto faz



in : ábaco / 2011




mais sobre João Diniz






ábaco



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

sobre ' cor de cadáver ' - de jovino machado



Sobre “cor de cadáver
(anome livros, 2009)
(poemas de 1998 – 2008)
do poeta Jovino Machado


Flertando com o lírico e o sacana

Desde as auroras do Classicismo (e depois o Romantismo) a Poesia era a forma ideal de manifestação do sentimento do Poeta, acima das limitações e insatisfações do mundo, tecendo seus versos como uma forma de sublimação e superação, para re-encantar a vida e louvar a(s) dama(s) de seus Amores idealizados.

Então sobreveio o Realismo (e depois o Modernismo), com seu 'desencantamento do mundo', quando a realidade passa a ser dissecada, analisada, julgada e ( por que não? ) ironizada. A Amada dos sonhos passou a ser mesmo a mulher do cotidiano (a criada de quarto, como dizia o Fernando Pessoa) e não mais a Virgem onírica dos devaneios líricos. A mulher era um corpo assim como o mundo era matéria.

Então a dessacralização continuou, passando pela figura da Beleza, da Moral, da Família, da Beatitude, e (para o desespero dos crentes) até da figura de Deus. O mundo virou mesmo uma máquina (como já sabiam Camões e Drummond com a 'Máquina do Mundo') onde cada um é mesmo uma mera engrenagem. Então a poesia joga o jogo e desiste de ser superação – passa a ser entretenimento e atividade lúdica – um rir da vida para não cair no choro.

Pululando à margem – muitos se declaram 'poetas marginais' – fazem germinar e florescer a flor no lodo (como bons seguidores dos dois Charles, o Baudelaire e o Bukowski) os poetas que preferem 'alfinetar' do que propor novas éticas e estéticas, do que ousar a construção de novos mundos. Criativos, audazes, debochados, estão ao nosso redor, com poeminhas infames e iconoclastas (citaremos Leminski, Cacaso, Chacal, Behr, p.ex.)

Assim o Poeta irônico, lúdico, de humor ácido, cheio de chistes e epigramas, sempre a rir das próprias feridas, está na moda. É a poesia outdoor para se ler no ônibus enquanto se desce a rodovia, ou se vai ao shopping. Uma poesia para se ler rápido – ao estilo fast-food – sem exigir muito, sem qualquer compromisso.

Em “cor de cadáver” - título macabro a mesmerizar leitores soturnos e assombrar os puristas – a poesia está livre, leve e solta (ai! que lugar comum!)onde a paródia começa na 'trilha sonora': uma paródia das “Quatro Estações” de Vivaldi – mas faltou Vivaldi! Ou será justamente por ser uma paródia de Vivaldi? Não importa, temos Beethoven, Mozart, Bach e Brahms. (Prato cheio para alguém semelhante a mim, que adora ler ouvindo música...)

Ler poemas ao som de Beethoven, Mozart, Bach e Brahms? Mas não será outra ironia? Digo 'outra' porque diante de um poeta irônico pode-se esperar tudo! A ironia, a auto-ironia, a ironia diante do amor, a ironia diante do fim do amor, a ironia com a amada, a ironia com a ironia.

fim de caso

o boneco que te amou
não conhece o ventríloquo

Uma ironia contra a 'idealização' do amor e do(a) amado(a). Uma ironia de 'médico e monstro', a misturar o lírico com o sacana. Uma desconstrução de 'imagens líricas' para dessacralizar o que resta. A mulher é um ser sublime, convenhamos, mas é também uma 'rameira'.

Antes de dormir / peço à deus
um milagre / um presente

sonhar com thereza

seus olhos de feiticeira / seus pés de ninfa-brejeira
seu cheiro de rameira

A poesia colorida de tons lúdicos. Ainda com toques de amargura. Uma poesia lúdica que nasce de um humor ácido com as próprias nuances da 'identidade', do estar sempre em 'transição'. O lúdico seria a melhor forma de abordar o 'jogo de máscaras' que cobrem nossas faces? A identidade do EU é circunstancial? “Eu sou eu e minhas circunstâncias” (Ortega y Gasset) Circunstâncias que variam a cada estação do ano. Assim um EU outonal? Um EU invernal?

Ainda mais se consideramos que “cor de cadáver” é uma coletânea que abrange 10 anos na existência do poeta. Acompanhando o otimismo-irônico e o pessimismo-lúdico dos versos. As estações do ano também são as estações da vida: infância – adolescência – maturidade – velhice.

Na primavera, ouvindo Beethoven, temos o lúdico na 'flor da juventude' com seus trinta e poucos anos, a definir-se em 'auto-retrato', em calcular as idades, o tempo que passou e o tempo que ainda falta, fazendo a aritmética dos amores perdidos – e tudo resulta em poemas (“só o poema traça / o início e o fim da desgraça”)

No verão, ao som de Mozart, encontramos o lúdico lírico e desbocado, caudaloso e pseudo-romântico (“você fica linda naquele espelho”), com alguma intertextualidade (garota de Ipanema? bonequinha de luxo?)(1)

No outono, embalado em melodias de Bach, acompanhando o amadurecimento em labirintos de metalinguagem citações, referências – Leila Diniz, filmes de amor, Divina Comédia, etc – extremando no humor negro (em auto-deboche?) de “falecida manhã

de manhã cedinho
perdi meu amorzinho
e fiquei com meu lutinho

No inverno, acalentados por Brahms, colhemos decepções e desencantos, desilusões e desencontros, em poeminhas quase-haicais, onde o que cai é a máscara da 'vida feliz'. Moeda que tem dois lados, musa com duas faces, a vida oferta com uma mãe e retira com a outra. Os amantes se encontram hoje, apenas para se ignorarem amanhã. “a vida é careta / você pula do Acaiaca / eu bebo no maletta(2)

O caso é que o Poeta acha 'bonito' deixar-se debochar de seus amores perdidos, de sua vida que se esvai, de suas ausentes esperanças, num masoquismo que desperta a nossa piedade. Afinal, o problema não é a vida – não devemos vilipendiar a vida! - mas as condições em que a vida se processa: desafetos, desconfianças, suspeitas, ambições, interesses velados, corrupções, exploração da mão de obra alheia. (Todo deboche e niilismo não leva a um 'pensar adiante' num mundo em que devemos resolver nossos problemas – afetivos e sociais – mas ainda continuamos a rir das nossas deficiências e fracassos. )

Mas esta não é a missão do Poeta (cidadão que o idealista Platão exilara de sua augusta República) que se limita a aclamar seu niilismo pelos quatro cantos, nos saraus nos jardins, nas ondas de bites e bytes, nos livros de miolo de papel pólen bold 90 gramas. Pois, de repente, se o tempo perdido não merece lágrimas copiosas, então deve despertar mesmo boas risadas.


Jan/10
(revisão: dez/12)

Leonardo de Magalhens



blog do poeta

poemas de Jovino Machado






notas:

(1)”Garota de Ipanema” é uma canção ícone da 'bossa nova', composta em 1962, por Tom Jobim. “Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça / É ela menina /Que vem e que passa / Num doce balanço, a caminho do mar.” Já a “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany's, 1961) filme que imortalizou a belíssima Audrey Hepburn, como símbolo da mulher dado ao luxo e à vaidade.

(2)Para aqueles que não têm o privilégio de habitar na bela Belo Horizonte, informamos: “Edifício Acaiaca” é um mais altos (26 andares) e antigos do hipercentro, localizado na Avenida Afonso Pena, próximo ao Parque Municipal. Já o “Edifício Arcângelo Maletta” é um condomínio residencial, de 20 andares, localizado no cruzamento da Rua da Bahia com a Avenida Augusto de Lima, sendo obra da prancheta do arquiteto Oscar Niemeyer. No Maletta são localizadas livrarias, lan houses, bares e restaurantes, sendo ponto de encontro da vida boêmia da capital mineira.