quarta-feira, 7 de novembro de 2012

trechos de Os Subterrâneos - de J Kerouac



Jack Kerouac


trechos deOs Subterrâneos(The Subterraneans, 1958)

trad. de Paulo Henriques Britto

Porto Alegre, L&PM Pocket, 2006


[Kerouac descreve Charlie 'Bird' Parker]


(...) voltando ao Red Drum para ouvir o resto do show, ouvir Bird, que eu tinha percebido tinha sacado Mardou várias vezes e a mim também olhando bem no meu olho para ver se eu realmente era o grande escritor que eu achava que era como se ele conhecesse meus pensamentos e ambições ou se lembrasse de mim de outras boates e outras paragens, outras Chicagosnão um olhar de desafio mas o rei e fundador da geração bop no mínimo o som dela curtindo a plateia curtindo os olhos dele, os olhos secretos sacando, enquanto ele apertava os lábios e soltava aqueles grandes pulmões e dedos imortais, os olhos separados e interessados e humanos, o mais bondoso músico de jazz que podia existir e portanto naturalmente o maior -(pp. 24-25)

(...) depois o beco propriamente dito, a primeira vez que eu o vi (a sua longa história e imensidão na minha alma, como em 1951 eu andava com caderno de desenho numa tarde louca de outubro quando eu estava descobrindo finalmente minha própria alma de escritor vi o subterrâneo Victor que uma vez foi até Big Sur de moto, diziam que tinha ido até o Alasca também de moto, com uma menininha subterrânea Dorie Kiehl, estava ele com o grande casacão de jesus andando para o norte em direção à Heavenly Lane para o apartamento dele e eu o segui por um pedaço, pensando na Heavenly Lane e todas as longas conversas que eu tinha anos com pessoas como Mac Jones a respeito do mistério, o silêncio dos subterrâneos, 'Thoreaus urbanos' é como Mac os chamava, como Alfred Kazin numa aula que ele deu na New School de Nova York comentando que todos os estudantes se interessavam em Whitman do ponto de vista da revolução sexual e em Thoreau do ponto de vista contemplativo místico e antimaterialista como se existencialista ou sei que ponto de vista, o lado bobão e maravilhoso, o lado Pierre de Melville da coisa, os vestidos escuros beat de aniagem, as histórias de grandes saxofonistas tomando pico ao lado de janelas quebradas e tirando um solo, de grandes jovens poetas loucos em obscuridades sagradas do gênero Rouault, a Heavenly Lane a famosa Heavenly Lane onde todos os subterrâneos beat uma vez ou outra haviam morado, como Alfred e a mulherzinha doente dele que pareciam um lance dos cortiços de São Petersburgo de Dostoiévski mas na verdade era o idealista barbudo americano perdidoa coisa toda)(pp. 25-26)


...


volteios na noite urbana

(...) e nas noites de sábado os bares doidos de negros cheios de putas e os mexicanos berrando nos botecos deles e o carro de polícia descendo devagar a avenida longa e triste cheia de bêbados e o brilho de garrafas quebradas (agora na casa de madeira onde ela foi criada no terror Mardou de cócoras encostada na parede olhando para os fios na penumbra e ela ouve a própria voz falando e não entende por que está falando aquilo sabe que é preciso falar, botar para fora, porque antes naquele dia quando em suas perambulações ela finalmente chegou à Third Street entre as filas de bêbados cambaleantes e os índios completamente de porre com curativos caindo nos becos e o cinema poeira com programa triplo e as criancinhas dos hotéis vagabundos correndo na calçada e as lojas de penhores e os botequins de negros com vitrolas e ela parada no sol sonolento de repente ouvindo bop como se pela primeira vez, a intenção dos músicos e os metais e instrumentos de repente uma unidade mística se exprimindo em ondas sinistras e de novo eletricidade porém gritando cheia de vida palpável a palavra direta vinda da vibração, as trocas de afirmações, os níveis de insinuações sinuosas, o sorriso sonoro, () (p. 49)


O dia cinzento, a lâmpada vermelha acesa, eu nunca tinha ouvido uma história assim de alguém como ela dos grandes homens que eu conheci na juventude, grandes heróis americanos que eram amigos meus, com quem eu me meti em aventuras e fui parar na cadeia e conheci em manhãs esfarrapadas, os garotos batiam no meio-fio vendo símbolos na sarjeta transbordante, os Rimbauds e Verlaines da América em Times Square, garotosnenhuma menina jamais me havia comovido com uma história de sofrimento espiritual a alma dela transparecendo tão lindamente radiante como um anjo perambulando no inferno e o inferno eram as mesmas ruas que eu perambulava procurando, procurando alguém como ela sem nunca imaginar a escuridão e o mistério e eventualidade de nosso encontro na eternidade, a imensidão do rosto dela agora como um cartaz pregado numa cerca de madeira nos terrenos baldios de lixo fumegantes em manhãs de sábado sem escola, direto, lindo, louco, na chuva.(p. 51)


deOs Subterrâneos(The Subterraneans, 1958)

trad. de Paulo Henriques Britto

Porto Alegre, L&PM Pocket, 2006



Jack Kerouac


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Hart Crane - To Brooklyn Bridge





Hart Crane


To Brooklyn Bridge

À Ponte do Brooklyn


Quantas auroras, frias de seu ondulante descanso
As asas da gaivota deverão mergulhar e girar,
Vertendo alvos anéis de tumulto, erigindo alto
Sobre as águas cativas da baía a Liberdade –


Então, com inviolada curva, deixam nossos olhos
Tão espectrais quanto os veleiros que cruzam
Alguma página de figuras a ser preenchida,
-Até que elevadores soltem-nos de nosso dia...


Imagino cinemas, truques panorâmicos
Com multidões atentas a uma brilhante cena
Nunca revelada, mas novamente acelerada
Prevista a outros olhos na mesma tela;


E Tu, através do porto, prateada
Como se o sol se afastasse de ti, ainda deixasse
Algum mover nunca gasto em teu transpor, -
Implícita tua liberdade fica contigo!


De uma abertura de metrô, cela ou sótão
Um maluco corre até os teus parapeitos,
Inclinando lá num momento, camisa inflada,
Uma tirada cai da caravana sem-fala.


Wall abaixo, de viga rua adentro meio-dia,
Um dente arrancado do acetileno do céu;
Toda tarde as nubladas gruas giram...
Teus cabos respiram a calma do atlântico norte.


E obscuro tal o Paraíso dos judeus,
Teu galardão... Recompensa tu concedes
De anonimato tempo não se ergue:
Vibrante alívio e perdão tu demonstras.


Ó harpa e altar, da fúria fundido,
(Como poderia um mera ferramenta
    alinhar as tuas cordas cantantes?)
Terrível limiar da promessa do profeta,
Prece do paria, e pranto do amante, -


Novamente os semáforos que roçam teu veloz
E completo idioma, puro suspiro astral,
Ornando tua trilha – condensam eternidade:
E temos visto a noite erguida em teus braços.


Sob a tua sombra no cais eu esperava;
Apenas no escuro é nítida tua sombra.
Da cidade as partes luminosas dispersas,
Já a neve submerge um tempo férreo...


Ó insone igual ao rio abaixo de ti,
Arqueando o mar, a relva da planície,
Até nós, inferiores, às vezes arrasta, desce
E da curvatura a Deus empresta um mito.



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens




Hart Crane


To Brooklyn Bridge


How many dawns, chill from his rippling rest
The seagull's wings shall dip and pivot him,
Shedding white rings of tumult, building high
Over the chained bay waters Liberty--

Then, with inviolate curve, forsake our eyes
As apparitional as sails that cross
Some page of figures to be filed away;
--Till elevators drop us from our day . . .

I think of cinemas, panoramic sleights
With multitudes bent toward some flashing scene
Never disclosed, but hastened to again,
Foretold to other eyes on the same screen;

And Thee, across the harbor, silver-paced
As though the sun took step of thee, yet left
Some motion ever unspent in thy stride,--
Implicitly thy freedom staying thee!

Out of some subway scuttle, cell or loft
A bedlamite speeds to thy parapets,
Tilting there momently, shrill shirt ballooning,
A jest falls from the speechless caravan.

Down Wall, from girder into street noon leaks,
A rip-tooth of the sky's acetylene;
All afternoon the cloud-flown derricks turn . . .
Thy cables breathe the North Atlantic still.

And obscure as that heaven of the Jews,
Thy guerdon . . . Accolade thou dost bestow
Of anonymity time cannot raise:
Vibrant reprieve and pardon thou dost show.

O harp and altar, of the fury fused,
(How could mere toil align thy choiring strings!)
Terrific threshold of the prophet's pledge,
Prayer of pariah, and the lover's cry,--

Again the traffic lights that skim thy swift
Unfractioned idiom, immaculate sigh of stars,
Beading thy path--condense eternity:
And we have seen night lifted in thine arms.

Under thy shadow by the piers I waited;
Only in darkness is thy shadow clear.
The City's fiery parcels all undone,
Already snow submerges an iron year . . .

O Sleepless as the river under thee,
Vaulting the sea, the prairies' dreaming sod,
Unto us lowliest sometime sweep, descend
And of the curveship lend a myth to God.







LdeM

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pablo Neruda - Desexpediente / Desespediente

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Pablo Neruda

Desexpediente

A pomba está cheia de papéis caídos,
seu peito está manchado por borrachas e semanas,
por mata-borrões mais brancos que um cadáver
e tintas assustadas de sua cor sinistra.

Venha comigo à sombra das administrações,
à débil, delicada cor pálida dos chefes,
aos túneis profundos como calendários,
à dolente roda de mil páginas.

Agora examinaremos os títulos e as condições,
às atas especiais, os zelos,
as demandas com seus dentes de outono nauseante,
a fúria de cinzentos destinos e tristes decisões.

É um relato de ossos feridos,
amargas circunstâncias e intermináveis trajes,
e médias repentinamente sérias,
É a noite profunda, a cabeça sem veias
de onde de repete cai o dia
como de uma garrafa rompida por um raio.

São os pés e os relógios e os dedos
e uma locomotiva de sabão moribundo,
e um céu azedo de metal molhado,
e um rio amarelo de sorrisos.

Tudo chega a ponta dos dedos como flores,
a unhas como raios, a sofás murchos,
tudo chega à tinta da morte
e à boca violeta dos timbres.

Choraremos o óbito da terra e o fogo,
as espadas, as uvas,
os sexos com seus duros domínios de raízes,
as naves do álcool navegando entre naves
e o perfume que baila de noite, de joelhos,
arrastando um planeta de rosas perfuradas.

Com um traje de cão e uma mancha na frente
vamos cair à profundidade dos papeis,
à ira das palavras encadeadas,
à manifestações tenazmente defuntas,
à sistemas envoltos em folhas amarelas.

Rode comigo pelos escritórios, sem rumo
cheiro de ministérios, e tumbas, e carimbos,
Venha comigo ao dia branco que morre
dando gritos de noiva assassinada.


Trad. livre: LdeM



Pablo Neruda


Desespediente

La paloma está llena de papeles caídos,
su pecho está manchado por gomas y semanas,
por secantes más blancos que un cadáver
y tintas asustadas de su color siniestro.

Ven conmigo a la sombra de las administraciones,
al débil, delicado color pálido de los jefes,
a los túneles profundos como calendarios,
a la doliente rueda de mil páginas.

Examinaremos ahora los títulos y las condiciones,
las actas especiales, los desvelos,
las demandas con sus dientes de otoño nauseabundo,
la furia de cenicientos destinos y tristes decisiones.

Es un relato de huesos heridos,
amargas circunstancias e interminables trajes,
y medias repentinamente serias.
Es la noche profunda, la cabeza sin venas
de donde cae el día de repente
como de una botella rota por un relámpago.
Son los pies y los relojes y los dedos
y una locomotora de jabón moribundo,
y un agrio cielo de metal mojado,
y un amarillo río de sonrisas.

Todo llega a la punta de dedos como flores,
a uñas como relámpagos, a sillones marchitos,
todo llega a la tinta de la muerte
y a la boca violeta de los timbres.
Lloremos la defunción de la tierra y el fuego,
las espadas, las uvas,
los sexos con sus duros dominios de raíces,
las naves del alcohol navegando entre naves
y el perfume que baila de noche, de rodillas,
arrastrando un planeta de rosas perforadas.

Con un traje de perro y una mancha en la frente
caigamos a la profundidad de los papeles,
a la ira de las palabras encadenadas,
a manifestaciones tenazmente difuntas,
a sistemas envueltos en amarillas hojas.

Rodad conmigo a las oficinas, al incierto
olor de ministerios, y tumbas, y estampillas.
Venid conmigo al día blanco que se muere
dando gritos de novia asesinada.



in: Residencia em la Tierra / 1925-35


mais poemas de Pablo Neruda





quarta-feira, 3 de outubro de 2012

ode hiperbólica na noite de insônia



trecho de Ode Sensacional



ode hiperbólica na noite de insônia


Insone após ter lido cada verso de cada poeta simbolista místico
metafísico

fatigado após compor o centésimo soneto de amor

(dedicados a mim mesmo após implorar a atenção da Musa)

angustiado por haver perdido o sono e o trem da História

inconformado após perceber a insignificância de minhas odes e
a proeminência de meu ódio

ferido por todas as ofensas e magoado por todos os abandonos

foragido na noite com todos os vultos transeuntes com todos
os perdidos andarilhos

abalado pela última conjunção dos astros em sinistra efeméride

perseguido por todas as blasfêmias e restos de pesadelos eróticos

sepultado sob as imagens natimortas dos desejos da juventude
sem rumos

cegado pelo piscar psicodélico de todas as luzes dos anúncios
de néon

guiado pelos sorrisos de outdoors na selva de concreto e asfalto

seduzido por todos os casais e seus beijos apaixonados

envergonhado ao invejar todos os casais em motéis de subúrbio

cansado ao percorrer todas as galerias e sobreviver a todos
os assaltos

transtornado atordoado golpeado esmagado violentado por todos
os ruídos e gestos inúteis

(onde todas as pessoas têm o mesmo olhar – o mesmo olhar de
ovelha)

anestesiado após ouvir todas as músicas pop de todos os artistas pop
de todos os hit-parades pop

afligido por todas as dores morais todos os preconceitos irracionais
todos os tabus tradicionais

arrastado pelo frenético movimento de todas as pupilas estressadas

moído nas mandíbulas das oligarquias monarquias sinarquias
hierarquias burocracias do mundo e do submundo

vigiado por todas as máquinas ciborgues andróides big-brothers
câmeras ocultas cyberpunks

invadido por todos os sonhos paranóicos por todos os dedos
obscenos

pisado pela mídia televisiva no horário nobre e pelo filme repetido
na sessão das dez

obstruído na entrada de shows de hard-rock e barrado na portaria dos
templos do deus-money

desprezado pelas garotas de coturno e suas poses e maquilagens
exóticas

rotulado pelos serviços de inteligência e fichado pelas forças de
segurança

abordado (gentilmente) pelos agentes da lei e assaltado (sutilmente)
pelos excluídos do sistema

constrangido pelos programas de debate na TV discutindo o orgasmo
feminino

bombardeado pelos seriados norte-americanos de médicos neuróticos
ou sobreviventes em ilha (quase) deserta

nutrido por suplementos literários e revistas literárias em eventos
literários

arrastado aos desfiles de moda diante de modelos esguias e secretárias
de políticos corruptos

subnutrido por filmes moderninhos com novas versões de heróis
dos quadrinhos

ameaçado por animações com galinhas paranóicas e noivas
apodrecidas

abduzido por filmes de ficção científica com universos paralelos

assustado por filmes de suspense com ônibus desgovernado e
teorias da conspiração

estremecido diante de filmes com clonagem humana ou invasões
alienígenas

deslocado meio às linguagens internéticas em hermético vocabulário
juvenil

seduzido pelas curvas femininas na propaganda de televisores de
plasma

apavorado diante das filhas psicóticas que assassinam os pais
adormecidos

estarrecido diante das mães que abandonam seus bebês em lixões

amargurado pelas transações internacionais em bilhões de dólares
onde nenhum é meu

ferido pelas estatísticas do desemprego na região metropolitana
segundo os índices oficiais
registrado nas festas de gala e reconhecido nos bailes à fantasia

fotografado em atitude suspeita e entrevistado por profissionais da
imprensa marrom

engolido (e abrigado) no ventre da baleia tecnocrata e digital

(perdido nos labirintos homéricos e kafkanianos do mundo virtual)

insone por ter lido cada email de cada notívago depressivo sensível
inconsolável.


 

2010


Leonardo de Magalhaens