segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O OUTRO - conto (LdeM)




O OUTRO



Quando recebeu a carta, aquele envelope de aspecto formal, o Sr. Antunes tratou logo de abrigar o papel na maleta, visto a pressa com que girava a chave no portão e abria a porta do carro, com as rodas dianteiras caídas na sarjeta, esforçado-se para sorrir e ser simpático ao carteiro,Bom dia, seu Buarque!, ao lembrar de quase uma década de residência e serviços.

leu a carta no escritório. Quando Edwiges chegou, logo aprontou o café e pediu leite e torradas pelo delivery da padaria. Sempre eficiente a Edwiges. quanto tempo em tão prestativo serviço? O Sr. Antunes nem fazia contas, mas considerando-se os quase dez anos de advocacia, independente, emcarreira solo, como dizia em amplo sorriso. Na verdade, o Sr. Antunes se livrara dos sócios, os sucintos e sisudos Srs. Albertini e Garcia Melo, e da esposa, a graciosa e ambiciosa, Sra. Marta Gouveia Tavares de Aguiar.

Abriu o envelope, junto com correspondência do escritório, enquanto a Sra. Edwiges servia o café-com-leite, muito de sua preferência. O texto da missiva muito o surpreendeu, tratando-se de uma correspondência formal expedida pela Marinha, especificamente o Departamento de Pessoal da Marinha, sediada na bela e atlântica cidade do Rio de Janeiro, da qual o Sr. Antunes guardava recônditas saudades do seu tempo de estudante, seu contato com as lindas morenas de doce boêmia.

O que dizia o texto?Através desta mui agradecemos ao Sr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar, por seu interesse e suas propostas quanto ao funcionamento do nosso quadro de pessoal, no tangente às reformas trabalhistas, tal podemos constar em seu artigo publicado em O Globo, de fins de março, artigo este muito elogiado pelo Almirante e distribuído aos demais oficiais, que muito louvam a sapiência e bom-senso do articulista.E seguia com formalidades. O que muito arrepiava o Sr. Antunes.

Em arrepios, degustava o café-com-leite, reclinado em sua cadeira, e girava a caneta reluzente nos dedos da mão esquerda, a pensar, sim, profundamente pensar. Quando enviara algum artigo ao jornal O Globo do Rio de Janeiro? Em fins de março? Isto é, quase dois meses atrás. Mas se esquecera? Andava assim com a memória tão fraca? Era coisa de procurar um médico, não? E conferia a carta e revirava o envelope e está o Ministério e está a Marinha e está o seu nomeAo Ilmo. Sr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar, Belo Horizonte, e questões, muitas questões.

Desde quando escrevia sobre questões trabalhistas da Marinha? A sua linha não era mais patrimonial, coisa de alvarás, escrituras, termos de ocupação, ordens de despejos, coisas totalmente civis? Por que lhe vinha logo agora essa de escrever sobre assuntos militares? Ainda que referindo-se à questão de quadro de funcionários, nada de táticas e afins, que disso ele realmente nada entendia, com sua formação modesta no serviço militar, e o que seria? Loucura? E essa de Rio agora? Não tinha uns dez anos que ele abandonara o calçadão e a baixada? E quando fora as últimas férias? A um ano e meio, não? Ainda com a megera da Marta! Contorceu-se numa careta e reclinou-se, afundou-se na cadeira.

Foi a Sra. Edwiges quem o resgatou naquela vertigem. Indagava, como quem não muita importância,Dona Edwiges, escute aqui. Me esclareça. Eu cheguei a enviar algum artigo para um jornal do Rio, a saber, o Globo? Que eu me lembre..., e a secretária se voltava,Não senhor Doutor, não que eu me lembre. Mas posso consultar os arquivos. O senhor Doutor não guardou um recorte quando saiu o jornal?Sim, muito inteligente e prática, a Sra. Edwiges! Claro, o Sr. Antunes é (ou depois dessa, devamos chamar Dr. Antunes) é um tanto vaidoso, e nunca se preocupou em ocultar,Modéstia é coisa de vaidoso!, e fazia questão de guardar, numa pasta específica para este fim, uma série de recortes de artigos que saíam nos jornais locais e nacionais (não ainda os internacionais, hélas!, mas ele não tinha tamanha pretensão) E a Sra. Edwiges retorna a dizer nada ter encontrado.

Continuou abrindo mecanicamente o restante da correspondência, toda agora com assuntos do escritório, embargos em obras, prédio com riso de desabamento, um novo loteamento na zona sul, a planta de uma mansão no Belvedere, outras pendências judiciais, e um bocejo. Não prestava atenção. Seu olhar caía vez ou outra no formal envelope da Marinha, onde a secretária do Almirante F. elogiava um artigo sobre. Bem, sabemos. O Dr. Antunes é que se perde em conjecturas. Que é estranho é. Coisa de nomes parecidos? De repente, um outro Dr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar. Por que não, ora? Mas era muita coincidência! Existia coincidência? E com o mesmo endereço? Mas e se procuraram no catálogo telefônico e estava o seu nome e endereço e de pronto enviaram a correspondência sem maiores averiguações, como ele imaginava de praxe em ambientes burocráticos.

O Dr. Antunes nada sabia sobre a Marinha. Nunca adentrara um navio, nunca vira, aliás, uma vez só, quando passeara no porto de Santos, mas antes de morar no Rio, quando do mestrado. E suas preocupações não incluíam navios, antes uma certa, digamos, companhia. Ruborizando-se, o Dr. Antunes se esforça para desviar o pensamento das coxas nuas daquela morena. Volta a vasculhar o envelope,Ao Ilmo Sr. etc etce não acreditava.

Igual daquela vez, que voltando ao Rio, um amigo de tempos de outrora, jurava ter visto seu vulto branco e lusitano num boteco pros lado dos Arcos da Lapa. Impressão? Mas insistia que Antunes andava dando suas escapadinhas na noite boêmia. O que muito irritou o Dr. Antunes, a imaginar um sósia, um irmão gêmeo, que desconhecia, coisas assim, de romances fantásticos. O que fazia ele num boteco pros lados da Lapa? Estaria acompanhado? E deixou-se imaginar a cena de estar ali com uma morena de traseiro farto e peitos à mostra, ou quase. Ah, fantasias!

Cuidemos do trabalho! E passava a leitura do alvará de um terreno e da escritura a tal mansão outrora citada e deixou assim escoar boa meia hora. E essa da Lapa? se estivesse morando ainda no Rio! Nas noitadas, época em que dera um tempo com Marta. Viviam em brigas. Daí ele pensar no mestrado. E não é que quando se separam no definitivo, ele tirara um tempo para aprender noções de informática? Uma das morenas ele, o Dr. Antunes, conhecera no Orkut, e que dona Edwiges não o surpreendesse usando o computador do escritório para semelhantesinutilidades. Loira, alta, aristocrática, ainda que secretária humilde, dona Edwiges nunca o perdoaria,Até o senhor, Dr. Antunes?e diria que os homens realmente não prestam, até porque estava igualmente separada do marido, dois anos, devido à flagrante traição. Ah, mas o que isso importa? Sua mente delirava?

Sim, estaria um boteco da Lapa se morasse no Rio. Se estivesse no Rio? Sempre oseouse, sempre a dúvida! Se eu estivesse no Rio o que estria fazendo hoje em dia? Hein? Responda rápido! Certamente trabalhando com o Renan. Sim, o seu amigo daqueles tempos. O mesmo Renan que lhe apresentações diante do sujeito que insistia porque insistia que o honesto Dr. Antunes estava em farras pros lados da Lapa! Isso, certamente, se estivesse vivendo no Rio! E sem a mulher. E então seria outro! Por que não ficou no Rio? Ora, por que? Por causa do Garcia! Que montou o escritório, junto com o Albertini. Um nas causas trabalhistas, e o outro na administração, assessoria para empresas, as pequenas que serão grandes negócios!

Certo, certo. Era isso. E quando o abordaram sobre um difícil caso trabalhista e ele não entendeu. Por que ele? E não resolvera nada. Entregou para o Garcia. Que se virasse. Mas o Renan é que entendia de trabalhistas. Ei, se estivesse com o Renan, então certamente! Mas o telefone tocou e parecia um badalar de sinos! Sorte era a dona Edwiges ter atendido e resolvido. A cabeça do doutor não estava para estas coisas,O senhor anda muito estressado, seu Antunes., a secretária dizia, maternal.


Mas era isso! Ele, o doutor Antunes, nas trabalhistas! Quando? Ora, se antes tivesse se agarrado ao Renan igual um mexilhão a sua crosta! E Renan não tinha trânsito dentro dos Ministérios, no governo estadual, certamente? E encheu a xícara de café e desistiu do leite. Tentou lembrar-se se estava acompanhado quando passeava na Lapa. começava a sentir-se como ooutroAntunes.


Mar/07


Leonardo de Magalhaens

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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

MUTAÇÃO - conto LdeM




Mutação


dedicado ao mestre F. Kafka, autor de A Metamorfose



Antes da sessão de fotos, para a nova revista de moda, na tarde de sábado, a bela Gretchen percebeu-se voejando pelo quarto como uma pálida borboleta. Nada se notara de estranho além das asas estendidas ao teto agora baixo e dominante como um domo de claustro em estilo românico. A penumbra do aposento aumentava o efeito de cúpula e, temendo esbarrar pelas paredes, Gretchen voejava em círculos e espirais, até cansar-se, indo pousar na cadeira, diante da penteadeira e do espelho oval, onde a foto de uma jovem modelo sorria diante de uma coluna de água espumante do chafariz municipal.

Ao pousar, Gretchen lembrou-se de seu falecido irmão Gregor Samsa, que certa manhã, após longos pesadelos, viu-se metamorfoseado num estranho inseto. Gretchen fechou os olhos, e tentou acordar de seu sonho, mas apenas sentiu o movimentar oscilatório das anteninhas contra as franjas do cortinado. Pensou gritar, mas nenhum som se elevou. As asas bateram e ela voltou a voar em círculos.

Logo hoje, ela pensou. Quando preciso completar o álbum de fotos para a revista! Vou chegar bem atrasada. Mamãe não vai gostar nada disso! E nisso uma batida ressoou na porta lateral, oposta à janela agora fechada. Era a mãe de Gretchen, deveras preocupada. O que a filha tanto fazia que não saía do quarto? Precisava ficar horas se maquilando? Era muita vaidade, não?

Gretchen tentou responder algo para a mãe, mas logo descobriu que as borboletas não têm voz. Não podem latir, ou uivar, ou soltar belos trinados. As borboletas podem voar, voar, em círculos, delicadas, sobre as pétalas das flores, a sujarem-se de pólen. Assim como poderia a jovem explicar algo a sua pobre mãe? Como poderia abrir a porta de seu quarto? Sua mãe se voltava em passos arrastados, como se entorpecida pela preocupação, rumo a sala, onde se ouvia o ruído áspero das gavetas da estante.

Voejando da cômoda ao guarda-roupa, da cama ao espelho oval, Gretchen procurava um lugar adequado para pousar, mas ora se distraía com um filete de luz que caía do vidro da janela, ora se deixava flutuar numa corrente de ar que surgia no canto superior da porta, a deslizar até as bordas da janela, de onde se insinuava outra corrente rumo ao teto. Gretchen nada sabia sobre lepidópteros, senão poderia identificar seu reflexo no espelho como uma espécime da Borboleta-Monarca Danaus plexippus, com brilhante tons de laranja-amarelado oscilando ao pálido jorro de luz.

A mãe seguramente encontrara uma segunda chave da porta, pois não apenas chamara sua filha Gretchen novamente, como introduzira a chave na fechadura e logo conseguiu entrar. Não vi a filha como esperava. Atravessou o quarto, com lentidão e chegou até a outra porta. A mulher logo foi conferir se a porta estava destrancada. Teria sua filha saído por ali?

Olhou ao redor e viu uma borboleta que saía de imediato pela porta aberta. Também Gretchen olhava ao redor e sentia-se bem em voar pela sala. Ali na sala ela reconhecia o quadro do irmão fardado, o falecido Gregor, que ao menos assim impunha respeito, por seu uniforme militar e pose heroica. Pobre Samsa, morto na insignificância de um inseto ou verme. Um troço pisado sob a cama, um empecilho à felicidade da família.


Aberta a janela da sala deixava Gretchen ver o mundo lá fora. O que ela via? Apenas o panorama de Praga com as ruas estreitas ensombreadas por casas e sobrados, margeadas por telhados, cúpulas e torres pontiagudas, antes da ponte sobre o rio Vltava, de onde se via o Castelo, todo imponente e parecendo inalcançável. Gretchen só não voejou para fora devido a soberba solar que tudo inundava, e ela sabia que não poderia expor sua pele pálida aos raios bronzeantes sem receber bronca d mãe, sempre atenta aos rituais da beleza. A filha não poderia ameaçar sua beleza que agora mantinha a vida cômoda da família.

Mas Gretchen não estava prometida em casamento? Ao jovem senhor Rodolfo, um promissor advogado, que seguiria ainda uma carreira de defensor público, e – quem saberia? - um dia seria juiz de instrução, a apontar os direitos e deveres dos cidadãos, a reconhecer, entre os acusados, quem era inocente e quem era culpado. Contudo, a moça pensava, enquanto se acomodava sobre a prateleira da estante, entre um copo e um prato, em como a família viveria sem a filha querida, em como ela poderia viver com um marido tão talentoso.

Pobre Gretchen! Nem pensava que assim, nesse corpo minúsculo de borboleta, voejando entre os móveis e os lustres, pouco poderia fazer para alegrar a vida de casado do futuro marido. Como servir o jantar? Como engraxar as botas dele? Como massagear os seus pés? Como deixar-se ver no novo veste para o baile? Ó pobre Rodolfo! Ficaria sem a sua mulherzinha! A menos que ele preferisse borboletas em tons alaranjados-amarelados. Borboletas que indecisas voam da estante à mesa, da mesa ao cortinado, e do cortinado ao quadro de um jovem de uniforme.

A mãe de Gretch, deveras preocupada, pois não tem ideia de onde possa estar a filha, voltou a sala, e deixou-se cair numa cadeira. Onde andaria a filha? Terá saído tão cedo? Como ela trabalha, meu Deus! Tantas sessões de fotos! E que vestidos brilhantes! Que sandálias caras! Tomara a filha não se tornar uma vaidosa e esnobe! Mas com tanta beleza! Que seu marido não fosse um daqueles ciumentos, senão ela teria aborrecimentos... E a mãe de Gretchen alisava o vestido gasto, olhava as sandálias já usadas e pensava em voltar ao quarto e ver o que a filha guardava – não ousou pensar 'escondia' – nas gavetas do guarda-roupa.

Não foi muito longe, pois o pai de Gretchen chegava, com uma expressão matinal, entre sério e sonolento, a trazer um jornal, um pão e alguns ovos, além de um envelope, certamente uma carta. A mãe não ousou perguntar, e ele sentou-se diante do pão e do jornal, e rasgou a lateral do envelope. No envelope, jogado sobre o forro da mesa, estava o nome de Gregor. Certamente algum cliente, ou credor, que ainda não soubera do fim trágico do filho caixeiro-viajante.

Uma corrente de ar agitava o cortinado, e a jovem Gretchen, ou melhor a delicada borboleta, se deixava oscilar, enquanto acompanhava o modo indiferente com o qual seu pai tratava sua mãe, como ele adentrava e tomava conta de tudo, e como ela se mantinha encolhida, como se temesse levar uma bronca ou uma chicotada. O envelope era rasgado, a carta extraída, as sobrancelhas se enrugavam, os lábios se contraíam, os dedos firmes exploravam as letras. Sim, parece que mais um cliente ou credor que se lembrava de Gregor, o irmão falecido, aquele inseto desastrado que por pouco não arruinou a família.

Enquanto o pai e a mãe viviam em seus espaços delimitados na sala, a observadora Gretchen acompanhava as sombras projetadas sobre os móveis e o movimento do farol solar sobre as marcas de fuligem no teto. Não parecia ter pressa, até esquecera a sessão de fotos. Só se lembrou disso quando o pai, após ler a carta num só fôlego, a deixou sobre o forro e perguntou a mãe sobre a filha Gretchen. Se sabia ela que moça tinha um compromisso. Umas fotos para a revista. E se não estaria indo longe demais. Queria dizer, não estaria se exibindo muito. Claro, eram apenas roupas e poses, mas era a filha dele, ora! Não queria que zombassem dele na repartição. Os colegas são sempre uns mulherengos!

Mas a mãe de Gretchen não ouvia, já preocupada com a ausência da filha. Não fora assim, tão subitamente, que desaparecera o filho Gregor? Pois, convenhamos, ela não podia aceitar que aquela barata nojenta fosse o seu querido filho! Como poderia rastejar e viver sob os móveis como um ser repulsivo? Era um absurdo! Mas do mesmo modo desaparecia sua filha Gretchen! Uma mãe vai acordar a filha e o que encontra? Um quarto vazio! Encontra móveis, poeira, penumbra, e uma borboleta que voa, que levita, que foge, na primeira oportunidade!

O sol parecia forte lá fora, no início da manhã, mas Gretchen adoraria dar uma volta pela praça, atravessar a ponte, subir até o Castelo, ver a cidade lá de cima. Ah, poderia deixar a sessão de fotos para outro dia! E aproveitar o dia assim como aproveitava esta corrente de ar... até o quadro do irmão, muito pomposo naquele uniforme, pobre Gregor, em tão medonha metamorfose! Não, que quadro mais deslocado! Antes um punhado de flores, a refrescar o ambiente tão familiar e tão unheimlich... sim, eis uma palavra estranha... Ou então ver o sol mais de perto, além de temer seus reflexos... Ali a janela, aberta, de boca aberta, um rasgo na parede, lembrando que há céu, nuvens, árvores, rios, pontes, casario, viagem.

A mãe olhou para o cortinado e deparou-se com o oscilar da borboleta. Mas antes que pudesse se erguer e fizer algo ou fazer algo, a borboleta se cansou de ficar ali e deslizou num voo suave até o quadro de Gregor com uniforme militar. Mas algo ali parecia incomodá-la, pois menos de um minuto depois, a borboleta resolveu buscar o abrigo de um buquê de flores sobre a lareira. Mas não achou abrigo algum, pois novamente lançou-se ao voo e novamente rumo a janela. Apenas não parou, a descansar, na cortina. Passou direto e alcançou o mundo lá fora.


ago/12


Leonardo de Magalhaens