segunda-feira, 25 de junho de 2012

Anjos do Metrô - conto LdeM




ANJOS DO METRÔ


Numa tarde nublada de segunda-feira, na semana do Natal, o senhor Carlos D. Ventura foi recolhido à clínica psiquiátrica de nosso município.

Detido enquanto passeava pelas estações do nosso metrô de superfície, passatempo frequente desde seu afastamento da Companhia, ainda que contrariando o conselho de seu médico, o Senhor Carlos D. Ventura mostrava-se agitado e não reconheceu sequer antigos colegas.

O Senhor Carlos D. Ventura passeava, meio sonâmbulo, pelas plataformas de embarque e desembarque, e dizia, na verdade, balbuciava com olhos vidrados, estar cercado de anjos. Não ele, mas toda a estação. E foi assim que a expressãoAnjos do Metrôtornou-se célebre entre nós. Mas desde quando andava louco o Sr. Carlos D. Ventura? O que o enlouquecera? Ou melhor, por que antes de nós mesmos?

A esposa do Sr. Carlos D. Ventura, uma senhorinha cabisbaixa, a qual chamavam Angélica, mas seu nome todos sabiam ser Mariângela, ainda que outros a chamassem Angelita, mas, enfim, todos a acolhiam consternados, digo, todos aqui na Companhia. A sra. Ângela, assim eu a cumprimentava, estava acostumada a comparecer às nossas festinhas de gabinete, onde o próprio engenheiro-diretor não deixava de ser solícito, abrindo as garrafas de champanha. A turma dos computadores aparecia em peso. Às vezes, surgia um violão. Mas creio estar a afastar-me do ponto. O caso é que quando a sra. Angelita, assim a abordava o coordenador de operações, surgiu, sem o marido, em plena festa, todos se entreolharam. Alguns entenderam, outros desistiram de perguntar, e ainda houveram aqueles que suspiravam, demorou, até que enfim, imaginem vocês.

Não que o Sr. Carlos D. Ventura fosse hostilizado, bem ao contrário. Era um colega honrado, a esposa que o diga, mas um incidente calamitoso o transtornara até as profundezas da razão, digo, nossa superficial razão. E o Sr. Carlos passeava pelas plataformas, entrava nos trens, os quais conduzira por quase vinte anos, cumprimentava os colegas, nada demais. Não fosse os olhares que ele dirigia às pessoas.

Enquanto o Sr. Carlos D. Ventura transitava pelas plataformas seu olhar adentrava o mar de faces e escavava as pupilas alheias. Procuraria alguém? Como poderia, meio aquela multidão? Fosse às seis ou oito da matina, as estações lotadas de gestos apressados e bocas bocejando, ou talvez às dezessete ou dezoito, a luz declinando, o corpo pesando, o rebanho se arrastando, com esgares de mau-humor, e não apenas quando alguém vem pisar o estimado calo.

Desde a expansão das linhas, rumo a zona norte da capital, a pouco mais de meia década, o fluxo de faces aumentara consideravelmente. Poderia o Sr. Carlos D. Ventura catalogar a todas? Jogado numa maré de faces embrutecidas, apáticas, sorridentes, enrugadas, irônicas, maquiladas, poderia sobreviver? Estaria à procura de alguém?

O Sr. Carlos D. Ventura passeava, mãos nos bolsos, olhares de contra-espionagem, andar de Sam Spade, mas seu capítulo é trágico, vida esticada de um drama a outro. Enquanto o Sr. Carlos se entrega a tal inquieto flanar, embevecido com a pluralidade, como se nunca outrora a notasse, as pessoas ao seu redor nem se lembravam de se afastar. No último instante, sentindo sobre si mesmas o olhar inquisidor, é que evitavam um encontrão com aquele perturbado senhor. Às vezes, ele se encontrava com a esposa Angélica, assim diria o nosso assessor de comunicações, e eis o lento escorrer de meio minuto antes de reconhecê-la. Não era estranho? E ele sorria? Sorria, não vexado, mas porque via diante de si uma mulher, uma pessoa, ser muito além do enunciadosua esposa. Ousara dizer que a conhecia realmente?

Ainda o encontramos percorrendo as estações dos subúrbios. Está cercado de tipos os mais diversos. Uma mulher alisa o vestido em leve laranja, com pequenas flores de amarelo desbotado, e uma garotinha, dedo no nariz, pede, ou exige, uma sapatilha igual aquela a moça do cartaz, e um senhor, um executivo em início de carreira?, vendedor de seguros?, bem trajado, abraça a maleta sobre os joelhos ao sentar-se. Um par de olhos marinhos faz repousar o espírito do andarilho. O Sr. Carlos D. Ventura acompanha uma estudante por uns dois metros. Ela se prepara para entrar no trem que se aproxima. Talvezou certamenteele jamais a verá novamente.

Por que, ao ser abordado, o Sr. Carlos D. Ventura se referira aos anjos, digo, aos Anjos do Metrô? É sabido o quanto expressão se popularizou, e não dentro da Companhia. E o enigma continua. Ou alguém ousara entrevistar um louco? Um louco no diário vespertino? O Sr. Carlos talvez esboçasse um sorriso diante de tanta insensatez, ele um homem tão pleno de bom senso, ainda que privado de razão. (uma vez, ele perguntou-me, sem desviar o olhar,Que razão, meu filho?E juro que ele parecia ter meio milênio de idade!)

O conhecido é que o Sr. Carlos D. Ventura passava a sua aposentadoria compulsória longe da família, longe dos amigos, perambulando pelas estações de metrô. De onde, justamente, queriam afastá-lo. Tentava se aproximar dos milhões de habitantes da capital, mas era inútil. Daí conceder que alguém, ou alguns, as acompanhava? Não serão lembranças de Win Wenders? Asas do Desejo? City of Angels? Filmes muito em voga. Leituras de apócrifos, aquelas apressadas nos intervalos do lanche? Mas o Sr. Carlos, isso supomos, longe de nós afirmamos fenômenos longe de nossa observação, via uns vultos junto às pessoas. Anjos? Aqueles da guarda? Que nossas mães invocam para apaziguar o nosso terror noturno e assegurar nosso repouso tranquilo? Mais real que a Fada do Dente? Mais real que aCuca-vai-pegar?

O Sr. Carlos D. Ventura via os anjos e acreditava, de todo o coração, que aquele, ou aquela, que o anjo acompanhava, morreria, em breve. Um infarto, dentro dos vagões? Atropelado, assim que os pés alcançassem o ponto de táxi da praça? Assaltado e baleado nas avenidas centrais, ou nas vielas do morro? Morreria, sim. Nada macabro, o Sr. Carlos, mas seu olhar se nublava tal uma tarde de dia dos mortos. E estes, ou estas, acompanhados por seres espectrais, bons ou maus, quem saberia?, atraíam os olhares do ex-condutor. Quando tal alucinação surgira? Isso se for alucinação! Sabe-se lá!

Estas pessoas que vêm e que vão, a trilharem diferentes caminhos, impulsionadas por diversas crenças, respondendo a estranhos desafios, vivem atrás de quimeras, desde que nascem até a inevitável morte. Pessoas que não mais voltarão, nem mais poderão se repetir. Ainda muito peculiares para um formigueiro, ainda muito divergentes para um rebanho.

Uma mão se estende, a capturar os dedos de outra, um casal se beijando sem transtornos, sem lembrar dos outros, um menino, cabelo arrepiado, mãozinhas ágeis, desembrulhando um bombom gigantesco, aquele ancião esticando os suspensórios, lembrando um chapéu usado na Copa de 50, outra estudante, que o colega identifica como Carla, desvia o olhar, evita pisar num guarda-chuva, que alguém deixa cair na escadaria. Um especialista em idiomas ajuda um turista, it looks like rain, i take you to a táxi stop, um especialista em lubrificação de trilhos troca tapinhas nas costas com um engenheiro recém-formado, uma especialista em emoções humanas (existirão as não-humanas?) sorri para um especialista em cirurgias cardíacas, serão namorados? Noivos?

Ah, se o Sr. Carlos D. Ventura pudesse esquecer um certo sorriso. Um sorriso que flutua nas amplidões da megalomania das estações, no brilho artificial fluorescente das assépticas plataformas, no mar de faces, na ansiada harmonia de diversidade, na busca de sintonia, um olhar que flutua a espera de um sorriso que flutua, inesquecível, e inefável.

O Sr. Carlos D. Ventura lembra-se bem. Ela terá caído, alguém a jogara nos trilhos? Não, improvável. Por que? Ora, o sorriso! Uma mulher jovem, quantos anos?, Vinte e poucos, vinte e cinco?, tivera uma filha, agora com a sogra. O que a jovem faz? Se joga nos trilhos! O terror é não poder ter evitado? Ou não ter previsto?

O sorriso que flutua indica possíveis, ocasionais, suicidas. E os anjos são acompanhantes atentos. Pretendem evitar o desenlace? A Sra. Angelita relata que o Sr. Carlos se aproximava, mas os desistentes da vida se mostravam hostis, até mal-educados, qual é, velho maluco?, tu é religioso?, fica na tua!, tudo aqui é uma droga, não tem medo, não?

O Sr. Carlos D. Ventura lembra-se bem. Ela não caiu, ninguém a jogara. (Por que insistir em mentiras? Auto-engano? Por que não aceitar?) Ela se jogara e ele não pudera evitar. Não parou a tempo. Por que logo diante dele? Por que envolver o Outro em nossa morte? Um espetáculo aos Anjos que observam a morte alheia? Morremos sorrindo para o Outro? Um trágico espetáculo para uma notícia de meia coluna na página de ocorrência policiais e outras tragédias urbanas ? Para um obituário em tons líricos? Então, diga-me, por que o sorriso?


Nov/04


Leonardo de Magalhaens

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quarta-feira, 13 de junho de 2012

O mundo é um belo lugar - Lawrence Ferlinghetti



Lawrence Ferlinghtetti


O mundo é um belo lugar

The world is a beautiful place


O mundo é um belo lugar
onde se nascer
se você não se importa
com felicidade
não sendo sempre
muito o divertimento
se você não se importa
com uma pitada de inferno
vez ou outra
apenas quando tudo está ok
pois mesmo no Céu
eles não cantam
o tempo todo

O mundo é um belo lugar
onde se nascer
se você não se importa
com algumas pessoas
morrendo
o tempo todo
ou talvez famintas
algum tempo
que não é meio ruim
se não é você

Ó o mundo é um belo lugar
onde se nascer
se você não se importa muito
com umas pouco mentes mortas
nos lugares mais altos
ou uma bomba ou duas
vez ou outra
em suas faces viradas
ou algumas impropriedades
como nossa sociedade
chamada admirável
é presa para
com seus homens de distinção
e seus homens de extinção
e seus padres
e outros homens da patrulha
e suas várias segregações
e investigações do congresso
e outras constipações
que nossa pobre carne
acaba herdando

Sim o mundo é o melhor lugar de todos
para um monte de coisas como
fazer cena cômica
e fazer cena de amor
e fazer cena triste
e cantarolar canções
e ter inspirações
e andar por aí
olhando tudo
e cheirar as flores
e beliscar estátuas
e mesmo pensar
e beijar as pessoas e
fazer bebês e vestir calças
e agitar chapéus e
dançar
e ir nadar nos rios
em piqueniques
no meio do verão
e em geral apenas
'vivendo isso aí'
Sim
mas então bem no meio disto
vem o sorridente

agente funerário




trad. livre : LdeM



...

The world is a beautiful place

The world is a beautiful place
to be born into
if you don't mind happiness
not always being
so very much fun
if you don't mind a touch of hell
now and then
just when everything is fine
because even in heaven
they don't sing
all the time

The world is a beautiful place
to be born into
if you don't mind some people dying
all the time
or maybe only starving
some of the time
which isn't half bad
if it isn't you


Oh the world is a beautiful place
to be born into
if you don't much mind
a few dead minds
in the higher places
or a bomb or two
now and then
in your upturned faces
or such other improprieties
as our Name Brand society
is prey to
with its men of distinction
and its men of extinction
and its priests
and other patrolmen
and its various segregations
and congressional investigations
and other constipations
that our fool flesh
is heir to


Yes the world is the best place of all
for a lot of such things as
making the fun scene
and making the love scene
and making the sad scene
and singing low songs and having inspirations
and walking around
looking at everything
and smelling flowers
and goosing statues
and even thinking
and kissing people and
making babies and wearing pants
and waving hats and
dancing
and going swimming in rivers
on picnics
in the middle of the summer
and just generally
'living it up'
Yes
but then right in the middle of it
comes the smiling

mortician


Lawrence Ferlinghetti








quinta-feira, 17 de maio de 2012

O OUTRO - conto



O OUTRO


Quando recebeu a carta, aquele envelope de aspecto formal, o Sr. Antunes tratou logo de abrigar o papel na maleta, visto a pressa com que girava a chave no portão e abria a porta do carro, com as rodas dianteiras já caídas na sarjeta, esforçado-se para sorrir e ser simpático ao carteiro, “Bom dia, seu Buarque!”, ao lembrar de quase uma década de residência e serviços.

leu a carta no escritório. Quando Edwiges chegou, logo aprontou o café e pediu leite e torradas pelo delivery da padaria. Sempre eficiente a Edwiges. quanto tempo em tão prestativo serviço? O Sr. Antunes nem fazia contas, mas considerando-se os quase dez anos de advocacia, independente, emcarreira solo, como dizia em amplo sorriso. Na verdade, o Sr. Antunes se livrara dos sócios, os sucintos e sisudos Srs. Albertini e Garcia Melo, e da esposa, a graciosa e ambiciosa, Sra. Marta Gouveia Tavares de Aguiar.

Abriu o envelope, junto com correspondência do escritório, enquanto a Sra. Edwiges servia o café-com-leite, muito de sua preferência. O texto da missiva muito o surpreendeu, tratando-se de uma correspondência formal expedida pela Marinha, especificamente o Departamento de Pessoal da Marinha, sediada na bela e atlântica cidade do Rio de Janeiro, da qual o Sr. Antunes guardava recônditas saudades do seu tempo de estudante, seu contato com as lindas morenas de doce boêmia.

O que dizia o texto? “Através desta mui agradecemos ao Sr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar, por seu interesse e suas propostas quanto ao funcionamento do nosso quadro de pessoal, no tangente às reformas trabalhistas, tal podemos constar em seu artigo publicado em O Globo, de fins de março, artigo este muito elogiado pelo Almirante e distribuído aos demais oficiais, que muito louvam a sapiência e bom-senso do articulista.” E seguia com formalidades. O que muito arrepiava o Sr. Antunes.

Em arrepios, degustava o café-com-leite, reclinado em sua cadeira, e girava a caneta reluzente nos dedos da mão esquerda, a pensar, sim, profundamente pensar. Quando enviara algum artigo ao jornal O Globo do Rio de Janeiro? Em fins de março? Isto é, há quase dois meses atrás. Mas já se esquecera? Andava assim com a memória tão fraca? Era coisa de procurar um médico, não? E conferia a carta e revirava o envelope e lá está o Ministério e lá está a Marinha e lá está o seu nome “Ao Ilmo. Sr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar, Belo Horizonte”, e questões, muitas questões.

Desde quando escrevia sobre questões trabalhistas da Marinha? A sua linha não era mais patrimonial, coisa de alvarás, escrituras, termos de ocupação, ordens de despejos, coisas totalmente civis? Por que lhe vinha logo agora essa de escrever sobre assuntos militares? Ainda que só referindo-se à questão de quadro de funcionários, nada de táticas e afins, que disso ele realmente nada entendia, com sua formação modesta no serviço militar, e o que seria? Loucura? E essa de Rio agora? Não tinha uns dez anos que ele abandonara o calçadão e a baixada? E quando fora as últimas férias? A um ano e meio, não? Ainda com a megera da Marta! Contorceu-se numa careta e reclinou-se, afundou-se na cadeira.

Foi a Sra. Edwiges quem o resgatou naquela vertigem. Indagava, como quem não muita importância,Dona Edwiges, escute aqui. Me esclareça. Eu cheguei a enviar algum artigo para um jornal do Rio, a saber, o Globo? Que eu me lembre..., e a secretária se voltava,Não senhor Doutor, não que eu me lembre. Mas posso consultar os arquivos. O senhor Doutor não guardou um recorte quando saiu o jornal?Sim, muito inteligente e prática, a Sra. Edwiges! Claro, o Sr. Antunes é (ou depois dessa, devamos chamar Dr. Antunes) é um tanto vaidoso, e nunca se preocupou em ocultar,Modéstia é coisa de vaidoso!, e fazia questão de guardar, numa pasta específica para este fim, uma série de recortes de artigos que saíam nos jornais locais e nacionais (não ainda os internacionais, hélas!, mas ele não tinha tamanha pretensão) E a Sra. Edwiges retorna a dizer nada ter encontrado.

Continuou abrindo mecanicamente o restante da correspondência, toda agora com assuntos do escritório, embargos em obras, prédio com riso de desabamento, um novo loteamento na zona sul, a planta de uma mansão no Belvedere, outras pendências judiciais, e um bocejo. Não prestava atenção. Seu olhar caía vez ou outra no formal envelope da Marinha, onde a secretária do Almirante F. elogiava um artigo sobre. Bem, já sabemos. O Dr. Antunes é que se perde em conjecturas. Que é estranho é. Coisa de nomes parecidos? De repente, um outro Dr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar. Por que não, ora? Mas era muita coincidência! Existia coincidência? E com o mesmo endereço? Mas e se procuraram no catálogo telefônico e lá estava o seu nome e endereço e de pronto enviaram a correspondência sem maiores averiguações, como ele imaginava de praxe em ambientes burocráticos.

O Dr. Antunes nada sabia sobre a Marinha. Nunca adentrara um navio, nunca vira, aliás, uma vez só, quando passeara no porto de Santos, mas antes de morar no Rio, quando do mestrado. E suas preocupações não incluíam navios, antes uma certa, digamos, companhia. Ruborizando-se, o Dr. Antunes se esforça para desviar o pensamento das coxas nuas daquela morena. Volta a vasculhar o envelope, “Ao Ilmo Sr. etc etc” e não acreditava.

Igual daquela vez, que voltando ao Rio, um amigo de tempos de outrora, jurava ter visto seu vulto branco e lusitano num boteco lá pros lado dos Arcos da Lapa. Impressão? Mas insistia que Antunes andava dando suas escapadinhas na noite boêmia. O que muito irritou o Dr. Antunes, já a imaginar um sósia, um irmão gêmeo, que desconhecia, coisas assim, de romances fantásticos. O que fazia ele num boteco pros lados da Lapa? Estaria acompanhado? E deixou-se imaginar a cena de estar ali com uma morena de traseiro farto e peitos à mostra, ou quase. Ah, fantasias!

Cuidemos do trabalho! E passava a leitura do alvará de um terreno e da escritura a tal mansão outrora citada e deixou assim escoar boa meia hora. E essa da Lapa? Só se estivesse morando ainda no Rio! Nas noitadas, época em que dera um tempo com Marta. Viviam em brigas. Daí ele pensar no mestrado. E não é que quando se separam no definitivo, ele tirara um tempo para aprender noções de informática? Uma das morenas ele, o Dr. Antunes, conhecera no Orkut, e que dona Edwiges não o surpreendesse usando o computador do escritório para semelhantes “inutilidades”. Loira, alta, aristocrática, ainda que secretária humilde, dona Edwiges nunca o perdoaria, “Até o senhor, Dr. Antunes?” e diria que os homens realmente não prestam, até porque estava igualmente separada do marido, há dois anos, devido à flagrante traição. Ah, mas o que isso importa? Sua mente já delirava?

Sim, estaria um boteco da Lapa se morasse no Rio. Se estivesse no Rio? Sempre o “se” ou “se”, sempre a dúvida! Se eu estivesse no Rio o que estria fazendo hoje em dia? Hein? Responda rápido! Certamente trabalhando com o Renan. Sim, o seu amigo daqueles tempos. O mesmo Renan que lhe apresentações diante do sujeito que insistia porque insistia que o honesto Dr. Antunes estava em farras lá pros lados da Lapa! Isso, certamente, se estivesse vivendo no Rio! E sem a mulher. E aí então seria outro! Por que não ficou no Rio? Ora, por que? Por causa do Garcia! Que montou o escritório, junto com o Albertini. Um nas causas trabalhistas, e o outro na administração, assessoria para empresas, as pequenas que serão grandes negócios!

Certo, certo. Era isso. E quando o abordaram sobre um difícil caso trabalhista e ele não entendeu. Por que ele? E não resolvera nada. Entregou para o Garcia. Que se virasse. Mas o Renan é que entendia de trabalhistas. Ei, se estivesse com o Renan, então certamente! Mas o telefone tocou e parecia um badalar de sinos! Sorte era a dona Edwiges ter atendido e resolvido. A cabeça do doutor não estava para estas coisas, “O senhor anda muito estressado, seu Antunes.”, a secretária dizia, maternal.


Mas era isso! Ele, o doutor Antunes, nas trabalhistas! Quando? Ora, se antes tivesse se agarrado ao Renan igual um mexilhão a sua crosta! E Renan não tinha trânsito dentro dos Ministérios, no governo estadual, certamente? E encheu a xícara de café e desistiu do leite. Tentou lembrar-se se estava acompanhado quando passeava na Lapa. Já começava a sentir-se como o ‘outro’ Antunes.


Mar/07


Leonardo de Magalhaens

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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Lição de Poesia




Lição de Poesia

(a morte do autor?)



Qual o nome da amante de
Baudelaire?

Qual a fantasia erótica de
James Joyce?

Qual o nome da fiel esposa de
Machado de Assis?

Quantas namoradas teve o
sedutor Kafka?

Quantas virgens pálidas roubaram
o coração do funesto
Edgar Allan Poe?

Qual a igreja frequentada por
Murilo Mendes?

Qual o toureiro predileto de
João Cabral ?

Quais as fobias aninhadas
no olhar de
Paul Celan?

Qual o nome da amante de
Elizabeth Bishop?

Qual era a puta favorita de
Bukowski ?

Qual era a cor favorita de
Rimbaud?

Qual era o prato favorito de
Ferreira Gullar?

Qual o cemitério frequentado
por Augusto dos Anjos?

Quantas foram as virgens pálidas de
Álvares de Azevedo?

Qual a bebida favorita de
Mallarmé ?

Quais os livros prediletos de
José Paulo Paes?

Quantas musas deitaram-se
na cama do poetinha
Vinicius?

Quais as ruínas favoritas de
Octavio Paz?

Quais as propriedades de
Lord Byron?

Quantos maridos teve
Hilda Hilst?

Em quantas casas repousou
o errante Shelley?

Quantos rouxinóis cantavam
no jardim de
John Keats?

Quantas estrelas brilhavam
à janela de
Olavo Bilac?

Qual o suspensório predileto de
Haroldo de Campos?

Qual o time favorito de
Waly Salomão ?

Em quantas ilhas viveu o
oceânico Neruda?

Quantas lilases desabrocharam
no jardim de
W. Whitman?

Quantas pessoas eram o
poeta Pessoa?

Qual o chá predileto da
meditativa Emily Dickinson?

Qual a cachaça predileta de
Carlos Drummond ?

Qual o boteco frequentado por
Mário Quintana?

Quantas lesmas habitam
o pantanal de
Manoel de Barros?

Quantas crises depressivas derrubaram
Leopardi?

Quantas pulgas sugaram
o sangue pútrido de
Lautréamont?

Quantas gravatas nas
gavetas de
Castro Alves?

Quantas fotos revelam
o olhar contemplativo de
Sylvia Plath?

Quantos garotos de São Paulo
possuíram o xamânico Piva ?

Quantos mancebos suspiraram
pela beleza de
Cecília Meireles?

Quantos curiosos leram
as cartas íntimas de
Ana Cristina César?

Qual, Quais,
Quantos, Quantas, etc





abr/11



Leonardo de Magalhaens

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quinta-feira, 3 de maio de 2012

2 poemas de William Carlos Williams





William Carlos Williams



As Árvores Botticellianas

O alfabeto das
árvores

vai desmaiando na
canção das folhas

as hastes cortadas
das finas

letras que escreviam
inverno

e frio
foram iluminadas

com
pontas de verde

pela chuva e o sol -
As regras simples

e estritas dos ramos
retos

vão sendo alteradas
por ses de cor

pinçados, por cláusulas
devotas
os sorrisos de amor -

..


até as frases
desnudas

se moverem como braços
e pernas de mulher sob o tecido

e em sigilo o louvor
entoarem do desejo

e do império do amor
no estio -

No estio a canção
canta-se por si

acima das palavras surdas -


trad. by José Paulo Paes


nota: Sanzio Botticelli é um pintor italiano da época
da Renascença europeia, séculos 15 e 16.

...

The Botticellian Trees
(1931, 1934)

The alphabet of
the trees
is fading in the
song of the leaves
the crossing
bars of the thin
letters that spelled
winter
and the cold
have been illumined
with
pointed green
by the rain and sun --
The strict simple
principles of
straight branches
are being modified
by pinched-out
ifs of color, devout
conditions
the smiles of love --
. . . .
until the stript
sentences
move as a woman's
limbs under cloth
and praise from secrecy
quick with desire
love's ascendancy
in summer --
In summer the song
sings itself
above the muffled words --





William Carlos Williams




A Duração

Uma folha amarfalhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.


trad. by José Paulo Paes

..

The Term


A rumpled sheet
Of brown paper
About the length

And apparent bulk
Of a man was
Rolling with the

Wind slowly over
And over in
The street as

A car drove down
Upon it and
Crushed it to

The ground. Unlike
A man it rose
Again rolling

With the wind over
And over to be as
It was before.






William Carlos Williams

...