terça-feira, 17 de abril de 2012

sobre 'Embarcações' e 'A Singradura do Capinador' - de Luís Serguilha




Sobre as obras Embarcações (Ausência, 2004) e
A Singradura do Capinador (Indícios de Oiro, 2005)
do poeta Luís Serguilha (Portugal)


o transbordar contínuo das palavras do vertiginoso excesso

É com estes sinais abrasadores de cisternas fracturadas
que imoderadamente enamoro as arcadas sulfatadas da
invenção” (Embarcações)

Ofereço-lhes o texto que escrevo, ignoro se o entendem,
como ignoro se a minha presença activa bate asas como
a borboleta que causa um tufão sobre o Pacífico”
(Maria Gabriela Llansol, Anagnoses)

A maldição de pensar fez suas vítimas: em minha geração,
vi muitos poetas se transformarem em críticos, teóricos,
professores de literatura.”
(Paulo Leminski)


A necessidade fremente de deixar transbordar sentimentos nas palavras que compõem o léxico de idiomas, que podem se metamorfosear em vocábulos líricos, tem motivado os poetas e as poetas por toda uma história literária e performática com uso abundante de verbetes inacessíveis aos incautos e terminologias repassadas aos neófitos que se deixam mesmerizar por pseudo-verdades repassadas de geração a geração mas sem nenhuma validade metafísica ou demasiadamente física.

Congregadas por semânticas ou sonoridades nos bailados de sentido e de ritmo, as palavras vem e vão sobre a página ao pulsar dos olhares de leitores embasbacados a perder o fôlego num sem rumo de leituras que o próprio versejar promove ao não limitar as múltiplas interpretações em diferentes e bifurcados níveis de leitura.

Linearmente limitadas cerceadas em teses dissertações monografias memorandos ofícios bulas atestados de boa conduta et cetera, as palavras se prendem num nível de significação a perder todos os outros níveis de leitura e deixando um saudosismo da pluralidade de sentidos que somente o poeta é capaz de captar no mar de vibrações sonoras que poluentemente nos envolvem.

Aqui graficamente o estilo de Luís Serguilha, com fluxo de versos a se espalhar a se disseminar na página, vem lembrar o estilo de Vladimir Maiakóvski, o futurista russo que cantou e sofreu a Revolução Russa de 1917, inovador ao aproveitar todo o espaço onde se desloca o olhar para distribuir a cascata de versos que não se limitam mas se interceptam se interdigerem a se imiscuir em significados uma das outras, a dinamitar as algemas das definições lexicais.

O Estilo poema em prosa ou prosa em verso de L Serguilha deixa-se fluir num excesso de conectivos no/na/s ou do/da/s a costurar sequências seguimentos cadências de substantivos mais adjetivos mais advérbios terminados em -mente, num aprisionamento de palavras com sonoridade afins, proparoxítonas esdrúxulas, em sentidos diversos, antagônicos dissonantes.

É preciso fôlego e tolerância lírica para navegar nas Embarcações (Emb)poéticas de poemas prolixos caudalosos de Luís Serguilha a despejar um vasto vocabulário que desafia o leitor a armar-se de um bom dicionário vulgo pai-dos-burros para servir de bússola e astrolábio nas navegações onde as conceituações típicas de surrealismo e cubismo e expressionismo se perdem nas várias imagens simultâneas e sem sentido sem nexo além da própria expressão vertida do poeta assim nesta “ameaça de incomunicabilidade”, onde o poeta enfrenta o silêncio no emaranhado dos discursos para tecer considerações metafísicas sobre a linguagem como possibilidade se localizar enquanto ser no mundo,

O silêncio enlaça-se na amamentação do abismo para
escriturar uma estrutura ininterrupta debaixo da subversiva folhagem
(Emb, p. 162)

A celebração da homogeneizada fragilidade rumoreja no
fenómeno multiplicado da hibernação
onde a conveniência das distâncias sobrevive à descompostura
nostálgica da sensualidade
que amanhece no écran oceânico dos rostos
(Emb, p. 116)

Caminhamos exaustos na profecia tumultuosa da planície
albergando distraidamente
a regeneração das orquídeas no asilo feliz do sol
(Emb, p. 141)

Partimos como pianistas enrolados nas sentinelas dos ecos
desejando o alarme incorrigível das estrelas marítimas
Filtramos as irreconciliáveis lavanderias das construções
sobre as delicadíssimas transmutações dos astronautas
(Emb, p. 144)

As embarcações desnecessárias bebem as expectativas
dos hospitais crepusculares
que formulam as coincidências dos sulcos
entre os pomares inexplorados do deserto
(Emb, p. 155)

Isto tudo porque somos a iniciação fértil das coincidências dos lábios
tempestivos
Isto tudo porque os parágrafos fluviais das árvores órfãs
evitam sinuosamente
os jarros impudentes do frontispício solar
(SC, IX, p. 42)


Meio ao discurso verborrágico, nas reações em cadeia de palavras e metáforas, podem se destacar as pérolas líricas onde as imagens poéticas as figuras de linguagem podem alçar voo das páginas amontoadas de símbolos signos significados onde o poeta precisa “perder a dor minuciosa da escrita para recortar os subterfúgios das raízes sonolentas”, e as pérolas líricas surgem dispersas dentro das ostras encadeadas no esforço do transbordar de signos enleados por afinidades lexicais ou sonoras ou desafinidades de semântica, ou seja,

A cavalgada confiante dos dedos eleva-se na breve luz
das árvores desocupadas
onde a desordem inteligente dos enxames fecha precisamente o
glossário tacteado da alegríssima seiva
(Emb, p. 111)

A fisionomia dos terraços regulam a particularidade das alfaias
abandonadas
onde o trote brilhante dos castanheiros alisa o desarme das estações
metamorfoseadas
(Emb, p. 131)

Os pássaros dissimulados entre as palhetas de sol
parecem lavradores a simplificarem
a orientação dos minúsculos helicópteros no rumor incestuoso das
manhãs
(Emb, p. 136)

A contradição latente das flores apercebe-se do estremecimento
remotíssimo das maxilas de terra
manejadas delicadamente
pela realeza cinzelada nos convés das
indeterminadas vegetações
(Emb, p. 147)


O marfim dos alvos atravessa a lembrança majestosa dos poentes-suicidas
como uma projecção de interruptores das colinas
sobre os mensageiros dos liquenes dos animais
modulando imperceptivelmente
a milenar batedura dos olhares sonhadores
(SC, VI, p. 35)

O sol e ópio das metáforas deleitam o recolhimento dos anéis aquáticos
na mobilidade contrária às hélices dos corações exóticos
(SC, VIII, p. 41)

Os solitários voos lançam-se nos vacilantes tronos das savanas
onde as preguiçosas combustões encrespam os gracejos
furtivos das pálpebras
(SC, XI, p. 47)

Os amantes inventam as acanaladuras das ginjeiras
sobre esquecimento isolador das cavernas
para consumirem os liames das transparências
entre as descobertas estonteantes dos girassóis
(SC, XIII, p. 56)

como lençóis nebulosos a engrandecerem as teias anatómicas do tempo
(SC, XXII, p. 82)

Um coração selvático estilhaça-se nos mastros tocadores
das pastagens antropológicas
para compartilhar o mistério redondo das constelações
(SC, XXIV, p. 90)

onde o tear mutante do oceano restaura a verdadeira morada dos amantes
(SC, XXXVII, p. 120)


Onde as descrições se perdem e se encontram nos entrechoques de imagens metafóricas e intercaladas simultâneas de registro verbal de evento pictórico assim um crepúsculo recriado pela linguaguem em torvelinhos na página 137 de Embarcações,


Partimos nos desenhos hidráulicos dos pintassilgos
que entrechocam pacientemente nos
suicídios da luminosidade
remodelando os cotovelos desastrados das cidades
sobre as tesouras das lavagens ainda amarelas
são nuvens de aveia estremecendo num dicionário de silêncios
como transitórios e esbeltos muros no interrogatório ambicioso
dos poentes
são ensaios intraduzíveis das adormecidas algas
sobre o ensinamento decisivo das lutas crepusculares
equivalentes aos aposentos subtraídos dos xistos
perpetuamente desalinhavrados


ou na página 69 de Singradura do Capinador,

As constelações dos pássaros beligerantes ponteiam perfeitamente
a congruência dos grãos das fortalezas
como a colagem musical das casas caleidoscópias a invadir as manobras
geométricas das rendilheiras
sobre a consciência silenciosa das amplas bússolas


Um excesso de imagens certamente a criar uma vertigem cinematográfica sinestésica de movimentos em caleidoscópios, pois “a sublimidade dos pormenores cinematográficos mergulha nas engrenagens dos divãs aéreos para trespassar serenamente a consonância inominável dos intérpretes”,

As arquitecturas velocíssimas das antenas verdes
derramam demoradamente
as curvaturas dos pássaros convulsivos
até ao equador alternativo
das guitarras selvagens
(Emb, p. 99)

As atléticas borboletas cultivam o êxtase azulado do florescimento
sobre a fidelidade reajustada das rodas de resina
e as bagagens dos pássaros citadinos
equilibram prodigiosamente os cruzamentos
do lugar claro
na disponibilidade da veterana chuva
(Emb, p. 104)

O zumbido do sangue projecta-se depurado na nulidade da labareda
para reavivar as ligações das fábulas nas
épicas cacimbas solares
que recompõem internamente
os forros astronómicos da periferia fluvial
(Emb, p. 113)

as laborações das sílabas flamígeras das colinas
como a dramaturgia a prumo fluindo
sobre os abastecimentos quotidianos das janelas
alucinadas
(Emb, p. 124)

As frontarias febris dos veios terrestres cambaleiam
para desordenarem as pupilas dos rouxinóis das laranjeiras
(SC, XXII, p. 85)

As cores prodigiosas dos insectos abençoam as exaltações das maçãs
na confluência do fogo
é aqui que a impressão necessária da água soergue
os exercícios enigmáticos das finíssimas armaduras
(SC, XXX, p. 99)



Imagens sensuais eróticas insinuantes podem se ocultar no meio de semelhante palavreado a distrair nossa atenção do que realmente importa, “convivências das bocas” “ancas felizes” “convicções soalheiras dos lábios” “orlas morenas do sexo” “seios esplendorosos” “fenda voluptuosa” “reavaliadas coxas” “desfiladeiro caudaloso das coxas” “maçãs disciplinadas dos beijos” “docemente um umbigo desnudado inclina-se na recompensa instantânea dos trigais” a comporem um mosaico de sensualismo disperso que parece estar nos bastidores de todo o fluxo jorrante de verbetes pretensamente desconexos, “a cavidade dos espasmos” “cópulas dos fogos rasteiros” “anarquismo da pélvis universal” “sede propulsora dos ovários” “parapeitos genésicos as mulheres tântricas” tudo embolado interpenetrado a lembrar aquelas imagens dos templos indianos com miríades de posições sexuais orgiásticas de kamas sutras e afins.

Os talos nocturnos anotam genialmente o
vidro do desregramento na crispação da voz
e nas procurações das mãos passam contrafortes de
formigueiros cheios de oprimidos canaviais
a confessarem principalmente
a voluptuosidade do incêndio azul
sobre a fascinação sobreviente da invadora jangada
(Emb, p. 108)



Nos parapeitos genésicos as mulheres tântricas discutem a imperfeição
dos ciclos das piruetas lunáticas
que vaticinam os sismos das arquicteturas pélvicas
sobre as resinas capitosas das pálpebras

(SC, XII, p. 49)


Intercaladas percebem-se as várias leituras possíveis de determinados trechos em diferentes disposições tabulações na página em exemplo que destacamos em Singradura do Capinador (SC, p. 23),

1 A orquídea cósmica reúne minuciosamente os imponentes
2 amparos da livre plumagem
3 para inclinar os lábios purificados da cidade-desembarcadouro
4 na preciosidade da momentânea tempestade
5 e a demarcação esplendente das rosáceas enfeitiça a fertilização
6 dos golpes equilibrados nos profundos inventários das mós atlânticas
7 onde as cortinas inenarráveis dos úteros se contraem sonoramente

onde são possíveis as leituras pelas tabulações semelhantes onde seguimos a sequência 1 + 3 + 5 + 7 em leitura paralela a sequência 2 + 4 + 6 e ambas criam sentidos significações textuais diversas e assim por diante, p. 52,

1 As barbatanas mágicas bamboleiam nas garatujas dos ventos
2 para atrelarem os colares da abstracção às fulvas campânulas
3 das hospedagens
4 onde os estandartes aspiraram fortemente os percursos escarpados
5 das chuvas
6 como montanhas exaustas a manipularem as transferências das
disposições exóticas

e assim por diante, em experiências nas páginas seguintes, por exemplo a página 57, que eu deixo por conta do leitor, enquanto prosseguimos nas experimentações, nas páginas 58 e 59, com outras disposições de leitura, a lembrar os exemplos estudados por Roman Jakobson, de seleções e colagens de eixo sintagmático e de eixo paradigmático, segundo uma nomenclatura de Saussure, aqui citamos

A seleção é produzida sob a base da equivalência, da similaridade e dissimilaridade, da sinonímia e antinonímia, enquanto a combinação, a construção da sequência baseia-se na contiguidade. A Função poética projeta o princípio de equivalência do eixo da seleção para o eixo da combinação. A equivalência é promovida a fator constitutivo da sequência.” (citado em “Bakhtin e O Formalismo Russo” de C. Tezza, 2003)

no/na/s + substantivo* + do/da/s + substantivo (*ou substantivo + adjetivo + adjetivo ):

que se debruça nos vestíbulos aniquilados
nas escaleiras distantes das artérias
nos casebres incessantes das praças......

ou repetição de sequência + verbo + substantivo + adjetivo + do/da/s + substantivo:
O esforço do fogo volátil ordena a indolência calamitosa das árvores
O esforço do fogo volátil desenraiza as irregulares fisionomias das perguntas....

ou na página 63, com o esquema

onde o/a/s + substantivo + do/da/s + verbo + substantivo + do/da/s + substantivo:

onde as grainhas dos pássaros cinzelam as cabeças das vegetações
onde as passagens dos diademas possuem os orgasmos
dos insectos nómadas
onde o vértice estancado das estrelas improvisa as analgias.....

sem contar que o Eu Lírico está sempre a relembrar ao Leitor que tudo se trata de um universo auto-referente nos metalinguísticos dizeres de “a fuga arquitetural das palavras” “as engrenagens das línguas” “as abóbadas auspiciosas das línguas” “os nervos elípticos das metáforas” “o lirismo redemoinhante dos fósseis” “os sinónimos árcticos dos veleiros-parábolas” a situar o derrame de palavras enquanto poesia no próprio plano discursivo de estar vertendo poesia onde o artesão revela as tessituras exibindo sua arte onde a poesia é recuperação sonora é oralidade despejada pois “os músculos da canção são amorosamente flagelados” e “onde o colóquio tentacular do guitarrista se metamorfoseia no adágio altíssimo das travessias

Eis as várias leituras em níveis escalonados na página em branco graficamente farta e inchada nos possíveis e impossíveis níveis de leitura de um 'lance de dados a não abolir o acaso' de um prestidigitador Mallarmé, a brincar com signos e significados, lutando 'a luta mais vã' com as palavras, disposto, tal um Drummond, a viver e morrer pela literatura em glória e vã-glória.


Obviamente que tais departamentalizações são meramente didáticas, pois o lírico o existencial o erótico o discursivo o semântico e o hermético estão lado a lado nos cataclismos da linguagem em cascata de sons e sentidos a pavimentarem estradas de sonhos para as famigeradas imagens poéticas tão ansiadas pela cosmovisão lírica de Octavio Paz a exaltar a 'primivitividade' dos signos na fala do poeta da poeta que resgatam o idioma primevo da palavra plurissignificante.

Seja poema em prosa ou prosa poética, o Estilo de L Serguilha mostra-se apto a emaranhados de sentidos na leituras possíveis ao mesmo tempo em que deve certamente ironizar a falação contemporânea o excesso dos planos discursivos as encenações verbais que não passam de retórica com suas palestras verdadeiras quedas d'águas de belos floreamentos verbais a dizerem absolutamente nada.

Querendo ou não, consciente ou não, a Voz Poética desvela o sem-sentido das verborragias cotidianas nos conceitos traçados sobre os interlocutores num jogo encenado de interlocução ou de comunicação ou de dialogismo como bem queriam um Saussurre, um Bakhtin, um Habermas ao demonstrarem de forma integral os níveis de interação entre os enunciados e os enunciadores, entre os remetentes e destinatários que se reconhecem interpenetrados pelo mesmo universo simbólico quando usam -- e também são usados -- pelas palavras.


Embarcações” (2004)
A Singradura do Capinador” (2005)


LUÍS SERGUILHA nasceu em 1966 em Vila Nova de Famalicão, Portugal. Poeta e ensaísta, suas obras são: O périplo do cacho (1998), O outro (1999), Lorosa´e Boca de Sândalo (2001), O externo tatuado da visão (2002), O murmúrio livre do pássaro (2003), Embarcações (2004), A singradura do capinador (2005), Hangares do Vendaval (2007), As processionárias (2008), Roberto Piva e Francisco dos Santos: na sacralidade do deserto, na autofagia idiomática-pictórica, no êxtase místico e na violenta condição humana (2008), estes últimos em edições brasileiras. Seu livro de prosa intitula-se Entre nós, de 2000, ano em que recebeu o Prémio de Literatura Poeta Júlio Brandão. Participou em vários encontros internacionais de literatura e possui textos publicados em diversas revistas de literatura no Brasil e em Portugal, além de outros trabalhos traduzidos em língua espanhola e catalão.


fev/mar/10
(revsd: abr/12)
 

por leonardo de magalhaens


Leonardo de Magalhaens (Leonardo Magalhães Barbosa), 34 a., é belorizontino, é escritor e tradutor, escreve e traduz desde os 15 anos. Tem engavetados três volumes de poesia e três volumes de contos, além de dedicar-se a um ciclo de romances em seis volumes.

Tem divulgado sua contribuição ensaística de crítica literária, se especializando em autores vivos, demasiadamente vivos.

Participa como poeta oficineiro no Pão e Poesia nas Escolas, projeto criado pelo poeta Diovani Mendonça, que leva oficinas de sensibilização poética para alunos em escolas, no Barreiro / BH e Brumadinho, em parceria com a V & M do Brasil.

Atualmente persiste no curso de Letras na FALE/UFMG, com ênfase em Literatura Brasileira - Poesia.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Entrevista com o filósofo Rodrigo Starling (parte 2)



Entrevista Pão e Poesia

com o filósofo Rodrigo Starling


autor do livro “2050 – Voluntariado e Sustentabilidade”

março 2012, em Belo Horizonte / MG


temas: Terceiro Setor – Voluntariado – Ecologia


Parte 2

RS: Exatamente. Nada de filantropia, mas autonomia. Mas uma questão muito forte de 'solidariedade', no sentido primeiro lá de Auguste Comte, Solidariedade como propensão a Estar junto para cooperar. Mas cooperar com que? Então eu ouso falar que é cooperar com o espaço social, com a sociedade como um todo. Isto inclui cidadãos ativos que exercem direitos e deveres, não só pessoas que queiram cobrar do Estado, ou xingar o Estado , mas que queiram participar ativamente das decisões, nas questões.

Então o trabalho nesta Ong foi muito bom. Comecei como secretário em 2006, em 2007 eu assumi o cargo de Diretor de Desenvolvimento Institucional. Em 2008 conseguimos formar uma rede muito forte, chamada Rede Mineira do Voluntariado Transformador, era uma rede que já nasceu forte, pois nasceu dentro do COEP, que foi fundado pelo sociólogo Herbert de Souza, em 1993, e o VIDES, esta Ong na qual eu participava já era integrante do COEP. E ali estavam o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, parceiros da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Furnas Centrais Elétricas, ou seja, empresas fortes que tinham condição de puxar o movimento.

Puxamos a Rede Mineira, e conseguimos emplacar, escrever uma política pública, chamada Política Estadual de Fomento ao Voluntariado Transformador, e em tempo recorde, esta é a nossa alegria, ela foi sancionada pelo então Governador [de MG] Aécio Neves. O tempo da formulação até a aprovação não durou mais que três meses, o que é motivo de orgulho, pois sabemos que as leis costumam demorar muito mais, as votações, as pautas, entram e saem do congresso por interesses outros, políticos.

E a nossa lei foi um furacão, foi avassaladora, passou em todas a comissões, rapidamente, foi aprovada em 08 de janeiro de 2010, esta Política Estadual de Fomento ao Voluntariado Transformador. E o voluntariado transformador, com esta qualificação, não tinha ainda nenhuma conceituação. Nós jogamos isso na internet, inglês e português, não tinha nenhum termo, nós criamos então este termo, do voluntariado transformador, como falei anteriormente, ele se diferencia do voluntariado comum, do assistencialismo, e emplacamos esta lei.

LdeM: Como você chegou a gênese deste novo livro, do '2050', como desta prática você fez um link para 'vou escrever um livro sobre' ?

RS: Então o grande link foi o seguinte: depois da lei aprovada, e tudo o mais, nós percebemos que para as coisas funcionarem precisamos de uma vontade política e uma vontade cidadã. A vontade política é aquela também ligada a cidadania, mas muito mais ao jogo de interesse, onde a questão financeira, empresarial entra forte, pesada; e as questões cidadãs são o envolvimento de pessoas, cidadãos comuns, mas que queiram pressionar estes organismos, sejam eles empresas ou governo. Ou seja, a sociedade civil organizada. Então as Ongs aparecem na minha vida, de novo, de uma forma forte e expressiva.

A ideia de escrever o livro “2050 Voluntariado e Sustentabilidade” surge do seguinte: tanto a palavra voluntariado, no Brasil, quanto sustentabilidade são muito mais ditas do que compreendidas. Elas viraram 'modismos'. O voluntariado sempre como uma 'coisa boa', as pessoas se envolvem nisso para salvarem suas almas, para prestarem contas à sociedade, estarem mais tranquilas com [suas] consciências. E não é isso. O real voluntariado transformador não é isso. E a sustentabilidade se tornou uma 'peça de marketing' muito perigosa, e ainda que algumas empresas façam realmente um bom trabalho, muitas outras não fazem. Então elas fazem marketing social, ambiental, travestido, como uma espécie de uma propaganda, mas não é ainda sustentabilidade.

Então por causa disso eu resolvi escrever um livro sobre os dois temas voluntariado e sustentabilidade. Pra quê? Para tentar contribuir a nível teórico, que depois se torna prático, como reflexão mais aprofundada que isso não é brincadeira. Tanto a ação solidária, o cidadão ativo que presta o seu voluntariado, quanto falar de sustentabilidade. Isso não pode ser uma coisa jogada ao léu.

Então optei por lançar o livro com este título “2050”. Por que? Porque o livro, lançado em 2011, ele tem no mínimo uns 38, 39 anos de existência. Ou seja, eu posso trabalhar com este tema, sem perder a validade, o livro está na estante, vai chamar a atenção até a data. Então a primeira coisa, eu tenho uma estratégia estética, para garantir mais leitores. Segundo: esta data foi escolhida, amparada por relatórios da ONU, mais especialmente do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – que lançou um relatório dizendo que se até 2050 nós não mudarmos as nossas atitudes, nós temos grandes chances de não ter condições de vida boas aqui na Terra: comida suficiente, água, transporte, moradia / habitação...

Então eu estou usando um alicerce muito forte, que são relatórios de pesquisadores do mundo inteiro, de cientistas mais renomados do mundo para abalizar a minha obra. Por que? Porque não podemos ser ingênuos de achar que jovens escritores vamos ser lidos e levados à sério simplesmente por boas ideias, ainda que sejam realmente boas, que você tem. Então eu tive este cuidado, com bastante humildade, de olhar para o passado, aprender um pouco com a História, a História tem sempre ensina a quem quer aprender, aprender com que ela tem a dizer, com mentes que eu considero mais inteligentes do que eu, estes cientistas, sociólogos, filósofos, mas dando a minha pitadinha de conhecer a realidade do Brasil.

LdeM: Então com este conhecimento você trabalhando agora na prática com empresa de consultoria. Poderia falar para nós... Starling Consultoria ? Falar sobre a marca, onde a gente consegue contato... Saber mais como funciona na prática leis de incentivo, como trabalhar de forma ecologicamente correta, onde possa encontrar, no Facebook , tem também, a sua página, contatos, links para o pessoal saber mais na prática como é o voluntariado.

RS: Sem dúvida. Então só complementando esta questão do livro. Ainda na organização italiana, em 2010, eu pedi demissão, participei de outra organização IGETEC, onde estou até hoje, que é onde organizamos o I Forum Internacional e o II Forum Nacional do Voluntariado Transformador, evento este onde foi lançado o livro, e que contou com a chancela do Ministério das Relações Exteriores, de nível Federal, do Governo do Estado de Minas, da Prefeitura de Belo Horizonte e, a mais importante, da ONU, por meio da sua Secretaria de Desenvolvimento Sustentável. E esse apoio foi muito importante porque mostrou que nosso idealismo e as estratégicas que nós utilizamos para chegarmos não só ao VIDES mas ao evento, foram bem vistas.

E na organização anterior, o VIDES, onde pedimos demissão, eu cheguei à Presidência em 2009, fiquei um ano na Presidência, em 2010 eu pedi demissão, por um único motivo, não por uma questão pessoal, mas ideológica, nós percebemos que a organização preferia trabalhar num nível mais restrito, e nós optamos por trabalhar num nível mais amplo, de envolvermos atores, que chamamos de stakeholders , atores envolvidos em qualquer atividade, geralmente econômica, mas são governo, empresa e sociedade civil, que precisa se concatenar.

Então resolvi, depois disso, me desligar do IGETEC formalmente, no sentido da carteira assinada, mas continuo sendo prestador de serviços, e montamos aqui a Starling Consultores Associados para trabalhar esta interface de questões culturais, sociais, ambientais e econômicas para o desenvolvimento da sociedade. O que fazemos? O que a Starling Consultores faz? Nós fazemos a elaboração e implantação de projetos em qualquer uma destas áreas. Trabalhamos num aspecto, que considero uma lacuna a nível de Brasil, que é a captação de recursos. Em qualquer lugar, onde esteja, em qualquer área, no setor econômico, social, ambiental, ou cultural, você precisa de recursos para realizar seus empreendimentos. Então fazemos isso, atuamos na captação de recursos. E ajudamos a formar mentes que sejam agudas, críticas e criativas na sociedade em que estamos. Aqui estamos para isso. E o fato de termos montado a empresa é para ter libertar para negociar em vários âmbitos, de transitar com tranquilidade, em nosso empreendimento.

Inclusive aproveito para convidar vocês que estão nos assistindo: parcerias! A parceria é a alma do negócio! Parcerias movem o mundo. E o tema central do livro “2050 – Voluntariado e Sustentabilidade” é resgatar a solidariedade como necessidade de comunhão com este grande universo, esta grande estrutura, que é a natureza, e as pessoas que aqui habitam: nós! Se você pensar bem, até o tecido da nossa pele é formado de uma solidariedade, de uma união espontânea de células... e assim é na natureza, e porque o homem quer fazer diferente, criar uma coisa própria, como disse Francis Bacon, torturar a natureza pra que ela lhe conte todos os segredos... não! Precisamos ser inteligentes o bastante para fazer um novo contrato natural com a natureza, essa é uma ideia de Michel Serres, filósofo francês, que eu trabalho fortemente no livro. Nós precisamos de ter um contato natural acima do 'Contrato Social' de Rousseau, já proclamado, de bem-estar aqui nesta terra a Starling Consultores, a nossa empresa, vem para isso, para boas parcerias entre os homens e com impacte positivamente na sociedade e no planeta, e aqui estamos...

LdeM: Quais os contatos mais rápidos, mais hotline? A página no facebook...

RS: Parceiros venham participar... Antes gostaria de dizer que os parceiros são todos – empresas, governo, sociedade organizada, cidadãos, e principalmente os mais críticos, e aqueles que geralmente as pessoas não gostam de ouvir, pois dizem a verdade, venham participar conosco. Os contatos são: telefone fixo 3658 2634, celular 9805 9905, no facebook : starling consultores associados. Estamos aí … até 2050. ! Buenas tardes!

LdeM: Até 2050. Agradecemos aqui a entrevista com o Rodrigo Starling, poeta, filósofo, pensador, produtor de eventos, e agora trabalhando com voluntariado, numa empresa de consultoria. Aqui mais uma entrevista com o Pão e Poesia, uma criação do poeta Diovani Mendonça. E até a próxima entrevista no Youtube.

RS: Arriverdeci.

transcrição by LdeM

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Entrevista com o filósofo Rodrigo Starling (parte 1)


 
Entrevista Pão e Poesia

com o filósofo Rodrigo Starling


autor do livro “2050 – Voluntariado e Sustentabilidade”

março 2012, em Belo Horizonte / MG


temas: Terceiro Setor – Voluntariado – Ecologia

Parte 1

! Buenos días! Buenas tardes ! Buenas noches!

Estamos aqui para mais uma entrevista Pão e Poesia com o poeta, filósofo, e agora consultor, Rodrigo Starling que montou uma empresa, a Starling Consultores. Estamos entre o bairro Glória e o Alípio de Melo, e vamos falar sobre o novo livro, a nova obra do Rodrigo Starling, que nós conhecemos como organizador de eventos, poeta, escritor, pensador, e agora trabalhando com questões mais sérias: o futuro deste planetinha chamado Terra. Este livro foi traduzido para o inglês, como podem ver. E aqui está o autor em pessoa, para comentar. Rodrigo...

RS : Saudações, meu caro Leonardo de Magalhaens, companheiro de tantos projetos culturais, sociais... ambientais...

LdeM: Tutto bene? Vamos falar sobre... Você que é conhecido pela obra de poesia, organizou eventos da OPA!, shows de rock em homenagens ao pessoal do Pink Floyd... etc, etc

RS: … homenagem ao Syd Barrett...

LdeM: Pois é, podemos fazer uma lista …. E agora estamos descobrindo um novo Rodrigo Starling que é o pensador sobre ecologia, que atua em eventos, em congressos... Você poderia falar sobre esse novo trabalho seu com voluntariado, e sobre como você idealizou e escreveu este livro “2050 “ que está traduzido para o inglês.

RS: Bom. Começar a falar do voluntariado na minha vida, o que é uma coisa extremamente interessante. Se formos pensar, Voluntários todos nós somos. Somos voluntários no sentido de que nós estamos 24 horas fazendo as atividades primeiras, as quais escolhemos profissionalmente, ou socialmente, e em alguns momentos, nós, voluntariamente, escolhemos fazer outras coisas. Ou seja, você é médico, tem aquela profissão, mas você tem outras atividades que compõem o existir, o estar mundo, sua vida social. O voluntariado que tem uma questão técnica, mas tem também uma questão mais prática, que é uma virada de olhar, além daquelas atividades primeiras.

Então o voluntariado na minha vida começa muito cedo, porque como todo jovem, há alguns anos atrás, na fase dos quinze , dezesseis, dezessete, eu tive aquele pequeno desejo de todo homem costuma ter quando jovem, de 'mudar o mundo', e eu me coloquei a praticar este exercício de mudar o mundo. E comecei a me envolver com o Terceiro Setor.

Terceiro Setor é tudo aquilo, falando de uma forma bem prática, objetiva, é tudo aquilo que não se configura como Estado, o primeiro setor, o governo, seja nas esferas federal, estadual, municipal, e tudo aquilo que não é empresa, que não nasce única e exclusivamente para gerar lucro . Então Terceiro Setor são as ONGs, as associações e as fundações que geralmente trazem um objetivo mais social, de resolver alguma causa, algum problema, que eles entendem que o Estado e as empresas são deficientes nesta resolução. Este é o chamado Terceiro Setor.

Então voluntariamente, desde o ano de 2001, eu venho trabalhando em associações de bairro, depois trabalhei em DAs de filosofia , os diretórios acadêmicos, da PUC, pois sou formado, graduado, em Filosofia. Ali naqueles corredores, que mais pareciam os jardins de Epicuro, onde as ideias transitavam livremente, a gente teve oportunidade de se unir com algumas pessoas, que a sociedade costuma chamar de loucos, ou idealistas, nós fundamos uma organização, e aí começa a [minha] trajetória no Terceiro Setor, onde agora trabalho profissionalmente. E [a organização] se chamava OPIO.

E o que é o OPIO? Karl Marx dizia que 'a religião é o ópio do povo', é uma frase muitas vezes dita fora do contexto, mas a gente queria brincar com esta frase de Marx ( um cara muito sério, mas às vezes não levado tão a sério; mas sério, com bons pensamentos, bons propósitos), que era entorpecer as pessoas de cultura. Então, se a televisão, o mainstream, os grandes canais, grandes detentores da mídia, das questões sociais de impacto, trabalhava com mídia agressiva, valorizando a questão da prostituição, músicas com letras péssimas, etc, e nós tivemos a ideia de fazer o OPIO que era entorpecer as pessoas com cultura.

E assim fizemos. Começamos a nos reunir nos jardins internos da PUC Minas , no Coração Eucarístico, Belo Horizonte, e lá nós sentávamos debaixo das paineiras, no horário de dezoito horas, quando os estudantes estavam rumando para as suas salas, e estando ali sentados, reunido aquele grupo de pessoas em círculo, no meio das buchas de algodão e muitas pessoas se interessavam, achavam diferente, e perguntavam 'O que é isso?', e nós respondíamos 'Isto é a OPIO – 'Oficina de Produção Independente Organizada', nosso propósito é trabalhar [como] um coletivo de artistas – que sempre mudaram o mundo, as artes e as letras mudam o mundo, apesar de serem mudanças demoradas.

Então nos queríamos fazer, meditar neste tipo de coisa, mas com uma visão do artista empreendedor, nos coletivos, nas universidades, mas principalmente envolvendo mentes. Queríamos trazer mentes pensantes, grandes personalidades, no sentido de produção literária, de pensamento, de questionamento das estruturas sociais para trabalhar conosco.

Isto foi no ano de 2003, e, depois de diversas reuniões, nós fundamos, em 2004, a Oficina de Produção Independente Organizada, que, depois, por uma série de fatores passamos a chamar de OPA! Porque o OPIO, como todo mundo sabe, é uma substância entorpecente retirada das sementes de papoula – e com toda licença poética, que nos permitiu batizar a Ong desta forma, nem sempre isto é compreendido pela sociedade, então resolvemos passar para OPA! Simplesmente Oficina de Produção Artística, e começamos a nossa caminha rumo ao Terceiro Setor.

Bom, eu vou acelerar um pouco, nesta caminhada, porque a gente tem que falar em termos de fases, para não alongar muito. Mas, logo após a OPA, que era uma ong essencialmente cultural, eu conheci a VIDES, que é uma sigla italiana de Voluntariado Internazionale Donna Educazione Sviluppo, é o Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento, Educação e Promoção da Mulher, é uma ong italiana, nascida em 1987 em Roma, está presente hoje em 40 países. Então eu recebi um convite de um antigo professor, Douglas, ao qual sou muito grato, sabendo que eu já mexia com a OPA, com outras pessoas do Terceiro Setor, que eu me envolvesse com questões do voluntariado. Era uma ong essencialmente que não apenas usava do voluntariado para algum trabalho, mas o seu trabalho era formar voluntários, a ong existia para formar voluntários, que eles fossem críticos e atuassem na sociedade de forma ativa, positiva e efetiva.

Eu falei: 'Me encontrei ! É isto que eu quero!' A Arte vai me ajudar, a filosofia vai me dr um lastro importante de diferenciação, nestas negociações da retórica, da linguagem. A linguagem abre muitas portas ou fecha. E vi ali uma grande oportunidade. Mas confesso, aos senhores, que o voluntariado para mim ainda era uma coisa estranha e era muito ligada ao assistencialismo, eu tive uma visão do voluntariado como uma coisa assim muito caridosa, como se fosse apenas doar cestas básicas, ajudar os velhinhos, agasalhar as senhoras, e não, então nesta organização tive a oportunidade de perceber que não.

E me envolvi bastante nestas questões de temas sociais, até mesmo porque a organização tinha pilares teóricos que me interessavam, por exemplo, Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”, com metodologias interessantes, para trabalhar com o povo, a sociedade de base, mas para que ele se empodere e consigam efetivar mudanças sociais expressivas, com a construção de políticas públicas, coisas do gênero. Então entrei nesta organização exatamente em 10 de abril de 2006, e vocês me permitirem eu serei bem breve aqui...

LdeM: Você chegou a organizar congressos para eles, não? [RS: Sim, vários.]Como é, na prática, o voluntariado?

RS: A minha função na organização primeiro foi como secretário, em 2006. Secretário que tinha uma função diferenciada. Assim como Maquiavel era secretário da chancelaria no Palácio Vecchio, na época dos estados papais, não tinha um cargo de expressão, mas era quem conduzia as grandes negociações entre os parceiros, etc, guardadas as proporções, eu também fazia esta função de secretário de chanceler, cuidando das questões ligadas à estratégia, ou seja, parcerias com empresas, captação de recursos, troca de informações, angariamento de novos associados, coisas do gênero.

Mas como eu sempre fui interessado nestas coisas, eu tinha o desejo de caminhar mais, de que nossa organização podia efetivamente influenciar nas políticas públicas, de impacto na sociedade, mas podia dar uma nova leitura ao voluntariado no Brasil. Para vocês terem uma ideia, o Brasil é considerado, por todas as pesquisas, um dos países mais solidários do mundo, haja visto as enchentes e problemas que temos. O brasileiro é muito solidário, o volume de doações é muito grande e, ao mesmo tempo, [tem] as piores legislações sobre voluntariado no mundo! Então existe aí um grande abismo. A teoria que fala do voluntariado e a prática em termos jurídicos.

Entendemos também que o Brasil ainda carece de um voluntariado, que vou chamar de transformador, porque optamos por uma tradição até - nada contra a caridade em si, mas uma tradição que vem das santas casas de misericórdia, que chegaram ao Brasil em 1943, em São Paulo, que era um voluntariado da prática mesmo, doação de cestas básicas [...]

LdeM : Filantropia, no caso...

RS: Filantropia. E agora a gente precisa, não é uma questão de escolha mas de necessidade, transitar para um voluntariado, que chamamos de transformador. Ou seja, os grupos que fazem as ações, se transformam em coletivos. Você transita também da questão do assistencialismo para a promoção humana, então uma questão de ''empowerment”, do inglês que traduzimos como 'empoderamento', você não chega nas comunidades e dá as coisas. Você 'empodera', você cria, forma lideranças, para que estas lideranças possam replicar isto, e o povo possa exercer seus direitos...

LdeM: Ou seja, é a autonomia, não a filantropia. Mas autonomia.


Continua...


transcrição by LdeM

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