quinta-feira, 17 de maio de 2012

O OUTRO - conto



O OUTRO


Quando recebeu a carta, aquele envelope de aspecto formal, o Sr. Antunes tratou logo de abrigar o papel na maleta, visto a pressa com que girava a chave no portão e abria a porta do carro, com as rodas dianteiras já caídas na sarjeta, esforçado-se para sorrir e ser simpático ao carteiro, “Bom dia, seu Buarque!”, ao lembrar de quase uma década de residência e serviços.

leu a carta no escritório. Quando Edwiges chegou, logo aprontou o café e pediu leite e torradas pelo delivery da padaria. Sempre eficiente a Edwiges. quanto tempo em tão prestativo serviço? O Sr. Antunes nem fazia contas, mas considerando-se os quase dez anos de advocacia, independente, emcarreira solo, como dizia em amplo sorriso. Na verdade, o Sr. Antunes se livrara dos sócios, os sucintos e sisudos Srs. Albertini e Garcia Melo, e da esposa, a graciosa e ambiciosa, Sra. Marta Gouveia Tavares de Aguiar.

Abriu o envelope, junto com correspondência do escritório, enquanto a Sra. Edwiges servia o café-com-leite, muito de sua preferência. O texto da missiva muito o surpreendeu, tratando-se de uma correspondência formal expedida pela Marinha, especificamente o Departamento de Pessoal da Marinha, sediada na bela e atlântica cidade do Rio de Janeiro, da qual o Sr. Antunes guardava recônditas saudades do seu tempo de estudante, seu contato com as lindas morenas de doce boêmia.

O que dizia o texto? “Através desta mui agradecemos ao Sr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar, por seu interesse e suas propostas quanto ao funcionamento do nosso quadro de pessoal, no tangente às reformas trabalhistas, tal podemos constar em seu artigo publicado em O Globo, de fins de março, artigo este muito elogiado pelo Almirante e distribuído aos demais oficiais, que muito louvam a sapiência e bom-senso do articulista.” E seguia com formalidades. O que muito arrepiava o Sr. Antunes.

Em arrepios, degustava o café-com-leite, reclinado em sua cadeira, e girava a caneta reluzente nos dedos da mão esquerda, a pensar, sim, profundamente pensar. Quando enviara algum artigo ao jornal O Globo do Rio de Janeiro? Em fins de março? Isto é, há quase dois meses atrás. Mas já se esquecera? Andava assim com a memória tão fraca? Era coisa de procurar um médico, não? E conferia a carta e revirava o envelope e lá está o Ministério e lá está a Marinha e lá está o seu nome “Ao Ilmo. Sr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar, Belo Horizonte”, e questões, muitas questões.

Desde quando escrevia sobre questões trabalhistas da Marinha? A sua linha não era mais patrimonial, coisa de alvarás, escrituras, termos de ocupação, ordens de despejos, coisas totalmente civis? Por que lhe vinha logo agora essa de escrever sobre assuntos militares? Ainda que só referindo-se à questão de quadro de funcionários, nada de táticas e afins, que disso ele realmente nada entendia, com sua formação modesta no serviço militar, e o que seria? Loucura? E essa de Rio agora? Não tinha uns dez anos que ele abandonara o calçadão e a baixada? E quando fora as últimas férias? A um ano e meio, não? Ainda com a megera da Marta! Contorceu-se numa careta e reclinou-se, afundou-se na cadeira.

Foi a Sra. Edwiges quem o resgatou naquela vertigem. Indagava, como quem não muita importância,Dona Edwiges, escute aqui. Me esclareça. Eu cheguei a enviar algum artigo para um jornal do Rio, a saber, o Globo? Que eu me lembre..., e a secretária se voltava,Não senhor Doutor, não que eu me lembre. Mas posso consultar os arquivos. O senhor Doutor não guardou um recorte quando saiu o jornal?Sim, muito inteligente e prática, a Sra. Edwiges! Claro, o Sr. Antunes é (ou depois dessa, devamos chamar Dr. Antunes) é um tanto vaidoso, e nunca se preocupou em ocultar,Modéstia é coisa de vaidoso!, e fazia questão de guardar, numa pasta específica para este fim, uma série de recortes de artigos que saíam nos jornais locais e nacionais (não ainda os internacionais, hélas!, mas ele não tinha tamanha pretensão) E a Sra. Edwiges retorna a dizer nada ter encontrado.

Continuou abrindo mecanicamente o restante da correspondência, toda agora com assuntos do escritório, embargos em obras, prédio com riso de desabamento, um novo loteamento na zona sul, a planta de uma mansão no Belvedere, outras pendências judiciais, e um bocejo. Não prestava atenção. Seu olhar caía vez ou outra no formal envelope da Marinha, onde a secretária do Almirante F. elogiava um artigo sobre. Bem, já sabemos. O Dr. Antunes é que se perde em conjecturas. Que é estranho é. Coisa de nomes parecidos? De repente, um outro Dr. Antunes Anselmo Duarte de Aguiar. Por que não, ora? Mas era muita coincidência! Existia coincidência? E com o mesmo endereço? Mas e se procuraram no catálogo telefônico e lá estava o seu nome e endereço e de pronto enviaram a correspondência sem maiores averiguações, como ele imaginava de praxe em ambientes burocráticos.

O Dr. Antunes nada sabia sobre a Marinha. Nunca adentrara um navio, nunca vira, aliás, uma vez só, quando passeara no porto de Santos, mas antes de morar no Rio, quando do mestrado. E suas preocupações não incluíam navios, antes uma certa, digamos, companhia. Ruborizando-se, o Dr. Antunes se esforça para desviar o pensamento das coxas nuas daquela morena. Volta a vasculhar o envelope, “Ao Ilmo Sr. etc etc” e não acreditava.

Igual daquela vez, que voltando ao Rio, um amigo de tempos de outrora, jurava ter visto seu vulto branco e lusitano num boteco lá pros lado dos Arcos da Lapa. Impressão? Mas insistia que Antunes andava dando suas escapadinhas na noite boêmia. O que muito irritou o Dr. Antunes, já a imaginar um sósia, um irmão gêmeo, que desconhecia, coisas assim, de romances fantásticos. O que fazia ele num boteco pros lados da Lapa? Estaria acompanhado? E deixou-se imaginar a cena de estar ali com uma morena de traseiro farto e peitos à mostra, ou quase. Ah, fantasias!

Cuidemos do trabalho! E passava a leitura do alvará de um terreno e da escritura a tal mansão outrora citada e deixou assim escoar boa meia hora. E essa da Lapa? Só se estivesse morando ainda no Rio! Nas noitadas, época em que dera um tempo com Marta. Viviam em brigas. Daí ele pensar no mestrado. E não é que quando se separam no definitivo, ele tirara um tempo para aprender noções de informática? Uma das morenas ele, o Dr. Antunes, conhecera no Orkut, e que dona Edwiges não o surpreendesse usando o computador do escritório para semelhantes “inutilidades”. Loira, alta, aristocrática, ainda que secretária humilde, dona Edwiges nunca o perdoaria, “Até o senhor, Dr. Antunes?” e diria que os homens realmente não prestam, até porque estava igualmente separada do marido, há dois anos, devido à flagrante traição. Ah, mas o que isso importa? Sua mente já delirava?

Sim, estaria um boteco da Lapa se morasse no Rio. Se estivesse no Rio? Sempre o “se” ou “se”, sempre a dúvida! Se eu estivesse no Rio o que estria fazendo hoje em dia? Hein? Responda rápido! Certamente trabalhando com o Renan. Sim, o seu amigo daqueles tempos. O mesmo Renan que lhe apresentações diante do sujeito que insistia porque insistia que o honesto Dr. Antunes estava em farras lá pros lados da Lapa! Isso, certamente, se estivesse vivendo no Rio! E sem a mulher. E aí então seria outro! Por que não ficou no Rio? Ora, por que? Por causa do Garcia! Que montou o escritório, junto com o Albertini. Um nas causas trabalhistas, e o outro na administração, assessoria para empresas, as pequenas que serão grandes negócios!

Certo, certo. Era isso. E quando o abordaram sobre um difícil caso trabalhista e ele não entendeu. Por que ele? E não resolvera nada. Entregou para o Garcia. Que se virasse. Mas o Renan é que entendia de trabalhistas. Ei, se estivesse com o Renan, então certamente! Mas o telefone tocou e parecia um badalar de sinos! Sorte era a dona Edwiges ter atendido e resolvido. A cabeça do doutor não estava para estas coisas, “O senhor anda muito estressado, seu Antunes.”, a secretária dizia, maternal.


Mas era isso! Ele, o doutor Antunes, nas trabalhistas! Quando? Ora, se antes tivesse se agarrado ao Renan igual um mexilhão a sua crosta! E Renan não tinha trânsito dentro dos Ministérios, no governo estadual, certamente? E encheu a xícara de café e desistiu do leite. Tentou lembrar-se se estava acompanhado quando passeava na Lapa. Já começava a sentir-se como o ‘outro’ Antunes.


Mar/07


Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Lição de Poesia




Lição de Poesia

(a morte do autor?)



Qual o nome da amante de
Baudelaire?

Qual a fantasia erótica de
James Joyce?

Qual o nome da fiel esposa de
Machado de Assis?

Quantas namoradas teve o
sedutor Kafka?

Quantas virgens pálidas roubaram
o coração do funesto
Edgar Allan Poe?

Qual a igreja frequentada por
Murilo Mendes?

Qual o toureiro predileto de
João Cabral ?

Quais as fobias aninhadas
no olhar de
Paul Celan?

Qual o nome da amante de
Elizabeth Bishop?

Qual era a puta favorita de
Bukowski ?

Qual era a cor favorita de
Rimbaud?

Qual era o prato favorito de
Ferreira Gullar?

Qual o cemitério frequentado
por Augusto dos Anjos?

Quantas foram as virgens pálidas de
Álvares de Azevedo?

Qual a bebida favorita de
Mallarmé ?

Quais os livros prediletos de
José Paulo Paes?

Quantas musas deitaram-se
na cama do poetinha
Vinicius?

Quais as ruínas favoritas de
Octavio Paz?

Quais as propriedades de
Lord Byron?

Quantos maridos teve
Hilda Hilst?

Em quantas casas repousou
o errante Shelley?

Quantos rouxinóis cantavam
no jardim de
John Keats?

Quantas estrelas brilhavam
à janela de
Olavo Bilac?

Qual o suspensório predileto de
Haroldo de Campos?

Qual o time favorito de
Waly Salomão ?

Em quantas ilhas viveu o
oceânico Neruda?

Quantas lilases desabrocharam
no jardim de
W. Whitman?

Quantas pessoas eram o
poeta Pessoa?

Qual o chá predileto da
meditativa Emily Dickinson?

Qual a cachaça predileta de
Carlos Drummond ?

Qual o boteco frequentado por
Mário Quintana?

Quantas lesmas habitam
o pantanal de
Manoel de Barros?

Quantas crises depressivas derrubaram
Leopardi?

Quantas pulgas sugaram
o sangue pútrido de
Lautréamont?

Quantas gravatas nas
gavetas de
Castro Alves?

Quantas fotos revelam
o olhar contemplativo de
Sylvia Plath?

Quantos garotos de São Paulo
possuíram o xamânico Piva ?

Quantos mancebos suspiraram
pela beleza de
Cecília Meireles?

Quantos curiosos leram
as cartas íntimas de
Ana Cristina César?

Qual, Quais,
Quantos, Quantas, etc





abr/11



Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

2 poemas de William Carlos Williams





William Carlos Williams



As Árvores Botticellianas

O alfabeto das
árvores

vai desmaiando na
canção das folhas

as hastes cortadas
das finas

letras que escreviam
inverno

e frio
foram iluminadas

com
pontas de verde

pela chuva e o sol -
As regras simples

e estritas dos ramos
retos

vão sendo alteradas
por ses de cor

pinçados, por cláusulas
devotas
os sorrisos de amor -

..


até as frases
desnudas

se moverem como braços
e pernas de mulher sob o tecido

e em sigilo o louvor
entoarem do desejo

e do império do amor
no estio -

No estio a canção
canta-se por si

acima das palavras surdas -


trad. by José Paulo Paes


nota: Sanzio Botticelli é um pintor italiano da época
da Renascença europeia, séculos 15 e 16.

...

The Botticellian Trees
(1931, 1934)

The alphabet of
the trees
is fading in the
song of the leaves
the crossing
bars of the thin
letters that spelled
winter
and the cold
have been illumined
with
pointed green
by the rain and sun --
The strict simple
principles of
straight branches
are being modified
by pinched-out
ifs of color, devout
conditions
the smiles of love --
. . . .
until the stript
sentences
move as a woman's
limbs under cloth
and praise from secrecy
quick with desire
love's ascendancy
in summer --
In summer the song
sings itself
above the muffled words --





William Carlos Williams




A Duração

Uma folha amarfalhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.


trad. by José Paulo Paes

..

The Term


A rumpled sheet
Of brown paper
About the length

And apparent bulk
Of a man was
Rolling with the

Wind slowly over
And over in
The street as

A car drove down
Upon it and
Crushed it to

The ground. Unlike
A man it rose
Again rolling

With the wind over
And over to be as
It was before.






William Carlos Williams

...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sobre "Minerar o branco" - de Ronaldo Werneck



sobre os poemas de “Minerar o branco” (2008)
do poeta Ronaldo Werneck


Quando a poesia precisa minerar além do poema


A Crítica

Muito já se discutiu sobre poesia enquanto jogo de palavras, i.e., exploração da oralidade ou destaque visual, com alguma disposição gráfica de versos. São assuntos com farta bibliografia. Sejam dos adeptos de uma ou outra forma, sejam dos puristas ou dos vanguardistas. Poema é som ou desenho numa folha? Poesia é para ser lida ou contemplada? É conjunto de versos ou um verso só já é poema? Um objeto, uma coisa, é poesia? Para os adeptos do poema-objeto a resposta é afirmativa.

Como podemos ver, cada teórico teoriza o que lhe agrada ou interessa, dependendo do grau de devoção, se adepto do oral ou do visual, se devoto da oralidade ou do concretismo. Cada igreja forma os seus ideólogos, os seus bispos defensores, os seus xamãs teorizadores. O difícil é ressaltar o poético, o lírico, em cada obra e tentar ouvir o que tem a dizer. Ou o que ela quer que vejamos.

Por mais objetiva que seja uma crítica, esta ainda está carregada de subjetivismo. Há um crítico que a idealiza e produz. Não temos máquina de ler e interpretar poesia. Ainda bem, convenhamos. Assim se um crítico prefere poesia oral, epopeias rítmicas do cordel, talvez pouco vá se interessar por poemas-visuais, ou poemas-objetos. Se o poeta é vanguardista, muitas vezes nem abre um livro de cordel, acha que é coisa popular, tradicional, e que precisamos abraçar o futurismo (espere aí! o futurismo já está nos museus!) ou propagar o concretismo.

Críticos que preferem poesia oral, baladas, ritmos de cordel, poesia cantada, precisam fazer um esforço para entender poesia visual, poesia-objeto, poesia no blog. Senão, com tanta subjetividade contra, não poderiam tecer um ensaio objetivo, segundo critérios estéticos. Aqueles mais vanguardistas (ou se consideram assim) mostram dificuldades ao lidarem com formas tradicionais, ou entender as letras de canções como formas poéticas. Qual a diferença entre um cantor e um poeta? Os acordes e refrões?

Por outro lado, poesia não é simplesmente aquilo que o Crítico considera poesia. E muito menos aquilo que o autor considera poesia. Para o poeta tudo o que escreve é poesia (mas pode ser apenas desabafo...) e para o crítico apenas é poesia o que sobra quando se tira a casca de sentimentalidades. É poesia o que sobrevive além da 'intenção autoral', daquilo que o poeta quer dizer. Principalmente, é poesia aquela amálgama forma-conteúdo que é transmitida ao leitor – mesmo quando ele/ela nada entende. Posto que a poesia não é necessariamente racional.


A Obra

Técnicas

Quando o poeta cuida da parte gráfica alguns fenômenos podem ocorrer. Ou a obra ser risível ou genial. Pode também ser mais do mesmo ou algum tipo de inovação. Quando o poeta trabalha a tipografia dos versos – assim os estilos de Mallarmé, Maiakovski e Octavio Paz, p. ex. - o interesse não é apenas sonoro, mas também visual. Como o poema deve aparecer aos olhos do leitor.

A poesia enquanto fenômeno visual não exclui a sonoridade – jogos de palavras e aliterações são abundantes no concretismo – nem outras particularidades da forma oral, apenas que espera-se um olhar atento do leitor. As palavras estão em arranjos, distribuídas segundo critérios (ou não) que interessam à intenção autoral.

Assim é a questão do tipo preto na página branca, ou do tipo branco na página escura, ainda o trabalhado entre contraste claro escuro, quando tudo integrado, percebe-se o quanto a disposição gráfica é relevante, sejam as marcas tipográficas, sejam os arranjos de palavras. O 'despedaçar dos versos' em degraus, ou escorrendo pela página. Algum propósito tem – nem que seja o de levar o crítico a apontá-lo.

Afinal, podemos escrever o verso “A menina ouviu em pânico o som áspero” na íntegra, ou segmentá-lo em sintagmas, para ressaltar os constituintes. Assim podemos escrever o verso em degraus, um elemento por linha,

A menina desperta
                          ouviu em pânico
                                                o som áspero

se desejo ressaltar que é uma menina - e não é um menino, ou senhora – e que ela ouviu em pânico – e não caiu no sono, ou escovou os dentes – e o que ela ouviu, um som que julgamos desagradável (o ranger de uma porta? O estilhaçar de um vidro?), mas é possível ainda, se quero destacar o estado de pânico e o tipo de som, escrever assim:

A menina desperta
                         ouviu
                                em pânico
                                              o som
                                                        áspero


O verso ocupa mais espaço na página, pode ser melhor visualizado, pode ser lido mais prontamente ou lentamente, a depender o estado de suspense para o leitor – que pode deslocar ênfases para 'em pânico' e 'áspero'. A disposição gráfica apenas facilita, norteia, não determina. Antes, os determinantes seriam uso de negritos, itálicos, parênteses, fontes diferentes em cores e tamanhos, mais próximo ao concretismo.


A menina (desperta)
                           ouviu em pânico
                                               o som áspero

Portanto foi um pânico imenso que a menina (não qualquer uma, mas a desperta) ouviu o tal som áspero (muito áspero, percebe-se pelo tamanho da letra e pela cor rubra) , ou seja, o poeta pré-determina a leitura do leitor ao ressaltar trechos do verso. Destaques em tamanho e cores são recursos visuais, enquanto na poesia falda o declamador pode sussurrar ou gritar, acelerar ou frear a leitura.

Citando a obra, ressaltamos que o verso é 'não noites não nozes não vozes' mas graficamente se dispõe assim, em degraus descendentes,

não
      noites
                não
                      nozes
                             não
                                  vozes

(p. 211, “Velhos Natais”)

Outra marca tipográfica que destacamos é o uso de certos tipos de letras – ora maiúsculas ora minusculas, ou o predomínio de uma ou outra. Aqui, na obra que folheamos, eis a preferência por letras minúsculas – alguma influência do poeta e. e. cummings (1894-1962), que adorava inovações tipográficas? É possível que sim, pois poemas inteiros são escritos em minúsculas,

vem da mata o menino
de mim das minas claras
de miniminas raras

vem da mata o menino
no alto-gerais traços
tontos trecos e trapos

vem da mata o menino
solta-se das gerais
de si minas não mais

(p. 138, “Vem da Mata o Menino”)

Assim, estamos abordando as técnicas, que são muitas. O trabalho com as palavras é sensível e visível. Percebemos repetições, aliterações, palavras cognatas, ou que parecem cognatas, rimas, assonâncias, fusões, derivações. Mais, jogos verbais, fragmentação silábica, jogos de palavras, trocadilhos, citações, referências, paródias, intertextualidade (com livros, autores, filmes, etc) em recursos que lembram os estilos de Affonso Romano de Sant'Anna e Affonso Ávila, só pra ficarmos aqui em Minas,

                                            balas bailam tontas
                       zunem zonzas
a metralha ruge
a mortalha rouge

(p. 61)

o corpo-roto
               de selva & sangue
o mito-morto

(p. 67)

reluz teu rosto farol fresta facho
de outrora clarão que se locomove
            chiaoscuro caro cálido colo
            vem de volta vem comigo vem rosto

(p. 87)


olhos meus olhos
sobre meus olhos

(p. 91)

minhas mãos / tuas mãos / as muitas tuas / minhas mãos

(p. 92)

o amor bateu / forte / ardeu forte
ao amor / bateu / sorte

(p. 92)


erra o poeta pelo erro
erra o poeta por não ser
em si manhã e por não ser
em si manhã e por não ver
que ver rever reverberar
o erro não mais é errar
pelo mundo errar aspirar
errar pelo erro de errar
errar pelo tempo profundo

(p. 152)

e fala magra e mansa e magro
e tão mago e leve

(p. 218)


Intertextualidade

De influência em influência, os autores dialogam com autores, os textos carregam 'pistas' para outros textos. É sensível aqui, em “Minerar o Branco”, o diálogo com outros poetas, por exemplo, o futurista russo Maiakovski,

maiakovksi me olha
                           maiaca me mira
maiatédio
              é melhor morrer de vodka

(p. 76, “Annamanhece”)


ou com Tennessee Williams (1911-83, norte-americano, o autor de “Um Bonde chamado Desejo”, 1948), no leme treme tennessee” (p. 96), poema no qual enxerta a tradução do poema “How calmly does the olive branch(“com que calma o ramo de oliveira”),

Com que calma o ramo de oliva
Vê a tarde ficar menos viva
Nenhuma súplica ou ruído
Seu desespero não é sentido”

mais info em


ou com Manuel Bandeira, o poeta de Pasárgada, em “Pindamoraminas” (pp. 155-56),

não, não vo'm'embora
pra lua-pasárgada
meu tempo é agora


nada de pasárgada
-vem, vamos embora
pindamonhangaba
é aqui, aurora


Outro detalhe: se o poema é muitas vezes hermético, não nos preocupemos, pois o próprio poeta cuida em explicar tudo em notas de rodapé (assim como em “Itinerário de Pasárgada”, Manuel Bandeira explicava, detalhava, expunha as 'chaves' dos poemas de sua autoria...)

Assim, no poema “A Voz”, p.ex. só quem leu a biografia de Frank Sinatra vai entender imediatamente – então o poeta vem socorrer o leitor - “a voz” é o próprio Sinatra, chamado 'the voice', pela plenitude de sua expressão vocal, de talento indiscutível.

São várias as referências a autores, livros, filmes que o leitor (ainda mais o jovem) pouco reconhece, daí se justificassem as notas de rodapé. Quem foi Hemingway? Quem foi Godard? Quem são os ícones do cinema ou da literatura que ainda nos influenciam hoje? Enquanto cinéfilo e poeta, ou poeta e cinéfilo, Ronaldo Werneck poderia polemizar, criar mesmo as controvérsias. Quem são os nossos referenciais? Quais os nomes para os quais não precisamos de notas de rodapé?


Metalinguagem

Ressaltamos as influências pois estamos em território do autor-leitor, ou seja, um autor que se entrega a ler e reler obras de outros autores, e intertextualidade certamente não faltará. Esta leitura constante faz o autor pensar a própria escrita, quase um escrever e meditar sobre o ato de alinhar palavras, ao ressignificar o mundo.

Tudo em abundante recorrência de um fenômeno normal em nossa era: metalinguagem. A poesia adora falar de poesia, parece. O poema aponta para si mesmo, enquanto poema. Lembra o tempo todo ao leitor que se trata de um poema (como se precisasse ficar reafirmando isso!),

Em “Preto Nu Branco” (p. 39) temos uma dica

                            não leia
             de arranco:
opresso é
             o poema:
                eco
mas a poesia
                  salta
             do branco
            -ecco!


Mais metalinguagem entre os jogos de palavras, que se destacam em rimas internas ou aliterações, deslocados em blocos descendentes no branco da página,

              pó poesia
pois é um voo em vão que se desvela
                    e resvala
                sentinela
inconstante

(p. 41, “De Céu e Nuvem”)

e

            o pó do poema
          a poesia recompõe
                                     em meus braços
                                                               a poesia

(p. 122, “A Poesia nos Braços”)


e também,

poesia
o poema
trabalhado

poesia?
O poema
só suor

poesia?
O poema
apanhado

(p. 129, “Sim-Sim: Cinco Minutos”)


Convenhamos, o poema se esforça, se espreguiça, se alinha, se derrama para falar sobre si mesmo. Metapoema é uma recorrência, tal um espelho refletindo a si mesmo em infindas, num fenômeno de recursividade. O poema que fala sobre o poema no poema... Aqueles contos do Borges que falam de contos, ou os romances de Calvino que lembram o tempo todo que são romances do Calvino... onde o referencial? Nem mais pretende 'representar' o real, o mundo exterior. A poesia torna-se assim um jogo alienado, voltado para o próprio umbigo.

Temáticas

Pensemos, além de falar de Poesia qual outros assuntos despertam a fala do poeta? O que deseja falar o poeta além do fazer poesia? Será que há um mundo lá fora? Ou tudo se resume a jogos de linguagem? Tudo é palavra ao lado de palavra e estamos conversados.

Mas certamente o poeta quer falar sobre o mundo externo, o tempo que flui, a infância, a vida de descobertas, a cidade, as polêmicas literárias, o viver (e o sobreviver) de poesia. É nessa ânsia de comunicar que destacamos os poemas “Vem da mata o menino” (pp. 138-39), “Ah! Há controvérsias” (p. 157-58), além de “Política do Troco” (pp. 58-59), onde a identidade do eu-lírico se faz presente e repensada, o ser mineiro, o chão de Minas, a voz que cria controvérsias, o poeta errante que carrega a cidade natal consigo,


vem da mata o menino
vem trem-do-mato tralhas
de minas imantadas

vem da mata o menino
alto mato seu trem
trem-do-mato trem-trem

vem da mata o menino
e do mato no asfalto
mata angústia mato


e

mudo o mundo muda
na praça sem pressa
sim: há controvérsias

um dito um não dito
novas tão funestas
não: há controvérsias

...

fado: fogo-fátuo:
minas é o que resta:
ah! há controvérsias


o preço da pressa
o fausto da festa
ah! há controvérsias


Controvérsias existentes ou não, a poesia pode falar do mundo exterior – deve falar da vida ao redor, do imposto de renda, da desigualdade social, da subnutrição, dos lobbies no legislativo, do câncer da corrupção, pois o poeta é um operário, sim, um proletário da palavra. Perguntam: o poeta tem ideologia? Responde-se: existe um discurso não-ideológico? Alguma fala sem propósito, sem emissor e receptor? A voz no poema se identifica com quem na 'luta de classes' ?


apenas mais um
                        como você
                                       um operário
                                                        da palavra
(…) p. 58

um operário
                 que na terra
                  cava
                          a vida avara

(p. 59, “Política do Troco”)


Em que nível o intelectual é um operário? Qual a 'consciência de classe' do intelectual ? Precisamos lembrar em que contexto transitamos. Em plena década de 1960 – época de luta de classes – ideologias, golpe militar, repressão política. Luta armada, guerrilha urbana, guerrilha nas selvas, torturas. E onde se encaixa o intelectual? Quem fala de mais não é obrigado a se exilar? Caso contrário não terá um fim trágico no paredón?

Mas antes de tudo a voz do poeta volta-se para a própria poética – que não se reduz ao panfletário, propagandístico, manifesto revolucionários ou reacionário. Tematiza o que o incomoda pessoalmente até mais do que socialmente, p. ex. o tema: a Americalatina e suas veias abertas (vejamos Eduardo Galeano e sua obra “As Veias Abertas da América Latina”, onde acusa o imperialismo europeu e norte-americano pela exploração do nosso continente, hoje dado ao subdesenvolvimento ), trata-se de um tema retomado nos anos 1990,


natinovo leão
de latinoamérica

(p. 61)


surge súbita
a pré-fabricada
nas oficinas
       da américa latina

das oficinas da américa
das oficinas de sombra e medo
       suja morte em selva

(p. 66)

E certamente alguma ironia com o desejo dos argentinos de serem europeus? Buenos Aires certamente não é Paris, a cidade-luz, por mais que nossos hermanos tenham ânsias de potência do Cone-sul, seja no comércio, na cultura, ou no futebol,

buenos aires
não é paris
              nem o sena o prata
                                       que contracena
em noite pequena
lua-que-lua
solta na rua
                 de pedra e prata
                               salve as matas
                                             as mulatas
e o inca sem gravata

(p. 69)


Conclusão

Concluímos, e repetimos, além de técnicas, de metapoemas, de intertextualidades, de temáticas, importa que o autor, principalmente o poeta, supere ideologias, propagandas, lavagens-cerebrais, prisões de época e de ego, empecilhos de criação e 'esqueletos no armário', desista de bens e heranças, renegue a família e as tradições, e ouse criar o novo, o não esperado, o-que-nem-vamos-digerir-agora, mas as próximas gerações podem assimilar e canonizar.

Afinal, trata-se não de teorizar ou tematizar, mas de viver e sobreviver. Sai e entra governo, mudam-se os planos de previdência social e os planos de carreira, mudam-se as legislações, alteram-se os quadros partidários, e como lidamos com tal efemeridade, fora da torre de marfim? É preciso viver o poema. Viver o poema? Sim, eis uma profissão de fé que soa singela e sincera, o verso que guardamos depois de fechar “Minerar o branco”, do poeta-cinéfilo Ronaldo Werneck, “morrer não vou sem viver este poema” (p. 46)


abr/12

Leonardo de Magalhaens



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mais sobre o poeta Ronaldo Werneck









poemas de “Minerar o Branco


VEM DA MATA O MENINO


vem da mata o menino
de mim das minas claras
de miniminas raras

vem da mata o menino
no alto-gerais traços
tontos trecos e trapos

vem da mata o menino
solta-se das gerais
de si minas não mais

vem da mata o menino
marilumina a lua
que blue e bamba atua

vem da mata o menino
dobra a noite a montanha
sobre o céu sol de antanho

vem da mata o menino
degredado vem veloz
trensloucado empós

vem da mata o menino
vem-vai-vai-vem agora
verde mato de outrora

vem da mata o menino
vem trem-do-mato tralhas
de minas imantadas

vem da mata o menino
alto mato seu trem
trem-do-mato trem-trem

vem da mata o menino
e do mato no asfalto
mata angústia mato


Copacabana, 29.01.91


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AH! HÁ CONTROVÉRSIAS


mudo o mundo muda
na praça sem pressa
sim: há controvérsias

um dito um não dito
novas tão funestas
não: há controvérsias

nada mal presentes
fogo na floresta
sim: há controvérsias

fado: fogo-fátuo:
minas é o que resta:
ah! há controvérsias

não às reticências
chagas sem compressa
não: há controvérsias

o preço da pressa
o fausto da festa
ah! há controvérsias

cães na praça restos
no caos que atravessas
sim: há controvérsias

nada tal e qual
na vida adversa
ah: há controvérsias

nem tangos nem tangas
só minas homessa
não: há controvérsias

o pó que perpassa
poalha sem pressa
sim: há controvérsias

em tudo uma fresta
o azul é o que resta
ah! há controvérsias?

E pronto e basta
chega de conversa
não há controvérsias


In : “Minerar o branco” (2008)