segunda-feira, 9 de abril de 2012

Entrevista com o filósofo Rodrigo Starling (parte 2)



Entrevista Pão e Poesia

com o filósofo Rodrigo Starling


autor do livro “2050 – Voluntariado e Sustentabilidade”

março 2012, em Belo Horizonte / MG


temas: Terceiro Setor – Voluntariado – Ecologia


Parte 2

RS: Exatamente. Nada de filantropia, mas autonomia. Mas uma questão muito forte de 'solidariedade', no sentido primeiro lá de Auguste Comte, Solidariedade como propensão a Estar junto para cooperar. Mas cooperar com que? Então eu ouso falar que é cooperar com o espaço social, com a sociedade como um todo. Isto inclui cidadãos ativos que exercem direitos e deveres, não só pessoas que queiram cobrar do Estado, ou xingar o Estado , mas que queiram participar ativamente das decisões, nas questões.

Então o trabalho nesta Ong foi muito bom. Comecei como secretário em 2006, em 2007 eu assumi o cargo de Diretor de Desenvolvimento Institucional. Em 2008 conseguimos formar uma rede muito forte, chamada Rede Mineira do Voluntariado Transformador, era uma rede que já nasceu forte, pois nasceu dentro do COEP, que foi fundado pelo sociólogo Herbert de Souza, em 1993, e o VIDES, esta Ong na qual eu participava já era integrante do COEP. E ali estavam o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, parceiros da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Furnas Centrais Elétricas, ou seja, empresas fortes que tinham condição de puxar o movimento.

Puxamos a Rede Mineira, e conseguimos emplacar, escrever uma política pública, chamada Política Estadual de Fomento ao Voluntariado Transformador, e em tempo recorde, esta é a nossa alegria, ela foi sancionada pelo então Governador [de MG] Aécio Neves. O tempo da formulação até a aprovação não durou mais que três meses, o que é motivo de orgulho, pois sabemos que as leis costumam demorar muito mais, as votações, as pautas, entram e saem do congresso por interesses outros, políticos.

E a nossa lei foi um furacão, foi avassaladora, passou em todas a comissões, rapidamente, foi aprovada em 08 de janeiro de 2010, esta Política Estadual de Fomento ao Voluntariado Transformador. E o voluntariado transformador, com esta qualificação, não tinha ainda nenhuma conceituação. Nós jogamos isso na internet, inglês e português, não tinha nenhum termo, nós criamos então este termo, do voluntariado transformador, como falei anteriormente, ele se diferencia do voluntariado comum, do assistencialismo, e emplacamos esta lei.

LdeM: Como você chegou a gênese deste novo livro, do '2050', como desta prática você fez um link para 'vou escrever um livro sobre' ?

RS: Então o grande link foi o seguinte: depois da lei aprovada, e tudo o mais, nós percebemos que para as coisas funcionarem precisamos de uma vontade política e uma vontade cidadã. A vontade política é aquela também ligada a cidadania, mas muito mais ao jogo de interesse, onde a questão financeira, empresarial entra forte, pesada; e as questões cidadãs são o envolvimento de pessoas, cidadãos comuns, mas que queiram pressionar estes organismos, sejam eles empresas ou governo. Ou seja, a sociedade civil organizada. Então as Ongs aparecem na minha vida, de novo, de uma forma forte e expressiva.

A ideia de escrever o livro “2050 Voluntariado e Sustentabilidade” surge do seguinte: tanto a palavra voluntariado, no Brasil, quanto sustentabilidade são muito mais ditas do que compreendidas. Elas viraram 'modismos'. O voluntariado sempre como uma 'coisa boa', as pessoas se envolvem nisso para salvarem suas almas, para prestarem contas à sociedade, estarem mais tranquilas com [suas] consciências. E não é isso. O real voluntariado transformador não é isso. E a sustentabilidade se tornou uma 'peça de marketing' muito perigosa, e ainda que algumas empresas façam realmente um bom trabalho, muitas outras não fazem. Então elas fazem marketing social, ambiental, travestido, como uma espécie de uma propaganda, mas não é ainda sustentabilidade.

Então por causa disso eu resolvi escrever um livro sobre os dois temas voluntariado e sustentabilidade. Pra quê? Para tentar contribuir a nível teórico, que depois se torna prático, como reflexão mais aprofundada que isso não é brincadeira. Tanto a ação solidária, o cidadão ativo que presta o seu voluntariado, quanto falar de sustentabilidade. Isso não pode ser uma coisa jogada ao léu.

Então optei por lançar o livro com este título “2050”. Por que? Porque o livro, lançado em 2011, ele tem no mínimo uns 38, 39 anos de existência. Ou seja, eu posso trabalhar com este tema, sem perder a validade, o livro está na estante, vai chamar a atenção até a data. Então a primeira coisa, eu tenho uma estratégia estética, para garantir mais leitores. Segundo: esta data foi escolhida, amparada por relatórios da ONU, mais especialmente do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – que lançou um relatório dizendo que se até 2050 nós não mudarmos as nossas atitudes, nós temos grandes chances de não ter condições de vida boas aqui na Terra: comida suficiente, água, transporte, moradia / habitação...

Então eu estou usando um alicerce muito forte, que são relatórios de pesquisadores do mundo inteiro, de cientistas mais renomados do mundo para abalizar a minha obra. Por que? Porque não podemos ser ingênuos de achar que jovens escritores vamos ser lidos e levados à sério simplesmente por boas ideias, ainda que sejam realmente boas, que você tem. Então eu tive este cuidado, com bastante humildade, de olhar para o passado, aprender um pouco com a História, a História tem sempre ensina a quem quer aprender, aprender com que ela tem a dizer, com mentes que eu considero mais inteligentes do que eu, estes cientistas, sociólogos, filósofos, mas dando a minha pitadinha de conhecer a realidade do Brasil.

LdeM: Então com este conhecimento você trabalhando agora na prática com empresa de consultoria. Poderia falar para nós... Starling Consultoria ? Falar sobre a marca, onde a gente consegue contato... Saber mais como funciona na prática leis de incentivo, como trabalhar de forma ecologicamente correta, onde possa encontrar, no Facebook , tem também, a sua página, contatos, links para o pessoal saber mais na prática como é o voluntariado.

RS: Sem dúvida. Então só complementando esta questão do livro. Ainda na organização italiana, em 2010, eu pedi demissão, participei de outra organização IGETEC, onde estou até hoje, que é onde organizamos o I Forum Internacional e o II Forum Nacional do Voluntariado Transformador, evento este onde foi lançado o livro, e que contou com a chancela do Ministério das Relações Exteriores, de nível Federal, do Governo do Estado de Minas, da Prefeitura de Belo Horizonte e, a mais importante, da ONU, por meio da sua Secretaria de Desenvolvimento Sustentável. E esse apoio foi muito importante porque mostrou que nosso idealismo e as estratégicas que nós utilizamos para chegarmos não só ao VIDES mas ao evento, foram bem vistas.

E na organização anterior, o VIDES, onde pedimos demissão, eu cheguei à Presidência em 2009, fiquei um ano na Presidência, em 2010 eu pedi demissão, por um único motivo, não por uma questão pessoal, mas ideológica, nós percebemos que a organização preferia trabalhar num nível mais restrito, e nós optamos por trabalhar num nível mais amplo, de envolvermos atores, que chamamos de stakeholders , atores envolvidos em qualquer atividade, geralmente econômica, mas são governo, empresa e sociedade civil, que precisa se concatenar.

Então resolvi, depois disso, me desligar do IGETEC formalmente, no sentido da carteira assinada, mas continuo sendo prestador de serviços, e montamos aqui a Starling Consultores Associados para trabalhar esta interface de questões culturais, sociais, ambientais e econômicas para o desenvolvimento da sociedade. O que fazemos? O que a Starling Consultores faz? Nós fazemos a elaboração e implantação de projetos em qualquer uma destas áreas. Trabalhamos num aspecto, que considero uma lacuna a nível de Brasil, que é a captação de recursos. Em qualquer lugar, onde esteja, em qualquer área, no setor econômico, social, ambiental, ou cultural, você precisa de recursos para realizar seus empreendimentos. Então fazemos isso, atuamos na captação de recursos. E ajudamos a formar mentes que sejam agudas, críticas e criativas na sociedade em que estamos. Aqui estamos para isso. E o fato de termos montado a empresa é para ter libertar para negociar em vários âmbitos, de transitar com tranquilidade, em nosso empreendimento.

Inclusive aproveito para convidar vocês que estão nos assistindo: parcerias! A parceria é a alma do negócio! Parcerias movem o mundo. E o tema central do livro “2050 – Voluntariado e Sustentabilidade” é resgatar a solidariedade como necessidade de comunhão com este grande universo, esta grande estrutura, que é a natureza, e as pessoas que aqui habitam: nós! Se você pensar bem, até o tecido da nossa pele é formado de uma solidariedade, de uma união espontânea de células... e assim é na natureza, e porque o homem quer fazer diferente, criar uma coisa própria, como disse Francis Bacon, torturar a natureza pra que ela lhe conte todos os segredos... não! Precisamos ser inteligentes o bastante para fazer um novo contrato natural com a natureza, essa é uma ideia de Michel Serres, filósofo francês, que eu trabalho fortemente no livro. Nós precisamos de ter um contato natural acima do 'Contrato Social' de Rousseau, já proclamado, de bem-estar aqui nesta terra a Starling Consultores, a nossa empresa, vem para isso, para boas parcerias entre os homens e com impacte positivamente na sociedade e no planeta, e aqui estamos...

LdeM: Quais os contatos mais rápidos, mais hotline? A página no facebook...

RS: Parceiros venham participar... Antes gostaria de dizer que os parceiros são todos – empresas, governo, sociedade organizada, cidadãos, e principalmente os mais críticos, e aqueles que geralmente as pessoas não gostam de ouvir, pois dizem a verdade, venham participar conosco. Os contatos são: telefone fixo 3658 2634, celular 9805 9905, no facebook : starling consultores associados. Estamos aí … até 2050. ! Buenas tardes!

LdeM: Até 2050. Agradecemos aqui a entrevista com o Rodrigo Starling, poeta, filósofo, pensador, produtor de eventos, e agora trabalhando com voluntariado, numa empresa de consultoria. Aqui mais uma entrevista com o Pão e Poesia, uma criação do poeta Diovani Mendonça. E até a próxima entrevista no Youtube.

RS: Arriverdeci.

transcrição by LdeM

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Entrevista com o filósofo Rodrigo Starling (parte 1)


 
Entrevista Pão e Poesia

com o filósofo Rodrigo Starling


autor do livro “2050 – Voluntariado e Sustentabilidade”

março 2012, em Belo Horizonte / MG


temas: Terceiro Setor – Voluntariado – Ecologia

Parte 1

! Buenos días! Buenas tardes ! Buenas noches!

Estamos aqui para mais uma entrevista Pão e Poesia com o poeta, filósofo, e agora consultor, Rodrigo Starling que montou uma empresa, a Starling Consultores. Estamos entre o bairro Glória e o Alípio de Melo, e vamos falar sobre o novo livro, a nova obra do Rodrigo Starling, que nós conhecemos como organizador de eventos, poeta, escritor, pensador, e agora trabalhando com questões mais sérias: o futuro deste planetinha chamado Terra. Este livro foi traduzido para o inglês, como podem ver. E aqui está o autor em pessoa, para comentar. Rodrigo...

RS : Saudações, meu caro Leonardo de Magalhaens, companheiro de tantos projetos culturais, sociais... ambientais...

LdeM: Tutto bene? Vamos falar sobre... Você que é conhecido pela obra de poesia, organizou eventos da OPA!, shows de rock em homenagens ao pessoal do Pink Floyd... etc, etc

RS: … homenagem ao Syd Barrett...

LdeM: Pois é, podemos fazer uma lista …. E agora estamos descobrindo um novo Rodrigo Starling que é o pensador sobre ecologia, que atua em eventos, em congressos... Você poderia falar sobre esse novo trabalho seu com voluntariado, e sobre como você idealizou e escreveu este livro “2050 “ que está traduzido para o inglês.

RS: Bom. Começar a falar do voluntariado na minha vida, o que é uma coisa extremamente interessante. Se formos pensar, Voluntários todos nós somos. Somos voluntários no sentido de que nós estamos 24 horas fazendo as atividades primeiras, as quais escolhemos profissionalmente, ou socialmente, e em alguns momentos, nós, voluntariamente, escolhemos fazer outras coisas. Ou seja, você é médico, tem aquela profissão, mas você tem outras atividades que compõem o existir, o estar mundo, sua vida social. O voluntariado que tem uma questão técnica, mas tem também uma questão mais prática, que é uma virada de olhar, além daquelas atividades primeiras.

Então o voluntariado na minha vida começa muito cedo, porque como todo jovem, há alguns anos atrás, na fase dos quinze , dezesseis, dezessete, eu tive aquele pequeno desejo de todo homem costuma ter quando jovem, de 'mudar o mundo', e eu me coloquei a praticar este exercício de mudar o mundo. E comecei a me envolver com o Terceiro Setor.

Terceiro Setor é tudo aquilo, falando de uma forma bem prática, objetiva, é tudo aquilo que não se configura como Estado, o primeiro setor, o governo, seja nas esferas federal, estadual, municipal, e tudo aquilo que não é empresa, que não nasce única e exclusivamente para gerar lucro . Então Terceiro Setor são as ONGs, as associações e as fundações que geralmente trazem um objetivo mais social, de resolver alguma causa, algum problema, que eles entendem que o Estado e as empresas são deficientes nesta resolução. Este é o chamado Terceiro Setor.

Então voluntariamente, desde o ano de 2001, eu venho trabalhando em associações de bairro, depois trabalhei em DAs de filosofia , os diretórios acadêmicos, da PUC, pois sou formado, graduado, em Filosofia. Ali naqueles corredores, que mais pareciam os jardins de Epicuro, onde as ideias transitavam livremente, a gente teve oportunidade de se unir com algumas pessoas, que a sociedade costuma chamar de loucos, ou idealistas, nós fundamos uma organização, e aí começa a [minha] trajetória no Terceiro Setor, onde agora trabalho profissionalmente. E [a organização] se chamava OPIO.

E o que é o OPIO? Karl Marx dizia que 'a religião é o ópio do povo', é uma frase muitas vezes dita fora do contexto, mas a gente queria brincar com esta frase de Marx ( um cara muito sério, mas às vezes não levado tão a sério; mas sério, com bons pensamentos, bons propósitos), que era entorpecer as pessoas de cultura. Então, se a televisão, o mainstream, os grandes canais, grandes detentores da mídia, das questões sociais de impacto, trabalhava com mídia agressiva, valorizando a questão da prostituição, músicas com letras péssimas, etc, e nós tivemos a ideia de fazer o OPIO que era entorpecer as pessoas com cultura.

E assim fizemos. Começamos a nos reunir nos jardins internos da PUC Minas , no Coração Eucarístico, Belo Horizonte, e lá nós sentávamos debaixo das paineiras, no horário de dezoito horas, quando os estudantes estavam rumando para as suas salas, e estando ali sentados, reunido aquele grupo de pessoas em círculo, no meio das buchas de algodão e muitas pessoas se interessavam, achavam diferente, e perguntavam 'O que é isso?', e nós respondíamos 'Isto é a OPIO – 'Oficina de Produção Independente Organizada', nosso propósito é trabalhar [como] um coletivo de artistas – que sempre mudaram o mundo, as artes e as letras mudam o mundo, apesar de serem mudanças demoradas.

Então nos queríamos fazer, meditar neste tipo de coisa, mas com uma visão do artista empreendedor, nos coletivos, nas universidades, mas principalmente envolvendo mentes. Queríamos trazer mentes pensantes, grandes personalidades, no sentido de produção literária, de pensamento, de questionamento das estruturas sociais para trabalhar conosco.

Isto foi no ano de 2003, e, depois de diversas reuniões, nós fundamos, em 2004, a Oficina de Produção Independente Organizada, que, depois, por uma série de fatores passamos a chamar de OPA! Porque o OPIO, como todo mundo sabe, é uma substância entorpecente retirada das sementes de papoula – e com toda licença poética, que nos permitiu batizar a Ong desta forma, nem sempre isto é compreendido pela sociedade, então resolvemos passar para OPA! Simplesmente Oficina de Produção Artística, e começamos a nossa caminha rumo ao Terceiro Setor.

Bom, eu vou acelerar um pouco, nesta caminhada, porque a gente tem que falar em termos de fases, para não alongar muito. Mas, logo após a OPA, que era uma ong essencialmente cultural, eu conheci a VIDES, que é uma sigla italiana de Voluntariado Internazionale Donna Educazione Sviluppo, é o Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento, Educação e Promoção da Mulher, é uma ong italiana, nascida em 1987 em Roma, está presente hoje em 40 países. Então eu recebi um convite de um antigo professor, Douglas, ao qual sou muito grato, sabendo que eu já mexia com a OPA, com outras pessoas do Terceiro Setor, que eu me envolvesse com questões do voluntariado. Era uma ong essencialmente que não apenas usava do voluntariado para algum trabalho, mas o seu trabalho era formar voluntários, a ong existia para formar voluntários, que eles fossem críticos e atuassem na sociedade de forma ativa, positiva e efetiva.

Eu falei: 'Me encontrei ! É isto que eu quero!' A Arte vai me ajudar, a filosofia vai me dr um lastro importante de diferenciação, nestas negociações da retórica, da linguagem. A linguagem abre muitas portas ou fecha. E vi ali uma grande oportunidade. Mas confesso, aos senhores, que o voluntariado para mim ainda era uma coisa estranha e era muito ligada ao assistencialismo, eu tive uma visão do voluntariado como uma coisa assim muito caridosa, como se fosse apenas doar cestas básicas, ajudar os velhinhos, agasalhar as senhoras, e não, então nesta organização tive a oportunidade de perceber que não.

E me envolvi bastante nestas questões de temas sociais, até mesmo porque a organização tinha pilares teóricos que me interessavam, por exemplo, Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”, com metodologias interessantes, para trabalhar com o povo, a sociedade de base, mas para que ele se empodere e consigam efetivar mudanças sociais expressivas, com a construção de políticas públicas, coisas do gênero. Então entrei nesta organização exatamente em 10 de abril de 2006, e vocês me permitirem eu serei bem breve aqui...

LdeM: Você chegou a organizar congressos para eles, não? [RS: Sim, vários.]Como é, na prática, o voluntariado?

RS: A minha função na organização primeiro foi como secretário, em 2006. Secretário que tinha uma função diferenciada. Assim como Maquiavel era secretário da chancelaria no Palácio Vecchio, na época dos estados papais, não tinha um cargo de expressão, mas era quem conduzia as grandes negociações entre os parceiros, etc, guardadas as proporções, eu também fazia esta função de secretário de chanceler, cuidando das questões ligadas à estratégia, ou seja, parcerias com empresas, captação de recursos, troca de informações, angariamento de novos associados, coisas do gênero.

Mas como eu sempre fui interessado nestas coisas, eu tinha o desejo de caminhar mais, de que nossa organização podia efetivamente influenciar nas políticas públicas, de impacto na sociedade, mas podia dar uma nova leitura ao voluntariado no Brasil. Para vocês terem uma ideia, o Brasil é considerado, por todas as pesquisas, um dos países mais solidários do mundo, haja visto as enchentes e problemas que temos. O brasileiro é muito solidário, o volume de doações é muito grande e, ao mesmo tempo, [tem] as piores legislações sobre voluntariado no mundo! Então existe aí um grande abismo. A teoria que fala do voluntariado e a prática em termos jurídicos.

Entendemos também que o Brasil ainda carece de um voluntariado, que vou chamar de transformador, porque optamos por uma tradição até - nada contra a caridade em si, mas uma tradição que vem das santas casas de misericórdia, que chegaram ao Brasil em 1943, em São Paulo, que era um voluntariado da prática mesmo, doação de cestas básicas [...]

LdeM : Filantropia, no caso...

RS: Filantropia. E agora a gente precisa, não é uma questão de escolha mas de necessidade, transitar para um voluntariado, que chamamos de transformador. Ou seja, os grupos que fazem as ações, se transformam em coletivos. Você transita também da questão do assistencialismo para a promoção humana, então uma questão de ''empowerment”, do inglês que traduzimos como 'empoderamento', você não chega nas comunidades e dá as coisas. Você 'empodera', você cria, forma lideranças, para que estas lideranças possam replicar isto, e o povo possa exercer seus direitos...

LdeM: Ou seja, é a autonomia, não a filantropia. Mas autonomia.


Continua...


transcrição by LdeM

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segunda-feira, 26 de março de 2012

Melodia Noturna de Azul Profundo - conto







MELODIA NOTURNA DE AZUL PROFUNDO

 
Desperto por um breve sustenido, em suspenso, ascendendo para um allegro. Toques de uma sonata em notas etéreas, acordes volúveis. Teremos uma suíte completa? Mas havia algo mais ali. O piano não estaria trancado? "Melissa, minha querida, acho que a lição terminou." Uma leve vibração percorreu o ar, e também sua face, ouviu-se a solfejar uma sequência fragmentar de fá, si, dó, ré , fá bemol, si.
A porta se perdia naquela bruma ébria de escuridão e tédio, ferida aqui e ali por reflexos tímidos dos lampiões da ladeira, dançantes como sinistros fogos-fátuos, porém incapazes de assustar a quem é assim despertado em plena conflagração de sono e descrença.
Tropeçando pelos corredores, já não havia Melissa nem fim de lição, havia a tocata, a fuga, as notas ora alegres ora tétricas, havia o chamado.
Apoiando-se no corrimão, unhas agarrando uma testa enrugada, desalinhando o cabelo caído sobre as orelhas, sentindo cada degrau da escada, descendo, a repuxar o roupão, viu-se assim no tapete da sala.
Havia a melodia e o piano. Debruçada sobre o piano, concentrada no bailado das notas, havia uma mulher.
A mulher ondulava com os acordes, flutuava com os bemóis, trilhava as escalas, toda entregue às notas e pausas, ao ritmo dos compassos, andamentos da alma despejados no martelar das teclas. Os dentes de marfim subiam, desciam, solidários, no baralho de contrapontos, obedientes aos dedos leves, unhas deslizando em barras negras, a mulher que trajava um ondulante vestido azul noturno, um anil profundo, mas cintilante, em golas e bordados num tom violáceo, um broche de prata, uma sandália no mesmo azul. Em tudo uma fascinante áurea azul, tão instável, qual bolha frágil, o vestido de abismado anil, o cabelo preso numa trança dupla, despejada em cascatas, tal como a arieta.
Parecia-lhe que uma brisa insinuava-se pelas frestas das janelas altas, numa carícia de frescor, engolfando a melodia em ondas na luz mortiça que preenchia a sala, como a originar-se em tudo e lugar algum. Que sombras bruxuleavam na penumbra?
Tecia as questões como uma rede para a mulher de anil, mas ela só podia conceder-lhe a música, ela que era a própria melodia. "É, parece que continuo só"
Então ele se voltou, e nos seus passos rumo a escada, não olhou para trás, não viu que ela se esvaía, sempre atenta, a solista que interpreta a si mesma como tema. Entregando-se, absorta em seus espasmos, a ele, o homem que conquistara ao sono.
É este homem que trilha o corredor, trôpego, guiado pelos fogos-fátuos, as mãos úmidas comprimindo as têmporas, resistindo às últimas notas da sereia anil, ao sentir-se nova criança, abraçando as almofadas macias, buscando refúgio, mergulhando no profundo anil do labirinto dos sonhos.


Mai02

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Poemaremos Sem Fim (a Revanche!)





POEMAREMOS SEM FIM (A Revanche!)

Dedicado ao cyberpoet Lecy Pereira Sousa



Poemaremos sem fim inventando palavras
e deturpando ordens semânticas

Poemaremos nos monitores das lan houses
nos cardápios da praça de alimentação
nos guardanapos dos copos-sujos da zona boêmia
nos rasgos de jornais disponíveis nos banheiros públicos

Poemaremos nos desfiles das escolas de samba
poemaremos assistindo as finais do campeonato
poemaremos assistindo os filmes de terror
e a propaganda eleitoral gratuita
ou relendo os clássicos europeus
ou plagiando versos dos nossos poetas favoritos
ou decorando os elementos químicos da tabela periódica

Poemaremos esperando o Apocalipse e o Juízo Final
poemaremos na odisseia urbana da ilíada midiática

Poemaremos lucidamente extasiados
dopados escandalizados desafinados

Poemaremos evidentemente convertidos
submetidos divertidos compungidos

Poemaremos - não temos pressa - poemaremos -
no compasso

Poemaremos na parada gay tomaremos um drink
no rainbow bar
Visitando o museu dos poetas beatniks
o museu das utopias socialistas
o museu do Clube da Esquina
o museu dos ideais libertários

Poemaremos nas ondulações do yellow submarine
além dos strawberry fields forever
tropeçando nas pedras rolantes
navegando sem rumo no barco bêbado

Poemaremos sentados nas praças públicas de luz néon

Poemaremos viajando de pé nos ônibus suburbanos
Ou mijando a bordo de um ônibus interestadual
Colecionando antologias poéticas e almanaques de
celebridades
Ou doando sangue para mil acidentados nas rodovias
da morte
Reclinando no dentista em plena estimulação acústica do
motorzinho

Poemaremos sem fim sem começo
traficando informações
garimpando poéticas high tech nos sinais de trânsito
dependurando poemas nos assentos dos coletivos do hipercentro
Ou contribuindo para o fundo de recursos para os poetas falidos
na caridade assistencialista para as vítimas da guerra social

Poemaremos sem fim sem eira nem beira
com microchips implantados
Com torsões de dedos e nervos diante do jornal nacional
com as banalidades formatadas
com dores de tendão e de consciência ao digitar o número
do candidato em reeleição
com náuseas existenciais ao constatar os índices de consumismo
e desperdício

Poemaremos tomando coca-cola no McDonald's
poemaremos comendo esfiras no Habib's
ou folheando o tablóide Super
ou comprando CDs em promoção nas Lojas Americanas
ou consumindo ávidos as 'queimas de estoques' das Casas Bahia

Poemaremos nas pizzarias de sábado à noite e nas
churrascarias de domingo à tarde
nas pescarias de fim-de-semana e nas festinhas infantis

Poemaremos sem finalidade específica
na praia em férias de verão na hora das refeições
no show da melhor banda de todos os tempos

Poemaremos gritando "Sieg Heil!" e "Deutschland uber alles!"
Poemaremos gritando "Viva la Revolución!" e
"De pé, ó vítimas da fome!"

Poemaremos sóbrios e bêbados de cair
De salto alto e humildes ajoelhados
Empinando pipas ou mergulhando em piscina de lona
despejando cargas de libido em produtos enlatados
e bonecas infláveis
transando no escurinho do cinema ou pulando de
bungee-jumping

Poemaremos sentados no próprio estrume
e poemaremos pintando o quarto de vermelho berrante

Poemaremos bolinando as mocinhas inocentes
e poemaremos soprando camisinhas com sabor morango
subindo nos miradouros e escalando torres de TV
empilhando panfletos de eleição e queimando 'santinhos'
em ato público

Poemaremos sambando no trio elétrico
ou na pena de morte na cadeira elétrica
Caindo da utopia social ou dinamitando ilusões juvenis

Poemaremos na implosão das torres gêmeas
e na guerra pós-coloniais
Fugindo da artilharia aérea ou submergindo
na mancha de óleo

Poemaremos por teimosia e falta de opção

Poemaremos poemaremos poemaremos poe
ma re mos
Poemaremos poemaremos poemaremos poe
ma re mos


28/29set08


pensado meditado ponderado
no 1º Viva Poesia
no Parque Ecológico do Eldorado
e escrito na madrugada e amanhecer do dia...


Leonardo de Magalhaens


...

mais sobre o Poemaremos Sem Fim (original)
do poeta Lecy Pereira Sousa








quarta-feira, 14 de março de 2012

Ai deturpatori dell'amore / Aos deturpadores do Amor





Ai deturpatori dell'amore
Diovani Mendonça



Se dovrai picchiare, picchia.
Ma in faccia alla tua codardia.

Se dovrai strappare, strappa.
I capelli alla tua prodezza.

Se dovrai spaccare, spacca.
La fronte della tua ipocrisia.

Se dovrai perforare, perfora.
Gli occhi della tua gelosia.

Se dovrai premere, premi.
Il grilletto sul naso del tuo fato.

Se dovrai tirare, tira.
Le orecchie del sentimento di possesso.

Se dovrai scheggiare, scheggia.
Le unghie della tua vanità.

Se dovrai ingabbiare, ingabbia.
La tua irrazionale animalità.

Se dovrai incendiare, incendia.
La casa e il cortile della tua crudeltà.

Se dovrai amputare, amputa.
I muscoli della tua prepotenza.

Se dovrai pestare, pesta.
La bocca alla tua ignoranza.

Se dovrai rompere, rompi.
I denti alla tua arroganza.
Se dovrai tagliare, taglia.
La tua lingua che ammalia.

Se dovrai inforcare, inforca.
La gola della vendetta.

Se dovrai avvelenare, avvelena.
Il ventre della tua insicurezza.

Se dovrai mitragliare, mitraglia.
La vetrata della tua sfiducia.

Se dovrai sparare, spara.
Nel petto della tua amarezza.

Se dovrai legare, lega.
Le zampe della tua forza-bruta.

Se dovrai mozzare, mozza.
Le dita della follia.

Se dovrai pugnalare, pugnala.
Le gambe lunghe della tua menzogna.

Se dovrai imprigionare, imprigiona.
Le mani e i piedi della tua ira.

Se dovrai soffocare, soffoca.
Il grido della tua disperazione.

Se dovrai affogare, affoga.
Le tue sofferenze finalmente.

Se dovrai uccidere, uccidi (e ben ucciso!).
L'egoismo dentro di te.

Rifletti ... Solleva la testa e volta la pagina
e dunque nessuno debba fare nulla di tutto ciò.



tradução para o italiano: Guido Boletti




http://www.guidoboletti.net/

http://www.youtube.com/watch?v=xR2G8nS_fh8

http://diovmendonca.blogspot.com/


quarta-feira, 7 de março de 2012

ODE SENSACIONAL - Prólogo / Ode Urbana



ODE SENSACIONAL


(trechos)


Prólogo

Não queremos o lirismo dos luares e dos pastos verdejantes

Não queremos a melodia das aves no borbulhar das cachoeiras

Não queremos o sinfônico farfalhar das folhas outonais

Não queremos cantar sobre ninfas e faunos em peripécias eróticas

Não queremos discutir sublimidades metafísicas em soturna companhia!

Queremos a poesia das máquinas registradoras e das chamadas telefônicas

Queremos a poesia e o bailar dos
megabytes na rede mundial de computadores

Queremos a dinâmica superaquecida das pistas de dança

Queremos a invasão cegante das legiões de faróis

Queremos a imundícia das ruas e a brisa fétida das latrinas públicas

Queremos a arrogância das cercas elétricas e a afronta dos portões eletrônicos

Queremos o ambiente asséptico dos
shoppings e a paz marcial dos condomínios

Queremos o cansaço diário dos operários nas engrenagens das máquinas

Queremos a estupidez galopante dos escravos voluntários

Queremos o desnível das riquezas e a desigualdade dos atores sociais

Queremos a exploração do suor alheio e a falta de oportunidades

Queremos os cartazes de propaganda com a Musa televisiva de biquíni

Queremos os desequilíbrios econômicos e as variações das taxas de juros

Queremos o insone carisma dos líderes pastoreando as multidões histéricas

Queremos o estrondo dos morteiros e o metralhar dos subúrbios em guerra

Queremos a perversidade inerente às falsas flores de plástico !



Ode Urbana

 
fluxos torrenciais de faróis encobrem o anoitecer de fuligens

nas avenidas de contornos serpentinos e labirintos de alamedas

onde trinta e sete por cento da população economicamente ativa vive na informalidade do subemprego

ou vultos se abrigam sob as tendas de concreto armado –

elevados cruzam hipervias em alta velocidade Setenta por cento dos veículos com IPVAs em dia 
 em velocidade superior a sessenta quilômetros por hora

quando os quatro vagões do metro ( e suas quarenta janelas) iluminam os pilares dos viadutos

e dois vultos em trapos contemplam o desfile cinematográfico de faces e olhares se derramam na sucessão de trilhos e luzes noturnas

os pirilampos frutos de monstruosas turbinas de grotescos
megawatts
fritando as pupilas e impulsionando os motores e roldanas
nos níveis e subníveis de plataformas e estações

e os subterrâneos e os quilômetros de canais e quilômetros de fios sepultados
e as galerias e sondas e trituradoras e carrinhos de tração

extraindo riqueza do subsolo para a ganância dos escritórios
nos arranha-céus de argamassa e vidro a flutuarem meio aos anúncios de
néon

quando não ofuscados pela fuligem das chaminés pós-industriais
nas torres pós-modernas de alumínio e isopor e laminados e recicláveis

onde funcionários sorridentes ocultam o estresse diário sob roupas de fios artificiais 
de conhecida marca

em cortes de alta costura e detalhes os mais inusitados
manuseando teclas e mensagens nos telefones celulares
sob a carícia dos condicionadores de ar nos mundos lacrados

no paraíso das máquinas em apoteose nos domínios virtuais na eficiência topográfica
das infovias no mainfream dos servidores

na performance tecnoestética dos supercondutores
até os limites do deserto do real palmitando o cyberespaço das neo-mitologias digitais

quando a tecla pressionada responde ao toque com promessas de orgasmos
no cruzamento de magias e tecnologias de última (e pós-última) geração

engavetando juventudes nos vãos dos edifícios suburbanos
nas velocidade tremulantes dos coletivos intermunicipais
além de conflitos de ocupação dos espaços públicos (e dos serviços públicos)

quando as autoridades buscam o Bem-Estar Social e o bem comum 
através do poder público (segundo consta nos parágrafos e incisos 
da Lei Orgânica do município )

na paisagem lunar dos estacionamentos no abandono das autopistas noite adentro
sob a névoa rubra de mercúrio na brisa arrepiando o asfalto

no agito das lojas de conveniência e artigos para consumo

no trânsito vertiginoso de veículos de duas rodas nos acidentes com fratura múltipla

sob os lampiões voltaicos e a lua cheia fatiada por fios de alta tensão.



by Leonardo de Magalhaens


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