sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

sobre o livro "A Alma dos Bairros" (p2) de Vinícius Fernandes Cardoso




Sobre “A Alma dos Bairros” (2007)
(2ª reimpressão: 2011)
do escritor Vinícius Fernandes Cardoso
(Contagem/MG)

(Nos 5 anos de “A Alma dos Bairros” de VFC)


A Necessidade de um Pensamento Reflexivo sobre nossa Época

Parte 2


Poemas

Já tivemos a oportunidade de dialogar com o autor sobre a produção poética, sobre o não forçar o poema a sair do limbo, etc. Conversamos e analisamos poemas um do outro, já gastamos horas e mais horas debruçados sobre o que seja poesia e o que é prosa. De como um poeta medíocre pode ser um bom prosador, e o motivo que leva literatos a pensarem que são poetas. O que há de tão importante em ser poeta? Por que algumas pessoas proclamam tal fado com tanto orgulho e vaidade? Enquanto outros se envergonham de ser poetas...

A Escrita não é uma arte fácil. E a Poesia é a mais difícil e complexa das artes literárias (se é que poesia é literatura... poesia pode ser música, ruído, performance, espetáculo, objeto...) a ponto de desanimar muitos futuros literatos-poetas. Muitos trocam a poesia pelo conto, pelo teatro, migram de um gênero literário a outro. Quem fica na Poesia é porque realmente está abençoado-amaldiçoado a ser poeta.

Assim, não é muito tranquilo dizer : sou poeta ou quero ser poeta. O poeta pode escrever poemas ou pode tentar versos originais, mas a Poesia é sempre uma vivência exigente, não apenas um jogo de palavra, não apenas assonâncias e aliterações, não apenas métricas e rimas. Não é apenas o caso de se escolher um adjetivo ou um advérbio. Envolve um dizer e um modo de dizer, um algo a ser dito e a forma ideal para atingir emocionalmente o outro. Muitas coisas podem ser ditas em prosa ou teatro, mas na poesia a coisa a ser dita precisa seguir o modo como é dita.

Há muito a ser dito – ou tudo já foi dito? - que o que faz diferença é o MODO como é dito. O bom poeta é aquele que encontra um 'jeitinho' diferente de dizer o que já sabemos (ou nem sabemos que sabemos até o poeta dizer...) a ponto de acharmos que ele descobriu aquilo – como se não tivéssemos uma civilização de uns dois mil anos... A alma humana já foi vasculhada e radiografada ao extremos – ainda mais depois de um Dostoiévski, de uma Virgínia Woolf, de uma Clarice Lispector – que raramente encontraremos ainda algo a descobrir. Mas aí é que está a arte: o modo de expressar o que sabemos.

É na expressão que o Poeta marca. Somente na Poesia a expressão é a carga total do 'dito' e do 'modo como é dito' a ponto de condensar em versos uma sabedoria que gastaria páginas em prosa – basta lermos um haicai para percebermos o fenômeno. Mesmo que o Autor tenha muito a dizer – e se ele diz é porque está convencido disso – se ele não encontra o MODO de dizer , ele vai fracassar.

Posto esta questão, vamos reler o poemas do autor VFC. Aqui temos toda uma ebulição de desejos e vontades, de observações e nostalgias. Todos têm sentimentos, VFC tem muitos. Mas nem todos são poetas – e podem no máximo ousar uma prosa poética. Por outro lado, o autor não vai para a prosa narrativa, não ousa contos ou romances. Prefere a linguagem condensada da poesia – ainda que tenha que 'lutar com as palavras' (como dizia o guru CDA) – ao modus operandis da teatro ou a narratividade do conto.

Como uma característica de 'nossa geração', VFC oscila entre falar de si mesmo e falar do mundo ao redor. Ora se vê no espelho ora se vê nos olhares alheios. Ora conversa consigo mesmo, ora tenta um diálogo com o leitor (ou a quem ele dedica o poema). Ora se entrega ao tom confessional, intimista, ora faz poesia pensada ao estilo F. Pessoa e C. Drummond.

A compostura a que me posto nos tempos e espaços,
É senão o seu abraço sereno, presente, de mim convicta.
É você, muitas vezes por pensamento de morte,
É você, quase sempre por sensibilidade de vida.”

(“Alguma Coisa Minha”, p. 41)


Outras vezes a voz do eu-lírico ousa falar em nome da coletividade, refere-se a um 'nós', um 'a gente', que pode ser ele num contexto, que pode ser o leitor e o autor num contexto, que pode ser os leitores num contexto, “Seremos vingados? Seremos irmãos? Seremos humanos?” (p. 52),

A gente queria pensar tão livre,
A gente queria sentir tão pleno,
A gente queria a luz além terra,
A gente queria largar da gente.”

(“Acontece que...”, p. 43)

e

Vivemos o evento e esquecemos do ser.

A notícia oprime, o excesso oprime,
Pobres de nós sem discernimento,
Vagueamos sem rumo e pensamento,
Inofensivos e frágeis e o vento
sopra um verso que nos apazigua.

(“Versos Geniais Voaram ao Vento”, p. 46)
e, ainda,

Sem arrufos e erros, afinal
herdamos um mundo estranho e
já estamos bem afastados.

Sejamos companheiros, algo
mais será excesso forçado.”

(“Ainda o Medo”, p. 48)

Outras vezes o poeta se indaga, se justifica, se menospreza, hesita em assumir a própria arte, batalha contra as cadeias da linguagem,

Até quando meus olhos desconstroem?
Até quando meus olhos destroem?
Destruo para me proteger?
Nada sei, sei que escrevo mal.

O certo porém é o meu silêncio.
Quando entendo tudo e me calo.”

(“Começo a duvidar dos meus olhos...”, p. 44)

e

A palavra limita a mente,
Limita o que tento dizer,

São os séculos,
São os mestres,

Como é difícil escrever.

(“Versos Geniais Voaram ao Vento”, p. 47)


Ao olhar para fora, o eu-lírico encontra seus dramas espelhados no contexto (ou seus problemas são causados pelo contexto, aqui o sistema econômico, mercenário e mesquinho) que engloba Eu e Outros, o autor e o(s) leitor(es), todos irmãos e cúmplices, “hipócrita leitor, meu igual, meu irmão” (Baudelaire),

Foi o sistema que fez isto,
Foi a ganância e o poder,
foi o homem ser do fogo,
Fui eu, fomos nós, foi você.

(“Elegia”, p. 53)
e

Ontem tentei escrever para alguém,
Sem máculas do mundo, limpo e puro,
Mas o mundo existe e veta o lírico.

Ventava, o tempo era bom e calmo
mas havia pessoas e seus barulhos.”

(“No Fim sempre um Começo”, p. 54)

que nos faz lembrar aquela “Elegia 1938”, onde o eu-lírico aponta para o leitor, “Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais, … A literatura estragou tuas melhores horas de amor./ Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear./
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota/ e adiar para outro século a felicidade coletiva
.” (in: A Rosa do Povo, 1945)

Ao estilo Beatnik, ou antes, ao estilo Walt Whitman, o poeta VFC entoa canções a si mesmo, mas sem aquele otimismo que emocionava o bardo norte-americano autor de Song of Myself (Canto de Mim Mesmo), como é o exemplo de “Oração de Mim Mesmo”, com uma torrencial prosa poética,

Eu queria escrever um poema que me traduzisse, que depois de lido me acalmasse e me reintegrasse a mim.

Eu queria escrever um poema que fosse como uma música órfica ao fundo de um bar a meia-luz.

Eu queria escrever um poema que me orientasse por dentro e que me desse um sentido de ser, mas que esse sentido não fosse objetivo para que eu pudesse sempre praticar a liberdade de poder sempre me perder.” (p. 58)


e

Eu queria escrever um poema aberto de forma que ele nunca estivesse completo em termos de início e fim, mas que a cada leitura revelasse uma nuança de cordo com o estado de espírito do leitor.” (p. 59)

Eu queria escrever um poema que não se preocupasse em dizer o que é pois de tão certo de o ser se dispensará de explicações, simplesmente dirá como uma criança diz o que diz.” (p. 60)


O longo poema-ladainha “Anomia” (pp. 69-78) cuida em pregar um niilismo que não convence – pois se nada realmente importasse, por que o autor se dá ao trabalho de escrever algo? - que parece mais um desabafo dos desencontros entre o desejado e o alcançado, o idealizado e o realizado. “Que importa o poema / se o pânico assoma?” ou “Que importa o eu, / se não cabe em si mesmo?” e ainda “Que importa a verdade / se não pode ser dita?”, também “Que importa a crítica / se assimilada pelo sistema?” numa necessidade de comunhão entre o íntimo e o mundo – como se o mundo estivesse aí para nós agradar.

O poema-ladainha continua ao longo de páginas no mesmo 'espírito' : desacreditar na mudança, na transformação, na comunicação. Mas se realmente houvesse descrença então não haveria poema – pois escrever pra quê? “Que importa a revolução / se vitoriosa, for traída?”, “ Que importa a democracia / se todos pensam igual?”, “Que importa a palavra / se limita o pensar?”, “Que importa obra / sem criatividade?”, “Que importa o jornal / se nunca imparcial? // Que importa a imprensa / se mais uma empresa?”, “Que importa a declamação / se não prestam a atenção? // Que importa o artista / se ninguém valoriza?” e “Que importa o poema / se não for sem fim? // Que importa escrever / se exigem beletrismo? // Que importa a literatura / se só tinta e papel?

Aqui o autor vai de desconstrução em desconstrução (outro discípulo de Foucault e Derrida?) até desconstruir a própria expressão, a própria literatura. Ora, mas ele não usa um discurso literário? Se a literatura fosse mesmo somente 'tinta e papel' o que valeria escrever? E mais: imprimir, publicar, fazer lançamento. É como se um filólogo começasse a duvidar da linguagem...


Comentários e Diálogos


Aqui o autor abre espaço para outras vozes. Está incluída em sua obra ensaios de terceiros, de autores que pensam as mesmas problemáticas, e que leem as mesmas obras, e – o mais importante – lê a obra do autor VFC. Por isso a seção 'Diálogos', pois o autor encontrou um leitor. E trata-se deste mesmo LdeM que escreve aqui. Os curtos e sucintos ensaios “Entre o Intelectual e o Poeta Andejo”, “Vozes que clamam no 'deserto do real'”, “O Poeta Andejo no Vazio da Época”, e os poemas “Um Poema contra a Abstração do Poema ou Manifesto contra o Terceiro Setor” e “Andanças” são assinados por Leonardo de Magalhaens.

Em diálogo escrito e expresso com o autor VFC, eu, LdeM, ao encarnar o papel de leitor atento, de crítico, preciso me posicionar como o Outro - não como o amigo, ou confrade de letras. Necessário é manter um distanciar em relação ao Autor e dedicar-se num debruçar sobre o Texto. Para a minha crítica a Obra vale mais que o Autor. Depois de publicar, o autor é dispensável.

Claro que para os autores vaidosos e arautos da autopromoção esta minha profissão de fé é uma blasfêmia – pois é como se a Obra servisse aos interesses do Autor. Coisa de vaidade humana. Para a minha crítica é o Autor que serve aos interesses da Arte literária – caso contrário, pode o incauto se dedicar às coleções de selos ou tampinhas de cerveja, ou ir surfar no Havaí.

É basicamente o que elaboro nos ensaios – não pode o autor VFC se reduzir ao panfleto, ao desabafo, às confissões – ainda que válidas, têm mérito – mas deve usar tudo isso como uma argamassa para um produto mais concreto: a Obra. Que tenha estilo, tenha posição, tenha ideologia. Ótimo. Mas a Obra deve ser legitimada em si mesma.

Não importa se o autor é de direita ou de esquerda, se é um santo ou um facínora. A obra é que interessa. Não interessa se prega o aborto, a eutanásia, o suicídio coletivo, a paz universal – mas COMO ele prega o que resolver pregar. Mais vale um obra iconoclasta bem escrita do que um discurso panfletário pessimamente redigido.

Na verdade há um jogo espelhado aqui – um espelho dentro do espelho ao infinito – pois minha crítica aborda a obra de VFC que, por sua vez, aborda obras de outros autores. E normais: são nossas leituras: como eu leio VFC e como VFC lê os outros autores. E como um lê o outro. Muita coisa aqui – principalmente no longo poema-desabafo verborrágico “Andanças” - somente será compreendido entre o autor e o crítico, entre o poeta e o amigo, numa linguagem cifrada de vivências e lembranças em comum.

sei que tudo não passa de confissões ao pé do ouvido que tudo é desabafo tudo é leitura insana e obsessiva de clássicos da poesia brasileira”

e tu serás um escritor um poeta fingidor um poeta doído e afetado um escrivão dos temores hiper-pós-modernos um escriturário do tempo digitado e catalogado

e tu serás o escritor das angústias da classe média dos tantos subúrbios o cantador do tédio das cidades-dormitórios em busca da 'alma dos bairros'

e tu serás o grande errante entre o medo e o futuro, o poeta andejo avistando o brilho dos trilhos do metrô” (pp. 92 e 93)


Levantamentos

Aqui o autor presta serviços de utilidade pública – indica endereços de bibliotecas escolares e comunitárias, livrarias, locadoras, sebos, acervos, memoriais, centros culturais, etc na cidade de Contagem. Aborda a imprensa contagense, os tipos de impressos, de jornais, de periódicos. Quem são os colunistas, e os patrocinadores? Como é distribuído? Em seguida a lista dos jornais e gazetas, com seus editores e contatos. Um trabalho e tanto de pesquisa e (porque não?) contra-informação.


Pos Scriptum


Aqui Contagem é lida através de um ensaio e um poema. O ensaio é intitulado “Contagem Pós-Industrial” - de como uma cidade rural passa pelo industrial e acaba no setor de serviços – e dialoga com outros autores: o francês Henri Lefebvre e o contagense Ignácio Agero Hernandez. Sempre em busca da cidade e da alma dos bairros – identidade em construção.

O poema é justamente o monumental-discursivo “A Alma dos Bairros” - escrito e divulgado em 2004 – sobre o qual escrevi em ensaio de julho de 2009, ao se completar meia década desde a publicação. Permitam-me repeti-lo aqui como fechamento.


sobre o poema A ALMA DOS BAIRROS (2004)
do escritor Vinícius Fernandes Cardoso


A Cidade enquanto espaço de Política



Ao fim das Utopias, com as quedas de muro e cortina de ferro, com o declínio da Crítica Política, a Estética passou a imperar sobre a Ética, sobre a discussão dos males sociais, voltando a um esquema ‘arte pela arte’ (se é que isso existe...), deixando pouco espaço para uma crítica, exceto nas sufocadas margens, por jovens ainda sem consciência dos limites da Cidadania.

Aliás, fala-se muito em Cidadania e Cidadão, mas pouco se esclarece o aspecto da vida em sociedade, os Direitos e Deveres, coisa que não é disciplina escolar. Esclarecer por exemplo a importância de ser “Cidadão”, pois o próprio termo ‘política’ vem da “Polis” grega, a Cidade-Estado, onde todas as decisões importantes eram decididas em reuniões de Cidadãos, apenas os homens com família e rendas, não as mulheres e escravos. (Com o tempo, e muito sangue derramado, a Democracia ampliou as esferas de poder) Daí o sábio Aristóteles dizer que “o homem é um animal político”, isto é, exerce um poder na “Polis”, a Cidade.

Que poder exercemos hoje na nossa “Polis”? Qual é, aliás, a ‘nossa’ “Polis”? Aqui, no poema de VFC, é a cidade de Contagem, nas bordas de Belo Horizonte, mas poderia ser qualquer outra cidade às margens de metrópole/capital. Um espaço urbano com um grau de dependência, de falta de identidade, em relação a cidade mais desenvolvida, política e economicamente. É o caso de Contagem, espalhada, em identidade. Grande demais e suburbana, dispersa e provinciana.

Tanto que o Partido no poder (qualquer que seja) cria e recria a Cidade ao bel-prazer: quem ganha as eleições vai logo re-pintar os espaços públicos, com as cores do Partido vencedor (ainda mais quando o dono da empresa de tintas é parente do candidato eleito!)

A política fez uns nomes e feitos e sujou a cidade
nas cores do partido vigente.

Resultado visual e não-estético da Politicagem, sem mais nem menos. (o que mostra que os políticos não ‘acham’ que o povo é idiota, eles têm certeza!) Daí a indignação do Autor de “A Alma dos Bairros”, um ser a auto-intitular-se ‘poeta andejo’ ou ‘operário do ócio’, que percorre as ruas e praças a procurar então uma identidade, uma ‘alma’ dos bairros, do mesmo modo que o escritor carioca Paulo Barreto, o “João do Rio” vivia à busca da ‘alma das ruas’. E o que o poeta vai encontrando?

Fotos, retratos embaçados, restos de casarões, imagens políticas, outdoors, templos faraônicos, religiosos anacrônicos, jovens sem rumo, excesso de luzes artificiais, tudo de metrópole, mas ao mesmo tempo, um provincianismo, um retraimento de cidade do interior, onde a cultura não acompanha o crescer de fábricas e edifícios, onde o povo não se identifica, não sente sequer saudade.

A história fala de fazendas e casarões que pouco inspiram saudades”, além de “títulos honoríficos”, nomes de ancestrais e fundadores, mas são “nomes que olhamos com tédio”. Essa triste indiferença invade os jovens diante das imagens do passado – não gera identificação. Quem serão os ilustres desconhecidos? (Quem se lembra que João César de Oliveira, lembrado no nome da longa avenida-arterial a ligar os dois corações de Contagem, foi um mascate, e o pai do nosso JK, Juscelino Kubitschek?)

Essa falta de identificação é notória, mesmo em BH. Mas em Contagem é até absurda (ainda mais se compararmos com Betim, Caetés, Sabará, outras cidades nas beiradas, mas com identidades formadas, com história própria) a ponto de justificar a busca do Autor, mais linguística do que geográfica, “nesta tessitura de luminares e sensações, com limitada linguagem, o pensamento divaga sobre Contagem”. Mostrando bem que a Cidade é aqui re-criada enquanto Entidade Poética, não objeto de aula e estudos.

É justamente esta liberdade poética de ser livre, e livre observar, a possibilitar a Expressão, o devaneio, que um Cidadão não se permitiria devido aos recalques da vida normatizada, das burocracias hodiernas, como bem apontou Kafka, com seus personagens imersos em absurdos que não podem entender, apenas pode vivenciar e sofrer, passivos e desnorteados. Essa “gente de plástico em série” que vive e anda, mas escravos da Alienação, da produção em massa de mercadorias, a busca do “lucro burro”, onde até a Educação e a Cultura está à venda (quem quer, quem pode, comprar??) É a Culture Industry (Indústria Cultural) analisada por Adorno e Horkheimer, em “A Dialética do Esclarecimento”(Die Dialektik der Aufklärung, 1947), no capítulo 4,

Os despertos da caverna foram para o guetto, comercializaram o guetto”, e “Pujante a indústria da banalidade, enojam-me os artistas vendidos / Tudo à venda, nenhum poema”, onde denuncia que até a rebeldia foi enlatada e comercializada, os artistas se venderam ao Deus Mercado e se deixaram escravizar também pelo “lucro burro”, porque o Mercado assim exige! E onde o espaço de Resistência? “Nossa boca porca, com ela nos salvamos? resistimos? / Há resistência? Há ataques-bomba.” O espaço do terrorismo imagético e explosivo?

A banalidade da Arte: pra quê? Fazer festa, gravar disco, pintar quadros, pra quê? pra vender? Assim, os artistas entram na ciranda do Capital, não são mais subversivos, ou marginais, são rapidamente ‘assimilados’, viram mercadoria e geram mercadorias (camisetas, posters, CDs piratas, revistas para os adolescentes ‘rebeldes’, etc) movimentando um dito ‘segmento de mercado’ em nome de uma dita ‘pluralidade de escolhas’, desde que o ‘rebelde’ possa pagar pela ‘rebeldia’.

E nessa “leviatânica aldeia” (um trocadilho sombrio com a “Global Village” (aldeia global) midiática e o poderoso Leviathan de Hobbes, como uma imagem monstruosa do poder e suas coerções) nem os nossos intelectuais escapam, são meros scholars vendidos, renomeados “acumuladores de informação”, que recebem salários para defenderem o Mercado, assim do mesmo modo que funcionários públicos, policiais, juristas, publicitários, jornalistas, políticos, autoridades (in)competentes, todos à serviço de um sistema mercenário que não deixa espaço para a inovação, a não ser que gere lucro, um “lucro burro”, a cavar o nosso túmulo.

Este (A Alma dos Bairros) é um poema que não sacrifica o Discurso em nome da Estética, nem a Poética em nome do Panfleto, ou seja, coisa rara de se ver (e ler) hoje em dia. Vida longa a Escrita engajada do nosso poeta andejo VFC!





fev/2012


por Leonardo de Magalhaens




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

sobre o livro "A Alma dos Bairros" - de Vinícius Fernadnes Cardoso




Sobre “A Alma dos Bairros” (2007)
(2ª reimpressão: 2011)
do escritor Vinícius Fernandes Cardoso
(Contagem/MG)

(Nos 5 anos de “A Alma dos Bairros” de VFC)


A Necessidade de um Pensamento Reflexivo sobre nossa Época

Parte 1


O assunto 'nossa geração' foi abordado em ensaio anterior – sobre o livro do poeta Guto Amaral – é importante repetir um trecho aqui, pois é certo que surgiu uma mente refletindo sobre a nossa geração, mas geograficamente pensada, mais especificamente concentrada na periferia da Grande Belo Horizonte, nas bordas da Capital, sob as fuligens da Cidade Industrial, na outrora rural Contagem.

O que foi dito sobre a 'nossa geração'? “A ideia de época, de 'estilo de época', de geração de autores (vide geração expressionista, 'geração perdida', geração modernista, geração de 45, geração beatnik, geração Oulipo, a nouvelle vague, o nouveau roman, etc) pressupõe primeiramente um tempo, uma cronologia, um recorte temporal, limitado, onde se encaixam alguns autores por afinidades ou interesses ou estilos comuns ou assemelhados. Em segundo lugar, que estes autores tenham algum contato, algum diálogo interno, até se possível um manifesto.

Também que a geração não só esteja na época, como seja uma marca, um corte, a criar um 'antes e depois de', ou seja, antes e depois dos modernistas, antes e depois dos surrealistas, etc. Afinal, não se pode apenas escolher autores e agregá-los apenas por que viveram na mesma época. Não basta. Algo mais devia, portanto, reuni-los num conjunto. Escolhia-se algo em comum, que fosse um estilo, um interesse, uma editora, uma vizinhança, um grupo de amigos, uma facção política (ou apolítica), uma cena cultural de eventos e/ou oficinas, etc, que pudesse facilitar o 'fechamento' do conjunto, e a criação do rótulo ('olhe aí os expressionistas', 'viram os surrealistas?').

Mas como falar em geração numa época como a nossa? Época em que cada um é sua própria escola e e estilo de época! Em que os artistas não aceitam vanguardas e não aderem aos movimentos coletivos de criação em comum. Quando aderem aos grupos e grupelhos é apenas por autopromoção. Não criação coletiva, cada um cuidando do próprio umbigo, centro do mundo.

Se é que podemos falar em 'nossa geração', tanto no sentido de época quanto grupo de pessoas, no caso, os criadores, os autores, para designar um momento pós-Queda do Muro de Berlim, isto é, os anos 1990, vamos, no entanto, usar tal expressão aqui, por simplificação, para falar daquele jovens autores (entre os quais eu, LdeM, me incluo) que viveram suas juventudes na referida época.

Depois da Queda do Muro tivemos a 'Era dos Extremos', o 'Fim da História', Trainspotting, Fight Club / Clube da Luta, o brit-pop, o grunge rock, Matrix e seus efeitos especiais; tivemos mais dois romances de Umberto Eco, a ascensão e a queda do pop cult, séries norte-americanas com vampiros e novelas brasileiras com mutantes, além de reality shows banais e infindáveis. Tivemos até um atentado megalomaníaco divulgado ao vivo em escala global, o 11 de setembro de 2001, com a imagens das torres do WTC em Nova York quando desabavam em grotescas nuvens de fumaça e detritos.

Nossa geração, digamos, vivenciou tudo isso, e tentou digerir tudo isso. É muita coisa. Basta acessar um site de buscas, uma enciclopédia cooperativa, uma rede social que a informação jorra na tela, inunda nossas vidas. Não temos um pendrive implantado no cérebro para guardar tanta informação. Estamos, assim, nauseados. Não de tédio, ou 'vazio da época', mas por excesso e mais excessos.

Imersos em dados e cifras, em estatística, nós, desta geração pós-1990, estamos sobrevivendo em busca de um sentido, de uma crença, uma vez que as ideologias foram por água abaixo, uma pior que a outra. Estamos órfãos de grandes líderes e gurus, e o artista pop da vez já serve para ser o novo ídolo … pelo menos por um ano e meio. Assim, não temos por costume por partido, ou agir coletivamente, mas sempre pensando no 'quanto eu lucro com isso?' a cada hesitação diante de uma decisão.” (LdeM)



A partir desta reflexão – repito: na intro do ensaio sobre o livro do Guto Amaral – vamos prosseguir no olhar sobre nós mesmos enquanto literatos e produtores de informações, malabaristas das palavras, autodidatas do asfalto e acadêmicos da lida cotidiana.

Leitor de vastas leituras, autor de profundas escrituras, pesquisador obsessivo do mundo ao redor, eis a imagem que evoca o poeta, literato e sociólogo Vinícius Fernandes Cardoso (VFC), formado em Ciências Sociais na FAFICH / UFMG, quando adentramos seu mundo de leituras e andanças, de pesquisas e escritas. Várias correntes de pensamento, vasta rede de ideologias são objetos de interesse da sua pesquisa. Às vezes o autor exagera na vontade de classificar o mundo, dividi-lo em departamentos (como se isso fosse possível...) em sua ânsia de tudo entender e explicar (como se tudo fosse entendível e explicável...) para interpretar o que denomina 'vazio da época'.

O autor divide a própria obra em departamentos. Ensaios, crônicas, poemas, comentários, pesquisas. Tudo em sua gaveta para melhor orientar o leitor (ou para re-ordenar a realidade), o que é um contraponto ao estilo (pós)moderno de tudo misturar, tudo 'bater no liquidificador' e desfazer as fronteiras entre disciplinas e gêneros literários.

Didaticamente podemos utilizar a divisão instaurada pelo autor, ao seguirmos em nossa leitura atenta.

Ensaios e Artigos

Aqui conhecemos as influências do autor, desde o espontaneísmo surreal dos Beatnik até os formalismos matemático-lúdicos dos autores da Oulipo. Uma mente ávida não pode deixar passar nada do que aconteceu nos últimos cem anos – e assim VFC lê o mundo do século vinte: como uma teia de pluralidades onde alguns sobrevivem, geram lucro, e outros desaparecem na selva do Mercado.

Os Beatniks procuravam algo na estrada além da estrada, buscam se purificar do mundo consumismo do mundo ocidental, buscam uma mística oriental, como uma negação do Ocidente, querem o surrealismo pois identificam Capitalismo com Iluminismo, ao confundirem Razão com Razão Instrumental. Os poeta do Beat buscavam na Mística a 'viagem' que não encontravam na Lógica.

No ensaio “As Ideias são Beats”, o autor se indaga sobre a questão da turna (o que seria uma parcela da 'geração'?) e baliza contextos. “Onde está a turma afinal de contas? A última geração, enquanto turma, foi junto com o Kurt Cobain? Quando passamos pela [avenida] João César ali na altura do Big Shopping, encontramos uma pequena turma de camisas pretas, renascentes dos loucos anos 90.” (p. 08) Aqui o autor faz referência aos estilos musicais (e comportamentais) do Grunge rock, ao pop cult dos anos 1990 (vide Radiohead, Verve, Belle and Sebastian) na euforia do Brit Pop. Ritmos e melodias que poderiam dar sentido a uma geração, mas que levou a novos hits do momento e mais lucros para gravadoras. O sentido se perdeu no show business...

Parece que para o jovem VFC a História é um pesadelo assim como era para o jovem Stephen Dedalus (no “Ulisses” de James Joyce), “A História é um pesadelo do qual eu quero despertar.” Um História em forma de muralha que ameaça desabar sobre o incauto recém-chegado ao pesadelo. Nossa geração pode dizer o quê? Pode ser original? Tudo já foi dito e escrito? Ou enfrentamos uma indigestão colossal com mil informações e mil novas informações sendo processadas? Então o vazio (ideológico) da época é fruto do excesso (informacional) da época?

Interpretamos nossos sonhos, as formas de governo, a História, os problemas sociais, como foram resolvidos ou não, afinal, temos vinte e um séculos de memória. Bendito e maldito legado! Por outro lado, ninguém aguenta mais tanto conhecimento, tanto aprimoramento tecnológico, tanta informação. Chega um feriado, vamos para o mato, mas voltamos entediados, idolatrando nossa cidade poluída e confusa.” (p. 08)


Dentro do tópico 'nossa cidade' que o autor vai encontrar a 'amostragem' para realizar a pesquisa. Quem são hoje as vozes literárias da cidade? Onde estão? A que gênero literário se dedicam? Eis o que interessa ao sociólogo VFC. Assim ele começa a pesquisa de campo ao reconhecer, cadastrar, catalogar os autores contagenses. Os estilos variam (ou nem têm estilos) assim como os gêneros (tanto literário quanto sexual) numa cidade que ingressa no mundo industrial, no mundo cibernético, no mundo on-line.

Nem todos os autores e autoras são importantes. Servem mais como uma 'amostragem' do que há de belo e de maldito em Contagem. Do que há de importante e do que há de insignificante. Afinal, muitos escrevem, mas pouco (pouquíssimos) são escritores - nas duas acepções do termo 'writer': 1/quem escreve artisticamente e 2/quem vive de vender a produção literária. Com suas regras e exceções, pois nem sempre quem tem estilo e qualidade tem retorno financeiro.

Ao lado de um Lecy Pereira Sousa (poeta, contista, performancer, autor do primor lírico-iconoclastaPoemaremos sem fim”) encontramos literatos totalmente banais e dispensáveis (o critério aqui é artístico, claro) que só justificam a entrada nesta obra como uma 'amostragem' mesmo. O joio vem junto com o trigo quando o pesquisador recolhe a colheita de dados. Importa que existam escritores em Contagem? ou o importante é : existem BONS escritores em Contagem? Afinal, sabemos bem, quantidade não representa qualidade.


Vamos para as crônicas.


Crônicas

Aqui o olhar do autor se fixa em detalhes da vida cotidiana que podem passar como obviedades para o senso comum. Uma vida em sociedade não é apenas um amontoado de coisas, casas, lojas, avenidas, carros ruidosos. Há aquilo mais que o escritor memoralista Pedro Nava chamava de 'geografia sentimental', pois há mesmo uma 'alma' em cada bairro. É esta 'alma' de cada distrito, de cada região que o olhar do poeta andejo tenta encontrar, resgatar e revelar.

Como vivemos num presente sem passado a ansiar pelo futuro (mil prestações para pagar e prometidas férias...) não atentamos para o contexto histórico da realidade: o bairro tem uma história, tem um vida, tem prédios antigos, tem pracinhas com nomes de heróis e políticos, artistas ou militares, tem recordações para os moradores, ou seja, o bairro tem uma dimensão não visível : a quarta dimensão: o tempo.

Ao estudar a sociologia de um bairro de periferia, o autor mostras que a memória coletiva pouco se conserva, exceto para uns poucos mais curiosos ou com tempo livre (entenda-se comerciantes, aposentados, velhos moradores...) e que as novas gerações (inclusive a nossa...) nada sabem sobre o que significa (e significou) o bairro. Por que a avenida chama-se assim? Por que a praça tem nome assado? Por que o bairro Eldorado é cheio de becos? Por que a maioria das ruas tem o sobrenome X ? Por que a avenida João César chama-se João César? Aliás, quem foi João César de Oliveira?

Em busca de respostas o autor fez suas pesquisas, adentrou arquivos, vasculhou repartições públicas, navegou na internet. Estas crônicas são o produto e o testemunho de suas labutas em busca do óbvio que esquecemos. Somos peixes que nada sabem sobre a água. Rua Tiradentes? Rua Rio Mantiqueira? Praça da Glória? Mercado Central de Contagem? Como estes lugares se encaixam em nosso imaginário? Em nossa 'geografia sentimental'? Ou nos identificamos mais com a Praça da Sé? Ou com a Trafalgar Square? Ou com a Ponte do Brooklyn? Ou com a Times Square? Não vivemos o nosso bairro, mas as cenas de TV? Os cenários de filmes ?


Qual a relação do morador com seu próprio bairro? Ele sabe quem são os vereadores? Quem são os comandantes de polícia? Os juízes da comarca? Parece que o morador quer esquecer o bairro : saber no máximo o nome do padeiro, do jornaleiro e da diretora da escola. (Saber quem é o novo atacante do time A ou B parece ser mais importante...)

O resgate da 'alma dos bairros' não é fácil. Pois o óbvio é o mais secreto dos saberes. Andamos pela rua Tiradentes. É comum e prosaico. Mas por que se chama Tiradentes? Quem foi Tiradentes? Personagem histórico ou lenda? O que ele fez que merecesse ter o nome numa rua de periferia? E quem nomeia as ruas? E quem merece ter o nome numa rua? São questões que estão debaixo dos nossos narizes e não percebemos.

Pagamos os senhores vereadores apenas para nomearem ruas? Pagamos as nossa autoridades apenas para continuarem seus jogos políticos? Vivemos no bairro X apenas por que não ficamos ricos o bastante para morarmos no bairro Y ? Amamos os nossos bairros ou apenas toleramos? Qual o nosso sentimento de pertença? Ou somos turistas em nossos bairros? Só quem tem olhos de ver pode ver a cidade? Assim, só mesmo o autor muito curioso para ver o óbvio e nos dizer, por exemplo, sobre a Rua Tiradentes, no bairro Industrial,

Há, na cidade em potencial, uma rua em potencial. Uma passarela sem samba, um cartão-postal por fazer, um cabaré sem boêmia, uma entrada sem portal de boas-vindas, talvez pior, a rota de fuga de um lugar inóspito, talvez melhor, a via amiga de uma cidade futura, talvez o que é por ainda mais tempo, uma rua em potencial numa cidade em potencial.” (“Uma Rua com Porte de Avenida”, p. 24,)

ou sobre a Rua Rio Mantiqueira no bairro Novo Riacho, deveras simpática,

Se cada bairro de Contagem possui uma alma, como escreveu Ignácio Agero Hernandez, talvez a alma do Novo Riacho seja uma das mais robustas de Contagem. Bairro de artistas, escritores, poetas, idealistas, a alma do Novo Riacho é apaixonada [quase passional], boêmia, alegremente melancólica. Cada bar é um cantinho reservado do mundo, cada criatura um companheiro de viagem. […]

Certa mentalidade velhaca ameaça sua ingenuidade acolhedora? Possivelmente, mas, a rua, acima das modas, altiva e humilde, permanece.” (“Rua Rio Mantiqueira”, p. 26)

Na região metropolitana de Belo Horizonte, Contagem é uma cidade que de rural tornou-se urbana em menos de cem anos e sofre com o trânsito, com o transporte urbano, com a falta de saneamento básico, a falta de points de lazer para todos, com oportunidades para todos - para os tantos que deixaram o campo para viver nas orlas da Cidade Industrial, promessa de infindos empregos. A cidade inchou e cresceu e expandiu, mas sem abraçar a todos, sem oferecer recursos para todos. Meia dúzia de famílias poderosas, dos tempos feudais, ainda dominam e são protagonistas dos jogos políticos. Pois os moradores ainda não assumiram inteiramente suas possibilidades enquanto os novos protagonistas. (O que é uma visão otimista do autor.)

A cidade é um parque arqueológico vivo no qual é possível encontrar esqueletos das fases históricas anteriores, inclusive, da fase industrial, cujo esgotamento [com a passagem de capitalismo industrial para capitalismo de serviços], ao menos relativo, não pode ser totalmente ignorado.”

Por isso, os fatos apontam para uma radicalização desse processo de tomada de consciência da cidade em relação a si mesma. Portanto, muito provavelmente, a Contagem centenária será, pela primeira vez, graças as forças conscientes/modernizantes atualmente atuantes na municipalidade, uma cidade despertada para si mesma, não mais se considerando um imenso bairro de Belo horizonte a quem deva recorrer como uma criança recorre a um adulto, ou uma cidade-dormitório na qual os cidadãos estejam presentes apenas de corpo, mas não de espírito [cidade para dormir e morar, mas não cidade para pensar, sentir, viver]. Não. A Contagem centenária será uma cidade amadurecida, consciente de si mesma.

(“A Caminho do Centenário”, pp. 35 e 36)


Na cidade para viver e pensar pode então surgir uma superestrutura específica: a Arte. Não mais apenas obreiros, operários, professores, empresários habitam a cidade. Mas também aparecem os músicos, os literatos, os poetas, os escultores, os artistas plásticos, os formadores de opinião. Assim o autor pode descobrir os autores, e trocar informações, e congregar interesses, até a formação, em 2002, de uma Academia Contagense de Letras (ACL), ao molde de tantas academias de literatos nas cidades provincianas de todo o Brasil. Literatos que precisam da aprovação de outros literatos, que descobrem ser preciso uma atuação coletiva em prol dos interesses da leitura e da escrita.


continua...

fev/2012


por Leonardo de Magalhaens





sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

mais duas cidades das CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino




As Cidades Invisíveis
Le Città Invisibili


Italo Calvino


trad. livre – LdeM


Le città e il cielo. 4
As cidades e o céu. 4


“Chamados a ditar as normas para a fundação de Perinzia os astrônomos estabeleceram o lugar e o dia segundo a posição das estrelas, traçaram as linhas cruzadas do decúmano e do cardo orientadas uma como o curso do sol e a outra como o eixo em torno do qual rodam os céus, dividiram o mapa segundo as doze casas do zodíaco de modo que todo templo e todo quarteirão recebesse o justo influxo das constelações oportunas, fixaram o ponto das muralhas no qual abrir as portas prevendo que cada uma enquadrasse um eclipse da lua nos próximos mil anos. Perinzia – asseguraram – teria espelhado a harmonia do firmamento; a razão da natureza e a graça dos deuses haveriam de dar forma aos destinos dos habitantes.

Seguindo com exatidão os cálculos dos astrônomos, Perinzia foi edificada; gentes diversas vieram povoá-la; a primeira geração dos nascidos em Perinzia ficaram a crescer entre suas muralhas; e estes, por sua vez, alcançaram a idade de casar e terem filhos.

Nas ruas e praça de Perinzia todos encontram deformados, anões, corcundas, obesos, mulheres com barbas. Mas o pior não se vê; urros guturais se elevam dos porões e dos celeiros; onde as famílias escondem os filhos com três cabeças ou com seis pernas.

Os astrônomos de Perinzia se encontravam diante de uma difícil escolha: ou admitir que todos os seus cálculos são equivocados e suas cifras não conseguem descrever o céu, ou revelar que a ordem dos deuses é propriamente aquela que se espelha na cidade dos monstros.”



nota:
sobre Decúmano e Cardo,
vias de cidades romanas - http://pt.wikipedia.org/wiki/Decumanus





Le città e il cielo. 5
As cidades e o céu. 5


“Com tal arte foi construída Andria, que cada rua sua corre seguindo a órbita de um planeta e os edifícios e os lugares da vida em comum repetem a ordem das constelações e a posição dos astros mais luminosos: Antares, Alfa de Andromeda, Capela, as Cefeidas. O calendário da cidade é regulado de modo que serviços e oficinas e cerimônias se disponham num mapa que corresponde ao firmamento naquela data: assim os dias na terra e as noites no céu se espelham.

Devido a uma regulamentação minuciosa, a vida da cidade discorre calma como o mover dos corpos celestes e adquire a necessidade dos fenômenos não submetidos ao arbítrio humano. Aos cidadãos de Andria, louvando-lhes as produções laboriosas e o tempo disponível do espírito, me levei a declara: - Bem compreendo como vós, sentindo-se parte de um céu imutável, engrenagem de uma relojoaria meticulosa, evitais causar à vossa cidade e aos vossos costumes a mais leve mudança. Andria é a única cidade que conheço a qual convenha restar imóvel no tempo.

Se olharam perplexos. - Mas por que? E quem disse? -E me conduziram a visitar uma rua pênsil aberta recentemente sobre um bosque de bambu, um teatro de sombras em construção ao posto do canil municipal, ora transferido aos pavilhões do antigo lazareto, abolido após recuperação dos últimos empestados, e – apenas inaugurados – um porto fluvial, uma estátua de Tales de Mileto, um tobogã.

- E estas inovações não perturbam o ritmo astral da vossa cidade? - perguntei.

- Assim perfeita é a correspondência entre a nossa cidade e o céu, - responderam, - que toda mudança de Andria comporta alguma novidade entre as estrelas – Os astrônomos procuram com os telescópios depois de toda mudança que tem lugar em Andria, e assinalando a explosão de uma nova, ou o passar da cor laranja ao amarelo de um remoto ponto do firmamento, o expandir-se de uma nébula, o curvar-se de uma espiral da Via Láctea. Cada mudança implica uma cadeia de outras mudanças, em Andria como entre as estrelas: a cidade e o céu não restam mais iguais.

Do caráter dos habitantes de Andria merecem ser recordadas duas virtudes: a segurança em si mesmos e a prudência. Convencidos de que cada inovação na cidade influi no desenho do céu, antes de cada decisão calculam os riscos e as vantagens para eles e também da cidade e dos mundos.”


trad. LdeM


Italo Calvino



para ouvir sobre outras cidades invisíveis ...




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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

outras cidades das CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino


As Cidades Invisíveis
Le Città Invisibili

Italo Calvino


trad. livre – LdeM


Le città e gli occhi. 2
As cidades e os olhos. 2


É o humor de quem a olha que dá à cidade de Zemrude a sua forma. Se passa assobiando em nariz arrebitado em assobio, a conhece de baixo a cima: parapeitos, tendas que tremulam, esguichos. Se caminha com o queixo sobre o peito, com as unhas fincadas nas palmas, os teus olhares se emaranhando rente a terra, nos regatos, nos fossos, nas redes de pesca, nos papéis dispersos. Não pode dizer que um aspecto da cidade seja mais verdadeiro que outro, porém da Zemrude de cima se fala sobretudo de quem a recorda afundando na Zemrude de baixo, percorrendo todos os dias os mesmos trechos da estrada e reencontrando de manhã o mau-humor do dia anterior incrustado ao pé dos muros. Portanto, vem cedo ou tarde o dia no qual abaixamos o olhar ao longo dos tubos das goteiras e não conseguimos mais distingui-las dos calçamentos. O caso inverso não é excluído, mas é mais raro: por isso continuamos a girar pelas ruas de Zemrude com os olhos que agora escavam sob todas as adegas, sob todos os alicerces, até os poços.”



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As Cidades Invisíveis
Le Città Invisibili

Italo Calvino


trad. livre – LdeM


Le città e il cielo. 1
As cidades e o céu


Em Eudossia, que se estende para cima e pra baixo, com becos tortuosos, escadas, vielas, casebres, se conserva um tapete no qual pode-se contemplar a verdadeira forma da cidade. A primeira vista, nada parece assemelhar-se menos a Eudossia do que o desenho do tapete, ordenado em figuras simétricas que repetem os seus motivos ao longo de linhas retas e circulares, entrelaçado de agulhadas de cores esplêndidas, alternando-se, em cujas tramas pode seguir ao longo de todo o urdido. Mas se te deixe a observá-lo com atenção, te persuade que a cada lugar do tapete corresponde a um lugar da cidade e que todas as coisas contidas na cidade são incluídas no desenho, dispostas segundo os seus verdadeiros relatos, os quais fogem ao teu olhos distraído do vaivém do burburinho da multidão. Toda a confusão de Eudossia, os zurros das mulas, as manchas de fuligem, os odores dos peixes, é quanto aparece na perspectiva parcial que tu recolhe; mas o tapete prova que há um ponto do qual a cidade mostra as suas verdadeiras proporções, o esquema geométrico implícito em todos os seus mínimos detalhes.

Perder-se em Eudossia é fácil: mas quando te concentra a fixar o tapete reconheces a rua que procurava num fio carmesim ou anil ou rubro que atravessa um longo giro que te faz entrar num recinto cor púrpura que é o teu verdadeiro ponto de chegada. Todo habitante de Eudossia compara à ordem imóvel do tapete uma imagem sua da cidade, uma angústia sua, e qualquer um pode encontrar oculta entre os arabescos uma resposta, o relato de sua vida, as reviravoltas do destino.

Sobre a relação misteriosa de dois objetos tão diversos como o tapete e a cidade foi interrogado um oráculo. Um dos dois objetos, - foi a resposta, - tem a forma que os deuses deram ao céu estrelado e às órbitas sobre as quais rodam os mundos; o outro lá é um reflexo aproximativo, como toda obra humana.

Os profetas desde há tempos tinham certeza que o harmônico desenho do tapete fosse de feitio divino; neste sentido foi interpretado o oráculo, sem dar lugar a controvérsias. Mas ao modo próprio tu podes extrair a conclusão oposta: que o verdadeiro mapa do universo seja a cidade de Eudossia assim como é, uma mancha que dilata sem forma, com ruas todas em ziguezague, casas que desabam sobre outras na poeira, incêndios, berro no escuro.”


trad. livre - LdeM



Italo Calvino



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