terça-feira, 13 de dezembro de 2011

sobre 'Meu Pé de Laranja Lima' (1968)




Sobre “Meu Pé de Laranja Lima” (1968)
do autor José Mauro de Vasconcelos (1920-1984)


Sofrendo para deixar a infância


Continuando a série de ensaios breves sobre a literatura enfatiza a temática da infância, a vida e vicissitudes das crianças, em nosso cânone brasileiro, onde já abordamos “Menino de Engenho” e “Capitães da Areia”, vamos enfatizar aqui a obra (que foi rotulada de infanto-juvenil) “Meu Pé de Laranja Lima” que já foi lida e relida, tema de sala de aula, exposta na mídia através de filme e novela, a ponto de ser referência para uma geração de leitores (e até para os que não leram).

Algumas semelhanças. Tanto “Menino de Engenho” quanto “Meu Pé de Laranja Lima” são narrados em 1ª pessoa, como se fosse a voz infantil. Mas são, na verdade, memórias de infância. A visão não é mais de uma criança. Pois os autores já adultos dedicam-se a narrar suas vidas de aventuras e desilusões na meninice. Uma diferença: em “Capitães da Areia” temos um narrador em 3ª pessoa, não uma voz adulta que rememora a própria infância. O narrador mostra um painel, um quadro abrangendo a vida de várias crianças.

Em “Meu Pé de Laranja Lima” temos o olhar de Zezé em relação aos irmãos e irmãs, o que acontece, o que os adultos dizem e fazem, as primeiras relações de amizade, os fracassos e frustrações, as separações e as perdas. Zezé um menino muito curioso, até precoce, diz os adultos. Quer saber sobre tudo, e não hesita em perguntar. Quer saber o que é 'idade da razão'. Vai perguntar ao irmão mais velho, Totoca.

Idade da razão pesa?
Que besteira é essa?
Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era 'precoce' e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença.” (p. 14, cap. 1, P. 1)

Zezé pergunta tanto que o irmão até se chateia. O excesso de curiosidade, de querer 'entender' o mundo, é um sinal de menino precoce, adiantado em relação às crianças que apenas se limitam a brincar, distraírem-se.

Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele [o tio Edmundo], vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão, não saio mais com você.” (p. 15)

Quando o mundo real é tedioso, quando tudo é limitado, qual a solução? A fantasia. O quintal se torna um zoológico, a ida para escola é uma viagem. O mundo é grande e vasto – descobri-lo detalhe a detalhe é uma aventura. E também uma porta de entrada para os desencantos.



O menino Zezé está naquele momento de transição de criança para jovem, a fase infanto-juvenil, quando as coisas parecem confusas, começamos a notar as contradições entre o que os adultos dizem e o que eles fazem. A criança sabe que está num estágio provisório, que amanhã será um jovem, depois um adulto. Neste estado larvático ela será a curiosidade encarnada. Tudo é emocionante, todas as histórias são sensacionais.

Eu era doido por histórias. Quanto mais difíceis, mais eu gostava.

Alisei o meu cavalinho, bastante tempo e depois levantei a vista para Tio Edmundo e perguntei:

-A semana que vem, o senhor acha que eu já cresci?...” (p. 21)

Mas quais as condições da família de Zezé? Na narrativa temos o momento em que a personagem Totoca faz um resumo – tanto para o menino quanto para nós leitores. Trata-se de uma família modesta de proletários.

-Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa. Papai está desempregado, não está? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Você não viu que Lalá começou a trabalhar na Fábrica? Não sabe que Mamãe vai trabalhar na cidade, no Moinho Inglês? Pois bem, seu bobo. Tudo isso é pra juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai já está devendo bem oito meses. Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa.” (p. 16, cap. 1, P. 1)

O menino logo percebe as condições da precária economia familiar, aquela família proletária que luta para sobreviver no mundo da exploração do trabalho. Os filhos de trabalhadores desde crianças são trabalhadores explorados,

Ela [a mãe de Zezé] falava com uma voz cansada, cansada. E eu estava com muita pensa dela. Mamãe nasceu trabalhando. Desde os seis anos de idade quando fizeram a Fábrica que puseram ela trabalhando. Sentavam Mamãe bem em cima de uma mesa e ela tinha que ficar limpando e enxugando ferros. Era tão pequenininha que fazia molhado em cima da mesa porque não podia descer sozinha... Por isso ela nunca foi à Escola e nem aprendeu a ler. Quando eu escutei essa história dela fiquei tão triste que prometi que quando fosse poeta e sábio eu ia ler minhas poesias para ela...” (p. 31, cap. 2, P. 1)

E também, “A pobreza lá me casa era tanta que a gente desde cedo aprendia a não gastar qualquer coisa. Tudo custava muito dinheiro. Era caro.” (p. 146, cap. 5, P. 2)

Na época do Natal (entenda-se: do consumismo) é bem nítida a consciência da desigualdade social. Por que no Natal, o menino Jesus é bom para uns – com muita fartura na mesa – e ruim para outros tantos – que passam por privação e miséria – se todos são 'filhos de Deus' ? Será que é só os ricos é que 'prestam'?

-Pois então. Todo mundo é bom na família. E por que o Menino Jesus não é bom pra gente? Vai na casa do Dr. Faulhaber e veja o tamanho da mesa cheia de coisas. Na casa dos Villas-Boas, também. Na casa do Dr. Adaucto Luz, nem se fala...

Pela primeira vez eu vi que Totoca estava quase chorando.

-Por isso que eu acho que o Menino Jesus só quis nascer pobre para se mostrar. Depois Ele viu que só os ricos é que prestavam... Mas não vamos mais falar disso. Pode ser até que o que eu falei seja um pecado muito grande.” (pp. 48-49, cap. 3, P. 1)


A tristeza do Natal dos pobres. Será que Jesus só traz boas-novas para os ricos...? Diante da desigualdade, as crianças perdem as ilusões... “Ela [a irmã Glória] falava isso e olhava para a gente. Ela sabia que naquele momento não havia criança mais ali. Todos eram grandes, grandes e tristes, ceando a mesma tristeza aos pedaços.” (p. 50) Com um Natal tão triste, o menino acaba desabafando e se arrependendo, Uma mistura de tudo criou-se na minha alma. Era ódio, revolta e tristeza. Sem poder me conter exclamei: -Como é ruim a gente ter pai pobre!...” (p. 51)

Assim, o menino só consegui ofender o próprio pai, uma vítima, não um réu. O irmão Totoca defende o pai e acusa o menino insensível, que apensa é outro frustrado,

-Malvado. Sem coração. Você sabe que Papai está desempregado há muito tempo. Foi por isso que ontem eu não podia engolir, olhando o rosto dele. Um dia você vai ser pai e vai saber o quanto dói uma hora dessas.” (p. 51)

O menino passa a sofrer – ainda que este sofrimento seja narrado pelo adulto, o Autor – o mesmo drama de consciência daquele menino do Engenho (na obra de José Lins), ao deparar-se com as contradições entre o desejo e a limitação, entre a satisfação e resignação. Em belas frases ele esboça este sentimento, ainda mais em remorso ao ter magoado o pai,

Vazio como o meu coração que flutuava sem governo.” (p. 52)

A rua estava cheia de crianças exibindo e comparando os brinquedos. Aquilo me abateu mais. Todos eram meninos bons. Nenhuma daquelas crianças nunca faria o que eu fiz.” (p. 52)

Não tomara nem café e não sentia nenhuma forme. Minha dor era muito maior que qualquer fome.” (p. 52)

Mas finalmente, o menino pode se reconciliar com o pai, que sabe que o filho é mesmo um 'emotivo',

-Não chore, meu filho. Você vai ter muito que chorar pela vida, se continuar um menino assim tão emotivo...

-Eu não queria, Papai... eu não queria dizer... aquilo.” (p. 59)

É um menino sensível, emotivo, sim. Mas não evita que seja tão ardiloso, trapalhão, criador de confusão, ao armar as brincadeiras mais sacanas contra os vizinhos indefesos. Aliás, isso é próprio de crianças, e menino que não faz travessura só pode estar doente. Criança que não rouba fruta e flor na casa do vizinho? Criança que não monta armadilha pra passarinho? Criança que não apronta surpresas para os irmãos?

Mas para alegrar e distrair o menino aparece o cordelista e cantor popular Ariovaldo, com sua fala baiana, ao entoar as cantigas do povo. “Aquela maneira bonita de falar as palavras quase cantando me deixava fascinado.” (p. 82)

Bem podemos aqui abrir um tópico, do tipo “amizade de adulto e criança” e não faltariam paradigmas! Bem podemos nos lembrar aqui do clássico “Pequeno Príncipe” (Le Petit Prince, 1943) do autor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), onde é o encontro entre um adulto e uma criança que forma o núcleo da narrativa.

Em “Pequeno Príncipe” temos a perspectiva do adulto, o aviador que se perde no deserto. Em “Meu Pé de Laranja Lima” temos a perspectiva da criança. O menino observa o comportamento adulto e tenta agradar no sentido de receber um pouco de atenção – e esta atenção é para ele o mais importante.

Vejamos a amizade entre Zezé e o cantor Ariovaldo, onde o cantor logo percebe que o menino pode ajudá-lo na venda dos folhetos com composições populares,

“-Sabe, pinéu. Você está me dando dando sorte. Eu tenho uma fileira de menino buchudo e nunca tive a ideia de aproveitar um para me ajudar.” (p. 86) e Pegou minha mão entre suas mãos calejadas para ficarmos amigos até morte.” (p. 86)

Quando não tem um amigo de verdade ao alcance da mão, alguém para dar-lhe atenção tão necessária, o menino Zezé adota um pé de laranja lima no fundo do quintal e passa a considerá-lo um amigo – e trocar confidências com o 'fiel' vegetal, ali sempre à disposição... Zezé e o pé de Laranja Lima são apresentados pela irmã Glória, quando passeiam pelo quintal da nova moradia,

-Mas que lindo pezinho de Laranja Lima! Veja que não tem nem um espinho. Ele tem tanta personalidade que a gente de longe já sabe que é Laranja Lima. Se eu fosse do seu tamanho, não queria outra coisa.

-Mas eu queria um pé de árvore grandão.

-Pense bem, Zezé. Ele é novinho ainda. Vai ficar um baita pé de laranja. Assim ele vai crescer junto com você. Vocês dois vão se entender como se fossem dois irmãos. Você viu o galho? É verdade que o único que tem, mas parece até um cavalinho feito pra você montar. (p. 32, cap.2, P.1)

Zezé fala com a árvore e parece ouvir as respostas! Como se conversa muitas vezes com um alter-ego, um amigo invisível...

Não resisti e acabei contanto o meu fiasco para Minguinho.” e “Minguinho ouvira tudo, na certa. Como poderia então deixar de contar? Ele escutou, revoltado, e só comentou quando eu acabei numa voz zangada.” (p. 102, cap. 1, P. 2)


E quando não conversa com uma árvore, o menino se entrega a leitura de gibis de aventuras, aqueles de um Tom Mix ou Buck Jones, quadrinhos e filmes de faroeste (Far West) daquela época, que alimentava a mente das crianças neo-colonizadas aqui da América Latina com tiroteios, caça ao índio, crimes de Billy the Kid.

Mas o que se pode fazer? Tirar os sonhos das crianças? Claro que não. Assim pensa Zezé em relação ao seu irmãozinho, que vê no quintal um belo zoológico. “A gente não deve tirar as ilusões de uma criança.” (p. 104). Afinal, é época de se divertir, de aproveitar a mil brincadeiras que animam a criançada.

Na nossa rua havia tempo de tudo. Tempo de bola de gude. Tempo de pião. Tempo de colecionar figurinhas de artistas de cinema. Tempo de papagaio, o mais bonito de todos os tempos. Os céus ficavam por todos os lados repletos de papagaios de todas as cores. Papagaios lindos de todos os feitios. Era a guerra no ar. As cabeçadas, as lutas, as laçadas e os cortes.” (p. 105)

Tanto que , quando está feliz, em brincadeiras, o menino parece esquecer um pouco a árvore de laranja lima, que simboliza aqui os momentos de solidão, de recolhimento, a ponto de conversar sozinho – e julgar que dialoga com uma árvore.

E a vidinha da gente e da rua se desenvolvia normalmente. Viera o tempo do papagaio e 'rua para quem te quer'. O céu azulado se estrelava de dia das estrelas mais bonitas e coloridas, no temo de vento deixava de lado um pouco o Minguinho ou só o procurava quando me colocavam de castigo depois de uma bela sova. Aí não tentava fugir mesmo porque uma surra muito junto da outra doía pra burro.” e, em dado momento, chega a tecer comparações entre si mesmo e o pé de laranja lima, “Por sinal, Minguinho dera uma esticada danada e logo, logo estaria dando flores e frutos para mim. As outras laranjeiras demoravam muito. Mas pé de Laranja lima era 'precoce' como tio Edmundo dizia que eu era. Depois ele me explicou o que aquilo queria dizer: das coisas que aconteciam muito antes das outras acontecerem. N final eu acho que ele não soube explicar direito. O que queria dizer era simplesmente tudo que vinha na frente...” (pp. 108-109, cap. 2, P. 2)


Mas logo Zezé faz amizade – e com outro adulto. Agora é o Portuga Manuel, um senhor que morria de ciúmes de seu caro muito elegante (pelo menos para os padrões da época...). E Zezé recebe a honra de poder viajar no carro que antes tanto admirara, a ponto de ficar com raiva do ciumento português. Uma honra devida a um ferimento no pé – que o menino agora deve se mostrar muito corajoso.

Muita coisa sabemos da amizade graças aos relatos de Zezé para o atento 'Minguinho', que sempre deve saber de tudo, mas que fica até meio enciumado com os progressos da nova amizade do amiguinho, que somente procura a árvore quando solitário.

Mesmo assim Minguinho continuou emburrado.

-Olha Minguinho, não precisa ficar desse jeito. Ele é meu maior amigo. Mas você é o rei absoluto das árvores, como Luís é o rei absoluto dos meus irmãos. Você precisa saber que o coração da gente tem que ser muito grande e caber tudo que a gente gosta.

Silêncio.

-Sabe de uma coisa, Minguinho? Vou jogar bola de gude. Você anda muito enjoado.” (p. 123, cap. 3, P. 2)


E estas crises de ciúme da árvore? O menino tem toda a atenção da árvore – mas pode confiar numa árvore? Ora, para haver amizade deve haver confiança. Mesmo que seja uma amizade um tanto 'secreta', como aquela com o Portuga. “Tínhamos jurado, de morte, que ninguém deveria saber da nossa amizade. Primeiro, porque não queria ar carona à garotada. Quando vinha gente conhecida, ou mesmo Totoca, eu me abaixava. Segundo, porque ninguém devia atrapalhar o mundo de conversas que a gente tinha para conversar.' (pp. 123-124)

A amizade realmente acalma o menino, evita a solidão, e as travessuras – recurso para chamar a atenção.

E os dias andaram sem pressa e sobretudo muito felizes. Até que lá em casa começaram a notar a minha transformação. Eu já não fazia tantas travessuras e vivia num mundinho de fundo de quintal. Verdade que algumas vezes o diabo vencia os meus propósitos. Mas já não dizia tantos palavrões como antigamente e deixava em paz a vizinhança.” (p. 125)

Ainda continuam as brigas com os irmãos – pois o lar mais parece um ringue quando a carência é muita – e as repreensões dos pais – que descontam a miséria em surras no filho viciado em travessuras. Pois de surra em surra o menino vai se resignando, vai perdendo a espontaneidade, vai se adequando ao mundo adulto.

Meu rosto quase não se podia mexer, era arremessado. Meus olhos abriam-se para se tornar a fechar com o impacto das bofetadas. Eu não sabia se devia parar ou se tinha de obedecer... Mas na minha dor tinha resolvido uma coisa. Seia a última surra que eu levaria, seria a última mesmo que morresse para isso,” (p. 141, cap. 4, P.2)

Depois da surra, a maior de todas, Zezé perde a confiança... “Mas faltava qualquer coisa. Qualquer coisa importante que me fizesse voltar a ser o mesmo, talvez a acreditar nas pessoas, na bondade delas. Eu ficava tão quietinho, sem vontade de nada, sentado quase sempre perto de Minguinho, olhando a vida, perdido no desinteresse. Nada de conversar com ele nem de ouvir as suas histórias.” (p. 143, cap. 5, P. 2)

E "A realidade era que eu não conseguia deixar de esticar a minha dor de dentro. De bichinho batido maldosamente, sem saber por quê...” (p. 144)

O menino começa a achar que realmente é mau, é endiabrado mesmo, assim confessa ao português, “Eu sei por quê. Eu não presto mesmo. Sou tão ruim que quando chega o Natal acontece aquilo: Nasce o Menino Diabo em vez do menino Deus!...” (p. 147). O adulto entende sob que pressão vive o menino, sempre que ele exagera em travessuras, “Besteiras, tu és um anjinho ainda. Podes ser um tanto traquinas...” (p. 147) ao perceber o nível de consciência do menino, que assim sofre, “Senhora de Fátima! Como pode uma criança assim entender e sofrer com os problemas de gente grande. Nunca vi !” (p. 148) e se preocupa com o apego com o menino tem pelo amigo, “Santo Deus! Nunca vi uma alminha tão sedenta de ternura como tu. Mas não devias te apegar tanto a mim, sabes?...” (p. 163)

Justamente este apego entre o menino e o adulto vai levar ao aspecto trágico da narrativa: a separação brutal: a morte de um dos amigos. Seja a mudança de Zezé ou a viagem de Manuel ou a morte de Manuel – faltava mesmo uma tragédia para coroar a obra. Um dia qualquer um súbito acidente – a locomotiva atinge e arrasta o carro elegante do Portuga. A brutal separação é o que faltava para atordoar o menino – que com a dor transita da infância para a pré-adolescência.

Nunca mais iria ver o meu Portuga. Nunca mais; ele se fora. Fui andando, fui andando. Parei na estrada onde ele deixou que o chamasse de Portuga e me colocou de morcego. Sentei num tronco de árvore e me encolhi todo, encostando o rosto nos joelhos.” (p. 172, cap. 7, P. 2)

Em sua dor, o menino que aprende, com a dor, que enfrentar a vida é aceitar surras, derrotas e perdas, chega a culpar o Menino Jesus – aquele mesmo do Natal que só acontece para os ricos... (A necessidade que temos de culpar alguma suposta “Providência” que não nos acolhe e protege...)

-Você é malvado, Menino Jesus. Eu que pensei que você ia nascer Deus essa vez e você faz isso comigo? Por que você não gosta de mim como dos outros meninos? Eu fiquei bonzinho. Não briguei mais, estudei as lições, deixei de falar palavrão. Nem bunda mais eu falava. Por que você faz isso comigo, Menino jesus? Vão cortar o meu pé de Laranja Lima e nem por isso eu me zanguei. Só chorei um pouquinho... E agora... E agora... Nova enxurrada de lágrimas.” (p. 172)

e mais,

E eu não me esquecia dele. Das suas risadas. Da sua fala diferente. Até os grilos lá fora imitavam o réquete, réquete da sua barba. Não podia deixar de pensar nele. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo. Dor que dava desânimo nos braços, na cabeça, até na vontade de virar a cabeça no travesseiro.” (p. 174)


O menino sofre no corpo a dor da perda, em sua fragilidade ele adoece, e a vizinhança fica sem as travessuras do menino endiabrado – na verdade, um menino apenas um tanto quanto ativo, em busca da atenção dos adultos, nem que seja de forma pouco conveniente ou amistosa. Os adultos o consideram muito 'sensível' – é o diagnóstico do médico. “Já tentamos de todas as maneiras, mas ele não acredita. Para ele o pezinho de laranja é gente. É um menino muito estranho. Muito sensível e precoce.” (p. 175) e até preferem as encrencas do menino em lugar daquele sossego e prostração. “Você precisa ficar bom, Zezé. Sem você e suas diabruras a rua fica uma tristeza.” (p. 175)

O tom de desfecho do livro é funesto, é anticlímax. Aqui ele nada tem de infanto-juvenil no sentido de ser leve e lúdico. Os temas são de adulto – desânimo, perda, vontade de morrer. É a voz da ex-criança que fala aqui. Daí a precocidade do menino – ele tem pensamentos e dúvidas de jovem, não de criança,

Mas de que me servia uma mangueira velha, sem dentes, que não sabia mais dar manga? Até meu pé de Laranja Lima logo, logo perderia o encanto e tornar-se-ia uma árvore como outra qualquer... Isso se dessem tempo ao pobrezinho.

Como era fácil para uns morrer. Era só vir um trem malvado e pronto. E como era difícil para mim ir para o céu. Todo mundo estava segurando minhas pernas para eu não ir.” p. 176

e um tom doentio (que somente encontramos paralelo em obras de autores adultos e para adultos), “A fraqueza ia me dando uma sonolência contínua. Não sabia mais quando era dia ou noite. A febre ia cedendo e os meus tremores e agitamentos começavam a se distanciar.” (p. 177) num momento que julgaríamos fatal, de desenlace final, o menino aprende o que é deixar o casulo – e a infância – rumo ao mundo adulto, assim como o pé de laranja lima, em flor, no início da vida adulta – a de dar frutos.

Mas pouco dias depois acabou. Estava condenado a viver, viver. Numa manhã, Glória entrou radiante. Eu estava sentado na cama e olhava a vida com uma tristeza de doer.

Em suas mãos existia uma florzinha branca.

-A primeira flor de Minguinho. Logo ele vira uma laranjeira adulta e começa a dar laranjas.” (p. 183)


Assim a floração do pé de laranja lima é um símbolo da própria maturação do protagonista, quando o menino encara seu 'fim da infância', sua adaptação ao mundo adulto. E que o menino deve ainda saber cultivar sonhos ao conviver com Luís, seu irmão menor – que é quem agora acredita que o quintal é um jardim zoológico. Assim Zezé precisa cultivar as ilusões nem que seja para não destruir aquelas do irmãozinho. Para viver ele, o ex-menino, precisa aceitar que não acredita – que perdeu aquelas crenças de menino. “Era difícil recomeçar tudo sem acreditar nas coisas.” (p. 184)

Saber que o fundo do quintal nada reserva de aventuras. “Sorri com amargura. A selva do Amazonas era apenas meia dúzia de laranjeiras espinhudas e hostis” (p. 185) Viver sem ilusões, sem os mitos e sonhos da infância, tendo que aceitar agora o mundo de dúvidas, responsabilidades, desejos e insatisfações, que é tecido e rasgado pelos adultos, que são ainda desconhecidos, assim como o menino desconhece o pai, ou vê o pai em outro afeto, até o dia em que ele mesmo se tornar um pai.


dez/11


Leonardo de Magalhaens






Mais sobre “Meu Pé de Laranja Lima


videos

novela (BAND, 1980)


filme de 1970


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

continua o ensaio sobre Sousândrade...

continua...


Sim, as figuras religiosas, certamente. As classes sacerdotais – de todas as religiões organizadas – também 'jogam' nas Bolsas de Valores em todo o mundo. Os sacerdotes (que se dizem 'não deste mundo') recebem ofertas, dízimos, detêm propriedades – o Vaticano é um Estado, lembremos – e administram fortunas, que raramente são taxadas, pois os Estados-nações quando laicos mantêm a 'liberdade religiosa' – qualquer cidadão 'iluminado' pode fundar uma seita, religião, confissão mística e fazer fortuna, em nome de alguma Divindade na moda,

92 (Maus-pecadores bons-apóstolos, iluminados às crenças de
remissão e ressurreição dos mortos, vendo JERRY Mc
CAULAY e revendo FROTHINGHAM no 'Christ would
not suit our times':)

-Peccavi diz um, e transforma
Pagodes em templo cristão;
Num templo o outro : cruz
Com Jesus!
'Cristianismo é superstição!'

e


96 (Fogueiros da fornalha reduzindo o pecado original a fórmulas
algébricas e à 'Nova Fé' ('moral rápido trânsito') o
'IN GOD WE TRUST' dos cinco cents:)

-Indústria, ouro, prática vida,
Go ahead! Oh, qual coração! …
A este ar, vai vital
A espiral,
Brisa ou flato ou Bull-furação!

também,

106 (Procissão internacional, povo de Israel, Orangianos, Fenianos, Budas,
Mormons, Comunistas, Niilistas, Farricocos, Railroad-Strikers,
All-brokers, All-jobbers, All-saints, All-devils, lanternas,
música, sensação; Reporters, passa em LONDRES o
assassino da RAINHA e em PARIS 'Lot'
o fugitivo de SODOMA:)

No Espírito-Santo d'escravos
Há somente um Imperador
No dos livres, verso
Reverso
É tudo coroado Senhor!


e mais, usando o nome da Divindade para conseguir mais 'fiéis' e assim ampliar o 'crédito' no Paraíso, digo, no banco mais próximo, e ampliar os negócios, quando 'igrejas' compram salas de cinema, emissoras de rádio e/ou de televisão, veículos de propaganda, empresas de turismo, tudo para a maior glória do Senhor (que certamente deve ganhar uma 'comissão' pelo uso exaustivo do Santo Nome...),


128 (REV. BEECHER, vendo subscrição antes 'gladdening the sufferers'
e sensação após 'saddening the glad,' não crê mais na
palavra, 'recomenda sabão à congregação' e monta
em 'seu bicycle':)

-Some stain is in that new business
Que pear-soap não pode lavar!
Washerwomen 'nodoam'
E entoam:
'Herald-Flood-Fund,' a ensaboar! …

e ainda,

145 (HERALD advogando a causa chim-comercial:)
-In-God-we-trust 'not worth its price,
A great swindle is silver dollar'!
Se em Deus nós cremos,
Descremos:
Amor pagado há mor pagar ….


Além dessas cenas da ambição ao vivo e a cores, temos a visão do Brasil nas mentes ávidas do imperialismo europeu (logo logo suplantado pelo imperialismo ianque), sim, pois é um Brasil que promete em termos de lucro, muito lucro – riquezas naturais, comércio fácil, turismo sexual, políticos corruptos, Elites vendidas, etc. Em suma, um paraíso tropical.

Uma ou outra mudança de regime ou governo – seja monarquia ou república, parlamentarismo ou presidencialismo – um ou outra alternância de senhores feudais e suas oligarquias, mas tudo continua na mesma – a mesma exploração da mão de obra, a mesma desigualdade social, o mesmo desmando - todas as 'revoluções' aqui são feitas de cima-para-baixo, em negociatas, nos bastidores, quando as Elites se alternam no poder, ora o 'café', ora o 'leite', ora o 'minério', trocando apenas os nomes dos gerentes da ordem estabelecida por aqueles que lucram sempre, e lucram mais,


44 (Salvados passageiros desembarcando do ATLÂNTICO; HERALD
deslealmente desafinando a imperial 'ouverture':)

-Agora o Brasil é república;
O Trono no Hevilius caiu...
But we picked it up!
-Em farrapo
'Bandeira Estrelada' se viu.

e


51 (Detectives furfurando em MAIN-BUILDING; telegrama
submarino:)

-Oh! Cá está 'um Pedro d'Alcântara!
O Imperador stá no Brasil.'
-Não está! Cristova
É a nova,
De lá vinda em Sete de Abril !

também,


73 (Fletcher historiando com chaves de São Pedro e pedras de São Paulo:)

-Brasil é braseiro de rosas;
A União, estados de amor:
Floral... sub espinhos
Daninhos;
Espinhal... sub flor e mais flor.




A mistura de cenas e personagens, a interpenetração de idiomas, a pluralidade de falas, a miscigenação de culturas, o coloquialismo irônico, a exibição de tipos e caricaturas, o excesso de figuras e situações, o descritivismo em caleidoscópio, tudo isto cria uma atmosfera de ópera-bufa, de farsa, de teatro de revista, com uma até grotesca exploração dos limites da linguagem e da representação, soando surreal tanto aos brasileiros quanto aos próprios yankees retratados, caricaturados. A linguagem torcida causa uma série de cacofonias propositais, que destoam aos lusofalantes e aos anglofalantes.

Quanto ao efeito que a sucessão de recortes - e colagens e montagens – provocam, podemos comparar ao estilo de Luiz Ruffato no romance “Eles Eram Muitos Cavalos” (2001) onde se tece uma colcha de retalho de descrições, flashes do cotidiano na capital paulista, numa espécie de painel, com uma montagem cubista de corte-e-colagem com o feeling que movia um Sousândrade, principalmente na tessitura imagética-dialógica de “Inferno em Wall Street”. Somente o cenário é outro, é a gigantesca metrópole São Paulo,

 
?quem  é  esse  homem,  meu  deus,  cara gorda ponte-móvel barriga-de-barril roupas desleixadas sem amigos
que gasta as manhãs de sábado lavando o cachorro e o quintalzinho latinhas de cerveja e tira-gostos espetados no palito
que gasta as tardes de domingo vendo futebol na televisão latinhas de cerveja e tira-gostos espetados no palito 


A cadeia de eventos se sucede quando a vontade até obsessiva do Eu-lírico é revelar - o mais instantaneamente - o mundo num panorama, aquela ânsia do heterônimo Álvaro de Campos de estar-em-todos-os-lugares-ao-mesmo-tempo, 'sentir tudo de todas as maneiras', quando a poesia quer ser testemunha de uma vida de fragmentos, impossibilitada de totalizar um mundo fugidio, um quebra-cabeça imenso que chamamos de vida moderna, um pesadelo-polvo tentacular que nos abafa no anonimato.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

(“A Passagem das Horas”)


Não vamos aqui detalhar os caminhos (e descaminhos) do longo e apoteótico “Inferno em Wall Street”, assim nada de resumos ou explicações, não temos tal pretensão. Aliás, tudo isto já foi trabalhado (e retrabalhado) pela erudição dos irmãos Campos no histórico livro “ReVisão de Sousândrade”, de 1964, reeditado em 1982. É uma leitura linguística e historicista da obra do então re-descoberto poeta maranhense, originalíssimo, que passou literariamente despercebido na terra do lugar-comum, da mesmice, e da vã literatura.


out/11

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com





Referências


CAMPOS, Augusto. ReVisão de Sousândrade: textos críticos, antologia, Glossário, biobibliografia. 2ª ed. rev. e aum. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1982.

VERDE, Cesário. Literatura Comentada. Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por Maria Aparecida Paschoalin. São Paulo: Abril Educação, 1982.

RUFFATO, Luiz. Eles Eram Muitos Cavalos. São Paulo: Boitempo, 2001


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O Livro do Desassossego
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sobre a poética de Sousândrade

The Wall Street Inferno

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sobre a obra de Sousândrade





Sobre “O Sentimento dum Ocidental” de Cesário Verde
e “Inferno de Wall Street” de Sousândrade


Dois Poetas Póstumos: Duas Obras Póstumas

Alguns nascem póstumos” F. Nietzsche


Parte 2


A poética proto-cubista de Sousândrade


Adentrando os labirintos do novo centro comercial e financeiro do mundo ocidental, a rua do Muro – Wall Street - em Manhattan, o errante Guesa, personagem e alter-ego do poeta maranhense Joaquim de Sousa Andrade (1833-1902), ou Sousândrade, pode enfim testemunhar o que sejam as volúpias de uma Bolsa de Valores, o que sejam as fortunas (e infortúnios) do poder econômico que transforma os centros de poder em meros fantoches, a mover o mundo rumo ao lucro e ao imperialismo, para melhor explorar a mão-de-obra e ampliar os mercados consumidores.


Mas não apenas a denúncia, mas também a estética, aqui é importante. Em Sousândrade – segundo os irmãos Campos – podemos destacar o imagismo, o barroquismo nas descrições, a poesia-que-sugere-imagens, em descrições que lembram o cubismo – tudo ao mesmo tempo, de todos os ângulos - nos moldes das tomadas cinematográficas, além da experimentação com a linguagem, em neologismos, barbarismos, compostos híbridos de estrangeirismos, metáforas resumidas em palavras-valises, por exemplo, “cristofobia”, “protobestial”, erário-tutor”, “cães-gozos”, “Pará-engenheiro”, “Storm-god”, “puffs-Puritanos”, “Bull-furacão”, “alma-cachaça”, “fossilpetrifique”, “Ring-negro”, etc

Toda a experimentação linguística se explica pela necessidade de retratar poeticamente – sensorialmente, de modo sinestésico – tudo que atua sobre a sensibilidade do poeta, tudo o que se despeja sobre o Eu-lírico na vida agitada e plurifacetada do mundo moderno, demasiadamente moderno. Excesso de povo, de trajes, de mercadorias, de promessas de prazer e ganhos. E muitas frustrações, claro.

Parece que a linguagem é retorcida para dar conta da expressividade do Eu-lírico que mergulha na multidão de cenas e figuras, para ali descrever as vicissitudes (os altos e baixos, literalmente) da vida especulativa, das apoteoses do 'american way of life' em amostra diante dos olhos, a cobiça e a fartura, as promessas de lucro, custe a quem custar.

Como a descrição de Wall Street – na fúria da especulação financeira – é fragmentada em flashes, em recortes de um imenso cenário – símbolo do sistema capitalista – é importante seguir um certo 'guia' – os trechos em prosa que 'resumem' as estrofes, como se fossem ecos de um teatro expressionista, ou roteiro cinematográfico,

1 ( O Guesa, tendo atravessado as Antilhas, crê-se livre dos Xeques e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE; a Voz dos desertos:)

— Orfeu, Dante, AEneas, ao inferno
Desceram; o Inca há de subir...
=
Ogni sp’ranza lasciate,
Che entrate.
..

e

5 (NORRIS, Attorney; CODEZO, inventor; YOUNG, Esq., manager; ATKINSON, agent; ARMSTRONG, agent; RODHES,agènt; P. OFFMAN & VOLDO, agents; algazarra, miragem; ao meio, o GUESA:)

— Dois! Três! Cinco mil! Se jogardes,
Senhor, tereis cinco milhões!
= Ganhou! Ha! Haa! Haaa!
— Hurrah! Ah!..
— Sumiram... seriam ladrões?..

e

28 (OSCAR-BARÃO em domingo atravessando a TRINDADE, assestando
o binoclo, resmirando, resmungando de tableaux vivants,
cortejando: o povo leva-o a trambolhões para
fora da igreja:)

-Cobra! Cobra! (What só big a noise?!...)
Era o meu relógio … perdão! ..
São pulgas em Bod ….
Me acode!! …
=God? Cod! Sir, we mob; you só dam!


São resumos atuando como entre-atos, preparando o próximo flash, ou recorte, do cenário de Wall Street, onde as mais interessantes – e exóticas – personalidades – e personagens – deslizam, em busca de ganhos materiais e de prestígio. Não se hesita em tom jocoso, de pilhéria, de olhar em perambulação pelo mundo do Deus-Money,

49 (Um rei yankee desembarca entre os imigrantes nas BATERIAS,
bebe águas republicanas na fonte de BOWLINGREEN e
desaparece; o povo saúda os carros de CESARINO
e ANTONIO pelo de JULIUS CAESAR:)

-Off! Off! Para São Francisco off,
Sem primeiro a Grant saudar!
Só um spokesman
Disse amen
Que a Deus deve e não a Caesár.
e


88 (Católicos, temendo a glória da bancarrota, fecham as
portas aos beggars:)

-Se não pagam cash 'i não entram!
Em latim Missa, o Papa e os Céus!
Qual confessionários! …
Frascários
Só queimados dão o que é de Deus!


Sim, as figuras religiosas, certamente. As classes sacerdotais – de todas as religiões organizadas – também 'jogam' nas Bolsas de Valores em todo o mundo. Os sacerdotes (que se dizem 'não deste mundo') recebem ofertas, dízimos, detêm propriedades – o Vaticano é um Estado, lembremos – e administram fortunas, que raramente são taxadas, pois os Estados-nações quando laicos mantêm a 'liberdade religiosa' – qualquer cidadão 'iluminado' pode fundar uma seita, religião, confissão mística e fazer fortuna, em nome de alguma Divindade na moda,

92 (Maus-pecadores bons-apóstolos, iluminados às crenças de
remissão e ressurreição dos mortos, vendo JERRY Mc
CAULAY e revendo FROTHINGHAM no 'Christ would
not suit our times':)

-Peccavi diz um, e transforma

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

sobre a obra do poeta Cesário Verde




Sobre “O Sentimento dum Ocidental” de Cesário Verde
e “Inferno de Wall Street” de Sousândrade


Dois Poetas Póstumos: Duas Obras Póstumas

                                                                  Alguns nascem póstumos” F. Nietzsche

Introdução


            Hoje muitos leitores, literatos e críticos reconhecem verdadeiros gênios da Poesia que foram totalmente desconhecidos em suas épocas, ignorados solenemente pelos contemporâneos, desprezados pelos confrades das letras. Poetas que estiveram bem mais adiantados em percepção e criação do que os autores da época – demasiado realistas para serem românticos, demasiadamente experimentalistas para se encaixarem em algum 'estilo de época'.

            Assim Cesário Verde e Sousândrade, o português e o brasileiro. (Também Fernando Pessoa já foi um desconhecido, tendo publicado em vida apenas “Mensagem” em 1935. A glória de Pessoa adveio das outra 'pessoas' poéticas que ele gerou, os heterônimos.)

            O que tematizaram estes poetas que foram glorificados postumamente? Basicamente a modernidade, a vida urbana, presente escandalosamente nas poéticas de dois poetas que somente foram lidos tempos depois, o Cesário Verde das ruas de Lisboa e o brasileiro Sousândrade do Guesa errante que testemunha o antro infernal de Wall Street.

            Ambos os poetas vivenciaram a experiência das cidades, da vida urbana, e do nascente consumismo – mercadorias, vitrines, modas, exibicionismo, etc. Assim é que podemos comparar com o poeta flâneur Charles Baudelaire (1821-1867), ao descrever a cidade moderna no consumismo capitalista. Percebemos que ambos os poetas utilizam a fala cotidiana, usam coloquialismos, promovem os discursos de múltiplas perspectivas – a voz dos excluídos, dos desumanizados, das vítimas do sistema social.

            As questões do urbanismo e consumismo no capitalismo foram abordadas com um olhar crítico, iconoclasta, denunciando que a modernidade – entenda-se o liberalismo burguês e o imperialismo – numa mostra do entrelaçar de obra e época, onde o momento histórico se não determina pelo menos influencia a criação autoral. Ainda mais que não se tratam de literatos alienados.

            O texto é plenamente evocativo do contexto – o que se vivia – com o crescimento das cidades, com o aumento da população, a oferta de mercadorias, o esplendor mesmerizante das vitrines, as promessas de vida fácil (em contraponto a vida rústica do campo...), as frustrações com o anonimato e a falta de privacidade. O texto evoca o contexto, enquanto este explica aquele. O autor escrevia para contemporâneos, certamente. Para nós, a poesia é um relato, um testemunho de uma época.

            Neste sentido pode-se alegar que são importantes o biografismo e o historicismo, no sentido de que há uma relação da voz lírica com o autor, o eu-lírico de “O Sentimento dum Ocidental” e o autor Cesário Verde, um cidadão inserido numa dada época num dado país.

            O autor inserido em sua época é uma verdadeira testemunha, deixa registrado para a posteridade um olhar sobre o que vivenciava, sobre os problemas que afligiram determinado momento histórico. Assim cartas entre literatos durante as guerras, as revoluções, os golpes de Estado, mas também sobre os fatos do cotidiano, que passam despercebidos para os olhares menos poéticos.



Parte 1


A poética imagética de Cesário Verde


            Interessante que tanto Cesário Verde (1855-1886) quanto Sousândrade (1833-1902) percebem a necessidade de um experimentalismo com a linguagem para retratar o mundo moderno, se Verde recorre aos cortes e colagens com as descrições que se sucedem, em Sousândrade temos uma interferência nas próprias palavras, em neologismos que fundem adjetivos e substantivos, e palavras-valises que resumem relações metafóricas.

            Podemos comparar, quanto ao tema, “O Sentimento dum Ocidental” com as “Cenas Parisienses” (“Tableaux Parisiens” em “Flores do Mal”/”Fleurs du Mal”, de Baudelaire), quanto às descrições de cenas urbanas, enquanto no quesito linguagem podemos comparar os flashes líricos-narrativos de “Inferno de Wall Street” com o episódio 7 [Éolo] de “Ulisses” (1922) de James Joyce (episódio que explicita os mecanismos da edição e impressão de jornais diários, com suas miríades de artigos, ensaios, anúncios, avisos, etc.) Trata-se de um estilo expressionista que se encaixa bem numa futurismo daquela “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos / Fernando Pessoa .

            Assim ocorre porque o prosaico do cotidiano transmuta-se em matéria-prima para a lírica, não mais dedicada à natureza (como acontecia no Arcadismo e no Romantismo) pois nesta lírica mais moderna temos a denúncia das condições sociais através das imagens da decadência social na cidade, com a presença de pobres, funcionários públicos, operários, além de outros marginalizados como bandidos e prostitutas.

            Aparece a figura do poeta flâneur, ou 'poeta- transeunte'. Vejamos tal 'poeta-transeunte' segundo as palavras de Maria Aparecida Paschoalin,


“Poeta-transeunte, sua poesia tem o ritmo do caminhar. Tudo é visto simultaneamente: a vitrina que expõe produtos, o mendigo que a observa; comerciantes que gritam do outro lado da rua, navios que trazem a Inglaterra em mercadorias importadas; o gás amarelo que tinge a roupa de quem passa, a mulher que se expõe na porta da casa. Cenas, fatos, impressões e sensações são aglutinados. A rua é o próprio poema: cada passo, um verso. A rua é uma cena e cada passo (verso), um fragmento de cena. Um verso de sobrepõe a outro, num ritmo sincopado de marcha. O autor consegue imprimir à frase, ao poema, o ritmo da caminhada.  Usa magistralmente o assíndeto: cada verso tem força própria, independente, mas se interliga a outro, mesmo que não haja conjunção gramatical. Os versos se sucedem e se completam, como passos da caminhada.

Sua poesia requer atenção, porque Cesário sempre usa a técnica da sobreposição. Isto é, fala de fatos, cenas e emoções de maneira simultânea. Por isso alguns críticos acreditam que essa sobreposição se identifica com o processo de corte e montagem (cada cena se apresenta como se não tivesse relação com outra) tão comum na poesia de vanguarda do século XX.”



            Sobre 'vanguardas', lembramos aqui do Expressionismo Alemão, das décadas de 1910 e 1920, com a ânsia de retratar o mundo em descrições e delírios, prismas e miragens, onde um Eu subjetivo tenta digerir o mundo objetivo da cidade, das ruas, da boemia... Há uma farta descrição de ambiente – o mundo quando atua sobre a sensibilidade em volteios de sinestesias – com paineis pintados diretamente nas ruas, nas praças, comércios, vitrines, prostíbulos, etc


            Diante do mundo destaca-se a consciência do ator social – o ser anônimo e fragmentado das grandes cidades – quando o poeta se observa e interpreta seu papel – no ato da escrita, além da 'torre de marfim', aliás, incapacitado de se abrigar na 'torre de marfim', símbolo da alienação, mas jogado no mundo (um ser-aí, diria Heidegger...),


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,”

“Semelhante a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:”

“Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;”

                                                     (“O Sentimento dum Ocidental”)


            Tal visão subjetiva de um mundo - que antes era objetivo nas lentes naturalistas – é muito semelhante àquela de um Bernardo Soares (o heterônimo pessoano autor do “Livro do Desassossego”) ao descrever de modo pessimista (digamos schopenhaueriano...) as pessoas alienadas na cidade,

“Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional.

Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.

Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.
A sensação era exactamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém que dorme.”
[…]


“O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um «o que será dele?». E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”



            Assim, o poeta moderno sente que deve criar poesia a partir do cotidiano mesquinho, de modo a retratá-lo, mas assim seria poeticamente justificá-lo? Ou deve a poesia tematizar o não-existente, o utópico? Deve o poeta se isolar do mundo? Ou deve, antes, mergulhar no mundo para melhor testemunhá-lo?

            O Eu, ao surgir tematizado enquanto assunto, no poema, cria um metapoema, onde revela a incapacidade consciente do poeta em descrever o mundo observado – a realidade é sempre maior que a ficção...


E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados;

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
passeios de lajedo arrastam-se as impuras,”

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;”

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar

Eu eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;”


            O poeta deseja o Belo, mas é obrigado a descrever o feio. Procura a Beleza no mundo, mas percebe que ao redor pulula o grotesco e o miserável,

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!”

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;”


            Esta ideia do poeta na cidade e ao mesmo tempo deslocado na cidade é explícita no poema longo “Nós”, com suas 128 quadras, onde temos o contraste entre a cidade doentia e o campo saudável. (É a mesma dicotomia campo versus cidade quem encontramos na obra “A Cidade e as Serras”(póstuma, 1901) de Eça de Queirós)

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos, [...]”
                                                                (Nós, I, vv 45-47)

            É realmente um olhar deslocado, a ponto de Alberto Caeiro, o heterônimo rural de Fernando Pessoa, perceber o camponês no poeta que descreve a cidade, segundo os versos do poema III de “O Guardador de Rebanhos”,


“Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E
pôr plantas em jarros...”


            Temos um olhar de camponês sobre a cidade grande – eis o deslocamento de Cesário Verde diante da paisagem urbana. Pensemos: se ele tivesse crescido na grande cidade ele teria este olhar mais poético? Ou já teria se habituado – a ponto de encontrar assunto poético nas baladas sobre as belezas naturais? (Poetas londrinos que escrevem sobre a Natureza são um exemplo no século 19...)



continua …


Parte 2 - sobre a obra de Sousândrade



out/11


Leonardo de Magalhaens