sexta-feira, 30 de setembro de 2011

sobre 'Uvas Verdes' - de Luiz Edmundo Alves




Sobre “Uvas Verdes” (Anome Livros, 2009)
crônicas de Luiz Edmundo Alves


Crônicas líricas desabrocham no cotidiano



A Crônica

Enquanto narrativa curta feita de impressões e considerações sobre assuntos da vida cotidiana, a crônica, no formato que entendemos hoje (antes tratava-se de 'crônica' de feitos heroicos, de soberanos, reis ou sobre as viagens), vem a se destacar no século 20, com o advento da imprensa escrita, com a ampla circulação de jornais no mundo, e no Brasil.

Os leitores recebiam junto com o breakfast, o desjejum, um jornal com notícias e pequenas doses de literatura no formato crônica. Fatos do dia a dia com um olhar mais irônico, com estética mais literária, ainda que conservando algo de jornalístico. A crônica se exibia enquanto produto dúbio, um mestiço. Texto com recursos literários e o teor leve (e descartável) do discurso  jornalístico.

Os assuntos mais diversos eram encontrados nas crônicas. Eventos sociais, obras literárias, decisões políticas, catástrofes, em suma, tudo era tematizado em textos curtos, convenientes aos leitores superficiais e apressados. Afinal, literatura é coisa de gente para quem pouco valor tem o dito 'time is money', é gente que não quer enriquecer.

Mas as crônicas não eram superficiais, antes atuavam como uma espécie de 'introdução ao assunto', um preâmbulo de conversa amiga, para que depois aqueles que passassem a apreciar literatura pudessem degustar bons livros. Justamente muita gente começou a apreciar as obras literárias graças aos textos das crônicas.

Assim foi um sucesso. As crônica destacaram muitos autores de outros gêneros, além de consagrar autores novatos, dedicados antes à escrita em jornal. Muitos autores se mostraram. Assim temos crônicas de Manuel Bandeira, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Fonseca, também, numa segunda geração, Mário Prata, Luís Fernando Veríssimo, Lya Luft, Affonso Romano de Sant'Anna, Arnaldo Jabor, Adriana Falcão.

Levantamos aqui um destaque para o último nome citado, uma interessante cronista atual: Adriana Falcão, autora do curioso “O Homem que só tinha certezas” (2006), que mescla um certo lirismo a doses de ironia diante dos fatos mesquinhos do cotidiano. A paixão, a perda, os desencantos, a auto-piedade. Eis os temas prediletos da autora. Daqui a pouco falaremos mais sobre isso.

Mais sobre o gênero 'crônica'



Uvas Verdes


Temos um volume de crônicas sobre o cotidiano e a literatura, ou a literatura no cotidiano, ou o cotidiano literário, como queiram. Tudo misturado. Não há um desejo autoral de ordenar por assunto. Esta ordenação cartesiana é mais uma 'ideia' do crítico, criatura ordenadora par excellence. (O crítico é o médico-legista da arte. Disseca as obras para rotular as vísceras, ou componentes estéticos...)

Podemos destacar em “Uvas Verdes” algumas temáticas, ou eixos temáticos, que possibilitam uma leitura mais atenta da obra. Temáticas que merecem um momento de reflexão (e/ou ironia) por parte do autor, o poeta e fotógrafo Luiz Edmundo Alves que já lançou por meio do selo Anome Livros duas outras obras que merecem leitura: “Na Contra Luz” (2002) e “Fotogramas de Agosto” (2005).

Temáticas que interessam ao leitor na medida em que deslocam um olhar ao universo autoral (não apenas para um biografismo) ao apresentar algumas perspectivas (e contradições) na condição do literato que observa outros literatos, quando a literatura fala de … literatura.


Obras & Autores


Temos o autor que fala de autores, até ao biografismo, que desvela os bastidores da criação literária, de uma geração a outra, em panoramas de época, em retratos algumas vezes sentimentais, outras vezes irônicos de ícones da literatura.

É um olhar que encontramos em outros contemporâneos. Vejamos, p.ex., o mineiro Ronaldo Werneck, autor de “Há Controvérsias”, recheado de crônicas sobre o cotidiano e sobre o fazer literário – tanto a escrita quanto o escritor. Nomes e sobrenomes se amontoam como uma pilha de inventários sobre uma mesa de burocracia – o que significam? Nomes autorais? Ora, a literatura não se faz de autores, mas de textos. Fala-se tanto do(s) autor(es) quando devia-se falar do(s) texto(s)... Mas as crônicas sobre literatos são até divertidas (enquanto os literatos, bem, eles já perderam a graça... deixaram isso para os hodiernos humoristas do stand-up comedy...)

links para Ronaldo Werneck





Pois o autor Luiz Edmundo Alves sabe diluir considerações, altamente pessoais e personalísticas, ao longo de várias crônicas, onde aborda a poesia e o fazer poético. Em “Paixão e Poesia” tece divagações psicanalíticas sobre arte e desejo, criação e sublimação, o erótico desviado para o estético. … A arte enquanto desvio do erótico? Mas não seria erotizar a vida através da Arte? Certo, mas não vamos discutir psicanálise aqui. Deixemos este desconforto aos profissionais.)

Tomando esse conceito freudiano, a Arte é a sublimação perfeita. Fazer poesia é sublimar, é depositar energia em uma outra utopia. e também, “Ainda hoje a Poesia está associada ao mundo sensível, ao 'mundo das paixões', ao desgoverno das emoções.” (p. 8)

Considerando-se isso, neste sentido o significado de poesia está mais próximo daquele de Rimbaud, “o desregramento de todos os sentidos”, que nada mais é do que o ideal dos poetas do Sturm und Drang alemão, quando os pré-românticos exaltavam a emoção acima da razão, esta tão querida dos classicistas e iluministas.


Ainda em exaltação, a crônica “Gertrude Stein” ressalta o contexto , isto é, época, “Boa parte da história da arte moderna, especialmente pintura e literatura, passa pela Paris do início do século XX.” (p. 9), mesmo que considere traços de biografismo, a origem e genialidade de cada um. As amizades possíveis e impossíveis, os encontros e desencontros, tudo é detalhe de um painel de época, uma “geração perdida” (“Lost Generation”) ali pós-Primeira Grande Guerra, a incluir Stein junto a Hemingway (autor de “O Sol também se levanta”) e Fitzgerald (autor de “O Grande Gatsby”). Todos autores egocêntricos e ambiciosos. Imaginem a guerra de egos.

Em “Aventuras de Adão Ventura” encontramos o poeta da negritude enquanto figura do poeta humilde, o palestrante que ajuda a montar o palco e a aparelhagem de som. Adão já era poeta respeitado e premiado, autor de diversos livros, advogado do serviço público. Entretanto nada disso impedia que fosse sempre humilde e cortês com todos.” (p. 14) Parece que humildade e cortesia é sempre exigida do poeta, não que ele/ela escreva bem. Também não se considera um bom poeta, com voz e estética própria, mas se é o 'pobre' poeta, ou o poeta negro ou poeta índio, ou poeta latino-americano, hispânico.   É a questão dos 'estudos culturais', ou Escola do Ressentimento (como a denomina o scholar Harold Bloom) que dá ênfase não ao quesito qualidade, mas se o/a autor/a é branco ou mestiço, rico ou pobre, aristocrata ou plebeu, classe média ou excluído.

Madeleines com chá de tília” é a crônica onde o olhar investiga o universo proustiano, com reminiscências de uma memória caprichosa que seleciona e exuma fatos do passado, como um arquivo de relíquias rearranjadas arbitrariamente. E outros autores que re-trabalham o tema 'infância' (ou antes: 'lembranças da infância') Não a infância, mas a memória. Temos a memória ou é a memória que nos tem? Voilà! Eis uma boa questão.

Por que alguns fatos ficam registrados nos 'corações e mentes'? E outros se desvanecem no tempo e no espaço? Para resguardar as emoções , além de amostras do bom-gosto, o autor se rende à mania de listas. Um ou outro rol de livros e objetos culturais que povoam as lembranças afetivas, que centralizam a identidade do ser. (Do tipo, 'Quem sou eu? O colecionador de bens cultuais') Assim é na crônica “Listas e Livros que fazem o coração bater mais forte” como uma espécie de manual ou catálogo de livros/álbuns/loucuras que se deve ler/ouvir/fazer antes de morrer.

A crônica “Rosa no redemoinho...” rememora e re-contextualiza o autor dos sertões místicos das gerais, o médico e diplomata, criador-destruidor de vocábulos e léxicos, sintagmas e morfemas, nas horas vagas, João Guimarães Rosa (1908-67), revisitando as influências do criador de Riobaldo na cultura após os 50 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas” (1956).

Mas o autor não hesita em confessar 'certo ceticismo' com relação à fortuna crítica do gênio mineiro de Cordisburgo, diante da proliferação de teses e outros academicismos, enquanto Rosa continua um tanto distante da cultura popular, a mesma que tanto serviu de influência para o plano de fundo da obra. Parece que os acadêmicos sequestram o 'clássico' Rosa...

Também no tema sertão, temos a presença do cineasta da 'câmera na mão e uma ideia na cabeça', o baiano Glauber Rocha (1939 - 1981), em “Glauber vulcão de Vitória da Conquista”, dono de um estilo que revolucionou a época (com o 'Cinema Novo' nos anos 1960), mas que seria deslocada hoje (o que prova que em alguns casos a obra de arte é mesmo datada, tem um contexto histórico, e um peculiar sentido dentre deste contexto)

O que não impede de Glauber ter dito algumas verdades, que incomodam até hoje algumas mentes pouco tolerantes, a saber, os poetas nefelibatas, os estetas, os adeptos da 'arte-pela-arte', os que desprezam a política (e deixam o poder na mão dos que se 'interessam' por política), os que desprezam a arte engajada, em suma, os bons e velhos conformados de cada geração.

Triste, mas é verdade, ao se constatar que “O Estado é mais forte que o Poeta” , quando, num poder político autocrático, os poetas e os literatos são os primeiros a sofrerem o exílio. É também verídico que “A História é feita pelo povo e escrita pelo poder.” Um poder que se diz emanar do povo, mas que o povo desconhece. Antes se o clamor popular incomodar, o governo pode querer simplesmente... 'destituir' o povo.

Na crônica “Mário Faustino” relembramos a presença crítica que elevou sua voz na aurora do Concretismo entre nós, e atacou e desancou alguns bons literatos, apenas para ver-se bem precocemente recolhido ao túmulo. Mário Faustino preocupava-se (digamos demasiadamente) com um conceito de poesia (coisa que sabemos não existir) e por isso tinha dificuldades em entender as novidades. O problema, hoje, nem é saber o que é poesia – antes, é saber o que NÃO é poesia!

Alves aqui até reconhece o trabalho de Faustino, mesmo com os exageros. (Entre estes o fato de não considerar o talento de um Paulo Mendes Campos)  “Em qualquer caso a leitura era mesmo crítica, eventualmente cruel, apontando bons e maus versos. Obviamente são leituras polêmicas e muitas não se sustentaram historicamente.” (p. 83)

Adágio para o Silêncio romance de Luís Giffoni” é uma tentativa de resenha (não crítica literária) sobre a obra homônima do escritor mineiro Luís Giffoni, autor de “Os Chinelos da Raposa Polar”(20020, coletânea de contos, alguns interessantes (por exemplo, “Sonho Sem Destino”, como um pesadelo de Hoffmann ou Poe). Mas tratam-se de narrativas curtas sem pretensão. Lembram Luiz Vilela e até Dalton Trevisan, mas sem o mesmo brilho (entenda-se: brilho pelo estilo simples, despojado, límpido; pois ninguém mais escreve contos ao estilo de Machado de Assis ou Mário de Andrade)

No gênero romance, entretanto, Giffoni não convence. O romance exige muito do autor. E os autores são algo meio preguiçosos – ou não têm talento. Ou então vivem de palestra em palestras,  ou frequentam feiras de livro. Sobra pouco tempo para escrever, então... Escrevem porque o editor pediu, e adiantou uma grana.

Na crônica releva-se o elogio ao novo romancista – que não se sustenta 'esteticamente', pois Giffoni pode até escrever bem, mas não convence. Aliás, pouca gente 'convence' hoje em dia, em época de predomínio da indústria cultural, tanto lixo publicável e publicado, que sobra pouco tempo para lermos as pérolas (onde elas estão, hein?)

a crônica na internet em Tanto


Outra resenha? Temos “Afrodite de Isabel Allende” como resenha de livro da escritora chilena, célebre com seu genial “A Casa dos Espíritos” (“La Casa de los Spíritus”, 1982), que tematiza a tentativa de socialismo democrático no Chile, nos anos 1970, e que acabou numa sangrenta contra-revolução apoiada pelos 'democráticos' Estados Unidos. A autora Isabel Allende é realmente uma voz autêntica no mar de medíocres que povoam a literatura hispano-americana atual (pois o Eduardo Galeano anda sem fôlego nos últimos tempos e o Gabriel García Márquez nada criou de novo desde o realismo-mágico ...)

Continuemos. “Biografias e Jornalismo” trata sobre os bastidores do jornalismo no Brasil, ao resenhar livros de Fernando Morais e Ruy Castro, além do televisivo Pedro Bial, sobre os nossos pioneiros da comunicação. Outro literato que abordou os bastidores jornalístico e literários – mais especificadamente de Belo Horizonte, Minas Gerais – é Humberto Werneck, autor de “Desatino da Rapaziada”, 1992, obra que lança um olhar de documentário, simples e irônico, sobre os nossos literatos. Os bastidores dos primórdios da nossa mídia impressa, da nossa mídia falada, em suma, da nossa indústria cultural.

Continuam as resenhas. “Balzac” é sobre o autor do ciclo de romances “A Comédia Humana” (1829-47), o Honoré Balzac ambicioso retratista verbal da sociedade francesa do início do século 19, num corte de cima a baixo, a englobar nobres, burgueses e proletários.

Já a crônica “Camus” lembra a importância do filosófico romancista francês-argelino Albert Camus (1913-1960) com a importante (e essencial) questão do suicídio, ou antes, 'a vida merece ser vivida?', o quanto somos cúmplices de um mundo de absurdos? “O absurdo é um sentimento, enquanto queremos encontrar no mundo ordem e razão e só encontramos desordem e irracionalidade. Como a vida é absurda. Como um inesperado fato cotidiano pode mudar os destinos, nos levando a matar, ou morrer.” (p. 97)


Sobre a escrita, sobre a criação literária


Em “Pasárgada, a busca” encontramos uma referência – ou intertextualidade – ao poeta modernista Manuel Bandeira e seu universo paralelo, o paraíso pessoal e privativo chamado 'Pasárgada', que tem emocionado tanto os outros poetas igualmente nostálgicos, cada um com sua Pasárgada idealizada, desejada, ocultada. Cada um com sua fórmula da felicidade, da satisfação, da realização pessoal. Numa época de individualismo claro que cada um vai imaginar o paraíso ao seu bel prazer. O paraíso ao desejo do consumidor, encomendado e entregue à domicílio.

Mas o mais interessante é o final. Enquanto cada dia me convenço que o inferno é aqui (pois 'o Haiti é aqui'?) e que somos o 'inferno' uns dos outros, quando cada um corre atrás de seus próprios interesses, a aceitar o outro desde que o outro se 'encaixe' em nossos interesses, pois bem, o autor acha justamente o contrário, a ponto de desistir da procura. Pois se convence que o Paraíso é aqui. Isto é ou não é otimismo? Mais otimista só mesmo o Cândido de Voltaire.

link para “Vou Para Pasárgada



mais poemas de M Bandeira

meu ensaio sobre o “Cândido” de Voltaire


As crônicas “Arte cura?” e “Poesia” abordam sucintamente o fenômeno poético-lírico, numa leitura bem pessoal. Não se trata de tese ou teoria. Antes as constatações nascidas da própria práxis literária (considerando que poesia é literatura, conceituação não é aceita por muitos...) Qual o valor da Arte? Tem utilidade? (Ainda mais num mundo burguês utilitarista e funcionalista...)

A poesia não vem a ser um consolo ou torre-de-marfim. Não resolve os problemas nem paga as contas do mês.  A poesia é mais uma espécie de desabafo. Mas, um momento! A Arte não é mero desabafo – é mais uma questão de estética. De ordem na desordem , de razão na emoção. Afinal, o autor escreve quando a febre passa... ('O poeta é um fingidor', etc) Esta contradição – falar sobre a emoção já sem a emoção – está presente em toda obra – escrita, pintada, representada, etc. O artista não vive sempre em transe criativo, afinal tem uma vida cotidiana para (sobre)viver e suportar. Precisa pagar os impostos e colocar o lixo pra fora...

Algo precisa despertar no Artista o desejo criativo – seja uma indignação, uma paixão, uma perda, etc - só depois o Autor se ocupa com a Obra. E poderá se realizar na criação, se identificar com a obra. 'Quem sou eu? Sou o autor A do romance X.' O Autor tem valor, assim, a partir da obra. (O contrário é patético: vou ler o romance X porque é do autor A ...)

Fazer poesia não afasta minhas angústias, nem traz minha felicidade. Mesmo assim vivo, e viverei, momentos inesquecíveis com a poesia. A vida é surpresa, é a constante possibilidade do inimaginável. O que seríamos sem as contradições da Arte e de nossa própria existência?” (p. 68)

Estilo é coisa de somatórias. É amálgama de educação e intuição. Não basta ser um Jean Genet, pois foi preciso que o ex-presidiário tivesse contato com a escrita genial de um Marcel Proust. Pronto! Reinventou-se a pólvora. A intuição e o talento de Genet foram acesos pelo contato com a Escrita. Então ele se percebeu fecundado. Assim é o poeta.

Não basta fazer pós-doutorado em Teoria da Literatura se não tiver talento, e não basta ter talento se não se aprimora ao ler os clássicos (ou, se não der, leia ao menos Fernando Pessoa, que já está de bom tamanho...), em suma, não basta ter intuição, não basta ter erudição. Intuição e conhecimento precisam dialogar, precisam copular.

Falemos das crônicas “Livros I” e “Livros II”, onde se demonstra que o bom escritor é um bom leitor. O escritor escreve os livros que gostaria de ter lido. ('Ah, não existe este livro? Então vou escrevê-lo!') Mas antes de escrever é recomendável que o escritor dê uma olhada no que já foi escrito. (Tem gente escrevendo 'originalidades' as quais Whitman já escreveu mais de cem anos antes...) É preciso – e é sensato – que o autor se considere em dívida com os autores de ontem, com os ícones, com as estátuas de bronze nas praças. Podemos arriscar uma linha sem pensar em Drummond, Nava e Rubião?

Os livros são como tijolinhos que ajudam na construção de nosso imaginário, de nosso intelecto, de nossa linguagem.” (p. 79)

A criação literária surge como um diálogo entre autores – os mortos e os vivos, os vivos entre si. Assim seria resumir o 'dialogismo' de Bakhtin. Seria assim mais fácil entender a intertextualidade (não quer dizer 'plágio', entendam bem), quando nem dado texto encontramos pistas, indícios, de outros textos. Uma voz alheia habita o meu texto. A emoção de outro – veiculada pela linguagem, compreensível ou não – é canalizada para a minha própria emoção. Eu também posso chorar a morte de Lenora. 'Never more!'

A emoção afogada na pressão cotidiana e recuperada pelas lembranças, pelos sonhos, e pelo desejo (ou pela falta dele). Os grandes livros são feitos dessas emoções, que podem ser moldadas e relatadas pela linguagem. Eis a Literatura.” (p. 79)


Ainda na temática Arte / Literatura temos “Concretismo” sobre a última vanguarda do século 20, o movimento concretista após a Segunda Guerra Mundial (assim como tivemos o Modernismo – a saber, Futurismo, Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo – após a Primeira Guerra Mundial), num clamor que pretendia uma releitura da poesia enquanto expressão verbivocovisual, isto é, a poesia enquanto palavra, sonoridade e objeto visual. A poesia escrita, falada e desenhada. Uma ressignificação da criação não mais segmentada, mas integrada.

Obviamente a controvérsia foi grande e a poesia brasileira passou muito tempo se debatendo entre ser ou não ser concretista. Muitos poetas se sentiram pressionados: era a morte do lirismo na poesia? Outros chegaram a pensar que aquele fosse o rumo definitivo da poesia, até surgir outro movimento que proponha novos conceitos.” (p. 103)

A “Poesia Voa” seria uma espécie de 'profissão de fé'? “A poesia continua me proporcionando momentos de beleza.” (p. 106) Onde a arte poética seria uma forma de sobreviver diante da monotonia  do cotidiano. Aliás, um cotidiano também tematizado nas crônicas. A poesia seria transmitida entre os poetas, ou apesar dos poetas. A poesia nada mais que se utiliza dos poetas? Mas o poeta aqui suporta os poetas. (Ainda não foi afetado pelo nojo, pela náusea diante dos que se utilizam da poesia...) Gosto de olhar o poema na página, gosto de ler poesia na solidão. Mas gosto de falar e de ouvir poesia, gosto de gente.” (idem)


O Cotidiano


Aqui, nesta temática, podemos comparar com outros autores da crônica, que adoram falar sobre o nosso cotidiano. Rubem Braga e Fernando Sabino são clássicos. Atualmente, destacamos o olhar da cronista-contista-roteirista Adriana Falcão, com uma sensibilidade e ironia que estava faltando.


Uns links para Adriana Falcão





Sobre a vida na cidade, sobre os lugares e emoções, temos a interessante “Lugares Afetivos” (ver Pedro Nava, o memoralista, nosso Proust, com seu conceito afetivo de 'geografia sentimental') onde os lugares ganham significação (ou sentido) a partir dos sentimentos que geram no olhar do sujeito. Uma paisagem carregada de subjetivismo... A padaria da infância, o barzinho onde explodiu o primeiro beijo, o bosque das brincadeiras  juvenis, o quarto da empregada, a praia do verão passado, não importa, tudo é visto com outros olhos. O que parece apenas um banco de praça pode ter sido o cenário de uma declaração de amor.

Mas, sem dúvida, marcante é a crônica-conto “Na poltrona ao lado”, que podemos comparar, no estilo, com  os ótimos (e afiados) diálogos  de um Luiz Vilela, ou de um Luiz Fernando Veríssimo. Um diálogo que segura tudo, que cria o cenário de tudo, que sugere tudo. [Depois de fechar o livro é esta crônica que me acompanhou o dia todo.] Não só o enredo – fantasias com desconhecidas em viagens são lugar-comum – mas a fineza, a classe, a sutileza com a qual o texto nos conquista. Simples, mas envolvente. Acontecerá algo entre o viajante e a jovem desconhecida? Uma urdidura de sedução? Uma cena de sexo debaixo do edredom? Um beijo caliente a premiar a expectativa dos leitores? Como é que é? … O lance é mesmo ler a crônica.

Uns links para Luiz Vilela





Uns links para Luís Fernando Veríssimo




Leve e prosaica é também a crônica “Namorados”, sobre o desejo, o sexo, a sedução, enfim, tudo aqui nos atrai desde a puberdade, todo um mundo de descobertas. É difícil se interessar por tal tema e ser original. Amor, sedução, sexo tão temáticas universais e demasiadamente desgastada por mil contos, romances, peças de teatro, etc etc etc

O mesmo quanto a temática de “Nostalgia”, com um certo o olhar para trás, que está conosco desde um prosador como Montaigne – que resolveu falar sobre si-mesmo – e passando por Almeida Garrett, por Virginia Woolf, por Marcel Proust, e nosso Pedro Nava. O próprio autor reconhece isso (“a nostalgia é um tema recorrente”). É difícil ser original e convincente nessa temática. É o velho enigma. Por que temos nostalgia de uma coisa e não de outra? Por que algo é retido na memória enquanto mil outras são apagadas? Por que temos saudades de X e não de Y? O que nos prende ao passado? E se perdêssemos a memória – ainda seríamos nós mesmos?


Falemos de algo original. A máquina de escrever que datilografa suas memórias! A crônica (ou conto fantástico) aqui em “Memórias de Eugênia”, com algo de Kafka e Rubião, ao estilo ‘crônicas de uma máquina de escrever saudosista’! Realmente algo surreal o grau de autoconsciência – e de ciúme recolhido – desta máquina de escrever. (Ah, que saudades da minha olivetti branco gelo...) E se os objetos tivessem consciência? O que diria o meu aparelho de barbear? O que diria a minha cama? O que saberia o meu criado-mudo? Hein?

Pena que o autor não desenvolva mais pérolas neste estilo. “Memórias de Eugênia” (e o diálogo de “Na poltrona do lado”) são os textos mais destacáveis aqui. Significa que lembrei dos textos depois de fechar o livro. Algo que deixa um inquietar, um desassossego. Um suspense. A moça ao lado vai me beijar? A máquina de escrever vai se perder em inconfidências? Eis algo que a verdadeira literatura faz.

Mas parece que o autor prefere a tematização da própria obra, em “Fotogramas de Agosto em agosto”, em “O professor, o aluno e o mouse”, “Uvas verdes ou entressafra e colheita”, “Tapinhas nas costas”, “A nau Tanto”, ou seja, fica a falar sobre si mesmo, sobre a própria obra e perde o rumo. Estava indo tão bem... O próprio autor falar sobre a própria obra é algo difícil. Ora parece auto-elogio, ora falsa modéstia... Falta deslocamento crítico, em suma.

O autor se achar interessante é um problema. Pois a obra é que deve ser interessante. Mas não vamos culpar o autor de “Uvas Verdes”, ele sabe muito bem o que faz (Ele sabe que “eis o sentido da vida: a obra”). Esperamos que no próximo ele desenvolva mais o texto e não os metatextos, os textos sobre o texto, e deixe essa lida para os críticos 'dissecadores', os críticos pedantes, os críticos acadêmicos, os críticos camaradas.

Uvas Verdes” vale a leitura pela constatação do poder da própria leitura, não pela obra em si mesma. Mostra antes a busca pela literatura – ou seja, alguém se esforça para abraçar a literatura – como uma forma de consolo, de dar sentido à existência sem-sentido, a existência do estar-aí, jogado no mundo, como dizia um amargo Heidegger, sem missão nem carma. Apenas aí, igual entre iguais, confiando no cartão de crédito e no cheque especial.

Vale nem que seja pela constatação, na crônica “Tempo fechado”, dos motivos que movem o autor, a insistência em escrever, em reler, em publicar, em submeter-se à crítica. Quais as gêneses da pena de Luiz Edmundo Alves? O que provoca o autor? (E, por extensão, o que provoca a criação? O que provoca o leitor? O que provoca a crítica?) “Provocado pela falta de sentido e de poesia em nosso cotidiano. Provocado por essa busca, sem bússola, de uma tal felicidade.” (p. 76)


set/11


Leonardo de Magalhaens



Mais links

textos de Luiz Edmundo Alves






críticas sobre as obras do Autor




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Espelho (conto)




O Espelho



Anita passou a manhã de sábado arrumando o quarto, providenciando um lugarzinho para o espelho. Sim, o grande espelho, reclinável, com uma gaveta embutida, o amável presente de um admirador.


O grande espelho, emoldurado em madeira em adornos meio orientais, com sulcos laterais e torneios de traçados curvilíneos, imponente junto ao pé da cama.


Ela se admirava, descobria o corpo, trocava a lingerie, ensaiava um passo de desfile, encenava um ato dramático. Tudo sempre diante do espelho. A superfície espelhada tornara-se a companheira, a dona dos elogios e das censuras, diante de uma Anita cada vez mais narcisista.


Às vezes, ela julga vislumbrar vultos dentro das imagens, uma sombra, um olhar pegajoso, mas considera tudo inoportunos delírios.


Mas o olhar pegajoso, surgido das brumas do espelho, parecia ser o olhar Dele. Sim, do admirador, do servo insone de sua divina presença.


No domingo, ela até ligara para o devoto, o poeta predileto, mas ele não estava, ele sempre distante, onde estaria agora?


E Anita desejava ligar novamente. Quem sabe agora ele a estaria esperando? Reclinado, ansioso, sonhando, junto ao telefone?


Mas a mãe de Anita não era nada gentil. Tal uma madrasta malvada, deixara a Cinderela sem telefonar e sem sua tão amada e odiada internet. Como poderia agora saudar os amigos virtuais e os corações on-line?


Encolhida na cama, ela esperava as lágrimas, mas o peito frio e os olhos secos não seriam capazes de tal confissão. Ela era mais forte do que todos, e mais sábia. Ela tão emocional e mesmo tão áspera.


Não percebeu o olhar que atravessa espelhos e distâncias, viajando na pele amorenada, nos cabelos de ébano, nos olhos entreabertos, entre a consciência e o sono.


Não notou quando toda uma face emergiu da superfície prateada, toda uma caricatura de devoto, toda um máscara de amoroso devoto.


Devotadamente se aproximou e beijou os pés desnudos da Deusa adormecida.


Ele sentiu o despertar fascinado daquela tão frágil, ele despojado de roupas e sem disfarces. Toda a nudez do devoto flagelado, todas as feridas expostas por amor. O vulto esguio do Senhor do Sono.


Ela, a Anita de nossos sonhos, sugou um beijo dos lábios espelhados, tal o Lago diante de Narciso, tal Psiquê nos braços de Eros. Um beijo, apenas. E ela crendo estar num sonho, ainda. Doce delírio, este sonhar, maravilhosa loucura, este delirar!


O devoto aos pés da Deusa, e a devoção de suas carícias, seus beijos ardentes, a percorrerem seu peito e volteios da orelha, e recônditos da nuca. Lábios deslizando nas cascatas dos cabelos, luzidios e caudalosos.


Leves mordidas nos mamilos arrepiados, leves lambidas nas feridas abertas, saliva e suor nas fendas do corpo e da alma. Desejo invadindo reentrâncias, desejo penetrando lacunas, lascívia desbravando meandros, arrepiando a frágil pele dos sonhos, dos orgasmos impensáveis, dos delírios impronunciáveis.


Até que nos ápices da loucura, cavalgando nas brumas de glória douradas e espumosas, junto à Deusa e às Virgens Guerreiras, passos suspeitos se aproximam dos aposentos e uma presença, jamais solicitada e aceita, se pronuncia, não antes do jovem amante, devoto e espelhado, mergulhar novamente na superfície refletora de imagens e íntimos desejos.




Abr/05




Leonardo de Magalhaens






quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Público & Privado - Público $ Privado - poema/desabafo




Público & Privado


conquistar mundos e fundos
(com o helicóptero do Sarney)

voar para a Terra-do-Nunca
(no helicóptero do Sarney)

colher os lírios do campo
(com o helicóptero do Sarney)

ser o pacato cidadão
(no helicóptero do Sarney)

sobreviver com o cheque especial
(com o helicóptero do Sarney)

fotografar o cerrado em chamas
(com o helicóptero do Sarney)

faxinar a corrupção endêmica
(com o helicóptero do Sarney)

inocentar a deputada indecorosa
(com o helicóptero do Sarney)

divulgar os índices de analfabetismo funcional
(com o helicóptero do Sarney)

exterminar a aftosa e a sarna
(com o helicóptero do Sarney)

comemorar o gol da Seleção
(no helicóptero do Sarney)

fugir de bala perdida no morro
(com o helicóptero do Sarney)

sucatear o ensino público
(com o helicóptero do Sarney)

frequentar as feiras de livro
(com o helicóptero do Sarney)

balbuciar solene o Hino Nacional
(com o helicóptero do Sarney)

bronzear-se numa praia ensolarada
(com o helicóptero do Sarney)

abrigar-se num paraíso fiscal
(com o helicóptero do Sarney)

votar no político da Oposição
(no helicóptero do Sarney)

violentar o pudor da aristocracia
(com o helicóptero do Sarney)

aumentar a audiência do Jornal Nacional
(com o helicóptero do Sarney)

contemplar os desfiles patrióticos
(no helicóptero do Sarney)

subir aos Céus altíssimos
(com o helicóptero do Sarney)

subornar democratas e republicanos
(com o helicóptero do Sarney)

escrever poesia lírica & mística
(no helicóptero do Sarney)

encontrar a paz de espírito
(no helicóptero do Sarney)

arquitetar a próxima Revolução
(no helicóptero do Sarney)

completar minha autoglorificação
(com o helicóptero do Sarney)

proclamar a minha candidatura
(com o helicóptero do Sarney)

congregar meus fiéis discípulos
(no helicóptero do Sarney)

distribuir minhas bençãos monetárias
(com o helicóptero do Sarney)

saldar as minhas tantas dívidas
(com o helicóptero do Sarney)

visitar os meus latifúndios
(com o helicóptero do Sarney)

exigir novos cargos para apadrinhados
(com o helicóptero do Sarney)

visitar as minhas empresas estatais
(com o helicóptero do Sarney)

empregar a família no Gabinete
(com o helicóptero do Sarney)

conservar o patrimonialismo semi-feudal
(com o helicóptero do Sarney)

cruzar os céus hiperloteados
(com o helicóptero do Sarney)

evitar a ponte aérea inoportuna
(com o helicóptero do Sarney)

bailar nos céus de fuligem
(no helicóptero do Sarney)

confundir o público com o privado
(com o helicóptero do Sarney)

viajar para Pasárgada
(com o jatinho do Lacerda)




07/set/11



Leonardo de Magalhaens, 
                                       um pacato cidadão






mais info :::::::::::::::



o helicóptero do Sarney





o jatinho do Lacerda





LdeM


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sábado, 3 de setembro de 2011

Literatura é Mercadoria? (ensaio)




Literatura e Mercado


Literatura é Mercadoria?


O que é Literatura? O que é produto? O que é mercadoria? Questões que assombram as Ciências Humanas. Assombram os pobres literatos.

É possível vender-se uma narrativa? É possível comprar um visão de mundo? Compra-se livros, não enredos, não testemunhos.  O livro é mesmo mercadoria, é algo feito para vender. Algo que foi produzido, teve gastos para ser produzido, e quem produziu quer vender com uma margem de lucro.

Mas não falamos de livros, e sim de Literatura. O que é importante na Literatura? A quantidade ou a qualidade? Ter muitos autores é ter boa literatura? Um certo país A ter dez prêmios Nobels e outro, B, apenas um – esta cota estatística define que o país A tem melhor Literatura que o país B ?

A quantidade de feiras, bienais, congressos, etc, todos estes eventos definem que temos uma boa Literatura? Divulgar muito e quem vai avaliar, selecionar, peneirar ? O próprio mercado editorial? Os críticos acadêmicos? Os críticos-resenhistas de jornais? Os críticos de plantão?

Ou então a literatura enquanto um universo fechado, coisa para eruditos, acadêmicos, para pós-doutores em literatura e linguística. Literatura enquanto um universo para iniciados que desprezam neófitos e amadores. Literatura en2quanto um universo autoreferente – metalinguístico – a gastar páginas para falar sobre... literatura!

Enquanto a literatura é vista enquanto universo auto-referente – segundo os estruturalistas, os pós-modernistas, os adeptos do nouveau roman – a escrita perde o status de testemunho da vida cotidiana, aquele desejo dos escritores realistas que viam a literatura enquanto testemunha das mazelas sociais. A 'pós-modernidade', com seu esvaziamento ideológico – opa, outra ideologia! - apenas serve aos interesses dos poderes constituídos, às Elites.

As mesmas Elites que se sentem seguras, pois se antes a literatura era veículo de crítica, de contestação, de testemunho, hoje é apenas um adorno ficcional, uma fantasia escapista, num universo autocentrado de retórica, semiótica, sintaxe, desprovido de ação sobre o mundo – deixa de re-pensar o mundo através da literatura para se fantasiar outros mundos.

Daí o sucesso de fantasias pós-modernas – bruxinhos, vampiros, magos, aliens, etc – que desviam a atenção dos leitores para outros universos e não mais focalizam a vida alienada nas metrópoles, não mais reinsere o cidadão no jogo político, no cenário social, para reafirmar sua cidadania enquanto participação, enquanto detentor de informações.

O leitor pós-moderno sabe o nome de todos os personagens de uma série épica de 7 romances – mas desconhece os vereadores, os juízes da comarca, em suma, os donos do poder. Sabem tudo sobre os feitiços do bruxinho – mas nada sabem sobre as mistificações dos políticos corruptos locais.


Literatura é Mercadoria


Para as editoras, sim, literatura é igual a dólar, lucros e cotação na Bolsa. Para as feiras, as bienais, os congressos, que geram publicidade, atraem turistas, não importa muito a qualidade, mas o retorno financeiro – pois, afinal de contas, dinheiro foi investido, alguém patrocinou, alguém espera o lucro.

Nos Estados Unidos, percebemos o quanto a cultura é um mercado voraz. Tudo é aproveitado. Quando um autor lança um best-seller (ou seja, livro na lista dos mais vendidos) não apenas os livros são vendidos. Há toda uma marca registrada em jogo. Livros, músicas, filmes, animações, séries televisivas, brinquedos, bonecos das personagens, jogos eletrônicos. Ou seja, todo um merchandising de produtos gerados para o consumo supérfluo. Tudo é aproveitado. Livro é apensa mais um item na lista de vendas.

Seja best-seller de bruxinho juvenil, ou vampiro universitário, ou contos-de-fadas high-techs, tudo é vendável, é feito pra ser vendável. O filme aumenta as vendas dos livros, os livros aumentam as vendas dos jogos eletrônicos, tudo gera lucros para a indústria cultural. Existe para o lucro em série.

E os autores realmente se pautam por objetivos estéticos? Ou entram n embalo das vendas? O autores realmente escrevem? Pois autor que segue os eventos – feitas, bienais, etc – acaba por não ter nem tempo de escrever...

A questão da 'segmentação de mercado' é explícita quando autores escrevem apenas para um determinado público consumidor – de acordo com a demanda. As editoras investem num tipo de leitor – esoterismo, novelas, culinária, etc – e somente produzem livros para aqueles que tipo de público.

Temos, assim, autores para jovens, ou para esotéricos, ou para GLS, ou para cristãos, ou para fãs de duendes e bruxinhos, ou de vampiros teenagers e cavaleiros medievais com espada laser. Autores que ganham com a auto-ajuda (ajudam eles mesmo, claro) ou receitas culinárias. Tem mercado consumidor para estórias de aliens vegetarianos? Então logo aparece um autor especializado em escrever enredos mirabolantes com os tais aliens vegetarianos.


Literatura NÃO é Mercadoria


A Literatura está além do livro para aqueles que escrevem, realmente escrevem, artisticamente, e não para os que fingem escrever, ou escrevem como fiéis ghost writers pagos pelo poder editorial.

Ao artista, enquanto esteta, interessa mais a qualidade do que a quantidade, pois ele/a é guiado/a por critérios estéticos e subjetivos que estão além do objeto-livro. O livro é apenas o suporte material de uma ideia.

Ao verdadeiro escritor a literatura é um testemunho e ao mesmo tempo um exercício de imaginação, um retrato do cotidiano e ao mesmo tempo uma superação do comum através de uma forma artística de expressão.

A verdadeira literatura não está nas estantes nem nos eventos mas onde autores e leitores se encontram diante de um livro aberto – ou blog acessado. A literatura seria o conjunto dos textos em si-mesmos numa perspectiva de contexto (tanto aquele do autor quanto aquele/s do/s leitor/es) e de expressão autoral.

A literatura é obra artística, não deve ser confundida com o produto livro. Produto este que gera trabalho e renda para revisores, diagramadores, ilustradores impressores, editores, distribuidores, burocratas da cultura, etc. Produto que se justifica enquanto houver demanda.

Se o livro, a coisa, é produto – tem preço do papel, tinta, impressão, e o serviço agregado de todos os profissionais antes citados – e é comercializado para abater os custos e até gerar lucros, a literatura enquanto texto só tem valor estético, não de uso. A literatura não visa a utilidade segundo critérios mercadológicos, preocupado com o produto livro.

Perguntam-me, às vezes, por que ainda não publiquei textos de minha autoria. E respondo: 1/ não tenho recurso para arcar com os custos da publicação; 2/ se tivesse, eu hesitaria em lançar outro produto no mercado. Seria até incoerente de minha parte, uma vez que desconfio do mercado e desprezo o sistema capitalista de produção de mercadorias.


Afinal, vender várias edições de um livro pode significar marketing pesado ou capa chamativa, não exatamente qualidade estética do texto em si mesmo. É a edição, a brochura ou encadernação que está à venda, não o Texto – este pode ser copiado, xerocado e distribuído, tal como faziam os poetas marginais da 'geração mimeógrafo', que aboliam a Indústria Cultural. Como? Os autores se aproximavam dos leitores, e dispensavam os intermediários.

Quando a literatura é um testemunho, é um espelho ficcional do vivenciado, quando se permite uma crítica dos padrões e inércias sociais, em suma, quando é útil ao artista e à plateia, além da Estética, a literatura foge ao imperativo de mercadoria, a arte literária passa a ser um valor compartilhado, criando laços artísticos, e até afetivos, entre as várias vozes da criação, para mudar, senão o mundo, ao menos as vidas diretamente envolvidas na vivência literária.

Na ânsia de retratar a realidade – a vida cotidiana, com suas banalidades e padronizações – segundo aspectos estéticos (forma & conteúdo; figura & fundo), a ficção literária repensa a vida re-configurada, e, no contraste, percebemos melhor o vivenciado.

Em suma, escrever sobre o mundo é repensar o mundo e a condição do/a Autor/a no mundo, no quanto se pode ser livre e o quanto se é determinado por contextos (que vão emoldurar o texto!), e o quanto se pode escapar (ou flutuar acima) do contexto – pois muitos artistas rompem com o contexto, tornam-se 'extratemporâneos' – vide o exemplos de Nietzsche e Kafka – somente compreendidos uma geração depois.

O artista não vai criar a partir do Nada – há uma vivência, uma época, um espaço – que fornece elementos para a Escrita. Diante da Indústria Cultural só o artista pode criar um simulacro, enquanto imagem direta ou fantasia, enquanto imagem invertida. Pode descrever sua época, seu país – ou pode transitar por outra época, outro país, a criar imagens da alteridade, dos mundos possíveis, o que poderia ter sido, o que ele/ela esperava – as expectativas e frustrações.

A livre criação pode confirmar o mundo do vivenciado ou pode refutá-lo, desconstruí-lo, ao criar mundos alternativos, universos paralelos, utopias e distopias, elementos fantásticos, mitológicos, folclóricos, em suma, pode recombinar, refundir, reinterpretar peças do 'mundo concreto' na tessitura ficcional do texto literário.

É esta tessitura em si, com seus valores estéticos intrínsecos, que deve ser observada, analisada, comparada; e não em função de um contexto, uma época, um panorama social, caprichos autorais, todos estes elementos extraliterários, em segundo nível, e muitas vezes inacessíveis.

A Arte visando o mercado, a obra de arte enquanto produto/mercadoria, eis o que presenciamos na modernidade de forma cada vez mais industrial. Fato já analisado por Walter Benjamin no ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutividade Técnica” (1936) que mostra o quanto o modo de produção capitalista – fordista, taylorista, toyotista, etc – adentra o universo artístico, que passa a aceitar obras feitas em série como se fossem embalagens de leite em pó. (A crítica à Arte-produto, à arte-padrão também foi feita de modo artístico – ou anti-artístico, ou parodístico, por iconoclastas tais como Salvador Dalí, Marcel Duchamp e Andy Warhol.)

Acontece que a comercialização desonra a arte, apenas acelera o processo de alienação, com a superficialidade da produção em série, padronizada e de fácil digestão. A Arte perde o status de um olhar sobre o mundo – um olhar crítico e iconoclasta – e torna-se um mero enfeite para o mundo luxuoso de alguns – e então se completa o que os capitalistas desejam: a mercantilização de todas as atividades humanas. Coisa já prevista por Karl Marx, em “Manifesto Comunista”. A burguesia não hesita em comercializar tudo, até a própria alma (isto é, se a tivessem...)

Sendo mais um produto, mais uma mercadoria, a Arte (aqui, mais especificamente, a Literatura) perde a autonomia. Os literatos passam a depender de mecenas, políticos, religiosos, burocratas, para conseguirem verbas (não apenas leis de incentivo à cultura)para editarem seus livros, atualizarem suas homepages, realizarem eventos, lançamento. O literato assume uma condição de bobo-da-corte, nada mais.

Quanto à autonomia da arte, o poeta romântico alemão Heinrich Heine dizia, “Sou a favor da autonomia da arte; ela não deve servir de criada nem à religião nem à política. Tem seu objetivo em si mesma, como o próprio mundo.” (in: SAFRANKI, Rüdiger. Romantismo – uma questão alemã, 2010.)

A Arte precisa ser autônoma, mas não desligada do contexto, não ser alienada. Pois deslocada do contexto, a Arte é apenas um jogo estético, uma atividade inútil, fenômeno em segundo plano – expressão necessária para os artistas e fonte de renda para os negociadores da arte.

No mundo da pobreza e da miséria, o poeta esteticista (ou parnasiano, ou nefelibata) é um abstrato devoto de uma arte culta e elitista. Ele não é capaz de compreender os poetas populares, p.ex. da literatura de cordel, mais espontânea e não acadêmica. O poeta erudito é muitas vezes um conservador. Um romântico conservador. Pode até ser anticapitalista, mas não é progressista. Tem consciência social, mas se alia às idealizações estéticas, o mundo abstrato. Preferiria viver numa idade média idealizada. E justamente contra estes que se levantam os poetas realistas, os poetas socialistas.

Porém, a Arte apenas engajada também é indesejada, posto que cede espaço às questões não-estéticas. O problema dos revolucionários: a falta de bom gosto, isto é, apreciação estética. (Aliás, coisa que nem os burgueses possuem.) A plebe no poder aboliria o Hino Nacional - uma peça sinfônica, resquício da nobreza - e colocaria no lugar uma canção de axé, baião ou de funk carioca. É o problema de um socialismo nivelado por baixo é a abolição da cultura 'culta', erudita, e não a ascensão do povo até a erudição.

Tanto os parnasianos quanto os realistas-socialistas, tanto os esteticistas quanto os engajados, tem todo direito a expressão, mas ambos os grupo se prendem a questões limitadoras, as obras de arte não alcançam um status atemporal e de qualidade. Aliás, poucos autores conseguem atravessar séculos, a seduzir os leitores, a transmitir suas mensagens. Pois quanto mais limitada um obra – seja no tempo, ou na estética – mais difícil é para ser 'digerida' em outra época e outra visão estética. São as obras ditas 'datadas'.

Aqui, defendemos a livre expressão. Tudo pode ser publicado – até obras de Sade e Nietzsche, até Hitler e Stálin – tudo precisa ser permitido nas artes – até a anti-arte, a poesia-coisa, a música breganega, o funk sexista, pois a limitação da expressão é sempre constrangimento, coação, motivos para 'santas' inquisições, seja de católicos ou crentes, Direitas ou Esquerdas, que perseguem as expressões ditas não-convenientes, até 'subversivas'. As 'inquisições' não hesitam em estabelecer seus índices de livros proibidos.

Livre-expressando – não para o mercado, certamente – a Literatura (ou literaturas, em pluralidade) frutifica(m)-se na miríade de vozes – narrativas, cosmovisões de personagens, testemunhos de época – que valem enquanto ficções da realidade, ou concretizações da fantasia, tanto intratextual quanto extratextual. Não basta ser uma estória ou testemunho fascinante, precisa também ser bem escrita, com enredo internamente convincente. E não basta ser bem escrita, é preciso dizer algo, revelar algo, tirar o véu das obviedades e fazer repensar o Eu – e o Nós – lançados no mundo.


Ago/11


Leonardo de Magalhaens


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sobre a Indústria Cultural em

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