segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A miséria manda lembranças - conto



conto


A MISÉRIA MANDA LEMBRANÇAS


     Minha querida Lídia não mostra-se mais tão animada, após contínuas considerações sobre o seu desânimo, semelhante a síndrome daqueles mau-humorados que ainda mais ranzinzas se tornam, caso ouçam comentários sobre mau-humor crônico.


     Lídia recebe-me, assim que abre o portão, com aquela carranca depressiva a ponto de atemorizar-me, eu ligara antes, naquele entardecer de sábado, em gentil convite para o casamento de uma amiga de Cíntia, minha irmã, Se apronte logo, querida. Daqui a pouco, apareço aí! Sim, é isso. Aparece um casamento,  há um convite, uma festinha restrita, e Lídia mostra enfado, a incomodar-me com o que ela denomina o meu “tom imperioso”, e eu preciso apaziguar os ânimos, “Querida, sem traumas! É só se aprontar, daqui a pouco eu chego, é claro, se você quiser ir...”


     Não mais que uma hora e lá estou. E aguardo ainda quase outra. E Lídia, ainda que toda magia e perfume, fala pouco, responde por monossílabos e sai, sem ao menos se despedir da família, e espero não terem se degladiado.


    No carro, distâncias se sucedem, ela em silêncio, e, se responde, é ainda em monossílabos, a voz sumida, mas não exatamente irritada, e sim apática, algo sonâmbula.


     Preciso abastecer a máquina. No primeiro posto, exijo logo a aditivada e aguardo o trabalho dos frentistas. O moreno que atende tem umas olheiras medonhas e anda a passos miúdos, certamente sem paciência para levantar os pés, e o outro é um branco, alto e magrela, fartamente agasalhado, a esperar um frio noturno, enquanto o moreno se limita ao uniforme, em gestos pré-determinados, robóticos até, e penso se, um belo amanhã, não serão substituídos por robôs ou andróides.


     E o silêncio de Lídia, ali ao meu lado, mas assim distante, me incomoda, e então ligo o rádio, bem discreto, e o Rolling Stones entra sem pedir licença, “I  can’t  ge t no satisfaction!”, grita o indiscreto Mick Jagger e lídia até se assusta, num frêmito brusco, mas tudo bem, ela estava dormindo certamente.


     Os frentistas conferem os valores, destacam cédulas e eu recebo o troco, e estou pronto para acelerar, quando surgem dois garotos, não mais que uma década de sofrimento, mas com olhares de uma temporada milenar no inferno, “Moço, compra um salgado pra ajudar a gente!”, diz o que parece ser o mais velho, e o mais novo segura um frasco de catchup na mão direita, e um de molho de pimenta, na esquerda, e olha todo pedindo (ou exigindo) piedade, como se dissesse, “o senhor precisa ajudar a agente, sabe, senão a gente cresce e vira tudo bandido!”


    Parece que Lídia já observava o trabalho dos meninos, a abordarem os outros carros, e comovida, até exaltada, percebo, suplica que eu ajude os pequeninos, “Ei, campeão”, eu digo, “deixe-me escolher! Empada ou coxinha?”, e o menorzinho oferece o catchup e o molho de pimenta, mas só consigo ouvir Lídia, toda dolorida, “Sobrevivem  assim! Ah, Alonso, é de perder o tesão!”


    Mastigo o salgado, e digo “não era pra ser assim.”, mas ela agora está dada à oratória, “você acha que esses garotos algum dia entenderão o significado de cidadania, ou de dignidade?”, eu, ainda mastigando, “É lamentável.”, e ofereço a empada, ela não aceita, “Ah, é de perder o tesão! Vamos embora.”


    Não é uma ordem, mas foi obedecida. Não fomos a casamento algum. E fui obrigado a engolir também a empada! Ah, eu mereço!



Leonardo de Magalhaens




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

sobre MINERAL - de Ricardo Evangelista




Sobre “Mineral” (BH, Rede Catitu, 2010)
do poeta-músico Ricardo Evangelista


Trabalhando o rico minério da voz popular


A Crítica


Um dos problemas da academia é certamente o academicismo. Os acadêmicos que escrevem para outros acadêmicos. Um dialeto que o povo (os 'leigos') desconhece. Academicismo sobre o qual já falamos em outras oportunidades. Mas há um outro: a preocupação em distinguir arte popular de Arte erudita. Ou um tipo de arte do povo para o povo, uma arte praticamente não-registrada, analfabeta, pictórica, concreta, bem diferente de um outro tipo de Arte, mais culta, mais auto-reflexiva, mais educada, mais abstrata.


Ao fazer a distinção, a academia logo se coloca ao lado (quando não se declara a origem) da Arte culta, refinada, objeto de análise da Crítica, e relega a segundo plano a arte popular. Como se povo não tivesse alcançado a 'educação', como se a cultura espontânea do povo estivesse em falta com os padrões do cânone (isto é, o que é escolhido e sugerido pelos scholars).


Certamente que alguns autores têm (e tiveram) mais acesso aos bens culturais do que outros. É esta a única diferença. Não há uma arte melhor do que a outra sob critério de quem tem diploma e quem não tem. Importa, antes, a qualidade intrínseca da Obra. Existem muitas obras de arte popular que 'humilham' outras da Arte culta, dos acadêmicos que fazem pós-doutorado e se animam a escreverem contos, poemas, romances.


Se ao acadêmico sobra erudição, pode faltar talento e espontaneidade. Sim, talento e espontaneidade que existem de sobra em muitos artistas sem acesso ao meio acadêmico. Uns têm muito talento, e pouca informação; outros têm informação, mas pouco talento. O ideal seria aliar o espontâneo ao erudito – somar qualidade artística pessoal  ao conhecido patrimônio artístico compartilhado. Muitos artistas se julgam originais – e estão reinventando a roda! Culpa deles? O fato é que desconhecem o patrimônio artístico já existente.


Outros artistas conseguem dialogar muito bem com ambas as artes distinguidas pelos acadêmicos. Pois tais artistas conhecem o cânone e o subvertem - ou criam à margem do mesmo. Ao conhecimento do cânone agregam o próprio talento pessoal mais a audácia da mudança, de criar o novo. E como toda criação nunca é a partir do nada, o que ajuda estes artistas é justamente a enorme quantidade de informações culturais que conservam. Quanto mais sabem, mais podem subverter o existente, mais podem fazer o cânone se curvar ao talento pessoal.


Para estes artistas a distinção 'arte popular' X 'Arte culta' é mero rótulo, mera fantasia acadêmica. Pois eles conseguem dialogar com todos os estratos de informação – dos mais básicos aos mais eruditos – e criar algo mais pessoalmente marcante, que seria difícil a quem apenas conhece um lado da moeda. É justamente o artista que supera limites e definições que haverá de fazer a diferença quando a arte popular se tornar massificação e alienação e a Arte culta se torna cânone e padrão.


Mineral


Nesta obra a poesia de Ricardo Evangelista é uma poesia popular e ao mesmo tempo demonstra conhecimento escolástico. É popular ao clima daquelas de Solano Trindade, de Patativa do Assaré, de Adão Ventura, mas com algum apuro estético, o que o aproxima de João Cabral de Melo Neto e Manoel de Barros, com um toque mais imagético, além do musical, rítmico. Sim. Afinal de contas, o poeta é também músico, qualidade que o destaca entre os demais.

É pra ler 'Mineral' a imaginar o poeta recitando. Sonoridade: eis o leitmotiv da obra. É uma poesia que foge das páginas, que busca a sonoridade explícita de poesia oral – de cordel, de embolada, de cantoria.

Ao não se conter ao espaço gráfico, restrito a página, ao superar o concretismo (contido no primeiro livro, 'Mojepotara' de 2004) o poeta se aproxima mesmo da música – assim fez um Arnaldo Antunes, assim também o poeta-músico Makely Ka.

Como se percebe, o poeta bebe em várias fontes, digere várias influências. Não é meramente espontâneo, nem se deixa engessar em padrões estilísticos. Conhece o cânone, os poetas consagrados, mas se nutre dos poetas à margem, dos poetas 'de ouvido', dos tropeiros da poesia.  Não despreza a voz popular, ao contrário, está atento para ouvir as vozes que clamam nas ruas (ao contrário dos senhores Doutores das Universidades, das Suas Excelências no Congresso, no Planalto, no Supremo Tribunal ) e em diálogo com estas vozes o poeta cria a própria leituras da(s) linguagem(ns).

Aliás, estar atento ao que ocorre ao redor é uma das qualidades de todo bom poeta. Afinal, poeta em torre-de-marfim é sempre pessimamente informado, não ouve nem interpreta nada, vive num mundo de nuvens e se aliena no que julga a própria 'genialidade' (isto é, a sublime ignorância do mundo e dos poderes que nos constrangem).

Pois bem. A poesia do poeta-músico RE pretende dizer algo. Tem mensagens, deseja provocar. Não é beletrismo, não é mera forma. Julga-se antes um mensageiro, um ser que se serve da forma. Vários assuntos, vários temas o inquietam. Vários temas atraem o olhar ávido do poeta que deseja nada além de ler o mundo. (Afinal, o que fazemos aqui? Somos réus, vítimas ou cúmplices? Somos passivos ou ativos no mundo que nos cerca? Somos co-responsáveis? Ou somos meros observadores?) 

A Crítica pode aqui destacar alguns temas, ou propor eixos temáticos, aliás, 4 grande eixos, a saber, A poesia (ou seja, o desabafo com metalinguagem, o olhar sobre os bastidores; a poesia & música); A política , o cotidiano ( os aspectos da cultura; um desabafo quanto aos crimes contra  a ecologia); Os tropeiros (ou antes, a questão da identidade, do ser mineiro; A mulher (aqui mais um símbolo do Amor, do erotismo, da conquista do Outro.) onde as duas visões da mulher se complementam: enquanto Eva, e enquanto Musa.

Estabelecendo estes 4 grandes eixos temáticos, podemos lançar um olhar mais apurado sobre os poemas, ao citarmos trechos que reluzem, que merecem, uma vez que marcaram.

A poesia

É a temática preferida dos autores modernos (e pós-modernos, como queiram)a chamada metalinguagem, a necessidade da poesia falar sobre o fazer poesia, o autor abordar os bastidores da criação literária, sobre os tramites e processos da leitura e escrita. Um diferencial aqui é que o autor aborda as fronteiras entre poesia & música, fenômenos artísticos que eram unidos na época dos aedos gregos, ou seja, as odes eram poemas-hinos. Não havia esta distinção atual de poema e canção.

O próprio teor formal dos poemas – que podemos ler em ritmos, em melodias – ressalta este entrelaçar de letra-sonoridade, tudo a se destacar da página escrita para um cantarolar, um desafio de cantoria, de embolada, então falta mesmo só o pandeiro na mão.

No mais, o poeta precisa desabafar sobre os meandros de sua criação, precisa explicitar sua consciência do poetar, do viver poeticamente. Em suma, ele precisa de justificar perante si mesmo e seus leitores, que procuram o autêntico, esperam o produto poético, fruto de um labutar também poético,

com o suor e a cal de minhas horas
desenho o traço refaço forças
na labuta dessa pena que perdura
com a argila desse sonho
espanto as amarguras

(“Do que é feito este verso”)

Mas ao abordar os textos, ao situar o texto enquanto temática, é inevitável o fenômeno da intertextualidade, aqui um exemplo, com CDA, “lutar com as palavras é a luta mais vã / Entanto lutamos mal rompe a manhã”, do poema O Lutador,

como diria o poeta / completa luta vã / não como rima reta

(“O Poeta que se preza”)

mero intróito para abordar os aspectos do fazer poético – o que é poesia? Um conjunto de rimas? De palavras bonitas? De verbetes raros? De imagens surreais? - enquanto processo de 'olhar' sobre o mundo, de se situar no mundo, aprendendo com o mundo, tal qual uma criança. Aqui se ressalta o aspecto lúdico do fazer poesia (coisa bem presente em poetas tais como José Paulo Paes e Manoel de Barros), mais do um exercício de exibir rimas, pobres ou preciosas,

rima é brinquedo de moleque
     serelepe e sagaz
     contradança
     som de sexo e saques
o poeta que se preza
    rima sem receio
    do lado de fora
    no início no meio
    rima é recheio

(“O Poeta que se preza”)


Antes, para o poeta, vale a leve fruição do fazer poético – não apenas consolo, não apenas entretenimento, mas tudo isso junto - bela (e viajante) definição de poesia, bem distinta daquelas definições de manuais e livros didáticos (aliás, quem melhor do que o poeta para ousar definir poesia?),

leve é palavra ao vento da fantasia.
Poesia é quando o pensamento sai pra passear

(“Pois é, pra quê poesia?”)


Esta 'definição' sai fácil, até porque o autor ainda demonstra fé no ofício de poeta, consciente de sua parte na ordem do mundo, enquanto um bardo do sentimento e da percepção, enquanto movente de ações, não mero observador da vida (como se mostrava o lado Ricardo Reis de Fernando Pessoa...),

uma canção de alegria / que faça abrandar as dores desta vida”

e “uma canção de poeta / que faça rasgar o céu e chover poesia
(“Canção de Poeta”)

e também

Quero a palavra / muda e dança / quero mudança / quero a palavra / tocha e lança” e “quero a palavra / malícia e fuga / quero maluca / quero a palavra / delito e mágica / quero o delírio da gramática” (“Palavra Larva”)


O cotidiano

Consciente do seu papel de olhar sobre o mundo – e ao mesmo tempo ação sobre o mundo – o poeta resolve mexer com política – no bom sentido, claro – e lembrar que no poema pode muito bem aparecer o preço do feijão e do arroz, como já alertava um Ferreira Gullar, em “Não Há Vagas”, preocupado com os poetas que viviam nas nuvens.

Os políticos e a farsa das eleições são tematizados com ironia e sarcasmo, mas com um desejo de alertar, não com viés antidemocrático, mas ao contrário, de jogar luz sobre a fragilidade da democracia. A democracia é criticada justamente por não ser democracia. Ainda não é democracia – esperemos que seja algum dia. Apenas votar, apenas ser votado, isto não é democracia. O processo exige tempo e paciência. O que fazemos, cada um de nós, em prol da verdadeira democracia (ou seja, o governo do povo?)

Em tempo de pleito / uns dão até abraço / e depois das urnas / você paga o pato

e Depois das urnas / é aquele sufoco / eleva-se o preço / do arroz, do feijão, da rapadura / inventam mais imposto / e o eleitor paga a fatura.” (“Tempo de pleito”)


Enquanto o povo não tiver o poder, não conquistar o poder, não teremos qualquer democracia, mas um governo burguês que se diz democrático. E para manter a 'paz social' e apaziguar os ânimos populares, os poderes não hesitam em usar a violência policial (basta vermos as cenas durante as greves, o poder não dialoga, antes envia as forças de repressão...). Contra tal violência, o eu-lírico se revolta,

Com gente é bem diferente
gente é outro trato.
Não se faça de rogado
não me venha com truculência
nem use de tortura ou distrato.” (“Gente”)


Ao observar a vida cotidiana – para alguns cada dia mais apressada e estressante, cada dia parece mais curto – o poeta tece comentários líricos sobre a percepção do tempo, apela para o relato dinâmico de 'causos', que mostram o passado ainda presente enquanto lembrança,

O tempo passa lento quando se espera. / Por que passa tão rápido / quando estamos contentes?” (“Urgente Viver”)

O menino cresceu brincando com o rio, / afogando-se nos mistérios do rio / que chamava de seu.” (“O Velho do Rio”)


Diante da urgência do tempo – “o tempo passa, o tempo voa” e até a famosa Poupança Bamerindus já se foi... - o poeta pensa nas novas gerações, os homens do futuro, e lembra-se dos pesadelos que nos ameaçam quando pensamos na ecologia, na preservação ambiental, um drama quase diário de ecossistemas em chamas, cobertos de óleo, alagados e pisados pela bela civilização,

O planeta está quente pra canário / está quente pra gente / quente pro dromedário / quente pro esperto / quente pro otário.” (“Efeito Estufa”)

e

Serra, serra, serrador / quantas matas já serrou! // Lá em cima daquele morro / passa lixo e caminhão / passa carro e poluição / só não pode cortar a mata / árvore dá vida, não dá carvão.” (“Serra, Serra, Serrador”)


Os mineiros, os tropeiros


Ou antes, a questão da identidade, a consciência do ser mineiro, explicitada em poemas tais como “Saga das Tropas”, “No Coco”, “Ser das Minas  e dos Gerais”, “Receita de Feijão Tropeiro”, “Mineiro que é Mineiro”, poemas nos quais o poeta pensa e repensa sua condição de ser 'mineiro' – antes do que seja ser 'brasileiro' – enquanto outros preferem dizer que são 'de lugar nenhum', que o poeta é o ser-sem-fronteiras.

Mineiridade, mineirismo, nacionalismos de lado, o importante aqui é mesmo a questão: Quem Sou Eu? De onde eu vim? Para onde vou? O poeta é mineiro por acaso, por acidente. Poderia ter nascido em São Paulo ou no Havaí... Mas seria o mesmo Ricardo Evangelista? É esta a questão.

Mas ao meditar sobre a mineiridade (a 'mineiridade'? O nosso bom conterrâneo Fernando Sabino preferia mudar de assunto...) o poeta cai em lugares-comuns, ou então atinge sublimidades. Não tem meio-termo. Estamos entre a banalidade e a genialidade. Talvez um estrangeiro, um forasteiro, um Ausländer, fosse mais indicado para falar sobre algumas características de mineiro...

Mineiros são de silêncios e de palavra aguda
diante de cara feia ou diante da ação estúpida,
diante do abuso mineiro se indigna.” e

Mineiro que é mineiro desconfia, mas quando
acredita vai até até a última consequência.”

poisMineiro não perde trem nem por brincadeira e
não dá bola pra intriga, dá um boi pra não
entrar em confusão e uma boiada pra não sair
da briga.
(“Mineiro que é Mineiro”)

Ou então destacar um tipo de mineiro – até idealizado, como é o caso dos tropeiros, que habitam o imaginário do Autor. Quem são (foram) os tropeiros? Vale uma boa pesquisa. Muito do que somos hoje depende do que foi semeado pelos tropeiros. Mais do que comerciantes, atentos desbravadores das Gerais. Estrada Real, trilhas & caminhos, aldeias & cidades históricas, correio & comércio,

Eu não me esqueço o recado, / pois na minha profissão / há que se ter o cuidado, / também boa reputação.” e “Ser tropeiro é missão / de homem honesto e bravo / quem viu muita assombração / não dá trela para o diabo.” (“Saga das Tropas”)


A mulher

Aqui incluindo o símbolo do Amor, do erotismo. A mulher de carne e osso, e também aquela das idealizações. Tema mui caro aos poetas, a Mulher é uma imagem que se presta a várias interpretações e inter-relações, dependendo do ponto de vista. A mulher pode ser o sublime, e também pode ser o maldito. Pode ser Anjo e pode ser Serpente.

Antes então perguntar, Qual a imagem da mulheres no universo sentimental do poeta? Afinal, não há a Mulher enquanto 'ser concreto', mas Mulher a ser desnudada por alguém. Somente nos últimos dois séculos a mulher passou a ter voz e dizer de si mesma – antes tínhamos apenas a voz masculina a definir a mulher. E a mulher a aceitar que um discurso alheio a definisse.

Ao poeta interessa mais problematizar o tema Mulher. Qual a imagem que temos das mulheres – mineiras? Passividade? Introspecção? Credulidade? Resignação?  Religiosidade?  Algo mais pode existir – e a mulher que somente diz Sim, somente diz Amém, pode ser 'desconstruída',

As mulheres de minas tem
trejeitos e predicados
                        que vão muito além
são rezadeiras e operárias
e não dizem só amém.” (“As Mulheres de Minas”)


No mais, na temática do amor – pouco original, é verdade, mas é que amor é um tema e tanto, e ser original aqui é coisa pra poucos (ainda mais depois de Vinícius de Mores e da música breganeja) - mais interessante é que o poeta não exige (i.e. idealiza) amor do tipo platônico ou romântico, mas prefere o amor simples, sem dramatismos, sem teatralidades.

Gosto de amor simples, / mas tem de cantar no meio da rua” e “Gosto de amor sem frescuras / sem não me toques / sem deixa disso,” (“Amor de cada um”)

Amor se confunde com sensualidade o corpo além do erótico – temos um corpo ou SOMOS um corpo? É possível amor sem sensualidade? Ou antes, há amor platônico? É possível amor o outro sem desejar o domínio do outro? Isto é, do corpo, do desejo, do gozo do Outro? Podemos ver o Corpo tal como ele é – sem desejo e sem nojo? (E os namoros virtuais? Mas mesmo sem a foto do/a outro/a...?)

O corpo desfila no filme / se vende na praça. / O corpo virou vitrine / se cobre de prata / se banha de perfume / se cobre de luto, / mas exala mal cheiro / como todo defunto.” (“O Corpo”)


É certo que a compreensão da alteridade, do Eu dependente do Outro, do olhar do outro. O que o outro espera do Eu? O eu-lírico se identifica enquanto voz textual às vezes muito falante, muitas vezes vítima de ruído de comunicação, quando sua voz não atinge a amada,

sou um poema sem capricho / arruinado e prolixo / o ruído do giz no vidro(“Canção Desesperada”)

Mas não significa que o poeta tenha desistido de falar. Ao contrário, é através da tentativa de comunicação que ele denuncia as falhas da comunicação (teorizar mais seria entrar numa de Habermas...) que povoam o nosso cotidiano de mal-entendidos e meias-verdades. Certo, a poesia não visa enviar mensagens, mas nada impede que ela seja usada como meio de comunicação, um modo de interagir com o(a) amado(a) - ou o(a)(s) receptor(a)(es)/leitor(a)(es),

E quando cairmos de pé / saibamos dar as mãos / sempre com a cabeça erguida, / saibamos pagar o preço” (“Ela”)

e que a poesia seja nosso fraco / e nosso predileto prato / e não percamos o olhar de fogo / e a alma comovida” (idem)


Esta capacidade de manter o diálogo, de comunicar nossa incomunicação. Esta audácia de misturar pop, popular e acadêmico. Este desejo de estar junto de vanguardas e também acampado com o povo. Esta necessidade de fazer música com os poemas e também poetizar a melodia. Sim, tudo isso assegura um lugar peculiar ao poeta-músico Ricardo Evangelista, que se não é original, é consciente do que faz, dono de seus poemas-ritmos, tendo muito a ensinar para os que 'departamentalizam' a Arte.



set/out/11


Leonardo de Magalhaens




artigo (LdeM) sobre literatura e acadêmicos

mais sobre conceitos de Arte


mais sobre a obra de Ricardo Evangelista



sexta-feira, 30 de setembro de 2011

sobre 'Uvas Verdes' - de Luiz Edmundo Alves




Sobre “Uvas Verdes” (Anome Livros, 2009)
crônicas de Luiz Edmundo Alves


Crônicas líricas desabrocham no cotidiano



A Crônica

Enquanto narrativa curta feita de impressões e considerações sobre assuntos da vida cotidiana, a crônica, no formato que entendemos hoje (antes tratava-se de 'crônica' de feitos heroicos, de soberanos, reis ou sobre as viagens), vem a se destacar no século 20, com o advento da imprensa escrita, com a ampla circulação de jornais no mundo, e no Brasil.

Os leitores recebiam junto com o breakfast, o desjejum, um jornal com notícias e pequenas doses de literatura no formato crônica. Fatos do dia a dia com um olhar mais irônico, com estética mais literária, ainda que conservando algo de jornalístico. A crônica se exibia enquanto produto dúbio, um mestiço. Texto com recursos literários e o teor leve (e descartável) do discurso  jornalístico.

Os assuntos mais diversos eram encontrados nas crônicas. Eventos sociais, obras literárias, decisões políticas, catástrofes, em suma, tudo era tematizado em textos curtos, convenientes aos leitores superficiais e apressados. Afinal, literatura é coisa de gente para quem pouco valor tem o dito 'time is money', é gente que não quer enriquecer.

Mas as crônicas não eram superficiais, antes atuavam como uma espécie de 'introdução ao assunto', um preâmbulo de conversa amiga, para que depois aqueles que passassem a apreciar literatura pudessem degustar bons livros. Justamente muita gente começou a apreciar as obras literárias graças aos textos das crônicas.

Assim foi um sucesso. As crônica destacaram muitos autores de outros gêneros, além de consagrar autores novatos, dedicados antes à escrita em jornal. Muitos autores se mostraram. Assim temos crônicas de Manuel Bandeira, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Rubem Fonseca, também, numa segunda geração, Mário Prata, Luís Fernando Veríssimo, Lya Luft, Affonso Romano de Sant'Anna, Arnaldo Jabor, Adriana Falcão.

Levantamos aqui um destaque para o último nome citado, uma interessante cronista atual: Adriana Falcão, autora do curioso “O Homem que só tinha certezas” (2006), que mescla um certo lirismo a doses de ironia diante dos fatos mesquinhos do cotidiano. A paixão, a perda, os desencantos, a auto-piedade. Eis os temas prediletos da autora. Daqui a pouco falaremos mais sobre isso.

Mais sobre o gênero 'crônica'



Uvas Verdes


Temos um volume de crônicas sobre o cotidiano e a literatura, ou a literatura no cotidiano, ou o cotidiano literário, como queiram. Tudo misturado. Não há um desejo autoral de ordenar por assunto. Esta ordenação cartesiana é mais uma 'ideia' do crítico, criatura ordenadora par excellence. (O crítico é o médico-legista da arte. Disseca as obras para rotular as vísceras, ou componentes estéticos...)

Podemos destacar em “Uvas Verdes” algumas temáticas, ou eixos temáticos, que possibilitam uma leitura mais atenta da obra. Temáticas que merecem um momento de reflexão (e/ou ironia) por parte do autor, o poeta e fotógrafo Luiz Edmundo Alves que já lançou por meio do selo Anome Livros duas outras obras que merecem leitura: “Na Contra Luz” (2002) e “Fotogramas de Agosto” (2005).

Temáticas que interessam ao leitor na medida em que deslocam um olhar ao universo autoral (não apenas para um biografismo) ao apresentar algumas perspectivas (e contradições) na condição do literato que observa outros literatos, quando a literatura fala de … literatura.


Obras & Autores


Temos o autor que fala de autores, até ao biografismo, que desvela os bastidores da criação literária, de uma geração a outra, em panoramas de época, em retratos algumas vezes sentimentais, outras vezes irônicos de ícones da literatura.

É um olhar que encontramos em outros contemporâneos. Vejamos, p.ex., o mineiro Ronaldo Werneck, autor de “Há Controvérsias”, recheado de crônicas sobre o cotidiano e sobre o fazer literário – tanto a escrita quanto o escritor. Nomes e sobrenomes se amontoam como uma pilha de inventários sobre uma mesa de burocracia – o que significam? Nomes autorais? Ora, a literatura não se faz de autores, mas de textos. Fala-se tanto do(s) autor(es) quando devia-se falar do(s) texto(s)... Mas as crônicas sobre literatos são até divertidas (enquanto os literatos, bem, eles já perderam a graça... deixaram isso para os hodiernos humoristas do stand-up comedy...)

links para Ronaldo Werneck





Pois o autor Luiz Edmundo Alves sabe diluir considerações, altamente pessoais e personalísticas, ao longo de várias crônicas, onde aborda a poesia e o fazer poético. Em “Paixão e Poesia” tece divagações psicanalíticas sobre arte e desejo, criação e sublimação, o erótico desviado para o estético. … A arte enquanto desvio do erótico? Mas não seria erotizar a vida através da Arte? Certo, mas não vamos discutir psicanálise aqui. Deixemos este desconforto aos profissionais.)

Tomando esse conceito freudiano, a Arte é a sublimação perfeita. Fazer poesia é sublimar, é depositar energia em uma outra utopia. e também, “Ainda hoje a Poesia está associada ao mundo sensível, ao 'mundo das paixões', ao desgoverno das emoções.” (p. 8)

Considerando-se isso, neste sentido o significado de poesia está mais próximo daquele de Rimbaud, “o desregramento de todos os sentidos”, que nada mais é do que o ideal dos poetas do Sturm und Drang alemão, quando os pré-românticos exaltavam a emoção acima da razão, esta tão querida dos classicistas e iluministas.


Ainda em exaltação, a crônica “Gertrude Stein” ressalta o contexto , isto é, época, “Boa parte da história da arte moderna, especialmente pintura e literatura, passa pela Paris do início do século XX.” (p. 9), mesmo que considere traços de biografismo, a origem e genialidade de cada um. As amizades possíveis e impossíveis, os encontros e desencontros, tudo é detalhe de um painel de época, uma “geração perdida” (“Lost Generation”) ali pós-Primeira Grande Guerra, a incluir Stein junto a Hemingway (autor de “O Sol também se levanta”) e Fitzgerald (autor de “O Grande Gatsby”). Todos autores egocêntricos e ambiciosos. Imaginem a guerra de egos.

Em “Aventuras de Adão Ventura” encontramos o poeta da negritude enquanto figura do poeta humilde, o palestrante que ajuda a montar o palco e a aparelhagem de som. Adão já era poeta respeitado e premiado, autor de diversos livros, advogado do serviço público. Entretanto nada disso impedia que fosse sempre humilde e cortês com todos.” (p. 14) Parece que humildade e cortesia é sempre exigida do poeta, não que ele/ela escreva bem. Também não se considera um bom poeta, com voz e estética própria, mas se é o 'pobre' poeta, ou o poeta negro ou poeta índio, ou poeta latino-americano, hispânico.   É a questão dos 'estudos culturais', ou Escola do Ressentimento (como a denomina o scholar Harold Bloom) que dá ênfase não ao quesito qualidade, mas se o/a autor/a é branco ou mestiço, rico ou pobre, aristocrata ou plebeu, classe média ou excluído.

Madeleines com chá de tília” é a crônica onde o olhar investiga o universo proustiano, com reminiscências de uma memória caprichosa que seleciona e exuma fatos do passado, como um arquivo de relíquias rearranjadas arbitrariamente. E outros autores que re-trabalham o tema 'infância' (ou antes: 'lembranças da infância') Não a infância, mas a memória. Temos a memória ou é a memória que nos tem? Voilà! Eis uma boa questão.

Por que alguns fatos ficam registrados nos 'corações e mentes'? E outros se desvanecem no tempo e no espaço? Para resguardar as emoções , além de amostras do bom-gosto, o autor se rende à mania de listas. Um ou outro rol de livros e objetos culturais que povoam as lembranças afetivas, que centralizam a identidade do ser. (Do tipo, 'Quem sou eu? O colecionador de bens cultuais') Assim é na crônica “Listas e Livros que fazem o coração bater mais forte” como uma espécie de manual ou catálogo de livros/álbuns/loucuras que se deve ler/ouvir/fazer antes de morrer.

A crônica “Rosa no redemoinho...” rememora e re-contextualiza o autor dos sertões místicos das gerais, o médico e diplomata, criador-destruidor de vocábulos e léxicos, sintagmas e morfemas, nas horas vagas, João Guimarães Rosa (1908-67), revisitando as influências do criador de Riobaldo na cultura após os 50 anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas” (1956).

Mas o autor não hesita em confessar 'certo ceticismo' com relação à fortuna crítica do gênio mineiro de Cordisburgo, diante da proliferação de teses e outros academicismos, enquanto Rosa continua um tanto distante da cultura popular, a mesma que tanto serviu de influência para o plano de fundo da obra. Parece que os acadêmicos sequestram o 'clássico' Rosa...

Também no tema sertão, temos a presença do cineasta da 'câmera na mão e uma ideia na cabeça', o baiano Glauber Rocha (1939 - 1981), em “Glauber vulcão de Vitória da Conquista”, dono de um estilo que revolucionou a época (com o 'Cinema Novo' nos anos 1960), mas que seria deslocada hoje (o que prova que em alguns casos a obra de arte é mesmo datada, tem um contexto histórico, e um peculiar sentido dentre deste contexto)

O que não impede de Glauber ter dito algumas verdades, que incomodam até hoje algumas mentes pouco tolerantes, a saber, os poetas nefelibatas, os estetas, os adeptos da 'arte-pela-arte', os que desprezam a política (e deixam o poder na mão dos que se 'interessam' por política), os que desprezam a arte engajada, em suma, os bons e velhos conformados de cada geração.

Triste, mas é verdade, ao se constatar que “O Estado é mais forte que o Poeta” , quando, num poder político autocrático, os poetas e os literatos são os primeiros a sofrerem o exílio. É também verídico que “A História é feita pelo povo e escrita pelo poder.” Um poder que se diz emanar do povo, mas que o povo desconhece. Antes se o clamor popular incomodar, o governo pode querer simplesmente... 'destituir' o povo.

Na crônica “Mário Faustino” relembramos a presença crítica que elevou sua voz na aurora do Concretismo entre nós, e atacou e desancou alguns bons literatos, apenas para ver-se bem precocemente recolhido ao túmulo. Mário Faustino preocupava-se (digamos demasiadamente) com um conceito de poesia (coisa que sabemos não existir) e por isso tinha dificuldades em entender as novidades. O problema, hoje, nem é saber o que é poesia – antes, é saber o que NÃO é poesia!

Alves aqui até reconhece o trabalho de Faustino, mesmo com os exageros. (Entre estes o fato de não considerar o talento de um Paulo Mendes Campos)  “Em qualquer caso a leitura era mesmo crítica, eventualmente cruel, apontando bons e maus versos. Obviamente são leituras polêmicas e muitas não se sustentaram historicamente.” (p. 83)

Adágio para o Silêncio romance de Luís Giffoni” é uma tentativa de resenha (não crítica literária) sobre a obra homônima do escritor mineiro Luís Giffoni, autor de “Os Chinelos da Raposa Polar”(20020, coletânea de contos, alguns interessantes (por exemplo, “Sonho Sem Destino”, como um pesadelo de Hoffmann ou Poe). Mas tratam-se de narrativas curtas sem pretensão. Lembram Luiz Vilela e até Dalton Trevisan, mas sem o mesmo brilho (entenda-se: brilho pelo estilo simples, despojado, límpido; pois ninguém mais escreve contos ao estilo de Machado de Assis ou Mário de Andrade)

No gênero romance, entretanto, Giffoni não convence. O romance exige muito do autor. E os autores são algo meio preguiçosos – ou não têm talento. Ou então vivem de palestra em palestras,  ou frequentam feiras de livro. Sobra pouco tempo para escrever, então... Escrevem porque o editor pediu, e adiantou uma grana.

Na crônica releva-se o elogio ao novo romancista – que não se sustenta 'esteticamente', pois Giffoni pode até escrever bem, mas não convence. Aliás, pouca gente 'convence' hoje em dia, em época de predomínio da indústria cultural, tanto lixo publicável e publicado, que sobra pouco tempo para lermos as pérolas (onde elas estão, hein?)

a crônica na internet em Tanto


Outra resenha? Temos “Afrodite de Isabel Allende” como resenha de livro da escritora chilena, célebre com seu genial “A Casa dos Espíritos” (“La Casa de los Spíritus”, 1982), que tematiza a tentativa de socialismo democrático no Chile, nos anos 1970, e que acabou numa sangrenta contra-revolução apoiada pelos 'democráticos' Estados Unidos. A autora Isabel Allende é realmente uma voz autêntica no mar de medíocres que povoam a literatura hispano-americana atual (pois o Eduardo Galeano anda sem fôlego nos últimos tempos e o Gabriel García Márquez nada criou de novo desde o realismo-mágico ...)

Continuemos. “Biografias e Jornalismo” trata sobre os bastidores do jornalismo no Brasil, ao resenhar livros de Fernando Morais e Ruy Castro, além do televisivo Pedro Bial, sobre os nossos pioneiros da comunicação. Outro literato que abordou os bastidores jornalístico e literários – mais especificadamente de Belo Horizonte, Minas Gerais – é Humberto Werneck, autor de “Desatino da Rapaziada”, 1992, obra que lança um olhar de documentário, simples e irônico, sobre os nossos literatos. Os bastidores dos primórdios da nossa mídia impressa, da nossa mídia falada, em suma, da nossa indústria cultural.

Continuam as resenhas. “Balzac” é sobre o autor do ciclo de romances “A Comédia Humana” (1829-47), o Honoré Balzac ambicioso retratista verbal da sociedade francesa do início do século 19, num corte de cima a baixo, a englobar nobres, burgueses e proletários.

Já a crônica “Camus” lembra a importância do filosófico romancista francês-argelino Albert Camus (1913-1960) com a importante (e essencial) questão do suicídio, ou antes, 'a vida merece ser vivida?', o quanto somos cúmplices de um mundo de absurdos? “O absurdo é um sentimento, enquanto queremos encontrar no mundo ordem e razão e só encontramos desordem e irracionalidade. Como a vida é absurda. Como um inesperado fato cotidiano pode mudar os destinos, nos levando a matar, ou morrer.” (p. 97)


Sobre a escrita, sobre a criação literária


Em “Pasárgada, a busca” encontramos uma referência – ou intertextualidade – ao poeta modernista Manuel Bandeira e seu universo paralelo, o paraíso pessoal e privativo chamado 'Pasárgada', que tem emocionado tanto os outros poetas igualmente nostálgicos, cada um com sua Pasárgada idealizada, desejada, ocultada. Cada um com sua fórmula da felicidade, da satisfação, da realização pessoal. Numa época de individualismo claro que cada um vai imaginar o paraíso ao seu bel prazer. O paraíso ao desejo do consumidor, encomendado e entregue à domicílio.

Mas o mais interessante é o final. Enquanto cada dia me convenço que o inferno é aqui (pois 'o Haiti é aqui'?) e que somos o 'inferno' uns dos outros, quando cada um corre atrás de seus próprios interesses, a aceitar o outro desde que o outro se 'encaixe' em nossos interesses, pois bem, o autor acha justamente o contrário, a ponto de desistir da procura. Pois se convence que o Paraíso é aqui. Isto é ou não é otimismo? Mais otimista só mesmo o Cândido de Voltaire.

link para “Vou Para Pasárgada



mais poemas de M Bandeira

meu ensaio sobre o “Cândido” de Voltaire


As crônicas “Arte cura?” e “Poesia” abordam sucintamente o fenômeno poético-lírico, numa leitura bem pessoal. Não se trata de tese ou teoria. Antes as constatações nascidas da própria práxis literária (considerando que poesia é literatura, conceituação não é aceita por muitos...) Qual o valor da Arte? Tem utilidade? (Ainda mais num mundo burguês utilitarista e funcionalista...)

A poesia não vem a ser um consolo ou torre-de-marfim. Não resolve os problemas nem paga as contas do mês.  A poesia é mais uma espécie de desabafo. Mas, um momento! A Arte não é mero desabafo – é mais uma questão de estética. De ordem na desordem , de razão na emoção. Afinal, o autor escreve quando a febre passa... ('O poeta é um fingidor', etc) Esta contradição – falar sobre a emoção já sem a emoção – está presente em toda obra – escrita, pintada, representada, etc. O artista não vive sempre em transe criativo, afinal tem uma vida cotidiana para (sobre)viver e suportar. Precisa pagar os impostos e colocar o lixo pra fora...

Algo precisa despertar no Artista o desejo criativo – seja uma indignação, uma paixão, uma perda, etc - só depois o Autor se ocupa com a Obra. E poderá se realizar na criação, se identificar com a obra. 'Quem sou eu? Sou o autor A do romance X.' O Autor tem valor, assim, a partir da obra. (O contrário é patético: vou ler o romance X porque é do autor A ...)

Fazer poesia não afasta minhas angústias, nem traz minha felicidade. Mesmo assim vivo, e viverei, momentos inesquecíveis com a poesia. A vida é surpresa, é a constante possibilidade do inimaginável. O que seríamos sem as contradições da Arte e de nossa própria existência?” (p. 68)

Estilo é coisa de somatórias. É amálgama de educação e intuição. Não basta ser um Jean Genet, pois foi preciso que o ex-presidiário tivesse contato com a escrita genial de um Marcel Proust. Pronto! Reinventou-se a pólvora. A intuição e o talento de Genet foram acesos pelo contato com a Escrita. Então ele se percebeu fecundado. Assim é o poeta.

Não basta fazer pós-doutorado em Teoria da Literatura se não tiver talento, e não basta ter talento se não se aprimora ao ler os clássicos (ou, se não der, leia ao menos Fernando Pessoa, que já está de bom tamanho...), em suma, não basta ter intuição, não basta ter erudição. Intuição e conhecimento precisam dialogar, precisam copular.

Falemos das crônicas “Livros I” e “Livros II”, onde se demonstra que o bom escritor é um bom leitor. O escritor escreve os livros que gostaria de ter lido. ('Ah, não existe este livro? Então vou escrevê-lo!') Mas antes de escrever é recomendável que o escritor dê uma olhada no que já foi escrito. (Tem gente escrevendo 'originalidades' as quais Whitman já escreveu mais de cem anos antes...) É preciso – e é sensato – que o autor se considere em dívida com os autores de ontem, com os ícones, com as estátuas de bronze nas praças. Podemos arriscar uma linha sem pensar em Drummond, Nava e Rubião?

Os livros são como tijolinhos que ajudam na construção de nosso imaginário, de nosso intelecto, de nossa linguagem.” (p. 79)

A criação literária surge como um diálogo entre autores – os mortos e os vivos, os vivos entre si. Assim seria resumir o 'dialogismo' de Bakhtin. Seria assim mais fácil entender a intertextualidade (não quer dizer 'plágio', entendam bem), quando nem dado texto encontramos pistas, indícios, de outros textos. Uma voz alheia habita o meu texto. A emoção de outro – veiculada pela linguagem, compreensível ou não – é canalizada para a minha própria emoção. Eu também posso chorar a morte de Lenora. 'Never more!'

A emoção afogada na pressão cotidiana e recuperada pelas lembranças, pelos sonhos, e pelo desejo (ou pela falta dele). Os grandes livros são feitos dessas emoções, que podem ser moldadas e relatadas pela linguagem. Eis a Literatura.” (p. 79)


Ainda na temática Arte / Literatura temos “Concretismo” sobre a última vanguarda do século 20, o movimento concretista após a Segunda Guerra Mundial (assim como tivemos o Modernismo – a saber, Futurismo, Dadaísmo, Cubismo, Surrealismo – após a Primeira Guerra Mundial), num clamor que pretendia uma releitura da poesia enquanto expressão verbivocovisual, isto é, a poesia enquanto palavra, sonoridade e objeto visual. A poesia escrita, falada e desenhada. Uma ressignificação da criação não mais segmentada, mas integrada.

Obviamente a controvérsia foi grande e a poesia brasileira passou muito tempo se debatendo entre ser ou não ser concretista. Muitos poetas se sentiram pressionados: era a morte do lirismo na poesia? Outros chegaram a pensar que aquele fosse o rumo definitivo da poesia, até surgir outro movimento que proponha novos conceitos.” (p. 103)

A “Poesia Voa” seria uma espécie de 'profissão de fé'? “A poesia continua me proporcionando momentos de beleza.” (p. 106) Onde a arte poética seria uma forma de sobreviver diante da monotonia  do cotidiano. Aliás, um cotidiano também tematizado nas crônicas. A poesia seria transmitida entre os poetas, ou apesar dos poetas. A poesia nada mais que se utiliza dos poetas? Mas o poeta aqui suporta os poetas. (Ainda não foi afetado pelo nojo, pela náusea diante dos que se utilizam da poesia...) Gosto de olhar o poema na página, gosto de ler poesia na solidão. Mas gosto de falar e de ouvir poesia, gosto de gente.” (idem)


O Cotidiano


Aqui, nesta temática, podemos comparar com outros autores da crônica, que adoram falar sobre o nosso cotidiano. Rubem Braga e Fernando Sabino são clássicos. Atualmente, destacamos o olhar da cronista-contista-roteirista Adriana Falcão, com uma sensibilidade e ironia que estava faltando.


Uns links para Adriana Falcão





Sobre a vida na cidade, sobre os lugares e emoções, temos a interessante “Lugares Afetivos” (ver Pedro Nava, o memoralista, nosso Proust, com seu conceito afetivo de 'geografia sentimental') onde os lugares ganham significação (ou sentido) a partir dos sentimentos que geram no olhar do sujeito. Uma paisagem carregada de subjetivismo... A padaria da infância, o barzinho onde explodiu o primeiro beijo, o bosque das brincadeiras  juvenis, o quarto da empregada, a praia do verão passado, não importa, tudo é visto com outros olhos. O que parece apenas um banco de praça pode ter sido o cenário de uma declaração de amor.

Mas, sem dúvida, marcante é a crônica-conto “Na poltrona ao lado”, que podemos comparar, no estilo, com  os ótimos (e afiados) diálogos  de um Luiz Vilela, ou de um Luiz Fernando Veríssimo. Um diálogo que segura tudo, que cria o cenário de tudo, que sugere tudo. [Depois de fechar o livro é esta crônica que me acompanhou o dia todo.] Não só o enredo – fantasias com desconhecidas em viagens são lugar-comum – mas a fineza, a classe, a sutileza com a qual o texto nos conquista. Simples, mas envolvente. Acontecerá algo entre o viajante e a jovem desconhecida? Uma urdidura de sedução? Uma cena de sexo debaixo do edredom? Um beijo caliente a premiar a expectativa dos leitores? Como é que é? … O lance é mesmo ler a crônica.

Uns links para Luiz Vilela





Uns links para Luís Fernando Veríssimo




Leve e prosaica é também a crônica “Namorados”, sobre o desejo, o sexo, a sedução, enfim, tudo aqui nos atrai desde a puberdade, todo um mundo de descobertas. É difícil se interessar por tal tema e ser original. Amor, sedução, sexo tão temáticas universais e demasiadamente desgastada por mil contos, romances, peças de teatro, etc etc etc

O mesmo quanto a temática de “Nostalgia”, com um certo o olhar para trás, que está conosco desde um prosador como Montaigne – que resolveu falar sobre si-mesmo – e passando por Almeida Garrett, por Virginia Woolf, por Marcel Proust, e nosso Pedro Nava. O próprio autor reconhece isso (“a nostalgia é um tema recorrente”). É difícil ser original e convincente nessa temática. É o velho enigma. Por que temos nostalgia de uma coisa e não de outra? Por que algo é retido na memória enquanto mil outras são apagadas? Por que temos saudades de X e não de Y? O que nos prende ao passado? E se perdêssemos a memória – ainda seríamos nós mesmos?


Falemos de algo original. A máquina de escrever que datilografa suas memórias! A crônica (ou conto fantástico) aqui em “Memórias de Eugênia”, com algo de Kafka e Rubião, ao estilo ‘crônicas de uma máquina de escrever saudosista’! Realmente algo surreal o grau de autoconsciência – e de ciúme recolhido – desta máquina de escrever. (Ah, que saudades da minha olivetti branco gelo...) E se os objetos tivessem consciência? O que diria o meu aparelho de barbear? O que diria a minha cama? O que saberia o meu criado-mudo? Hein?

Pena que o autor não desenvolva mais pérolas neste estilo. “Memórias de Eugênia” (e o diálogo de “Na poltrona do lado”) são os textos mais destacáveis aqui. Significa que lembrei dos textos depois de fechar o livro. Algo que deixa um inquietar, um desassossego. Um suspense. A moça ao lado vai me beijar? A máquina de escrever vai se perder em inconfidências? Eis algo que a verdadeira literatura faz.

Mas parece que o autor prefere a tematização da própria obra, em “Fotogramas de Agosto em agosto”, em “O professor, o aluno e o mouse”, “Uvas verdes ou entressafra e colheita”, “Tapinhas nas costas”, “A nau Tanto”, ou seja, fica a falar sobre si mesmo, sobre a própria obra e perde o rumo. Estava indo tão bem... O próprio autor falar sobre a própria obra é algo difícil. Ora parece auto-elogio, ora falsa modéstia... Falta deslocamento crítico, em suma.

O autor se achar interessante é um problema. Pois a obra é que deve ser interessante. Mas não vamos culpar o autor de “Uvas Verdes”, ele sabe muito bem o que faz (Ele sabe que “eis o sentido da vida: a obra”). Esperamos que no próximo ele desenvolva mais o texto e não os metatextos, os textos sobre o texto, e deixe essa lida para os críticos 'dissecadores', os críticos pedantes, os críticos acadêmicos, os críticos camaradas.

Uvas Verdes” vale a leitura pela constatação do poder da própria leitura, não pela obra em si mesma. Mostra antes a busca pela literatura – ou seja, alguém se esforça para abraçar a literatura – como uma forma de consolo, de dar sentido à existência sem-sentido, a existência do estar-aí, jogado no mundo, como dizia um amargo Heidegger, sem missão nem carma. Apenas aí, igual entre iguais, confiando no cartão de crédito e no cheque especial.

Vale nem que seja pela constatação, na crônica “Tempo fechado”, dos motivos que movem o autor, a insistência em escrever, em reler, em publicar, em submeter-se à crítica. Quais as gêneses da pena de Luiz Edmundo Alves? O que provoca o autor? (E, por extensão, o que provoca a criação? O que provoca o leitor? O que provoca a crítica?) “Provocado pela falta de sentido e de poesia em nosso cotidiano. Provocado por essa busca, sem bússola, de uma tal felicidade.” (p. 76)


set/11


Leonardo de Magalhaens



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