segunda-feira, 1 de agosto de 2011

To Brooklyn Bridge - Hart Crane




Hart Crane


To Brooklyn Bridge

À Ponte do Brooklyn


Quantas auroras, frias de seu ondulante descanso
As asas da gaivota deverão mergulhar e girar,
Vertendo alvos anéis de tumulto, erigindo alto
Sobre as águas cativas da baía a Liberdade –


Então, com inviolada curva, deixam nossos olhos
Tão espectrais quanto os veleiros que cruzam
Alguma página de figuras a ser preenchida,
-Até que elevadores soltem-nos de nosso dia...


Imagino cinemas, truques panorâmicos
Com multidões atentas a uma brilhante cena
Nunca revelada, mas novamente acelerada
Prevista a outros olhos na mesma tela;


E Tu, através do porto, prateada
Como se o sol se afastasse de ti, ainda deixasse
Algum mover nunca gasto em teu transpor, -
Implícita tua liberdade fica contigo!


De uma abertura de metrô, cela ou sótão
Um maluco corre até os teus parapeitos,
Inclinando lá num momento, camisa inflada,
Uma tirada cai da caravana sem-fala.


Wall abaixo, de viga rua adentro meio-dia,
Um dente arrancado do acetileno do céu;
Toda tarde as nubladas gruas giram...
Teus cabos respiram a calma do atlântico norte.


E obscuro tal o Paraíso dos judeus,
Teu galardão... Recompensa tu concedes
De anonimato tempo não se ergue:
Vibrante alívio e perdão tu demonstras.


Ó harpa e altar, da fúria fundido,
(Como poderia um mera ferramenta
    alinhar as tuas cordas cantantes?)
Terrível limiar da promessa do profeta,
Prece do paria, e pranto do amante, -


Novamente os semáforos que roçam teu veloz
E completo idioma, puro suspiro astral,
Ornando tua trilha – condensam eternidade:
E temos visto a noite erguida em teus braços.


Sob a tua sombra no cais eu esperava;
Apenas no escuro é nítida tua sombra.
Da cidade as partes luminosas dispersas,
Já a neve submerge um tempo férreo...


Ó insone igual ao rio abaixo de ti,
Arqueando o mar, a relva da planície,
Até nós, inferiores, às vezes arrasta, desce
E da curvatura a Deus empresta um mito.



Trad. livre: Leonardo de Magalhaens





Hart Crane


To Brooklyn Bridge


How many dawns, chill from his rippling rest
The seagull's wings shall dip and pivot him,
Shedding white rings of tumult, building high
Over the chained bay waters Liberty--

Then, with inviolate curve, forsake our eyes
As apparitional as sails that cross
Some page of figures to be filed away;
--Till elevators drop us from our day . . .

I think of cinemas, panoramic sleights
With multitudes bent toward some flashing scene
Never disclosed, but hastened to again,
Foretold to other eyes on the same screen;

And Thee, across the harbor, silver-paced
As though the sun took step of thee, yet left
Some motion ever unspent in thy stride,--
Implicitly thy freedom staying thee!

Out of some subway scuttle, cell or loft
A bedlamite speeds to thy parapets,
Tilting there momently, shrill shirt ballooning,
A jest falls from the speechless caravan.

Down Wall, from girder into street noon leaks,
A rip-tooth of the sky's acetylene;
All afternoon the cloud-flown derricks turn . . .
Thy cables breathe the North Atlantic still.

And obscure as that heaven of the Jews,
Thy guerdon . . . Accolade thou dost bestow
Of anonymity time cannot raise:
Vibrant reprieve and pardon thou dost show.

O harp and altar, of the fury fused,
(How could mere toil align thy choiring strings!)
Terrific threshold of the prophet's pledge,
Prayer of pariah, and the lover's cry,--

Again the traffic lights that skim thy swift
Unfractioned idiom, immaculate sigh of stars,
Beading thy path--condense eternity:
And we have seen night lifted in thine arms.

Under thy shadow by the piers I waited;
Only in darkness is thy shadow clear.
The City's fiery parcels all undone,
Already snow submerges an iron year . . .

O Sleepless as the river under thee,
Vaulting the sea, the prairies' dreaming sod,
Unto us lowliest sometime sweep, descend
And of the curveship lend a myth to God.







LdeM

quinta-feira, 21 de julho de 2011

e estou esperando... I am waiting ... Ferlinghetti




Lawrence Ferlinghetti


I Am Waiting

Estou esperando


Estou esperando minha mala chegar
e estou esperando
pelo renascer da maravilha
e estou esperando
por alguém a descobri realmente a América
e lamentar
e estou esperando
pela descoberta
de uma nova simbólica fronteira ocidental
e estou esperando
pela Águia Americana
a realmente abrir suas asas
e aprumar-se e voar
e estou esperando
pela Era da Ansiedade
se acabar
e estou esperando
pela guerra a ser combatida
que deixará o mundo salvo
para a anarquia
e estou esperando
pelo murchar final
de todos os governos
e estou perpetuamente esperando
pelo renascer da maravilha


Estou esperando pelo Segundo Advento
e estou esperando
pelo revival religioso
a varrer o Estado do Arizona
e estou esperando
pelas Vinhas da Ira serem estocadas
e estou esperando
para que ele provem
que Deus é realmente americano
e estou esperando
para ver Deus na tevê
canalizado no altar das igrejas
se eles apenas podem achar
o canal certo
ao sintonizar
e estou esperando
pela Última Ceia a ser servida de novo
com um estranho novo aperitivo
e estou perpetuamente esperando
pelo renascer da maravilha


Estou esperando que meu número
seja discado
e estou esperando
pelo Exército da Salvação a tomar conta
e estou esperando
para que os mansos sejam abençoados
e herdem a terra
sem taxas
e estou esperando
para que as florestas e animais
reclamem a posse da terra
e estou esperando
por um caminho a ser concebido
para destruir todos os nacionalismos
sem matar alguém
e estou esperando
pelas aves e planetas choverem
e estou esperando
por amantes e lamentadores
a se deitarem juntos de novo
num novo renascer da maravilha


Estou esperando pela Grande Divisa
a ser ultrapassada
e estou ansiosamente esperando
pelo segredo da vida eterna
a ser descoberto
por um clínico geral anônimo
e estou esperando
que as tormentas da vida
passem além
e estou esperando
para navegar para o júbilo
e estou esperando
pelo reconstruído navio Mayflower
para alcançar a América
com suas figuras e direitos de tv
vendido adiantados aos nativos
e estou esperando
pela música perdida a soar de novo
no Continente Perdido
num novo renascer de maravilha


Estou esperando pelo dia
que vai clarear as coisas
e estou esperando retribuição
por tudo o que a América fez
a Tom Sawyer
e estou esperando
pelo rapaz americano
para desnudar a Beleza
e subir encima dela
e estou esperando
pela Alice no País das Maravilhas
a retransmitir para mim
seu total sonho de inocência
e estou esperando
por Afrodite
com braços ativos
na última conferência de desarmamento
num novo renascer de maravilha


Estou esperando
para conseguir algumas insinuações
de imortalidade
para recuperar minha tenra infância
e estou esperando
pelas verdes manhãs a voltarem
os mudos campos verdes
da juventude a voltarem
e estou esperando
por alguns traços de arte
não-premeditada
para sacudir minha máquina de escrever
e estou esperando para escrever
o grande poema inesquecível
e estou esperando
pelo último longo êxtase descuidado
e estou perpetuamente esperando
pelos amantes fugitivos na Urna Grega
a alcançar um ao outro ao fim
e abraçar
e estou esperando
perpetuamente e sempre
por um renascimento da maravilha



trad. livre: leonardo de magalhaens







Lawrence Ferlinghetti


I Am Waiting


I am waiting for my case to come up
and I am waiting
for a rebirth of wonder
and I am waiting
for someone to really discover America
and wail
and I am waiting
for the discovery
of a new symbolic western frontier
and I am waiting
for the American Eagle
to really spread its wings
and straighten up and fly right
and I am waiting
for the Age of Anxiety
to drop dead
and I am waiting
for the war to be fought
which will make the world safe
for anarchy
and I am waiting
for the final withering away
of all governments
and I am perpetually awaiting
a rebirth of wonder

I am waiting for the Second Coming
and I am waiting
for a religious revival
to sweep through the state of Arizona
and I am waiting
for the Grapes of Wrath to be stored
and I am waiting
for them to prove
that God is really American
and I am waiting
to see God on television
piped’ onto church altars
if only they can find
the right channel
to tune in on
and I am waiting
for the Last Supper to be served again
with a strange new appetizer
and I am perpetually awaiting
a rebirth of wonder

I am waiting for my number to be called
and I am waiting
for the Salvation Army to take over
and I am waiting
for the meek to be blessed
and inherit the earth
without taxes and I am waiting
for forests and animals
to reclaim the earth as theirs
and I am waiting
for a way to be devised
to destroy all nationalisms
without killing anybody
and I am waiting
for linnets and planets to fall like rain
and I am waiting for lovers and weepers
to lie down together again
in a new rebirth of wonder

I am waiting for the Great Divide to ‘be crossed
and I am anxiously waiting
for the secret of eternal life to be discovered
by an obscure general practitioner
and I am waiting
for the storms of life
to be over
and I am waiting
to set sail for happiness
and I am waiting
for a reconstructed Mayflower
to reach America
with its picture story and tv rights
sold in advance to the natives
and I am waiting
for the lost music to sound again
in the Lost Continent
in a new rebirth of wonder

I am waiting for the day
that maketh all things clear
and I am awaiting retribution
for what America did
to Tom Sawyer
and I am waiting
for the American Boy
to take off Beauty’s clothes
and get on top of her
and I am waiting
for Alice in Wonderland
to retransmit to me
her total dream of innocence
and I am waiting
for Childe Roland to come
to the final darkest tower
and I am waiting
for Aphrodite
to grow live arms
at a final disarmament conference
in a new rebirth of wonder

I am waiting
to get some intimations
of immortality
by recollecting my early childhood
and I am waiting
for the green mornings to come again
youth’s dumb green fields come back again
and I am waiting
for some strains of unpremeditated art
to shake my typewriter
and I am waiting to write
the great indelible poem
and I am waiting
for the last long careless rapture
and I am perpetually waiting
for the fleeing lovers on the Grecian Urn
to catch each other up at last
and embrace
and I am waiting
perpetually and forever
a renaissance of wonder






quarta-feira, 13 de julho de 2011

Quem sou EU? EU sou quem?



 

Quem sou EU?
                  EU sou quem?




EU sou o filho da Srª. Buarque

EU sou a filha do Sr. da Silva

EU sou o irmão da Srtª Karen

EU sou o pai do pequeno Eugênio

EU sou a mãe da teimosa Valkíria

EU sou o sobrinho da Srª. Oliveira

EU sou a sobrinha do Sr. Souza

EU sou o tio da pequena Sônia

EU sou o primo do Sr. Melo

EU sou a prima da Srª. Pontes

Eu sou o neto do Sr. Prates

EU sou a bisneta da bisavó

EU sou o namorado de Fulana

EU sou a noiva de Beltrano

EU sou o fiel marido da Sra. Ministra

EU sou a ex-esposa do Sr. Diretor

EU sou o amante da Madame Crécy

EU sou o aluno da Profª Almeida

EU sou o professor da classe 5ª A

EU sou o funcionário na repartição municipal

EU sou a servidora na cantina escolar

EU sou o colega de classe do Antônio

EU sou o empregado do Sr. Meira

EU sou o elemento fichado pelo Sr. Delegado

EU sou o cidadão com título de eleitor

EU sou a eleitora seduzida pelo Sr. Político

EU sou a usuária de programa digital

EU sou o usuário de droga ilícita

EU sou o réu diante do Sr. Juiz

EU sou o músico da orquestra do Sr. Maestro

EU sou o novo artista do circo

EU sou o paciente da Drª. Simpson

EU sou o freguês do português da padaria

EU sou o sujeito no divã do Dr. López

EU sou o leitor do romancista Saramago

EU sou a autora da antologia poética

EU sou o ator social na aula de Sociologia

EU sou a cliente da campanha de marketing

EU sou o cidadão imaginado na Constituição da República

EU sou o soldado na estratégia do General

EU sou o oficial no pesadelo do soldado

EU sou a revolucionária na ficha do Partido

EU sou o subversivo na ficha das Autoridades

EU sou o fiel na Paróquia do Padre Matias

EU sou a crente na Tenda da Fé do Missionário Moreira

EU sou o camarada nas fileiras proletárias

EU sou o companheiro do líder sindical Ferreira

EU sou o protagonista do meu romance

EU sou o antagonista na autobiografia do meu desafeto

EU sou a figurante na vida de muita gente

EU sou o estilhaço de pessoa que se perdeu

EU sou a imagem no fundo dos seus olhos

EU sou o EU que é o Outro do Outro

EU



Leonardo de Magalhaens


quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Crítico Pedante





O crítico pedante



 
1

O crítico pedante
com sua lupa
poderosa
detecta o adjetivo
e desmembra a
sintaxe
na autópsia
purgativa
em anatomia
de cátedra
Com verbosidades
dignas de
bacharéis & doutores
com leve molho
de ironia e
metalinguagem
e hipocrisia e
sacanagem
com todo o
pedantismo
que isso é
tudo o que
de fato tem
o crítico pedante

.

 
2

O crítico pedante
sabe antes
o que ninguém
sabe nem saberá
porque somente
ele é quem sabe
decifrar
na anatomia
de verso
ele há-de fazer
a endoscopia
ao cortar falanges
de aliterações
ao dissecar veias
de citações
ao rasgar nervuras
de anáforas
ao suturar membranas
de metáforas
A mão suja de sumo
sanguíneo-verbal
intertextual -
meta-coloquial -
proto-concretal
com rótulo & selo
de qualidade e
durabilidade
com a gabaritada
cripto-assinatura
do crítico pedante

.

3

O crítico pedante
fala em
literatura eterna
disserta sobre
transcendência lírica
enquanto o poeta
não sabe se vai
almoçar amanhã
Só o vocabulário
do crítico pedante
já é digno de
toda a atenção
só isso já vale
toda a leitura
e concentração
O crítico pedante
é um mecânico
do vernáculo
desmonta tudo
depois tenta
montar de novo
Apenas confunde
níveis semânticos
com sistema hidráulico
ainda confunde
percurso figurativo
com sistema elétrico

.

4

O crítico pedante
disseca a Obra
e envia a conta
ao Autor
o crítico pedante
retalha o Texto
e revela as entranhas
do Autor
O crítico pedante
desvenda a Obra
e desvela as farsas
do Autor
o crítico pedante
rasga o Texto
e decreta o fim
do Autor
O crítico pedante
condena a Obra
e manda prender
o Autor
o crítico pedante
queima o Texto
e manda incendiar
o Autor

.

5

O crítico pedante
com seu pós-
póstumo -
doutorado em
Harvard & Sorbonne
Oxford & Paris IV
assina com
currículo & diplomas
em anexo
a leitura pedante
que só será
decifrada
convenientemente
por outro
crítico pedante



jun/11


 
Leonardo de Magalhaens